ENCALHE ( Descontinuado em 05.10.2013 )

junho 30, 2013

O que poderia ser feito com os R$ 600 milhões sonegados pela TV Globo

tvglobodesvio

Anota o blog Pragmatismo Político que a Rede Globo de Televisão deve à Receita Federal um montante superior a R$ 180 milhões em impostos não recolhidos até 2006. Com juros e multas, a dívida com o Erário superava os R$ 600 milhões na época, segundo denúncia publicada na última quinta-feira na página do jornalista Miguel do Rosário, editor do blog O Cafezinho. Rosário teve acesso a “uma investigação da Receita Federal sobre uma sonegação milionária da Rede Globo”.

“Trata-se de um processo concluído em 2006, que resultou num auto de infração assinado pela Delegacia da Receita Federal referente à sonegação de R$ 183,14 milhões, em valores não atualizados. Somando juros e multa, já definidos pelo fisco, o valor que a Globo devia ao contribuinte brasileiro em 2006 sobe a R$ 615 milhões. Alguém calcule o quanto isso dá hoje” sugere o jornalista.

A fraude da Globo usou de paraíso fiscal para disfarçar a compra dos direitos de transmissão dos jogos da Copa do Mundo de 2002 como investimentos em participação societária no exterior. O réu do processo é o cidadão José Roberto Marinho, CPF número 374.224.487-68, proprietário da empresa acusada de sonegação.

O esquema da Globo é generoso em documentos que provam sua existência. Mais especificamente, 12 documentos que podem ser conferidos aqui.

Com este valor poderia ser construídos ou adquiridos:

  • 1.782.608 notebooks escolares
  • 15 375 casas populares
  • 10 250 viaturas policiais
  • 931 km de rodovias
  • 256 creches
  • 13 hospitais públicos de ponta

BLOG DO CLEVERSON

junho 28, 2013

Os estudantes: ontem e hoje, Por Jasson de Oliveira Andrade

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CAPA_DA_CARTA_CAPITAL_-_MANIFESTAÇÃO_POPULAROs estudantes brasileiros se destacaram na História do Brasil pelos seus movimentos. Essas manifestações são antigas e foram relatadas num livro, que se tornou uma referência sobre o assunto. Trata-se de “O Poder Jovem – História da participação política dos estudantes brasileiros”, do jornalista e escritor Arthur José Poerner, escrito em 1968. Pelo índice, se poderá ter uma noção da importância dessa obra: Capítulo I: O Estudante no Brasil Colônia; Capítulo II: O Estudante no Brasil Império; Capítulo III: A Rebelião da Juventude Militar; Capítulo IV: O Estudante na Primeira Republica: Capítulo V: O Estudante na Segunda República. Na Segunda Parte do livro, o autor estuda a participação da UNE (União Nacional dos Estudantes), desde o Combate ao Eixo e ao Estado Novo (Ditadura de Vargas), à Luta contra a Ditadura Militar de 64 ( governo Costa e Silva ), publicando uma Nota Complementar: A Morte de Edson Luís de Lima Souto. Nesta Nota, Poerner relata o assassinato desse estudante em 28 de março de 1968. Os estudantes protestavam no Rio de Janeiro. A polícia interveio. No Calabouço, no centro do Rio, um tiro dado por um capitão da PM matou o estudante Edson Luís. Em protesto contra esse assassinato, houve várias passeatas. A principal delas ficou conhecida como a Passeata dos Cem Mil, a qual, segundo o jornalista Carlos Marchi, do Estadão, “configurou o maior desafio até então lançado ao regime”.
No meu livro, “Golpe de 64 em São João da Boa Vista”, à página 226, escrevi: “A morte do estudante repercutiu, não apenas no Rio, mas em todo Brasil. Em Mogi Guaçu, a AUG, então presidida pelo estudante Synésio Ramos Júnior, o Nézinho, hoje professor da FEG (Fundação Educacional Guaçuna), lançou o seguinte manifesto: “A AUG – Associação Universitária Guaçuana, vem a público manifestar seu veemente protesto e repúdio às atividades policiais desenvolvidas no Rio de Janeiro, quando foi, covarde e vilmente, assassinada a criança, o estudante Edson Luís Souto. Que o governo federal tome consciência do fato, pois sua inoperância na solução do grave problema do ensino nacional o aponta, conceitua e define como único e exclusivo culpado. Coloque-se, pois, no banco dos réus, assuma suas responsabilidades, resguarde o livro do fuzil, a toga da farda, para que possa o Brasil retomar seu ritmo normal de desenvolvimento, vindo a ocupar uma posição de destaque no cenário internacional. “Liberta quae será tamen”, Mogi Guaçu, 2 de abril de 1968”. O pedido do Nézinho não foi atendido. Como as passeatas e os protestos dos estudantes continuaram, o ditador Costa e Silva, para coibir esses movimentos, decretou o Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 13/12/1968, que os historiadores designaram como o Golpe dentro do Golpe de 64, ou seja, uma ditadura ainda maior, mais repressiva, com prisões, cassações de mandatos, torturas e mortes. Até Carlos Lacerda, líder civil do Golpe de 64, foi preso e teve seus Direitos Políticos Suspensos por 10 anos! O mesmo aconteceu com o ex-governador Ademar de Barros, que organizou a “Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade”, resultando o Golpe de 64. Ele também foi perseguido e se exilou na França, onde morreu. O feitiço virou contra o feiticeiro…
Em 1968, o guaçuano Synésio Ramos Júnior se destacou, mas não conseguiu o que pretendia. Pelo contrário, houve retrocesso. Em 2013, no dia 22 de junho, tivemos em nossa cidade uma passeata pacífica de jovens estudantes contra, principalmente, o aumento da passagem de ônibus e o PEC 37. Outro belo exemplo. Espera-se que consigam o que pretendem, mas que, diferentemente de 68, sem retrocesso! Volto a dizer: Ditadura nunca mais. Caso contrário esses mesmos estudantes sairão às ruas pedindo Diretas, já!
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu
Junho de 2013

