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julho 2, 2013

( Mundo produz alimentos suficientes mas ) Uma criança morre de fome a cada 5 segundos


Entrevista
JEAN ZIEGLER

Uma criança morre de fome a cada 5 segundos

Existem alimentos para suprir quase o dobro da população mundial com as calorias diárias necessárias, mas o controle de multinacionais e a especulação financeira dificultam o acesso

Por Aray Nabuco, Frédi Vasconcelos e Lilian Primi

O sociólogo suíço Jean Ziegler veio ao Brasil para o lançamento da edição de seu livro Destruição em Massa Geopolítica da Fome, da Cortez Editora. Ele, que foi relator especial da ONU sobre direito à alimentação, mostra na obra o absurdo de um mundo que produz alimentos suficientes para alimentar o dobro da população mundial com as calorias diárias necessárias e tem quase 1 bilhão de pessoas passando fome por con­ta da falta de acesso, da especulação finan­ceira com alimentos e do controle da produ­ção mundial de alimentos de base e sementes por seis multinacionais, entre outros motivos.
Nesta entrevista exclusiva a Caros Amigos, Ziegler também falou que a fome vem aumen­tando na maioria dos países, com exceção de Brasil e China, que contam com programas como a reforma agrária promovida no país asiático, mas que é necessário fazer muito mais para evi­tar a destruição em massa de pessoas que des­creve no livro. Veja abaixo os principais trechos.

Caros Amigos – Há dois grandes movimentos em curso na área de produção de alimentos – a trans­ferência de tecnologia da Embrapa de produção no cerrado para a África e a tentativa de diversificar a fonte de fosfato para a fabricação de adubos. Esses movimentos ajudam a acabar com o quadro da fome no mundo?
Jean Ziegler – Ajudam, ajudam. Mas temos o último relatório anual da FAO (agência da ONU para alimentação e agricultura) sobre a situação da fome no mundo. As cifras gerais são terríveis. A fome aumenta mundialmente, com exceção do Brasil e da China. A cada cinco segun­dos, uma criança com menos de 10 anos morre de fome, segundo da­dos do ano passado, 57 mil pes­soas morrem ao dia. E 1 bilhão de pessoas, dos 7 bilhões que somos, está sofrendo de subnutrição grave permanentemente, com mutilações.
Não têm vida de família nem de traba­lho, são destruídas pela subalimentação permanente. 0 mesmo relatório da FAO, que tem muitos detalhes de cada país, diz que a agricultura mundial, no atual estágio de desenvolvimento, poderia alimentar normalmente 12 bi­lhões de pessoas com 2,2 mil calorias por adulto, em média.
Isso significa que hoje, pela primeira vez desde o início do milênio, não há mais falta ob­jetiva de alimentos. Uma criança que morre de fome neste instante em que falamos está sendo assassinada. 0 mundo viveu revoluções formi­dáveis, eletrônica, industrial e tecnológica, de aumento das forças produtivas da humanidade. Pela primeira vez na história, a fome não é mais problema de produção, porque o mundo tem es­toque, mas de falta de acesso.

Há pelo menos vinte anos se fala muito tam­bém sobre desperdício.
E continua. Cerca de 25% da produção mun­dial (de alimentos) se perdem no Hemisfério Sul porque não há silos. Há dois problemas dife­rentes. Nos países industrializados, existe muito desperdício doméstico. Nos supermercados da França as pessoas compram montanhas de ali­mentos a cada sábado e depois jogam metade fora porque perdem a validade. Outro problema é de estocagem. Na Nigéria, no Mali, os depó­sitos de alimentos têm infiltrações de água, há ratos e pragas. Nos países de Terceiro Mundo, 25% dos estoques são destruídos dentro dos si­los. É muito importante saber que vivemos uma situação crucial totalmente nova em que há ali­mento demais no mundo, mas a pirâmide das vitimas cresce. E a ordem social e a ordem eco­nômica canibal a causa da fome. Há um massa­cre. Não é um problema de produção, como foi no tempo de Josué de Castro (médico brasileiro que, em 1946, lançou o livro Geografia da Fome, no qual mostrava que a fome não era um pro­blema natural, mas sim das ações dos homens, de suas opções, da condução econômica que da­vam a seus países. NR)

