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setembro 12, 2013

Depoimento do coronel Élber contra a tortura, Por Jasson de Oliveira Andade


Tortura-Pau-de-Arara - FOTO

O escritor Jean Paul Sartre disse: “A tortura não é desumana; é simplesmente ignóbil, crapulosa, cometido por homens e que os demais homens podem e devem reprimir”. Neste artigo, revelarei um militar que reprimiu ou pelo menos tentou reprimir a tortura na Ditadura. Refiro-me ao coronel do Exército Élber de Mello Henriques (1918-2005), ex-combatente da FEB. Em 3/11/1999, ele foi entrevistado pela jornalista Consuelo Dieguez para a revista VEJA. O título da matéria: Eu vi a tortura. Este impressionante depoimento é que vamos revelar uma parte ( ocupou três páginas da revista ).

Ao ser perguntado se achava aceitável a tortura “até certo ponto”, o coronel Élber respondeu: “Não admito nenhuma forma de tortura. A tortura é um meio extremo de obter de determinada pessoa a informação que ela pode estar querendo ocultar, mas não necessariamente essa informação será a verdade. Um dia um parente meu disse que se o torturassem ele diria que matou até a mãe dele. Digo isso para mostrar o pavor que a tortura causa. Torcer o braço, apagar cigarro no peito, dar choques nos testículos e na vagina, dar batidas com a palma da mão aberta nos tímpanos. Tudo isso cria uma tal depressão e um terror no indivíduo que ele confessa até coisa que não sabe (sic). Em termos de investigação, pode até ser contraproducente”.

Adiante, o coronel Élber fez essa estarrecedora revelação: “Um dia pedi para ver outro preso político que eu teria que interrogar. O nome dele era Roberto Cieto. O oficial do dia me levou até ele. Não esqueço até hoje o que vi. O homem estava pendurado num pau-de-arara, totalmente destruído. Era uma coisa de dar dó. Ele gemia, urinava, defecava. Não pude falar com ele porque estava fora de si. Isso foi numa sexta-feira de setembro de 1969. Pedi então que o tirassem dali, porque eu iria interrogá-lo na segunda-feira. Quando voltei ao quartel, na manhã de segunda-feira, mandei que trouxessem o preso. A resposta foi que ele havia se suicidado (sic). Duvidei da versão e pedi para ver o corpo. Então, me disseram que o preso já fora enterrado. Isso me revoltou. Saí do quartel e fui ao general Carlos Alberto Cabral Ribeiro (já falecido), que era chefe do Estado Maior do I Exército. Contei o que estava ocorrendo. Ele quis um documento escrito. Pedi um datilógrafo, sentei-me ao lado dele e ditei tudo o que tinha visto. (…) Dei o nome dos torturadores e exigi punição. Nenhum foi punido (sic)”.

Outra revelação do Coronel: “Estou contando essas histórias com muita tristeza, porque acredito que 99% dos oficiais do Exército não aceitavam a tortura. Mas em toda organização, ainda mais numa tão numerosa como é o Exército, existem sádicos. Esses facínoras aproveitaram a oportunidade para exercer seu sadismo cruel”.
Ao ser perguntado sobre o motivo que ele não havia denunciado a tortura naquela época, o coronel Élber encerrou assim a sua entrevista à VEJA: “Não contei na época porque o clima era de muito terror (sic) e não haveria espaço para divulgação por causa da censura (sic). Mas fiz o que tinha de ser feito: denunciei o que vi aos meus superiores no Exército”.

Depois desse impressionante depoimento e também pelo arrependimento do O GLOBO de ter apoiado o Golpe de 64 ( o jornal reconheceu que errou ), conforme divulgou no final de agosto de 2013 ( o Jornal Nacional, da TVGlobo, divulgou em 2 de setembro ), só nos resta dizer: Ditadura Nunca Mais.

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu
Setembro de 2013

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