ENCALHE ( Descontinuado em 05.10.2013 )

outubro 4, 2013

Jornalista Pepe Escobar: “O sociopata Netaniahu na ONU”

Arquivado em: WordPress — Tags:, , , — Humberto @ 7:29 pm

Em comparação com o tom construtivo do presidente do Irã, o belicoso representante de Israel fez um vitupério totalmente fora de compasso com o espírito que reinou na maioria dos pronunciamentos da ONU (à exceção, é claro, do norte-americano, Obama, que ousou chamar seu desmedido e criminosos intervencionismo de “contribuição dos EUA” ao bem-estar do planeta).

O destempero do israelense levou o jornalista do Asia Times e do Russia Today, Pepe Escobar a se referir ao pronunciamento no artigo “O discurso de Netaniahu na ONU: soa como um sociopata?”, do qual reproduzimos algumas observações.

Escobar começa ressaltando na fala do israelense Bibi sua arenga contra o presidente iraniano, ao qual já chamara de “cínico” e de “armadilha hipócrita”, destacando que “os mísseis do Irã atingiriam Nova Iorque em três a quatro anos e que “um Irã nuclear é como 50 Coreias do Norte”.

Escobar ressalta outro trecho em que Bibi se refere a “Ahmadinejad como o lobo em pele de lobo enquanto que Ruhani seria o lobo em pele de cordeiro”.

Netaniahu disse ainda que Ruhani tentara se apresentar como “piedoso” mas estava sempre envolvido no “Estado de terror do Irã” e por aí vai.

Como ressalta Escobar, chamou o mundo a acabar com o “programa nuclear militar” do Irã que até o sistema de espionagem dos EUA diz que não existe.

Isso tudo depois do mesmo Netaniahu dizer a Barack Obama que esqueça para sempre a Resolução da ONU 242; a que determina a total retirada de Israel das terras ocupadas desde a guerra de 1967.

Vejam então quem é cínico e portavoz da verdadeira hipocrisia a serviço da limpeza étnica, ou seja, do genocídio do povo palestino, como pontua o jornalista do Asia Times: “O Estado de Israel não tem nenhuma fronteira internacionalmente reconhecida e é um Estado direcionado à expansão perpétua”.

“Israel desrespeita nada menos do que 69 Resoluções do Conselho de Segurança da ONU, e foi ‘protegida’ de outras 29, cortesia dos vetos norte-americanos”.

“Tem ocupado território soberano do Líbano e da Síria sem dar o mínimo para decisões em contrário da ONU.

“Assinou os Acordos de Oslo prometendo parar de construir para sempre, qualquer novo assentamento na Palestina. Ao invés disso, construiu mais de 270, como parte de uma limpeza étnica de mais de seis décadas.

“Tem ameaçado bombardear o Irã, em ritmo semanal, por pelo menos três décadas.

“Israel é uma potência nuclear com cerca de 400 ogivas nucleares, recusa-se a assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear; barra inspeções internacionais, usou armas químicas em Gaza, nunca ratificou o Tratado sobre Armas Químicas, e tem um estoque desse tipo de arma muito maior do que qualquer país do Oriente Médio.

“O lobby israelense em Washington apoiou o bloqueio financeiro imposto ao Irã que para todos os efeitos é uma declaração de guerra, com drásticas consequências na vida dos iranianos comuns. Ainda por cima ameaçou de ataque unilateral ao Irã.

“Bibi não aceita nem mesmo que o Irã enriqueça urânio para propósitos civis, como definido pelo TNP.

Como conclui Escobar, o sonho de Israel é um Oriente Médio dividido entre petromonarquias submissas aos EUA de um lado e países balcanizados de outro. “Só que o Irã é uma potência emergente dos pontos de vista político e econômico e se chega a ter relações normais com EUA e Europa coloca em risco os planos de hegemonia de Israel no Oriente Médio, para seguir estocando armas nucleares e sendo Estado de colonização buscando varrer um povo inteiro – os palestinos do mapa. Quem duvidar que olhe o mapa”. ( HORA DO POVO )

outubro 1, 2013

Do derrubamento de Mossadegh à ofensiva contra a Síria, por Miguel Urbano Rodrigues

Arquivado em: WordPress — Tags:, , , , , , , — Humberto @ 8:05 pm

 

Recordar os acontecimentos do Irão há 70 anos ajuda a compreender a atual estratégia dos EUA para o Médio Oriente.

O discurso em que Obama anunciou que decidira bombardear a Síria inseriu-se numa política de dominação universal concebida no final da II Guerra Mundial.

Inseguro quanto à atitude do Congresso e ciente de que a maioria do seu povo condenava um ataque militar à Síria, o presidente recuou. Mas seria uma ingenuidade acreditar numa viragem da estratégia agressiva dos EUA para a Região. Nesta, o derrubamento do governo de Bashar al Assad é somente uma etapa do projeto que tem por alvo numa segunda fase o Irão, o grande país muçulmano que não se submete ao imperialismo norte-americano.

É útil lembrar que foi ainda em vida de Roosevelt que um grupo de sábios da Casa Branca e do Pentágono elaborou o War and Peace Program, ambicioso plano que visava a longo prazo estabelecer o domínio perpétuo dos EUA sobre a Humanidade, a partir da convicção de que a desagregação do Império Britânico estava iminente e era irreversível.

Ainda não fora criado o estado de Israel, mas a substituição da hegemonia da Grã-Bretanha no Médio Oriente figurava entre as prioridades desse Programa entre cujas metas se incluía o esfacelamento da União Soviética.

O êxito em 1953 do golpe de Estado que derrubou o governo progressista de Mohammad Mossadegh (1882-1967) e permitiu a recolonização do Irão contribuiu para acelerar a penetração política, económica e militar dos EUA no Médio Oriente.

ANTECEDENTES

Desde meados do seculo XIX, a Inglaterra e o Império russo, no contexto da sua confrontação no Afeganistão, desenvolveram um esforço permanente para colocar o Irão (ao tempo Pérsia) sob a sua “proteção”.

Após a Revolução Russa de Outubro de 1917 a situação mudou e as pretensões britânicas esbarraram com a firme oposição da União Soviética.

No final da I Guerra Mundial, a monarquia persa agonizava. Um general, Reza Khan, tornou-se primeiro-ministro em 1921 e tentou modernizar o país. Mas, ambicioso, usou a sua popularidade para promover um golpe de estado. Derrubou o soberano Ahmed Qajar e proclamou-se Xá, isto é, imperador.

Entre as personalidades que se opuseram ao novo regime ditatorial destacou-se um jovem que já desempenhara importantes funções públicas: Mohammad Mossadegh.

Filho de um ministro da monarquia e de uma princesa Qajar, Mossadegh estudara Ciências Sociais em França e posteriormente doutorara-se em Direito na Suíça.

Desde a juventude chamou a atenção pela sua honestidade. Ganhou a alcunha de “incorruptível”, como Robespierre. Mas, aristocrata pelo nascimento e educação, casou com uma princesa da última dinastia.

Reza Xá demitiu-o dos cargos que exercia e desterrou-o para Ahamadabad, sua cidade natal.

Nos anos que separaram as duas guerras, o petróleo adquirira uma importância enorme na economia mundial. E a Grã-Bretanha controlava as gigantescas jazidas de hidrocarbonetos do Irão através da Anglo Iranian Oil, um gigantesco polvo transnacional que atuava como monopólio na produção e extração.

Alegando simpatias do Xá pela Alemanha de Hitler, o governo britânico obrigou-o a abdicar em 1941, ocupou o Pais (com exceção da faixa Norte, fronteiriça da URSS) e colocou no trono o filho, Reza Pahlavi.

