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outubro 1, 2013

Do derrubamento de Mossadegh à ofensiva contra a Síria, por Miguel Urbano Rodrigues

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Recordar os acontecimentos do Irão há 70 anos ajuda a compreender a atual estratégia dos EUA para o Médio Oriente.

O discurso em que Obama anunciou que decidira bombardear a Síria inseriu-se numa política de dominação universal concebida no final da II Guerra Mundial.

Inseguro quanto à atitude do Congresso e ciente de que a maioria do seu povo condenava um ataque militar à Síria, o presidente recuou. Mas seria uma ingenuidade acreditar numa viragem da estratégia agressiva dos EUA para a Região. Nesta, o derrubamento do governo de Bashar al Assad é somente uma etapa do projeto que tem por alvo numa segunda fase o Irão, o grande país muçulmano que não se submete ao imperialismo norte-americano.

É útil lembrar que foi ainda em vida de Roosevelt que um grupo de sábios da Casa Branca e do Pentágono elaborou o War and Peace Program, ambicioso plano que visava a longo prazo estabelecer o domínio perpétuo dos EUA sobre a Humanidade, a partir da convicção de que a desagregação do Império Britânico estava iminente e era irreversível.

Ainda não fora criado o estado de Israel, mas a substituição da hegemonia da Grã-Bretanha no Médio Oriente figurava entre as prioridades desse Programa entre cujas metas se incluía o esfacelamento da União Soviética.

O êxito em 1953 do golpe de Estado que derrubou o governo progressista de Mohammad Mossadegh (1882-1967) e permitiu a recolonização do Irão contribuiu para acelerar a penetração política, económica e militar dos EUA no Médio Oriente.

ANTECEDENTES

Desde meados do seculo XIX, a Inglaterra e o Império russo, no contexto da sua confrontação no Afeganistão, desenvolveram um esforço permanente para colocar o Irão (ao tempo Pérsia) sob a sua “proteção”.

Após a Revolução Russa de Outubro de 1917 a situação mudou e as pretensões britânicas esbarraram com a firme oposição da União Soviética.

No final da I Guerra Mundial, a monarquia persa agonizava. Um general, Reza Khan, tornou-se primeiro-ministro em 1921 e tentou modernizar o país. Mas, ambicioso, usou a sua popularidade para promover um golpe de estado. Derrubou o soberano Ahmed Qajar e proclamou-se Xá, isto é, imperador.

Entre as personalidades que se opuseram ao novo regime ditatorial destacou-se um jovem que já desempenhara importantes funções públicas: Mohammad Mossadegh.

Filho de um ministro da monarquia e de uma princesa Qajar, Mossadegh estudara Ciências Sociais em França e posteriormente doutorara-se em Direito na Suíça.

Desde a juventude chamou a atenção pela sua honestidade. Ganhou a alcunha de “incorruptível”, como Robespierre. Mas, aristocrata pelo nascimento e educação, casou com uma princesa da última dinastia.

Reza Xá demitiu-o dos cargos que exercia e desterrou-o para Ahamadabad, sua cidade natal.

Nos anos que separaram as duas guerras, o petróleo adquirira uma importância enorme na economia mundial. E a Grã-Bretanha controlava as gigantescas jazidas de hidrocarbonetos do Irão através da Anglo Iranian Oil, um gigantesco polvo transnacional que atuava como monopólio na produção e extração.

Alegando simpatias do Xá pela Alemanha de Hitler, o governo britânico obrigou-o a abdicar em 1941, ocupou o Pais (com exceção da faixa Norte, fronteiriça da URSS) e colocou no trono o filho, Reza Pahlavi.

Mossadegh regressou então à política, primeiro como deputado, depois como ministro das Finanças e ministro dos Negócios Estrangeiros, e finalmente como Primeiro-ministro.

A NACIONALIZAÇÃO DO PETROLEO

Uma vaga de nacionalismo varria então o Irão. Mohammad Mossadegh foi o dirigente que soube encarnar as aspirações do seu povo, liderando a luta por uma independência real.

O Irão estava reduzido à condição de semi-colónia. Ousou o que parecia impossível: desafiou a Inglaterra imperial ao nacionalizar a Anglo Iranian, que era oficialmente propriedade do Almirantado Britânico.

Londres reagiu com sobranceria, apresentando queixa no Conselho de Segurança, mas o órgão executivo das Nações Unidas remeteu o caso para o Tribunal da Haia.