O senhor fala em destruição em massa no seu livro, o que explica esse massacre?
São 13 milhões de brasileiros que passam fome hoje, metade do que era há vinte anos. E nesses 13 milhões há caboclos, africanos, des­cendentes de portugueses… Não é um grupo es­pecífico, mas todos. Por isso é massacre. Outro número: a humanidade perde 1% da sua popu­lação a cada ano. Isso significa que no ano pas­sado mais ou menos 70 milhões de pessoas par­tiram deste mundo pelas mais variadas causas, sendo que, dessas, 18,2 milhões morreram por causa da fome ou de suas consequências mais diretas, como as horríveis enfermidades vin­das da subalimentação, a kwashiorkor, a noma. A noma é terrí­vel. Corrói a face do doente. Essas doenças e a fome matam 18,2 mi­lhões de pessoas por ano.

Inclusive a fome faz as pessoas morrerem também de AIDS, não é?
Sim, porque a imunidade fica muito baixa. Esses são números oficiais da FAO, da ONU, da Unicef e que ninguém contesta. Nem os neo- liberais nem os marxistas, são totalmente fac­tuais. Então a fome no mundo hoje, quando o planeta transborda de alimentos, é de lon­ge a causa de mortalidade mais importante. E o escândalo de nosso tempo. Há uma dife­rença de interpretação. Os neoliberais – Ban­co Mundial, Organização Mundial do Comér­cio (OMC), Fundo Monetário (FMI), governo dos Estados Unidos – dizem “é terrível essa situação” – e não é um argumento cínico – “mas a causa real é que o mercado mundial não é livre o suficiente”. “Se houvesse a libe­ralização dos movimentos de capitais, merca­dorias, serviços, patentes, se houvesse maior avanço nas privatizações, a fome diminuiria”. E é totalmente o contrário. A União Soviéti­ca implodiu em 1991 – há 20 anos – e naque­le momento uma pessoa em três no planeta vivia sob o regime comunista. A bipolarida- de da sociedade internacional era um fato. E o modo de produção capitalista era regio­nalmente isolado. Quando cai a União Sovié­tica, esse modo de produção capitalista con­quista o mundo rapidamente. Com instância reguladora central, que se concretiza nas bol­sas de valores. E em que o capital financei­ro se constitui em um incrível poder novo. É a ditadura mundial das oligarquias do ca­pital financeiro globalizado. Concretamente são as sociedades trans­continentais privadas.
No ano passado, as 500 maiores socie­dades transcontinen­tais detinham 52,8% do PIB mundial, segun­do o anuário do Banco Mundial. Eles escapam de todo controle social ou de governos, fun­cionam segundo um único princípio de or­ganização, que é a maximização do lucro no menor tempo possível. Essas multinacionais têm um poder no planeta que nenhum papa, imperador ou rei teve antes.

Esse grupo certamente inclui empresas da área de alimentos, como a Monsanto?
Sim, dez grupos controlavam, no ano passado, 85% de todos os alimentos negocia­dos no mercado mundial [ VER AQUI ]. Entre eles a Cargill, Bunge, Nestlé, Dreyfus Brothers, Archer (Daniels) Midland. A Cargill, que tem sede em Minnesota, detém 31,2% de todo o trigo comercializado no mundo. Controlar signifi­ca ter os meios de transporte, os silos para armazenar etc. Eles dominam a formação de preço, naturalmente, e decidem concre­tamente, a cada dia, quem vai comer e vi­ver neste planeta e quem vai passar fome. 0 problema é de acesso.

Esses alimentos “comercializados” são aqueles que se tornaram commodities?
Sim. O núcleo são os que chamamos alimen­tos de base: milho, arroz e trigo, que cobrem 65% do consumo mundial. A soja também, mas os mais importantes são esses três, que vão di­retamente para o consumo humano. A soja vira ração. Também a Cargill tem posição dominan­te na produção mundial de carne. Há centenas de abatedouros no mundo, ela tem toda a ca­deia. Sempre verticalmente organizada. Essas multinacionais têm uma organização vertical, da plantação de trigo até o consumidor final e controlam tudo.