Mossadegh regressou então à política, primeiro como deputado, depois como ministro das Finanças e ministro dos Negócios Estrangeiros, e finalmente como Primeiro-ministro.

A NACIONALIZAÇÃO DO PETROLEO

Uma vaga de nacionalismo varria então o Irão. Mohammad Mossadegh foi o dirigente que soube encarnar as aspirações do seu povo, liderando a luta por uma independência real.

O Irão estava reduzido à condição de semi-colónia. Ousou o que parecia impossível: desafiou a Inglaterra imperial ao nacionalizar a Anglo Iranian, que era oficialmente propriedade do Almirantado Britânico.

Londres reagiu com sobranceria, apresentando queixa no Conselho de Segurança, mas o órgão executivo das Nações Unidas remeteu o caso para o Tribunal da Haia.

Mossadegh desenvolveu nesses meses uma atividade frenética em defesa da soberania iraniana. Esteve primeiro nos EUA e o seu discurso na ONU teve tamanha repercussão que a revista conservadora Time Magazine o nomeou Homem do Ano em 1951. Viajou depois para a Holanda e pronunciou um discurso histórico no Tribunal de Haia. A sua intervenção foi decisiva para o veredicto daquela alta corte de justiça. O tribunal concluiu que não tinha competência para julgar a denúncia da Grã-Bretanha.

De regresso a Teerão, Mossadegh fechou os consulados britânicos, expulsou todos os técnicos ingleses e rompeu as relações diplomáticas com o governo de Londres.

Restituíra ao Irão a dignidade perdida há séculos e o povo identificou nele um herói.

O GOLPE

O governo britânico, apoiado pelo norte-americano Truman, decidiu recorrer a métodos drásticos para afastar Mossadegh do poder. Intrigando junto do Xá, criou um conflito entre o monarca e o Primeiro-ministro. Mossadegh foi demitido em julho de 1952, mas essa decisão provocou tamanha indignação popular, com manifestações de protesto nas ruas, que o Xá o nomeou novamente Primeiro-ministro.

Fortalecido pelo apoio popular, pediu poderes especiais ao Parlamento para levar adiante 80 projetos de lei que beneficiariam as massas, esmagadas pelas engrenagens de uma sociedade arcaica.

Obteve-os. Mossadegh introduziu nos meses seguintes reformas revolucionárias que envolveram as finanças, o orçamento, a saúde pública, a Justiça, as pescas, a habitação, a previdência social, as comunicações, as forças armadas. Reformas nunca imaginadas numa sociedade islâmica marcada por heranças feudais.

Os acontecimentos precipitaram-se. O governo de Churchill comprou dezenas de deputados para sabotar a política de Mossadegh. Este reagiu convocando um referendo no início de Agosto de 1953 para dissolver o Parlamento. O povo iraniano votou a dissolução por ampla maioria.

A conspiração, entretanto, estava já muito avançada. No dia 15 houve uma tentativa de golpe de estado promovida pelo Parlamento.

Fracassou e o Xá fugiu para Roma.

Mas a CIA, que contava com todo o apoio do governo britânico, que pedira a colaboração de Truman, montara quase simultaneamente o seu golpe com colaboração do exército. Foi precedido de manifestações de rua com a participação de agentes provocadores e de ações de vandalismo no contexto de uma campanha de calúnias contra Mossadegh.

E esse segundo golpe teve êxito. Preso, Mossadegh foi julgado sumariamente por um tribunal militar que o condenou a três anos de prisão e, posteriormente, a residência fixa na sua província.

O Xá regressou de Roma, e em tempo mínimo, as leis progressistas de Mossadegh foram revogadas. O grande beneficiário da mudança foi, porém, o imperialismo norte-americano. As grandes petrolíferas dos Estados Unidos, já então fortemente implantadas na Arábia Saudita e no Iraque, cobiçavam os hidrocarbonetos iranianos. E abocanharam uma grande fatia à custa da Anglo Iranian que reapareceu com o nome de British Petroleum.

UM NACIONALISTA REVOLUCIONÁRIO

A Revolução iraniana de 1979 foi o desfecho da longa e cruel ditadura que, sob a liderança nominal do Xá Reza Pahlavi, se implantou no país após o golpe de 1953.

Recolonizado, o Irão foi o melhor e mais dócil aliado dos EUA no Médio Oriente. Durante um quarto de século, os gigantes transnacionais do petróleo foram no país o poder real.

O Ayatollah Komeiny não teria obtido a amplo apoio popular que lhe permitiu impor a sua República Islâmica xiita se o povo não sentisse uma repulsa tão forte pela arrogância imperial dos EUA e não estivesse maduro para se rebelar contra o monstruoso regime policial do Xá.

A memória do breve governo revolucionário de Mossadegh permanece viva e funciona como um estimulante no confronto dos atuais governantes com Washington. Obama não esconde que os EUA não aceitam um Irão insubmisso.

Mas a ofensiva de desinformação estado-unidense que continua a apresentar Mossadegh como um defensor do socialismo deforma a realidade. Ele foi um patriota que amou profundamente o seu povo e tinha um grande orgulho pela contribuição civilizacional para a Humanidade dos Aqueménidas e Sassânidas persas e do século de ouro dos Safévidas. Mas, apesar de anti-imperialista irredutível, não contestava o sistema capitalista.

O persa Mohammad Mossadegh foi um humanista. Herdeiro de grandes latifúndios, distribuiu as suas terras pelos camponeses que as trabalhavam. E como Primeiro-ministro ofereceu o seu vencimento a estudantes pobres de Direito.

Hoje é venerado como um herói pelo seu povo.

O Irão desconhecido

Contrariamente ao que pensam muitos portugueses, intoxicados por um sistema mediático perverso, o Irão não é um país subdesenvolvido.

Com uma superfície de 1 648 000 km2 (o triplo da França) tem uma população de 79 milhões de habitantes.

Herdeiro de grandes civilizações, o seu povo é o mais culto e educado do Islão, sendo muito baixa a percentagem de analfabetos.

Sociedade multinacional – somente 52% dos habitantes são persas – o idioma oficial, o farsi, é falado por toda a população. Foi durante séculos a língua da corte otomana e dos imperadores Mongóis da India.

O sector avançado da indústria é comparável ao de países como o Brasil e o México. Produz quase meio milhão de automóveis por ano, a maioria de marcas nacionais.

É o quarto produtor de petróleo do mundo e possui as maiores reservas de gás natural. Auto-suficiente na produção de cereais, conta com rebanhos bovino e ovino de muitas dezenas de milhões de cabeças.

Tive a oportunidade numa viagem de carro pelo planalto iraniano de passar em frente das instalações nucleares de Natanz. Soube ali que estão protegidas por misseis sofisticados, de produção nacional, capazes de atingir Israel.

Os generais do Pentágono admitem que bombas convencionais serão provavelmente ineficazes se utilizadas contra os bunkers subterrâneos de Natanz.