Mossadegh desenvolveu nesses meses uma atividade frenética em defesa da soberania iraniana. Esteve primeiro nos EUA e o seu discurso na ONU teve tamanha repercussão que a revista conservadora Time Magazine o nomeou Homem do Ano em 1951. Viajou depois para a Holanda e pronunciou um discurso histórico no Tribunal de Haia. A sua intervenção foi decisiva para o veredicto daquela alta corte de justiça. O tribunal concluiu que não tinha competência para julgar a denúncia da Grã-Bretanha.

De regresso a Teerão, Mossadegh fechou os consulados britânicos, expulsou todos os técnicos ingleses e rompeu as relações diplomáticas com o governo de Londres.

Restituíra ao Irão a dignidade perdida há séculos e o povo identificou nele um herói.

O GOLPE

O governo britânico, apoiado pelo norte-americano Truman, decidiu recorrer a métodos drásticos para afastar Mossadegh do poder. Intrigando junto do Xá, criou um conflito entre o monarca e o Primeiro-ministro. Mossadegh foi demitido em julho de 1952, mas essa decisão provocou tamanha indignação popular, com manifestações de protesto nas ruas, que o Xá o nomeou novamente Primeiro-ministro.

Fortalecido pelo apoio popular, pediu poderes especiais ao Parlamento para levar adiante 80 projetos de lei que beneficiariam as massas, esmagadas pelas engrenagens de uma sociedade arcaica.

Obteve-os. Mossadegh introduziu nos meses seguintes reformas revolucionárias que envolveram as finanças, o orçamento, a saúde pública, a Justiça, as pescas, a habitação, a previdência social, as comunicações, as forças armadas. Reformas nunca imaginadas numa sociedade islâmica marcada por heranças feudais.

Os acontecimentos precipitaram-se. O governo de Churchill comprou dezenas de deputados para sabotar a política de Mossadegh. Este reagiu convocando um referendo no início de Agosto de 1953 para dissolver o Parlamento. O povo iraniano votou a dissolução por ampla maioria.

A conspiração, entretanto, estava já muito avançada. No dia 15 houve uma tentativa de golpe de estado promovida pelo Parlamento.

Fracassou e o Xá fugiu para Roma.

Mas a CIA, que contava com todo o apoio do governo britânico, que pedira a colaboração de Truman, montara quase simultaneamente o seu golpe com colaboração do exército. Foi precedido de manifestações de rua com a participação de agentes provocadores e de ações de vandalismo no contexto de uma campanha de calúnias contra Mossadegh.

E esse segundo golpe teve êxito. Preso, Mossadegh foi julgado sumariamente por um tribunal militar que o condenou a três anos de prisão e, posteriormente, a residência fixa na sua província.

O Xá regressou de Roma, e em tempo mínimo, as leis progressistas de Mossadegh foram revogadas. O grande beneficiário da mudança foi, porém, o imperialismo norte-americano. As grandes petrolíferas dos Estados Unidos, já então fortemente implantadas na Arábia Saudita e no Iraque, cobiçavam os hidrocarbonetos iranianos. E abocanharam uma grande fatia à custa da Anglo Iranian que reapareceu com o nome de British Petroleum.

UM NACIONALISTA REVOLUCIONÁRIO

A Revolução iraniana de 1979 foi o desfecho da longa e cruel ditadura que, sob a liderança nominal do Xá Reza Pahlavi, se implantou no país após o golpe de 1953.

Recolonizado, o Irão foi o melhor e mais dócil aliado dos EUA no Médio Oriente. Durante um quarto de século, os gigantes transnacionais do petróleo foram no país o poder real.

O Ayatollah Komeiny não teria obtido a amplo apoio popular que lhe permitiu impor a sua República Islâmica xiita se o povo não sentisse uma repulsa tão forte pela arrogância imperial dos EUA e não estivesse maduro para se rebelar contra o monstruoso regime policial do Xá.

A memória do breve governo revolucionário de Mossadegh permanece viva e funciona como um estimulante no confronto dos atuais governantes com Washington. Obama não esconde que os EUA não aceitam um Irão insubmisso.

Mas a ofensiva de desinformação estado-unidense que continua a apresentar Mossadegh como um defensor do socialismo deforma a realidade. Ele foi um patriota que amou profundamente o seu povo e tinha um grande orgulho pela contribuição civilizacional para a Humanidade dos Aqueménidas e Sassânidas persas e do século de ouro dos Safévidas. Mas, apesar de anti-imperialista irredutível, não contestava o sistema capitalista.

