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julho 8, 2013

A enojante hipocrisia da imprensa brasileira, Por Rafael Patto

Filed under: WordPress — Tags:, , , , , , , — Humberto @ 11:41 am

 

Via FACEBOOK

A matéria da revista Veja dessa semana, sobre o plebiscito, é um verdadeiro soco no estômago de quem tem algum apreço pela democracia. Mais uma vez essa revista que é um detrito sólido de maré baixa apela para os preconceitos de classe mais rançosos e anacrônicos para atentar contra os direitos políticos da população mais pobre do país.

Sugerir que quem recebe assistência do governo deveria ser impedido de votar é um crime e não pode ser tolerado!!!

É como eu digo: o preconceito não consegue ser preconceituoso sem ser hipócrita.

Essa turma da Casa Grande adora dizer que o voto que o pobre dedica ao PT é voto de cabresto. Aqui no Brasil é assim: pobre, quando vota em governo que o favorece, vota influenciado, de maneira acrítica. Mas rico não! Rico pode votar em governo que o favoreça que será sempre um voto consciente.

Ora, todos têm o direito de votar naqueles que supostamente representem melhor os seus interesses. Esse é o primeiro estágio da democracia. O segundo é quando as pessoas – além de pensar nos seus próprios interesses – conseguem pensar também no interesse coletivo.

Nesse segundo estágio, passa a ser importante que o candidato escolhido, além de ser bom para mim, possa ser bom para a maioria, ou pelo menos não seja ruim para os demais. Um Estado e uma sociedade não podem esperar, de alguém a quem foi negado o acesso à educação, esse segundo estágio. Até porque essa pessoa não vivencia a democracia, na medida em que ela foi assaltada em seu direito básico de se educar, e, por isso, foi condenada à margem da cidadania.

Já a elite, os herdeiros da Casa Grande, esses sim disporiam de meios para já terem alcançado o segundo estágio do pensamento democrático, e, se suas práticas não confirmam isso, é porque seus vícios não os permitem superar sua histórica falha de caráter. Sempre procuram votar naqueles que se comprometem em defender seus interesses financeiros, corporativos e empresariais, em detrimento da imensa maioria da população do país. E isso, por uma razão muito simples: a elite brasileira acha que esse direito de votar em quem representa seus interesses é só dela. Os pobres não podem fazer isso.

Infelizmente, vivemos num país em que, pelos vícios que sempre foram praticados por essa mesma elite no exercício do poder, a distância que separa ricos e pobres é abissal. Daí que, evidentemente, as necessidades de uns e de outros sejam também tão distintas. E é evidente também que, por obra do atraso a que nos condenou o patrimonialismo das elites econômicas que governaram esse país desde a chegada dos portugueses até o dia 31 de dezembro de 2002 segundo suas próprias vontades, as necessidades dos mais pobres se relacionem a questões mais básicas da sobrevivência humana, como, por exemplo, fazer pelo menos uma refeição por dia, o que determina uma escolha mais pragmática na hora de votar.

Mais pragmática, mas não menos legítima. Afinal de contas, pensando do outro lado, a escolha por um governante que defenderá subsídios ao setor produtivo ou uma política econômica favorável ao lucro do setor financeiro não deixa de conter elevadas doses de pragmatismo.

Chega a ser torpe o argumento de que, como o pobre vota pelo prato de comida, seu voto seria mais ingênuo. Pois bem, o pobre vota por um prato de comida porque o problema que se coloca diante dele é precisamente a falta de comida – e a vergonha por termos chegado ao século XXI tendo milhões de brasileiros famintos vivendo num país que exporta alimento para o mundo inteiro não é para ser sentida pelos que têm fome, mas justamente por aqueles que sempre mandaram e desmandaram e nunca fizeram nada para solucionar esse problema, o que é prova irrefutável da falta de humanidade e moralidade dessa gente.

Supondo que os critérios que determinam a escolha dos ricos pelos seus candidatos sejam mais racionais e que se proceda a uma engenharia cognitiva mais elaborada para que se extraiam conclusões mais ponderadas ou talvez mais sofisticadas acerca de em quem se deve votar, os ricos acreditam piamente que seu voto é mais qualificado que o dos pobres. Ainda mais porque são mais escolarizados. Será que eles acham que um miserável, que nunca pôde contar com o Estado para lhe assegurar os direitos mais elementares à sobrevivência, deveria mesmo pensar como os riquinhos do Sul-Maravilha?

Seria interessantíssimo encontrar um caboclo do Vale do Jequitinhonha três meses antes das eleições, sentado no chão batido de seu cafofo com paredes de pau-a-pique, descansando da caminhada de duas oras para buscar água e um tanto de lenha para esquentar a sopa de fubá que repartirá entre si, esposa e filhos, a pensar nas conveniências de se votar no candidato A ou B, em função das projeções da bolsa de mercados futuros. Faça-me o favor!

Esse caboclo estará certíssimo em escolher aquele que criou condições para que ele pudesse ter com menos dificuldades aquilo que era sua necessidade mais urgente: comida! Como disse a professora Tania Bacelar, da UFPE, “esse não é o voto da submissão, da desinformação ou da ignorância. É o voto da autoconfiança recuperada e da esperança na consolidação dos avanços alcançados”

Mas a elite que não suporta ver o Estado brasileiro empregando dinheiro na alimentação da gente pobre – essa elite que se acostumou com a idéia de que o Estado existe para ela e só para ela, depois de ter passado cinco séculos sugando toda a riqueza da nação só para si – afirma que esse voto do pobre é voto de cabresto, ou, agora, como menciona Veja, um voto dado numa situação de “conflito de interesse” (olha que lindeza!).

Bom, nesse caso, vamos combinar que empresário da FIESP quando vota no PSDB também está praticando voto de cabresto. A diferença é que o pobre que vota no PT o faz para ter direito à cidadania. O rico que vota no psdb o faz para saquear o país contando com a conivência do governo. A questão é que eles fogem dessa discussão porque ela deságua precisamente na constatação da necessidade urgente de uma Reforma Política profunda, que acabe de uma vez por todas com o financiamento privado das campanhas eleitorais, o que, afinal de contas, é a porta de entrada de toda a corrupção do poder político pelo capital.

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