RESISTIR.INFO

agosto 24, 2013

Le Figaro: EUA e Israel treinaram mercenários na Jordânia para combater na Síria

‘LE FIGARO’ REVELA
EUA terão formado rebeldes sírios na Jordânia
Dois comandos de 300 rebeldes sírios formados clandestinamente na Jordânia por militares norte-americanos estão a combater desde meados de agosto contra o regime de Bashar al-Assad na Síria, publicou hoje o jornal francês ‘Le Fígaro’.
Estes dois grupos de tropas de elite, apoiados por especialistas jordanos, israelitas e da CIA ( agência central de serviços secretos externos norte-americanos ), cruzaram a fronteira síria nos passados dias 17 e 19 de agosto, na região de Deraa, no sul da Síria, segundo as informações divulgadas pelo diário conservador francês, que não revela quais são as suas “fontes militares”.
“Os norte-americanos, que não querem introduzir soldados em solo sírio nem armar os rebeldes, em parte controlados pelos islamitas radicais, estão há meses a formar discretamente, num campo de treino na fronteira jordano-síria, combatentes do Exército Sírio Livre”, indica Le Fígaro.
O diário assegura que esses comandos derrotaram batalhões sírios no sul do país e estão a avançar para a capital, o que terá motivado Assad a lançar ataques com armas químicas na periferia de Damasco [ 1 ].
A hipótese do periódico é que os Estados Unidos estão a tentar que os rebeldes controlem completamente a região de Deraa e que Washington está a preparar o terreno para criar uma zona de exclusão aérea, motivo pelo qual deslocou caças F16 e baterias antimísseis Patriot para a fronteira com a Jordânia.
A contestação popular ao regime de Bashar al-Assad iniciada há dois anos degenerou em guerra civil, que já provocou mais de 100.000 mortos, segundo números da ONU.
O exército sírio está a ser acusado de ter realizado na quarta-feira um ataque com armas químicas contra áreas da periferia de Damasco [ 1 ] , [ 2 ] , [ 3 ] e [ 4 ] , que terão provocado mais de um milhar de mortos, e está sob pressão da comunidade internacional para autorizar uma inspeção ao local por técnicos das Nações Unidas. ( DN )

[ 1 ] Rússia: Ataque com armas químicas foi “trabalho grosseiro” da oposição síria, ENCALHE

[ 2 ] Autoridades sírias encontram armas químicas em túnel de rebeldes, VOZ DA RUSSIA

[ 3 ] Damasco: encontrado armazém com antídotos contra armas químicas, VOZ DA RUSSIA

[ 4 ] Terroristas sirios admiten que poseen armas químicas, TELESUR

LEIA TAMBÉM:

Vaticano pede cautela nas acusações, DN

agosto 23, 2013

CIA confirma o que todo mundo já sabia: depôs Mossadegh para roubar o petróleo

Arquivado em: WordPress — Tags:, , , , , — Humberto @ 4:01 pm

A Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) reconheceu, pela primeira vez oficialmente, que dirigiu o golpe que derrubou, em 1953, o primeiro-ministro do Irã, quando este decidiu nacionalizar suas reservas de petróleo, controladas na época pela Grã-Bretanha, segundo documentos revelados no final de semana passado.

O papel da CIA na queda de Mohammed Mossadegh não era segredo para ninguém. Mas, o National Security Archive da Universidade George Washington – que publicou os papéis – ressaltou que os arquivos secretos da CIA revelados marcam sua explícita admissão sobre o fato.

São mais de 30 documentos que comprovam a articulação de Washington e Inglaterra contra a intenção iraniana de nacionalizar a Anglo-Iranian Oil Company – antecessora da atual BP. “O golpe militar que derrubou Mohamed Mossadegh e o governo da Frente Nacional foi realizado sob direção da CIA como um ato de política externa norte-americana”, dizem os documentos mencionados pelo Arquivo de Segurança Nacional.

O nome de código da operação da CIA era TPAJAX e nunca tinha sido mencionada nos documentos revelados pela agência. Outros arquivos revelados pela Universidade George Washington também apontam que a CIA participou, com ajuda da Inteligência britânica, na manobra política que reinstalou a monarquia no Irã, entregando o poder a Mohamed Reza Pahlevi, último Xá da Pérsia, após a deposição de Mossadegh. O Xá se tornou aliado próximo de Washington.

Em artigo, publicado no Hora do Povo de 26 de setembro de 2003, Carlos Lopes já denunciava que “em meados dos anos 60, a CIA procedeu a uma destruição em massa dos seus papéis sobre o golpe de 1953, no Irã, que derrubou o primeiro-ministro Mohamed Mossadegh e o governo da Frente Nacional. Segundo disse depois o então diretor da CIA, James Woolsey, a destruição dos documentos foi ‘rotina’. Mas um inquérito conduzido pelo Arquivo Nacional dos EUA concluiu que a destruição tinha sido ilegal: ‘a destruição dos registros relacionados ao Irã não foi autorizada’, assim como a de ‘nenhum documento oficial com efetividade no período 1959-1963, relacionado a ações encobertas’. Segundo disse a CIA, tinham sobrado somente 1.000 páginas sobre o golpe em seus arquivos (somente a pequena parte já desclassificada sobre o golpe do Chile constitui-se de 16.000 documentos, com uma quantidade descomunal de páginas)”.

Porém, no ano 2000, muitas informações vieram à tona. Nesse ano, um “ex-agente” passou ao The New York Times um documento secreto da CIA, um relato de 200 páginas (“Overthrow of Premier Mossadeq of Iran, November 1952-August 1953″) da ação contra o Irã, escrito em março de 1954 – sete meses após o golpe – por um dos chefes da operação, Donald Wilber.

O “The New York Times” publicou uma versão pasteurizada, expurgada e censurada. Mesmo assim, o jornal foi processado pela CIA, sob a alegação de que a publicação “causaria sérios danos à segurança nacional dos EUA”.

O HP pesquisou o documento completo. “Em relação à ‘segurança nacional’ dos EUA, nesse documento divulgado 47 anos depois dos fatos que relata, não há nada que a afete. Mas em relação à ‘segurança’ da canalha terrorista ianque, realmente, não se pode dizer a mesma coisa. O documento é uma descrição detalhada, minuciosa e cínica dos seus crimes. A destruição em massa de documentos referentes ao golpe contra um dos homens mais notáveis do século XX, Morramed Mossadegh, foi, evidentemente, para escondê-los”, assinalou Carlos Lopes.

Nas páginas do relato, é cristalino que a CIA fabricou, do início ao fim, o golpe contra o Irã. Ela não apoiou os golpistas. Ela fabricou-os, até mesmo escolheu-os – evidentemente, dentre a ralé de ressentidos com a revolução popular e democrática encabeçada por Mossadegh.

Por esse documento se sabe que, em abril de 1953, a CIA e o SIS (serviço secreto inglês) numa reunião em Nicósia, Chipre, resolveram derrubar Mossadegh porque ‘desde o fim de 1952 tornou-se claro que o governo de Mossadegh no Irã era incapaz de estabelecer um arranjo com os interesses petrolíferos dos países do Ocidente (Summary, pág. III). (….) Nenhum outro remédio pode ser achado, senão o plano de uma operação encoberta. Especificamente, o objetivo era colocar no poder um governo que alcance um arranjo petrolífero’ (pág. IV).

“O plano foi concluído em junho de 1953 e, no dia 11 de julho, Eisenhower o aprovou. Dez dias antes, já havia sido aprovado pelo primeiro-ministro inglês, Winston Churchill, de volta ao poder desde 1951. No documento, Eisenhower, seu secretário de Estado, John Foster Dulles, e outros baluartes da democracia, aparecem perfeitamente integrados com a CIA e agindo de acordo com o plano dela. Não somente o aprovaram – e, provavelmente, o encomendaram. São partícipes entusiasmados.

A sofreguidão dos colonialistas ingleses era devida à nacionalização, dois anos antes, da indústria do petróleo iraniana – antes principalmente na mão de companhias inglesas. Quanto aos imperialistas americanos, esses queriam se apossar do petróleo do Irã, como, aliás, se apossaram depois do golpe, até a eclosão da revolução islâmica”, sublinhou Carlos Lopes.

Mossadegh, com seus 70 anos, estava decidido a defender os interesses nacionais do Irã – e assim permaneceu até a morte, preso, em 1967. Em 1979, após a revolução islâmica, um milhão de iranianos reuniram-se em torno ao seu mausoléu, em Ahmad Abad, para prestar sua homenagem ao herói.