São essas mesmas empresas que agora estão desenvolvendo os transgênicos…
Naturalmente. 0 relatório do Banco Mundial mostra a ditadura das 500 multinacionais que con­trolam tudo, as 500 mais importantes nas áreas de química, alimentos e bancos. Depois, setorial- mente, há uma monopolização extraordinária na produção de alimentos de base e na produção de sementes e adubos, como a Monsanto. São seis em­presas que dominam praticamente 90% do setor.

O senhor fala dessas empresas, que formam uma cadeia. Como a gente foge disso? Porque hoje, o que os liberais diriam, é que sem essas empresas não seria possível produzir alimentos para todos.
Isso é a guerra ideológica. Naturalmente é totalmente falso. Vamos discutir mais ampla­mente. Essas sociedades são muito eficientes. Elas dominam a formação dos preços no mer­cado mundial. Existe hoje 1,2 bilhão de pessoas no mundo, um sétimo da população mundial, que é extremamente pobre, que vive com 1,25 dólar por dia. Que vive nas favelas, não pro­duz e precisa comprar sua alimentação diária. Quando, por causa da especulação nas bolsas, o milho sobe, – e nos últimos dois anos ele su­biu 63%, a tonelada de trigo dobrou e o preço da tonelada de arroz das Filipinas subiu de 100 dólares para 1,2 mil nas favelas do mundo os preços explodem; nas favelas do mundo as mães não podem comprar.

Há alimento, mas as pessoas não têm renda para comprá-lo, é isso?
Não têm renda! E esse número de mais de 1 bilhão de pessoas é estável, não muda. Nos últimos anos, apenas Brasil e a China tiveram um formidável progresso. A fome é calculada de duas maneiras. Em número absoluto de víti­mas e pela porcentagem da população. No Bra­sil, em 20 anos (de 1990/91 a 2010/2012), as vítimas de fome baixaram de 23 milhões para 13 milhões. Em números absolutos, caíram 40,4%, o que é extraordinário e só comparável com a China, onde os famintos diminuíram de 254 milhões para 158 milhões. Uma baixa de 37,6%. Em 1991, no Brasil, ao menos 15% da população sofria de subalimentação grave e permanente, que conduz à morte próxima. Hoje são 7%, uma queda de 53,7%. Na China essa queda foi de 46,3%. Em todos os demais países a fome aumentou. No mundo, em 1992, 1 bilhão de pes­soas morreu por fome. Hoje, são 867 milhões.

Essa queda ocorre por causa do Brasil e da China?
Sim, mas aumenta novamente, por causa da especulação. Nesses vinte anos houve esse mo­mento novo da especulação, quando países en­tram em crise. Em 2008/2009, houve o que se chama de crise financeira, o banditismo bancá­rio internacional dominou as bolsas de valores. E depois em 2010, 2011 e 2012, os mais podero­sos migram dos mercados financeiros dominados para os mercados de matérias primas. De merca­dorias, energia e, especialmente, alimentos.
Devo dizer claramente que o que eles fazem é totalmente legal. São assassinos, porém agem dentro da lei. Porque utilizam todos os instru­mentos do mercado para realizar lucros incríveis. 0 Goldman Sachs oferece derivativos de açú­car, arroz, verduras. Há um relatório da Unctad (agência da ONU para o comércio e o desenvol­vimento) que diz que, nos dois últimos anos, o aumento dos preços no mercado mundial dos alimentos de base provocado pela espe­culação foi de 37%.

O senhor cita que o grande problema dos contratos de derivativos é que não precisa neces­sariamente entregar a mercadoria, nem produzi-la.
Sim, basta o papel. Compra um papel. A ins­tituição jurídica é o contrato a termo. Sempre houve isso nas commodities, um elemento espe­culativo. 0 contrato futuro entre um distribui­dor e o produtor é razoável. Se eu sou um pro­dutor de trigo na Argentina e tem o proprietário de uma cadeia imensa de padaria em Nova York precisando comprar, os dois combinam um pre­ço, que só será pago durante a safra. Com isso o produtor garante o valor do seu trigo em ní­veis razoáveis e o distribuidor fica seguro de que terá a matéria prima para trabalhar. Já o especulador não produz nem vende a mercado­ria. Eles fabricam papéis que são vendidos infi­nitamente. A mesma mercadoria pode ser ven­dida mais de 40 vezes.