O persa Mohammad Mossadegh foi um humanista. Herdeiro de grandes latifúndios, distribuiu as suas terras pelos camponeses que as trabalhavam. E como Primeiro-ministro ofereceu o seu vencimento a estudantes pobres de Direito.

Hoje é venerado como um herói pelo seu povo.

O Irão desconhecido

Contrariamente ao que pensam muitos portugueses, intoxicados por um sistema mediático perverso, o Irão não é um país subdesenvolvido.

Com uma superfície de 1 648 000 km2 (o triplo da França) tem uma população de 79 milhões de habitantes.

Herdeiro de grandes civilizações, o seu povo é o mais culto e educado do Islão, sendo muito baixa a percentagem de analfabetos.

Sociedade multinacional – somente 52% dos habitantes são persas – o idioma oficial, o farsi, é falado por toda a população. Foi durante séculos a língua da corte otomana e dos imperadores Mongóis da India.

O sector avançado da indústria é comparável ao de países como o Brasil e o México. Produz quase meio milhão de automóveis por ano, a maioria de marcas nacionais.

É o quarto produtor de petróleo do mundo e possui as maiores reservas de gás natural. Auto-suficiente na produção de cereais, conta com rebanhos bovino e ovino de muitas dezenas de milhões de cabeças.

Tive a oportunidade numa viagem de carro pelo planalto iraniano de passar em frente das instalações nucleares de Natanz. Soube ali que estão protegidas por misseis sofisticados, de produção nacional, capazes de atingir Israel.

Os generais do Pentágono admitem que bombas convencionais serão provavelmente ineficazes se utilizadas contra os bunkers subterrâneos de Natanz.

RESISTIR.INFO

agosto 23, 2013

CIA confirma o que todo mundo já sabia: depôs Mossadegh para roubar o petróleo

Filed under: WordPress — Tags:, , , , , — Humberto @ 4:01 pm

A Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) reconheceu, pela primeira vez oficialmente, que dirigiu o golpe que derrubou, em 1953, o primeiro-ministro do Irã, quando este decidiu nacionalizar suas reservas de petróleo, controladas na época pela Grã-Bretanha, segundo documentos revelados no final de semana passado.

O papel da CIA na queda de Mohammed Mossadegh não era segredo para ninguém. Mas, o National Security Archive da Universidade George Washington – que publicou os papéis – ressaltou que os arquivos secretos da CIA revelados marcam sua explícita admissão sobre o fato.

São mais de 30 documentos que comprovam a articulação de Washington e Inglaterra contra a intenção iraniana de nacionalizar a Anglo-Iranian Oil Company – antecessora da atual BP. “O golpe militar que derrubou Mohamed Mossadegh e o governo da Frente Nacional foi realizado sob direção da CIA como um ato de política externa norte-americana”, dizem os documentos mencionados pelo Arquivo de Segurança Nacional.

O nome de código da operação da CIA era TPAJAX e nunca tinha sido mencionada nos documentos revelados pela agência. Outros arquivos revelados pela Universidade George Washington também apontam que a CIA participou, com ajuda da Inteligência britânica, na manobra política que reinstalou a monarquia no Irã, entregando o poder a Mohamed Reza Pahlevi, último Xá da Pérsia, após a deposição de Mossadegh. O Xá se tornou aliado próximo de Washington.

Em artigo, publicado no Hora do Povo de 26 de setembro de 2003, Carlos Lopes já denunciava que “em meados dos anos 60, a CIA procedeu a uma destruição em massa dos seus papéis sobre o golpe de 1953, no Irã, que derrubou o primeiro-ministro Mohamed Mossadegh e o governo da Frente Nacional. Segundo disse depois o então diretor da CIA, James Woolsey, a destruição dos documentos foi ‘rotina’. Mas um inquérito conduzido pelo Arquivo Nacional dos EUA concluiu que a destruição tinha sido ilegal: ‘a destruição dos registros relacionados ao Irã não foi autorizada’, assim como a de ‘nenhum documento oficial com efetividade no período 1959-1963, relacionado a ações encobertas’. Segundo disse a CIA, tinham sobrado somente 1.000 páginas sobre o golpe em seus arquivos (somente a pequena parte já desclassificada sobre o golpe do Chile constitui-se de 16.000 documentos, com uma quantidade descomunal de páginas)”.