HORA DO POVO

agosto 19, 2013

CIA admitiu envolvimento no golpe de Estado no Irã em 1953

Arquivado em: WordPress — Tags:, , , , , — Humberto @ 5:39 pm

A agência norte-americana de informações, CIA, admitiu formalmente ter estado envolvida no golpe de Estado contra o então Primeiro-Ministro iraniano Mohammad Mosaddeq, em 1953, revelam documentos divulgados pelo Arquivo de Segurança Nacional.

Apesar de sempre ter existido a suspeita do envolvimento do Estados Unidos e Reino Unido no afastamento de Mosaddeq, esta é a primeira vez que a CIA “admite formalmente que ajudou a planear e executar o golpe”, refere o Arquivo de Segurança Nacional, um centro de investigação sem fins lucrativos da Universidade George Washington.

No passado, agentes da CIA tinham garantido que a maioria dos documentos relacionados com o golpe de 1953, em plena Guerra Fria e após a nacionalização da indústria petrolífera iraniana, tinham desaparecido ou tinham sido destruídos na década de 1960.

No entanto, os investigadores do Arquivo de Segurança Nacional conseguiram acesso a documentos recentemente desclassificados pela CIA e que incluem vários textos de propaganda preparados pela agência de espionagem para transmitirem uma imagem negativa de Mossadeq [ grifo deste blog ], acrescenta ainda uma nota do Arquivo de Segurança Nacional. ( JN )

abril 4, 2013

CNN planta mentiras contra Síria, diz ex-editora da rede

Arquivado em: WordPress — Tags:, , , , , , , , — Humberto @ 9:38 pm

“CNN mente sobre o Irã e Síria”, afirma Amber, ex-editora da rede
Para a premiada jornalista, a CNN e outras redes da mídia nos EUA “demonizam estes regimes para gerar novas guerras; como fizeram com o Iraque”

“A CNN mente para o público norte-americano”, afirma a jornalista Amber Lyon, ex-reporter da rede norte-americana. Para ela “as mentiras servem ao intuito de levar a outras guerras”.
Segundo a jornalista, “estão fazendo agora com a Síria e o Irã do mesmo jeito com que fizeram com o Iraque”.
“O que eu vejo”, diz Lyon, “é a CNN e outras redes fazerem é exagerarem determinadas questões, enquanto omitem ou mentem sobre outras; há uma demonização constante dos regimes destes países”. Estas declarações foram ao ar em entrevistas como as concedidas à TV Rússia Today (em outubro) e ao AlexJones Channel (em setembro) de 2012.
A jornalista tem feito estas denúncias desde que viu uma reportagem sobre a repressão de ativistas no Bahrein, realizada com a sua participação, em 2011, ser sabotada pela rede. Apesar de diversas vezes premiada (uma delas por ter sido a primeira repórter a filmar manchas de petróleo que a BP estava lançando no golfo do México), foi demitida em março do ano passado.
Agora, em 8 de março deste ano, durante palestra na Universidade de Harvard, ela denunciou também que além da pressão das redes da chamada mainstream (corrente principal), os “jornalistas temem por sua liberdade depois que Obama promulgou a lei elaborada sob Bush (chamada de Lei de Defesa National) que permite ao governo ou a militares dos EUA prender qualquer um em qualquer lugar dos EUA ou do mundo a prender indefinidamente, sem acusação formal ou julgamento, por colaboração com os adversários na ‘guerra ao terror’”.
Mas, com essas agressões promovidas no Iraque e no Afeganistão, “quem é o verdadeiro terrorista hoje?”, questiona Amber em sua intervenção em Harvard.
Quanto à entrevista no Bahrein, mostra hospitais com feridos pela repressão, entrevista médicos e enfermeiros sobre a perseguição aos ativistas que se opõem ao regime ditatorial desse país. “Muitos ativistas que se haviam comprometido a falar desapareceram”, diz Lyon.
A entrevista, produzida em março de 2011, só foi ao ar em junho e mesmo assim só em uma transmissão local e nunca em redes internacionais. “Enquanto isso, divulgam o que chamamos de comerciais informativos para os ditadores” que pagam por isso regiamente à CNN. “Ficam falando dos catadores de pérolas no Bahrein e em o quanto Bahrein é progressista ao mesmo tempo em que ativistas de direitos humanos e jornalistas estavam sendo presos e torturados”, diz ela.
Voltando às mentiras sobre o Irã e a Síria, ela destaca que “a maioria dos norte-americanos não sabe que estão sendo conduzidos por falsificações que podem nos levar a novas guerras, assim como aconteceu com a história das supostas ‘armas de destruição em massa’ no Iraque”.
Para Lyon estes tipos de matéria “na forma como distorcem a verdade para nos conduzir a novos conflitos estão em contradição total com qualquer traço de ética jornalística”.
Lyon disse ainda que seus chefes na CNN International “nunca esclareceram por que a matéria não ia ao ar”.
NATHANIEL BRAIA

HORA DO POVO

fevereiro 27, 2013

E o Oscar vai para… a CIA

Arquivado em: WordPress — Tags:, , , , , — Humberto @ 6:31 pm

Hollywood jamais escondeu seus vínculos de muitos anos com Washington, mas nunca uma primeira-dama chegara ao ponto de expô-los tão abertamente como Michelle Obama, ao anunciar direto da Casa Branca, atendendo a Jack Nickolson, o vencedor do Oscar 2013, o filme “Argos”, a glamourização de uma operação da CIA no Irã em 1980 em que um filme fake é a fachada. Dos cinco indicados para melhor filme, dois glorificavam as ações encobertas da CIA – o outro é “A Hora Mais Escura”, marcado pelos 30 minutos de apologia à tortura. “Argos” é uma falsificação da história real, em que a operação foi um fiasco completo, com três helicópteros derrubados e oito soldados dos EUA mortos. Não foi por falta de filme melhor: havia “Lincoln”.
HORA DO POVO

