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junho 5, 2013

EUA deixaram para trás a guerra do Iraque – opção que os iraquianos não têm, Por John Pilger


A poeira no Iraque vai rolando pelas grandes estradas que são os dedos do deserto. Penetra nos seus olhos, no nariz e na garganta; faz um redemoinho nos mercados e nos pátios das escolas, consumindo as crianças que jogam bola; e carrega, de acordo com o Dr. Jawad Al-Ali, “as sementes da nossa morte”. Um especialista em câncer respeitado internacionalmente do hospital universitário Sadr em Basra, o Dr. Ali me disse isso em 1999, e hoje sua advertência é irrefutável. “Antes da Guerra do Golfo”, ele disse, “tínhamos dois ou três pacientes de câncer por mês. Agora nós temos de 30 a 35 morrendo todo mês. Nossos estudos indicam que entre 40% e 48% da população nesta área terá câncer: essa estimativa é para um período inicial de cinco anos; depois será pior. É quase metade da população. A maior parte da minha própria família padece dele, e não tínhamos antecedentes. É como Chernobyl aqui, os efeitos genéticos são novos para nós; os cogumelos crescem enormes, mesmo as uvas no meu jardim sofreram mutações e não podem ser comidas”.

Ao longo do corredor, a Dra. Ginan Ghalib Hassen, uma pediatra, tinha um álbum de fotos das crianças que ela está tentando salvar. Muitas tinham neuroblastoma. “Antes da guerra, só vimos um caso em dois anos desse raro tumor”, disse. “Agora temos muitos casos, e a maioria sem antecedentes na história familiar. Estudei o que aconteceu em Hiroshima. O súbito incremento desse tipo de malformações congênitas é o mesmo”.

Entre os doutores que eu entrevistei havia poucas dúvidas de que a causa era o armamento de urânio depletado utilizado pelos americanos e britânicos na Guerra do Golfo. Um físico militar dos EUA designado para limpar o campo de batalha da Guerra do Golfo na fronteira com o Kuwait disse: “Cada munição lançada por um avião de ataque A-10 Warhog tinha 4.500 gramas de urânio sólido. Bem mais de 300 toneladas de UD foram usadas. Foi uma forma de guerra nuclear”.

Ainda que o vínculo com o câncer seja sempre difícil de provar de forma absoluta, os doutores iraquianos sustentam que “a epidemia fala por si só”. O oncologista britânico Karol Sikora, diretor do programa para o câncer da Organização Mundial da Saúde durante os anos da década de 1990, escreveu no British Medical Journal: “o equipamento de radioterapia solicitado, as drogas de quimioterapia e os analgésicos são constantemente bloqueados pelos assessores americanos e britânicos [no comitê de sanções ao Iraque]”. Ele me disse: “A OMS nos advertiu especificamente que não mencionássemos sequer o tema do Iraque. A OMS não é uma organização que goste de se envolver em política”.

Recentemente, Hans Von Sponeck, o ex-assistente do secretário-geral das Nações Unidas e alto responsável para assuntos humanitários da ONU no Iraque, me escreveu: “O governo dos EUA buscou evitar que a OMS investigasse as áreas do sul do Iraque aonde se havia utilizado urânio depletado e originado graves riscos de saúde e meio ambiente”. Um relatório da OMS, o resultado de um estudo de referência conduzido com o ministério iraquiano da saúde foi “adiado”. O estudo abarcou 10.800 famílias, e contém “provas irrefutáveis”, disse uma autoridade do ministério e, segundo um dos seus pesquisadores, permanece como “alto segredo”. O informe diz que as malformações congênitas aumentaram até conformar uma “crise” em toda a sociedade iraquiana nos lugares aonde as forças americanas e britânicas utilizaram urânio depletado e outros metais pesados tóxicos. Quatorze anos depois de ter soado o alarme, o Dr. Yawad Al-Ali registra “fenomenais” casos múltiplos de câncer em famílias inteiras.

O Iraque já não é notícia. Na semana passada, a matança de 57 iraquianos num só dia passou praticamente desapercebida comparada com o assassinato de um soldado britânico em Londres. No entanto, as duas atrocidades estão conectadas. Seu emblema poderia ser a luxuosa nova versão de O Grande Gastby, baseada na novela de F. Scott Fitzgerald. “Dois dos principais personagens”, escreveu Fitzgerald, “se dedicaram a destroçar coisas e criaturas, regressando depois a sua riqueza ou a sua imensa indiferença … deixando que outra gente limpasse o desastre”.

O “desastre” deixado por George Bush e Tony Blair no Iraque é uma guerra sectária, as bombas de 7/7 e, há alguns dias, um homem agitando um ensanguentado machado de açougueiro em Woolwich. Bush se retirou para sua “biblioteca e museu presidenciais” de Mickey Mouse e Tony Blair a suas viagens de corvo e a seu dinheiro.

O “desastre” deles é um crime de proporções épicas, escreveu Von Sponeck, referindo-se à estimativa do ministério iraquiano de assuntos sociais de 4,5 milhões de crianças que perderam um ou ambos os pais. “Isto significa que 14% da população do Iraque está integrada por órfãos”, escreveu. “Estima-se que um milhão de famílias são encabeçadas por mulheres, a maioria delas viúvas”. A violência doméstica e os abusos de meninos são, com toda justiça, questões urgentes na Grã Bretanha; no Iraque, a catástrofe deflagrada pela Grã-Bretanha levou violência e abusos a milhões de lares.

Em seu livro Dispatches from the Dark Side, Gareth Peirce, a destacada defensora britânica de direitos humanos, aplica o império da lei a Blair, a seu propagandista Alastar Campbell e a seu ministério de conspiradores. “Para Blair”, escreve, “havia que desativar por todos os meios possíveis, e de forma permanente, aos seres humanos que se supunha manterem pontos de vista islamistas… nas palavras de Blair, um ‘virus’ a ‘eliminar’ que requer ‘toda uma miríade de intervenções profundas nos assuntos de outras nações”. O conceito mesmo de guerra foi transformado para ‘nossos valores versus os seus’. E não obstante, disse Pierce, “os fios de e-mails, de comunicados internos do governo, não revelam nenhuma discrepância”. Para o secretário de relações externas, Jack Straw, enviar cidadãos inocentes a Guantánamo era “a melhor forma de conseguir nossos objetivos de contraterrorismo”.

Esses crimes, sua iniqüidade a par com Woolwich, esperam por julgamento. Mas quem o exigirá? No teatro kabuki da política de Westminster, a distante violência de “nossos valores” não tem qualquer interesse. Irá o resto de nós também virar as costas?

*É correspondente de guerra, cineasta e escritor.

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