Porém, no ano 2000, muitas informações vieram à tona. Nesse ano, um “ex-agente” passou ao The New York Times um documento secreto da CIA, um relato de 200 páginas (“Overthrow of Premier Mossadeq of Iran, November 1952-August 1953”) da ação contra o Irã, escrito em março de 1954 – sete meses após o golpe – por um dos chefes da operação, Donald Wilber.

O “The New York Times” publicou uma versão pasteurizada, expurgada e censurada. Mesmo assim, o jornal foi processado pela CIA, sob a alegação de que a publicação “causaria sérios danos à segurança nacional dos EUA”.

O HP pesquisou o documento completo. “Em relação à ‘segurança nacional’ dos EUA, nesse documento divulgado 47 anos depois dos fatos que relata, não há nada que a afete. Mas em relação à ‘segurança’ da canalha terrorista ianque, realmente, não se pode dizer a mesma coisa. O documento é uma descrição detalhada, minuciosa e cínica dos seus crimes. A destruição em massa de documentos referentes ao golpe contra um dos homens mais notáveis do século XX, Morramed Mossadegh, foi, evidentemente, para escondê-los”, assinalou Carlos Lopes.

Nas páginas do relato, é cristalino que a CIA fabricou, do início ao fim, o golpe contra o Irã. Ela não apoiou os golpistas. Ela fabricou-os, até mesmo escolheu-os – evidentemente, dentre a ralé de ressentidos com a revolução popular e democrática encabeçada por Mossadegh.

Por esse documento se sabe que, em abril de 1953, a CIA e o SIS (serviço secreto inglês) numa reunião em Nicósia, Chipre, resolveram derrubar Mossadegh porque ‘desde o fim de 1952 tornou-se claro que o governo de Mossadegh no Irã era incapaz de estabelecer um arranjo com os interesses petrolíferos dos países do Ocidente (Summary, pág. III). (….) Nenhum outro remédio pode ser achado, senão o plano de uma operação encoberta. Especificamente, o objetivo era colocar no poder um governo que alcance um arranjo petrolífero’ (pág. IV).

“O plano foi concluído em junho de 1953 e, no dia 11 de julho, Eisenhower o aprovou. Dez dias antes, já havia sido aprovado pelo primeiro-ministro inglês, Winston Churchill, de volta ao poder desde 1951. No documento, Eisenhower, seu secretário de Estado, John Foster Dulles, e outros baluartes da democracia, aparecem perfeitamente integrados com a CIA e agindo de acordo com o plano dela. Não somente o aprovaram – e, provavelmente, o encomendaram. São partícipes entusiasmados.

A sofreguidão dos colonialistas ingleses era devida à nacionalização, dois anos antes, da indústria do petróleo iraniana – antes principalmente na mão de companhias inglesas. Quanto aos imperialistas americanos, esses queriam se apossar do petróleo do Irã, como, aliás, se apossaram depois do golpe, até a eclosão da revolução islâmica”, sublinhou Carlos Lopes.

Mossadegh, com seus 70 anos, estava decidido a defender os interesses nacionais do Irã – e assim permaneceu até a morte, preso, em 1967. Em 1979, após a revolução islâmica, um milhão de iranianos reuniram-se em torno ao seu mausoléu, em Ahmad Abad, para prestar sua homenagem ao herói.

HORA DO POVO

agosto 19, 2013

CIA admitiu envolvimento no golpe de Estado no Irã em 1953

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A agência norte-americana de informações, CIA, admitiu formalmente ter estado envolvida no golpe de Estado contra o então Primeiro-Ministro iraniano Mohammad Mosaddeq, em 1953, revelam documentos divulgados pelo Arquivo de Segurança Nacional.

Apesar de sempre ter existido a suspeita do envolvimento do Estados Unidos e Reino Unido no afastamento de Mosaddeq, esta é a primeira vez que a CIA “admite formalmente que ajudou a planear e executar o golpe”, refere o Arquivo de Segurança Nacional, um centro de investigação sem fins lucrativos da Universidade George Washington.

No passado, agentes da CIA tinham garantido que a maioria dos documentos relacionados com o golpe de 1953, em plena Guerra Fria e após a nacionalização da indústria petrolífera iraniana, tinham desaparecido ou tinham sido destruídos na década de 1960.

No entanto, os investigadores do Arquivo de Segurança Nacional conseguiram acesso a documentos recentemente desclassificados pela CIA e que incluem vários textos de propaganda preparados pela agência de espionagem para transmitirem uma imagem negativa de Mossadeq [ grifo deste blog ], acrescenta ainda uma nota do Arquivo de Segurança Nacional. ( JN )

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