Oscar convoca primeira-dama para premiar apologia da CIA
Dos 5 indicados a melhor filme, 2 são da CIA. Michelle Obama, da Casa Branca, deu a vitória a “Argos”, contra o Irã. Denunciado por tortura, “A Hora Mais Escura” ficou só com uma estatueta
Hollywood jamais escondeu seus vínculos de muitos anos com Washington, o Pentágono e o complexo industrial-militar, mas nunca uma primeira-dama chegara ao ponto de expô-los tão abertamente como Michelle Obama, ao anunciar direto da Casa Branca, atendendo ao melífluo Jack Nickolson, o vencedor do Oscar 2013, o filme “Argos”, a glamourização de uma operação da CIA no Irã em 1980 em que um filme fake é a fachada.
Outro filme, tido até três meses antes, pela Reuters, como “favorito ao Oscar”, também sobre uma operação da CIA, a que executou extra-judicialmente o desarmado Osama Bin Laden, “A Hora Mais Escura”, após enorme escândalo pelos 30 minutos de apologia da tortura, teve de se contentar com uma modesta estatueta, a de edição sonora, depois de estar concorrendo a cinco indicações, inclusive de melhor filme.
Assim, em 2013, o Oscar vai – como assinalou o articulista Pepe Escobar – para …. a CIA! A Academia estendeu seu tapete vermelho para esse antro de tortura, sabotagem e terror que infelicita os povos do mundo e inclusive o povo norte-americano, e dá aval à campanha midiática pela guerra ao Irã.
Não foi por falta de filme melhor. “Lincoln”, de Steven Spielberg, sobre um momento decisivo da história dos EUA, a mudança na constituição para abolir de vez a escravidão, em que pese ignorar o papel que os próprios negros jogaram – no campo de batalha e na retaguarda – para a vitória na guerra da Secessão, é muito superior. Flagra a luta obstinada de Lincoln, magnificamente interpretado por Daniel Day-Lewis, para obter a maioria de dois terços no Congresso, através do convencimento e do suborno, pois já era assim que funcionava na época a democracia nos EUA. Não houve como negar o Oscar de melhor ator a Day-Lewis, mas “Lincoln” teve de se contentar com apenas mais uma estatueta, depois de 12 indicações.
“Argos” é um filme fake sobre a realização de um filme fake. Como o próprio ex-presidente Jimmy Carter relatou à CNN, a operação foi essencialmente dos canadenses, graças ao então embaixador Ken Taylor.
Mas é principalmente uma falsificação da história, a exemplo do que “Rambo” buscou fazer com a derrota no Vietnã. Na realidade, a CIA foi amplamente derrotada pela irrupção da revolução no Irã, após ter derrubado o primeiro-ministro legítimo Mossadegh em 1953 e instaurado a ditadura do Xá. A indignação acumulada anos a fio e as tentativas dos EUA de deterem a revolução levaram ao episódio da tomada da embaixada em Teerã por centenas de estudantes em novembro de 1979, gerando a chamada crise dos reféns. Foi a ditadura do Xá que reverteu a nacionalização do petróleo proclamada por Mossadegh.
Nos anos do Xá, a embaixada se caracterizou pela mais extremada intervenção nos assuntos internos do país, no apoio à ditadura e como conduto das decisões de Washington. No final de 1979, se concentravam na embaixada todo tipo de agentes de que os EUA dispunham na tentativa de derrotar o levante popular. São esses os “americanos inocentes” retratados em Argos; como já havia sido registrado o “americano tranqüilo” de Graham Greene em Saigon.
Embora cite o golpe da CIA contra Mossadegh, “Argos” só o faz para dar credibilidade a tudo que quer passar depois: a demonização do povo iraniano e sua revolução, apresentados como extremistas e homicidas potenciais dos “americanos inocentes”.
Quando os EUA tentaram uma operação militar para liberar os reféns, a chamada Operação “Eagle Claw” (Garra da Águia), em abril de 1980, foi um fiasco total. Três dos oito helicópteros enviados foram derrubados, oito soldados dos EUA morreram, e nenhum agente foi liberado. Eles iriam permanecer retidos na embaixada por 444 dias ao todo, só sendo libertados minutos depois da posse de Ronald Reagan na presidência dos EUA.
O fracasso na “crise dos reféns” foi explorado pelos republicanos para derrotar Jimmy Carter nas eleições de 1980 e numerosos analistas consideram que a CIA, por baixo dos panos, negociou a permanência dos reféns até o pleito nos EUA, em troca de peças de reposição para o exército iraniano, que se preparava para a guerra contra o Iraque e necessitava desesperadamente desses suprimentos. Episódio até hoje conhecido como a “Surpresa de Outubro” – a carta na manga para mostrar a “fraqueza” de Carter e a necessidade do belicoso Reagan na véspera da eleição. Assim, os reféns – 52 – foram liberados no governo Reagan, e apenas seis lograram se safar antes, como dito, centralmente graças à interferência dos canadenses, fato desconsiderado agora em prol da exaltação da CIA.
HISTÓRIA FALSIFICADA
Não há nada de inocente em querer reescrever a história, quando na ordem do dia está a guerra contra o Irã, acusado pelos EUA e Israel de suposto “programa nuclear militar”, a exemplo do que foi feito com a “ameaça das armas de destruição em massa” no Iraque que não existiam. Menos ainda a presença de uma primeira-dama, em tais circunstâncias, a menos de dois dias de uma reunião com o Irã que vem sendo apontada como “última chance”. Nem em querer aclamar a CIA, com seus vôos de rendição, suas prisões secretas, tortura em massa com memorando do governo de W. Bush e ataques de drones – só para citar os fatos dos tempos mais recentes -, além dos costumeiros golpes de estado e ações do gênero.
Nem dá para esquecer que seu marido aproveitou uma aparição na viagem ao Brasil para anunciar o bombardeio da Líbia. Na operação que assassinou Bin Laden – foco do filme “A Hora Mais Escura” – o presidente Obama teve participação direta e ao vivo, desde a Casa Branca, e depois de ter autorizado tanto terrorismo com drones. Ganhador do Prêmio Nobel, quem sabe não seria merecedor também de um Oscar? Como sempre que dá uma boa bilheteria Hollywood providencia um repeteco, já estamos visualizando os próximos filmes da CIA: “190 horas de Waterboarding (Afogamento)” e “Drones da Liberdade”, este, estrelado por John Brennan.
ANTONIO PIMENTA

fevereiro 13, 2013

Irã defende o uso de urânio para fins pacíficos no país

Arquivado em: WordPress — Tags:, — Humberto @ 7:51 pm

MOSCOU, 12 FEV (ANSA) – O governo do Irã confirmou hoje que parte do urânio enriquecido no país é destinada como combustível para o reator de investigações médicas em Teerã e disse que espera “passos construtivos” nas negociações com os seis países envolvidos na disputa nuclear.

O porta-voz da chanceleria, Ramin Mehmanparast, ratificou o uso do urânio, após informações sobre esse tema terem sido noticiados. “Enviamos o relatório completo” sobre as atividades à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), explicou o porta-voz.

Mehmanparast destacou os objetivos médicos do reator e reafirmou que o Irã solicitou à AIEA o fornecimento de combustível para esses fins, porém não recebeu uma resposta positiva.

O governo iraniano espera chegar a um acordo amanhã com representantes da AIEA para um plano de inspeção a centros como o de Parchin, onde as potências ocidentais suspeitam que os islâmicos desenvolvam planos nucleares com fins militares.

A possibilidade de realizar inspeções será um marco de reconhecimento ao direito do Irã em desenvolver planos nucleares para fins pacíficos. “Estamos dispostos a falar e remover as ambiguidades e criar confiança”, explicou Mehmanparast, incluindo a disponibilidade de “incluir seminários sobre as inspeções em Parchin”. (ANSA)

fevereiro 10, 2013

Ministro dos Negócios Estrangeiros do Irã: “O armamento nuclear não faz parte da nossa doutrina de defesa. Existe uma fatwa que proíbe o desenvolvimento de armas nucleares no nosso país.”

Arquivado em: WordPress — Tags:, , , , , — Humberto @ 2:15 pm

“O Irão recusa o direito a utilizar armas de destruição maciça”

Por ocasião da Conferência de Segurança, em Munique, o jornalista James Franey entrevistou o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, anterior responsável pelo programa atómico do país.

James Franey, euronews: Agradecemos a presença de Ali Akbar Salehi, na euronews. Tanto o Irão como a Síria afirmam que vão responder ao alegado ataque aéreo israelita a um complexo militar sírio. Confirma?

Ali Akbar Salehi: Ainda não ouvi ninguém dizer que vai ripostar. Aquilo que declarámos é que Israel agiu de forma muito grave. Este ataque aéreo é uma espécie de intervenção para infligir danos a outro país, a um outro povo, o que viola as convenções internacionais, as convenções da ONU. Aquilo que Israel fez vai contra as leis internacionais e pode ter sérias consequências como resultado.

euronews: Por exemplo?

AAS: Quando falo em sérias consequências, refiro-me ao facto de a Síria se situar numa região muito delicada. Se a crise transbordar para outros países, teremos um incêndio generalizado, impossível de controlar. Todos sairão queimados se a crise síria se espalhar para os países vizinhos.

euronews: E quem seriam os principais responsáveis por esse incêndio?