É o especulador quem fica com o lucro?
Naturalmente. E isso poderia ser cortado. 0 Brasil é uma grande democracia. Todos os países mais importantes da Europa e Améri­ca do Norte são democracias. E numa demo­cracia não há impotência. Todas as bolsas, de Nova York, São Paulo, de Londres fun­cionam sob uma lei, seguem uma normativa. Uma lei nacional. Se os cidadãos se mobili­zam, exigem do Congresso que mude a lei… Basta um único artigo: “fica proibida a especulação com alimentos de base por empresas que não sejam produtores ou consumidores“. É plenamente possível.

Só retomando os números, o senhor diz que a fome caiu aqui e na China. No caso do Brasil, a gente pode identificar os programas de transferência de renda como o Bolsa Família ou mesmo o Fome Zero como uma das razões para isso? E na China, qual é a razão?
No Brasil, há duas explicações. A primeira é o crescimento do PIB e, a segunda, o Bolsa Família. Agora esses 13 milhões de seres hu­manos que vivem na pobreza não vão mudar muito. E difícil porque muitas dessas pessoas não têm sequer documentos e, portanto, não podem nem acessar o Bolsa Família. Para es­sas pessoas, em um país poderoso como o Bra­sil, não basta o Bolsa Família. São necessárias reformas estruturais, como a reforma agrá­ria; a promoção da economia de subsistência. Na China o que vem acontecendo é a reforma agrária. Teve uma primeira reforma feita por Mao Tsé-Tung, que criou as imensas fazendas coletivas do Estado. A segunda, que combate a fome, é o desmantelamento dessas gigantes­cas indústrias agríco­las estatais para dar a terra ao produtor. Como faz Cuba ago­ra, que distribuiu 1 milhão de hectares ao produtor. Isso re­solve o problema da fome porque quando você é dono de um sí­tio com a sua família não perde um segun­do, investe e trabalha, não vai destruir o solo, mas cuidar dele. 0 pequeno produtor tem uma grande competência e, quando ele é dono da terra, a produção aumenta.
A produtividade da agricultura familiar é muito mais alta. Não falo apenas do ponto de vista econômico, mas social também. A agri­cultura familiar não produz desemprego, não produz êxodo rural e acumula, a cada geração, competência produtiva. E o investimento pode ser no longo prazo. Há muitos indicadores que provam de forma completa que a agricul­tura familiar em toda parte do mundo é mais produtiva do que a industrial.

O senhor cita Josué de Castro e é importante porque esse trabalho mostra principalmente que a fome é resultado de uma política.
Antes foi da natureza. Hoje é uma política. Josué de Castro conta, no final de sua vida, du­rante o exílio na França, como começou a se in­teressar pelo problema da fome. Na sua juven­tude, foi médico psiquiatra em Recife, além de pediatra. Os seus pacientes reclamavam de de­pressão, todos eles pobres. E Castro descobriu que o problema não era mental, mas era a fome. Eles não comem e por isso são depressivos, são atacados pela loucura, são egoístas, destroem a família. O problema é a fome.