AAS: Com as ações que têm sido levadas a cabo pelo regime sionista…

euronews: Que, para sermos justos, eles têm negado até agora, a execução do ataque…

AAS: Eles negam? Não, eles admitiram ter levado a cabo o ataque aéreo…

euronews: Não é a informação que as fontes oficiais nos deram…

AAS: Nós baseamo-nos nas informações que nos chegam do governo sírio, e nas nossas próprias fontes. Até a ONU se pronunciou, o secretário-geral. Se não tivesse acontecido, o secretário-geral da ONU não tinha tomado uma posição.

euronews: Falemos da Síria. Se Assad cair, o que é desejado por muita gente nos países ocidentais, o que poderá acontecer?

AAS: Isso provocaria, seguramente, um vácuo. E se houver um vácuo na Síria, a integridade do país fica em risco. Nada garante que o país não se vai fragmentar. Isso seria uma fonte de instabilidade na região. Uma instabilidade que se poderia propagar até à Ásia Central. Consideramos que a única forma de chegar a uma resolução é governo e oposição sentarem-se à mesma mesa, e enfrentarem juntos o problema, com a comunidade síria, com o povo sírio. Por outras palavras, a resolução será sempre síria. Não podemos esperar que seja imposta uma receita-padrão por outros países que não a Síria. Isso não vai resultar.

euronews: O vice-presidente americano, Joe Biden, afirmou que os Estados Unidos mantêm a proposta de negociar diretamente com o Irão. Encaram seriamente essa possibilidade?

AAS: Sim, no que toca a negociações sobre determinados temas. Desta vez, diria que não há limites estabelecidos no que respeita às negociações sobre o nuclear…

euronews: Ia falar-lhe sobre esses limites…

AAS: Mas essas negociações só podem acontecer quando tivermos garantias suficientes da honestidade das intenções americanas, porque as experiências anteriores mostraram exatamente o contrário.

euronews: Foi por isso que decidiram continuar com o programa de enriquecimento de urânio? Se nos colocarmos na posição do Irão, se especularmos sobre um eventual plano de criar armamento nuclear e se ouvirmos as palavras do secretário da Defesa americano, Chuck Hagal, que diz que todos os cenários estão em cima da mesa, incluindo o militar… Israel pode ter armas nucleares, os Estados Unidos estão ativos na região… Seguir este caminho é, talvez, para o Irão, uma questão de sobrevivência…

AAS: Desde o início que afirmamos que, por várias razões, o armamento nuclear não faz parte da nossa doutrina de defesa. Primeiro, por causa dos nossos princípios e convicções religiosas. Depois, porque o nosso líder lançou uma fatwa, um decreto religioso, que proíbe o desenvolvimento de armas nucleares no nosso país. Outro aspeto ainda: se olharmos para a questão de um ponto de vista pragmático, supondo, por exemplo, que o Irão desenvolve uma, duas, até três ou quatro bombas rudimentares, será que pode confrontar um país como os Estados Unidos, será que pode ombrear com qualquer outro país que desenvolve armas nucleares há décadas? É óbvio que não nos deixamos intimidar porque não temos qualquer problema com os países vizinhos.

euronews: Muitos especialistas salientam, nos media ocidentais e não só, que a política externa do Irão visa a erradicação de Israel. É possível dizer-nos inequivocamente que isto é completamente falso?

AAS: Nós não reconhecemos o Estado de Israel, mas nunca falamos em erradicar um povo. O que dizemos é que, no que toca à utilização de armas de destruição maciça, é um direito que nos recusamos a ter.

euronews: Encara a hipótese de se candidatar à presidência do Irão?

AAS: Não, não tenho perfil para esse cargo.

euronews: Então não o vamos ver nas próximas eleições?

AAS: Não o posso dizer, depende se o futuro presidente contar comigo ou não.

EURONEWS

janeiro 18, 2013

Documentário transmitido por TV Iraniana desmascara espiões norte-americanos

Arquivado em: WordPress — Tags:, , , — Humberto @ 5:01 pm

A TV iraniana exibiu o documentário Caçador na cilada, no qual Matti Valuk, cidadão da Eslováquia, que trabalhou noIrã, fala sobre como ele foi contratado pela CIA para a recolha de informações sobre o programa nuclear e altas tecnologias na República Islâmica.
O eslovaco confessou que tinha contatado com um oficial da CIA encarregado de infiltrar-se na elite iraniana para colher informações sobre as realizações do país no domínio das altas tecnologias. Valuk declarou também que agentes da CIA expressavam o desejo de liquidar alguns cientistas iranianos. ( VOZ DA RUSSIA )

outubro 13, 2012

A narrativa ocidental sobre a Síria está em desintegração, Por Tony Cartalucci

Tony Cartalucci: a propaganda e a agressão terrorista na Síria
Há duas semanas, o escritor norte-americano Tony Cartalucci concedeu entrevista ao jornalista iraniano Kourosh Ziabari, da Iran Review.
Cartalucci, em parceria com o também norte-americano Nile Bowie, do Centre for Research on Globalization, é autor do livro mais importante sobre os acontecimentos atuais na Síria, recentemente publicado: “Subverting Syria: How CIA Contra Gangs and NGO’s Manufacture, Mislabel and Market Mass Murder” (Progressive Press, setembro/2012).
O que apresentamos ao leitor nesta página são extratos dessa entrevista de Cartalucci. A íntegra pode ser encontrada em seu site, Land Destroyer Report.
C.L.
HORA DO POVO
P: Você tem escrito extensivamente sobre a perturbação na Síria. Os opositores do governo do presidente Assad afirmam que este recorreu à violência e matou muitos manifestantes civis; Damasco afirma que certos países ocidentais estão fornecendo armas e dinheiro aos insurgentes.
Tony Cartalucci: A violência começou com as chamadas manifestações. Havia, sem dúvida, manifestantes bem intencionados nas ruas. Infelizmente, muitas das organizações que os reuniram tinham intenções sinistras. Atos de vandalismo, incêndios e assaltos, foram relatados pelas próprias agências de notícias ocidentais desde março de 2011. Necessariamente, isso traria as forças de segurança armadas para as ruas, como em qualquer país do mundo – foi o caso em Los Angeles, durante os tumultos de 1992. Em Los Angeles, a presença esmagadora de milhares de soldados da Guarda Nacional e de Fuzileiros Navais suprimiu a violência em poucos dias. Mas, no total, 53 pessoas morreram devido à violência.
A diferença na Síria é que o tumulto foi concebido para ser constante e cada vez mais violento. Para iniciar esse ciclo de violência crescente, grupos externos começaram a alvejar manifestantes inocentes, bem como forças de segurança encarregadas de fiscalizar os manifestantes. Esses “pistoleiros misteriosos”, que disparavam dos telhados, foram relatados não somente por responsáveis do governo sírio, como também pelos manifestantes e espectadores. O objetivo era radicalizar os manifestantes e justificar o aumento da violência – e o seu apoio subsequente pelos patrocinadores ocidentais.
Os EUA, Qatar, Arábia Saudita e Turquia, todos, admitiram sem rodeios esse apoio com financiamento, logística e armamento. O que não é admitido é que forças de operações especiais da OTAN e países do Golfo Pérsico estão dentro da Síria, juntamente com suas respectivas agências de inteligência.
Esse ambiente tático era exatamente o que o ocidente procurava e era o objetivo da violência encoberta no princípio de 2011, bem como o aumento gradual do volume de armas e combatentes enviados para o cenário da crise.

P.: O recente relatório da ONU sobre a Síria, publicado quando Kofi Annan era o enviado da ONU e da Liga Árabe à Síria, foi produzido por um certo número de pessoas que têm atitudes neoconservadoras e estavam aliadas às monarquias reaccionárias do Golfo Pérsico. Quem selecionou essas pessoas para elaborarem relatórios sobre a Síria?
Tony Cartalucci: Representantes de interesses corporativo-financeiros ocidentais permeiam toda a ONU. O próprio Kofi Annan é administrador (trustee) do International Crisis Group, financiado pela Fortune 500, e membro do JP Morgan International Council, juntamente com muitos dos próprios maquinadores da atual perturbação da Síria.
Além disso, um relatório de 2011 do Conselho de Direitos Humanos da ONU e o recente (agosto de 2012) relatório do “painel de peritos” sobre a Síria foram compilados por uma comissão encabeçada por Karen Koning Abu Zayd [diplomata americana], diretora do Middle East Policy Council, com sede em Washington.
No conselho de diretores da Sra. Abu Zayd estão a Exxon, o Saudi Bin Laden Group, antigos embaixadores junto a membros do (P)GCC [(Persian) Gulf Cooperation Council: Arábia Saudita, Bahrein, Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Omã], a CIA, os militares norte-americanos e representantes associados dos interesses da Al Jazeera, Boeing, Chevron e muitas mais.
Essas pessoas são “selecionadas” pelos membros da ONU que dominam os seus vários conselhos – e, naturalmente, pela coleção de interesses corporativo-financeiros que domina cada um desses membros. As maiores corporações sobre a Terra, emanando de Wall Street e Londres, acumulam várias iniciativas com as suas próprias pessoas, minando, consequentemente, a credibilidade e a autoridade da ONU.
Claramente, não só existe um imenso conflito de interesses com as nomeações de Kofi Annan ou Karen Koning Abu Zayd, como enormes incongruências. Quanto ao mais recente relatório da ONU sobre “crimes de guerra” [supostamente] executados pelo governo sírio, somos mais uma vez remetidos a “entrevistas”, muitas das quais não foram sequer efetuadas dentro da Síria, mas em Genebra, na Suíça. Quem são os entrevistados? Opositores do governo, alegados desertores – e assim por diante.
Não é que entrevistas como essas não tenham qualquer valor. Contudo, só entrevistas não fazem um processo ["case"]. Elas constituem um ponto de partida para uma investigação real, uma investigação que a comissão da sra. Abu Zayd deixou de efetuar. O resultado das suas “entrevistas” é um relatório que tem apenas valor de propaganda, propaganda imediatamente capitalizada pelo ocidente, e que continuará a ser citada, para efeitos dramáticos, até a performance seguinte da sra. Abu Zayd.

P.: A reunião do Movimento dos Países Não-Alinhados acaba de ser concluída em Teerã e representantes de alto nível de 120 estados membros, bem como o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, compareceram ao evento. Qual o seu ponto de vista quanto aos esforços feitos por Israel e EUA para minar a cúpula e dissuadir líderes mundiais e Ban Ki-moon de comparecerem?
Tony Cartalucci: É claro que toda a narrativa ocidental a respeito da Síria está se desintegrando. O uso de Israel para tentar “envergonhar” Ban Ki-moon por comparecer à conferência dos países não-alinhados cheira a desespero. A ideia é minar tanto o Movimento dos Países Não-Alinhados como os seus membros principais, mais especificamente, Irã, Rússia e China, que se opõem firmemente aos esforços para dividir e destruir a Síria. Também isto parece ser uma estratégia perdedora para o ocidente.
Por exemplo: a última votação na Assembleia-Geral da ONU sobre a Síria ocorreu com alguns resultados significativos. Um número crescente de países começa a abster-se ou ignorar votos sobre resoluções propostas pelo ocidente e levadas através do (P)GCC [Arábia Saudita, Bahrein, Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Omã].
Isto inclui a Índia, que pode agora estar percebendo que os EUA tem apenas interesses, não amigos, e que a desestabilização que a Síria hoje sofre pode facilmente ocorrer sobre qualquer das fronteiras indianas, bem como, profundamente, dentro do país.

P: Alguns comentaristas políticos dizem que o ataque sobre a Síria será um prelúdio para um ataque militar total contra o Irã. Como vê isso?
Tony Cartalucci: Comentaristas dizem isso precisamente porque está escrito há quase 10 anos em documentos sobre a política dos EUA. Citando alguns exemplos: há o artigo de Seymour Hersh, de 2007, no New Yorker, intitulado “The Redirection”. A conclusão de Hersh, de que os EUA estavam tentando minar a Síria para seguir minando e executando uma mudança de regime no Irã, não foi deduzida por ele próprio, era uma política clara que ele tinha ouvido de membros da administração Bush; uma política que, já naquela época, começara a ser levada à ação.
Em 2009, no relatório “Which Path to Persia?”, da Brookings Institution, a Síria é, mais uma vez, mencionada como um fator que deve ser neutralizado, antes de se passar ao Irã.
Além disso, um interessante tema recorrente no relatório “Which Path to Persia?”, da Brookings Institution, é como os EUA podem atrair o Irã para um conflito armado. A destruição da Síria parece ser um meio potencial para conseguir isso.

P: Num de seus artigos, você destacava alguns fatos auto-censurados e verdades que os meios de comunicação ocidentais “de referência” ocultam sobre a Arábia Saudita, incluindo o fato das mulheres serem proibidas de dirigir; que a mais famosa organização terrorista do mundo, a Al-Qaeda, é um aliado furtivo do governo saudita; que os prisioneiros políticos são brutalmente torturados, etc. Contudo, os Estados Unidos, que pregam constantemente direitos humanos e valores da democracia ocidental a outros países, nunca protestaram contra estas flagrantes violações de direitos humanos naquela nação árabe. Por quê?
Tony Cartalucci: Interesses corporativo-financeiros nos EUA gastam uma exorbitante quantia de dinheiro e tempo investindo em ONGs que promovem “direitos humanos”. Não porque acreditem em direitos humanos, mas porque é um ponto de alavancagem política conveniente, quando tentam mobilizar a opinião pública contra seus adversários geopolíticos. A Amnistia Internacional, o Human Rights Watch, a Freedom House, a National Endowment for Democracy e muitas mais são todas financiadas e encabeçadas por alguns dos mais notórios advogados a favor da guerra e de atrocidades.
Consequentemente, esse ponto de alavancagem política é utilizado somente quando interesses geopolíticos estão em causa, ao passo que se forma um “buraco negro midiático” em torno de violadores de direitos humanos notórios como a Arábia Saudita, que atualmente serve e está entrelaçada a interesses norte-americanos.
A chantagem dos “direitos humanos”, mantida pelo Departamento de Estado dos EUA, é não só uma forma de extorsão política como também mina a defesa real dos direitos humanos.
A perseguição de africanos [negros] na Líbia, particularmente o esvaziamento de toda a cidade de Tawarga, exemplifica isto melhor do que qualquer outro exemplo recente. Aqui, o Refugees International, financiado pela Fortune 500, registrou as atrocidades verificadas em Tawarga e, ao invés de utilizar a sua imensa influência para fazer manchetes noticiosas sobre isso, simplesmente publicou um vídeo no You Tube que só foi visto umas poucas centenas de vezes. Por quê? Porque os que cometeram as atrocidades fazem parte do governo de Tripoli apoiado pela OTAN.
O mesmo se pode dizer do apoio norte-americano ao terrorismo patrocinado pelo Estado. Objeções morais quanto a tais tácticas são apenas para consumo público.