O que mudou desde então?
Antes de Josué de Castro até a segunda guer­ra mundial o que era dominante era a teoria de (Thomas) Malthus – a fome é uma espécie de seleção natural, necessária para diminuir a po­pulação mundial e que a pobreza é resultado da grande fertilidade das mulheres pobres. Essa ideia foi muito útil às classes dominantes, na­turalmente. Eles vêm a miséria que criam, mas dizem que essa miséria obedece a uma lei na­tural blá-blá-blá. Essa esquizofrenia foi justi­ficada por Malthus.
Mas Hitler acaba se tornando um aliado de Josué de Castro quando utiliza, na Europa, a fome para destruir os eslavos. Há documen­tos em que Hitler e seus seguidores se reúnem e decidem reduzir em 80 milhões as popula­ções eslavas na Europa do Leste para abrir es­paço para os coloni­zadores germânicos.
E, para isso, passa­ram a distribuir ali­mentos suficientes para uma dieta de apenas 800 calorias nos países ocupados, muito abaixo das 2,2 mil calorias necessárias. E uma política de genocídio.
Nos campos de prisioneiros, os mortos pela fome organizada foram muito mais numerosos do que pelo gás. Os europeus subitamente veem que a fome, que era um fenômeno da África, chega a eles e era organizada pela mão do ho­mem, não pela natureza. Nesse momento apare­ce o livro de Castro, A Geopolítica da Fome, que explica que a fome não é um fenômeno natu­ral, mas produzida politicamente pelos homens. Uma coincidência extraordinária, porque mes­mo o livro sendo brilhante, se a consciência co­letiva não recebe a mensagem, nada muda.
Então os governos vitoriosos reagem a essa evidência e se tornam aliados de Josué de Castro (Roosevelt, Churchil, etc.) pelos governos a dizer o que se devia fazer. A sua resposta, junto com outra, que foi convidado pelos governos a dizer o que se devia fazer. A sua resposta, junto com outras pessoas, deu apoio à criação não somente da ONU, mas de uma organização paralela, a FAO, fundada seis meses depois, para promover a produção ali­mentar, ajuda internacional ao pequeno agri­cultor e humanitária urgente. Josué de Castro foi o primeiro presidente da FAO. A primei­ra campanha internacional contra a fome, em 1946, foi iniciativa direta de Castro. Devia ter um monumento a ele em cada cidade do Brasil.

Como o senhor vê a FAO hoje, que está reco­mendando que os pobres se alimentem com in­setos?
É o século 21. 0 planeta transbordando de alimentos! E terrível. E uma confissão de impo­tência diante das multinacionais.

Mas há esperança em mudar a atual si­tuação? Qual é o cami­nho dessa esperança?
O caminho é constatar que nós, povos democráticos, temos todas as armas para democraticamen­te, pacificamente, quebrar essa ordem cani­bal do mundo. Proibir radicalmente a espe­culação mortífera nas bolsas das commodities agrícolas, exigir do FMI que perdoe as dívidas externas dos 50 países mais pobres, que os impede de investir em sua agricultura de sub­sistência. Só 3,8% dos campos africanos são irrigados, não há sementes selecionadas, não há adubos, os animais de tração são poucos, não há crédito agrícola, nada. E verdade que a produtividade em Níger e Mali é muito baixa. Em tempos normais – muito raro – a produti­vidade de trigo é de 600 a 700 kg/hectare. Na França é 10 mil quilos/hectare. Então o Ban­co Mundial vê e diz que é muito mais razoável dar essas terras às sociedades multinacionais.
Isso é roubo de terra puramente, um movi­mento muito forte financiado pelo Banco Mun­dial com essa argumentação. Que é verdade em parte. A produtividade é baixa mesmo, mas a conclusão é falsa. Porque o necessário é acabar com a dívida dos países pobres para que possam investir em agricultura de subsistência. Eles têm grande competência, construída em gerações e gerações, e podem fazer.

Falta dizer algo a respeito do caminho da esperança?
Sim. Os ministros de economia não caíram do céu. Podem ser trocados. Podemos forçar a Assembleia Geral do Fundo Monetário a votar ao menos uma vez não em prol dos bancos e financeiras, mas pelas crianças que morrem de fome nesses países. Não somente acabar com a dívida, mas criar mecanismos muito precisos de como fazer isso sem perder os recursos para a corrupção. Acaba a dívida e se convertem es­ses recursos em moeda interna para projetos de irrigação, escolas agrícolas controlados pela comunidade internacional. E também é preci­so acabar com o dumping agrícola. Em cada mercado africano é possível comprar fran­gos, frutas, verduras de toda parte da Europa por um terço do preço do produto equivalen­te local. Novamente, tecnicamente, democra­ticamente, é muito fácil resolver. A eleição de José Roberto Azevedo na Organização Mun­dial do Comércio, OMC, abre uma nova espe­rança, porque o Brasil, desde Fernando Henri­que, não apenas no governo petista, alavancou a luta contra os subsídios agrícolas de exporta­ção. Foi uma vitória muito importante porque a vitória do brasileiro é a vitória da proposta de acabar com os subsídios. E isso se deu por conta do prestígio moral do Brasil.

PUBLICADO NA REVISTA CAROS AMIGOS | Edição 195

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=15977

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