P: Em outro artigo, você afirmou que a BBC havia acabado de receber uma considerável quantia de dinheiro do Congresso dos EUA para lançar ataques midiáticos a países independentes e não alinhados.
Tony Cartalucci: A BBC, bem como uma miríade de outras agências de notícias e ONGs pseudo-noticiosas, são todas subscritoras e representantes dos interesses corporativo-financeiros do ocidente. Interesses poderosos comprando os meios de comunicação para controlar a percepção pública, é tema recorrente através da história da imprensa e, agora, do rádio e TV.
Esses interesses corporativo-financeiros, muitas companhias habituais na Fortune 500, financiam os think-tanks que produzem as pautas de política para os noticiários. Estes são disseminados para políticos e para as mesas das grandes redes corporativas de notícias.
Assim, é claro que esses interesses corporativo-financeiros procuram minar e eliminar aqueles que se opõem à sua hegemonia geopolítica-econômica global, utilizando as empresas de mídia que possuem para difundir a sua propaganda. A BBC é culpada de muitos incidentes graves de fraude absoluta e deturpação, mas é a sua dissimulação diária e muito persistente que gradualmente envenena a percepção de audiências ocidentais contra países como a Síria e o Irã.
A consciência crescente do público, e o êxito dos meios de comunicação alternativos em desafiar o monopólio da mídia, corroeu a efetividade dessa propaganda. O maior impulso para a guerra é a ignorância pública. Organizações como a BBC trabalham incessantemente para manter e agravar essa ignorância. No entanto, como a ignorância se desvanece na era da informação, assim ocorre também com as perspectivas dos belicistas habituais.

P: O que pensa do assassinato de cientistas nucleares do Irã? As famílias das vítimas acabam de abrir um processo contra a Mossad de Israel, o MI6 do Reino Unido e a CIA dos EUA pelo seu possível papel nessas mortes. Qual é o seu ponto de vista?
Tony Cartalucci: Os EUA e Israel admitiram tacitamente que estavam por trás desses assassinatos. Tal como os duplos padrões do ocidente quanto a direitos humanos, a sua política sobre o terrorismo patrocinado pelo estado é determinada pela conveniência e o oportunismo. Por outras palavras, os EUA estão utilizando terroristas contra os seus inimigos, enquanto os acusam, em muitos casos, de apoiarem os próprios grupos que [os EUA] armaram e financiaram.
Parece que as leis nos EUA e por toda a Europa são vestígios de uma era em que a regra da lei, ou pelo menos uma aparência disso, prevaleciam. Esses dias estão ultrapassados. O que é certo é que a atual política externa e agenda do ocidente é insana em relação à aprovação da sua população e a qualquer senso de legitimidade.
18/Setembro/2012

( Uma versão mais completa do texto acima pode ser encontrado em RESISTIR.INFO sob o mesmo título deste post, pelo simples motivo de que é o título original e este blog tomou emprestado )

LEIA TAMBÉM:
A Turquia mentiu para responsabilizar a Síria pela morte de civis - VOLTAIRENET

julho 25, 2012

“Arábia Saudita, pior ditadura teocrática do mundo, aquela que faz o Irã parecer uma democracia escandinava, continua firme com o apoio irrestrito dos defensores ocidentais” ( Vladimir Safatle )

Ensaio geral
A chamada Primavera Árabe foi, para muitos, o início de um movimento de reafirmação da força de transformação do campo político. Ela teria sido também a prova de que as sociedades árabes não estavam imersas em alguma forma de arcaísmo teológico antimodernizador que se manifestaria através de tendências latentes de constituição de sociedades teocráticas. Como se eles estivessem fadados a viver entre regimes laicos ditatoriais e sociedades que usam a religião como motor cego de mobilização popular.
No entanto, a análise da situação atual do mundo árabe pode parecer desoladora. Por enquanto, quatro países tiveram mudanças de regime: Tunísia, Líbia, Egito e Iêmen. Um quinto está em via de ver a sua ditadura cair, a Síria. Outro que teve grandes manifestações por mudanças, o Bahrein, está cirurgicamente longe dos noticiários internacionais.
Aliado importante do mundo ocidental, sede de uma base militar dos EUA, o Bahrein foi invadido por tropas sauditas a fim de garantir a perpetuação de uma monarquia absoluta. Nada disso causou indignação na opinião pública internacional com sua sensibilidade democrática seletiva e sua tendência a cobrar respeito aos direitos humanos apenas dos inimigos.
Outros países que tiveram manifestações, como o Marrocos, parecem agora imunes a revoltas. Da mesma forma, a pior ditadura teocrática do mundo, aquela que faz o Irã parecer uma democracia escandinava, continua firme com o apoio irrestrito dos defensores ocidentais da democracia. Na verdade, a Arábia Saudita continua sendo um foco de desestabilização de todo movimento democrático na região, já que financia generosamente movimentos salafitas pelo mundo.
Se levarmos tudo isso em conta e olharmos para os países onde a Primavera Árabe desabrochou, teremos a impressão de que o mundo árabe, de fato, tem uma tendência subterrânea à regressão. Na Tunísia, a queda do governo Ben Ali colocou no poder um partido islâmico, o Ennahda. Setores da sociedade tunisiana lutam diariamente para o país não regredir em matéria de laicidade e liberdade de expressão. Grupos salafistas invadem exposições de artes para destruir obras que julgam ofensivas aos preceitos islâmicos, além de paralisar universidades por exigir o direito de mulheres frequentarem aulas de burqa.
No Egito, a Irmandade Muçulmana lidera o governo e a frente que ainda luta por tirar os militares do poder. Embora já tenha dito não querer islamizar a sociedade egípcia, é fato que isso não seria necessário: o Egito já é um país onde é possível processar um ator por ele ter representado um papel ofensivo ao Islã, onde cristãos não podem ser governadores de estado ou reitores de universidade e onde tomar uma cerveja em um bar não é exatamente algo simples.
Tal situação nos leva a duas reflexões. Primeira, o que vimos em 2011 foi um ensaio geral. Os grupos que deram início à sequência da Primavera Árabe não eram islâmicos, mas jovens diplomados desempregados e sindicalistas. No Egito, por exemplo, foi o Movimento 6 de abril, composto por jovens das mais variadas tendências, a iniciar o processo de ocupação da Praça Tahir. Esses grupos ainda não encontraram uma forma institucional que os fortaleça. Eles não têm unidade. Na ausência disto, o grupo mais organizado e disciplinado é, no caso, os muçulmanos, que conduz o processo.
A história conhece vários exemplos de revoluções traídas. Tais exemplos não podem ser lidos como meros fracassos, são movimentos duros de compreensão de limites de ação política. A espontaneidade impressionante da Primavera Árabe demonstrou sua força e sua fraqueza. Sua força fica clara quando a revolução ganha. Sua fraqueza aparece quando os embates em torno do saldo da revolução entram em cena.
Por outro lado, é inegável que a força dos movimentos muçulmanos vem principalmente do sentimento de humilhação que os povos árabes nutrem em relação ao Ocidente. Há um ressentimento profundo vindo de promessas de modernização não cumpridas, continuidade de sistemas de influência colonial e xenofobia internacional contra os árabes, muitas vezes tratados implicitamente como “povo terrorista”. Os muçulmanos sabem instrumentalizar bem tal afeto, dando a esses povos um sentimento de orgulho.
A única maneira de quebrar tal força viria da capacidade de setores dos países árabes em encontrar, dentro de sua própria tradição, correntes que constituam promessas de formas de vida distantes dos preceitos religiosos do islamismo conservador. Isso passa por saber explorar de maneira mais radical o caráter liberal de várias tradições do nacionalismo árabe. A Primavera Árabe aparece como a abertura de uma sequência imprevisível. E a maneira mais certa de garantir o pior é deixando-se tragar pelo imediatismo do derrotismo. ( CARTA CAPITAL )

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