Combata a corrupção AGORA! Pergunte-me como.

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caros amigos

CAROS AMIGOS ESPECIAL As Raízes da Corrupção

Violência, sexo e corrupção são armas poderosas para alavancar tiragens de jornais e revistas e para elevar as audiências do rádio e da TV. Temas de fácil assimilação por todas as camadas sociais, trabalham com o imaginário do medo, do prazer e da moral. Nesta última a corrupção é um prato cheio instigando a justa indignação popular mas de forma seletiva e parcial. A Caros Amigos investiga no especial “As Raízes da Corrupção” a ação dos corruptores, casos e escândalos históricos, as manipulações da mídia e a “troca de favores” na ditadura.

Manchetes denunciam corruptos, quase sempre agentes públicos, escondendo ou reduzindo a poucas linhas os nomes e as ações de outros agentes, invariavelmente privados. Ignoram de forma proposital as duas mãos necessárias para consumar o ato corrupto, como bem mostram as ilustrações que marcam as páginas deste Especial de Caros Amigos.

Quem são?

Não é a primeira vez que tocamos no assunto. Ele está presente em várias edições regulares da revista e em outro especial publicado em setembro de 2005, no auge do mal denominado escândalo do “mensalão”. Como os casos obviamente não cessam e a cobertura midiática enviesada persiste, voltamos ao tema.

Perguntamos “quem são os corruptores”? A resposta, é claro, não pode ser exaustiva. A lista é imensa e para publicá-la precisaríamos de inúmeras edições especiais da revista. Aqui destacamos alguns, useiros e vezeiros nessa prática, e outros nem tanto, ainda dando seus primeiros passos nos caminhos do crime.

“Jeitinhos”

Mas não ficamos apenas por ai. Buscamos o espelho para falar dos nossos “jeitinhos” diários e do binóculo para mostrar que esse tipo de crime não é privilégio nacional, embora sua prática e as formas de combate variem de país para país. E aqui cabe ressaltar o aprimoramento dos mecanismos brasileiros de controle à corrupção, aperfeiçoados nos últimos anos, com eficiência reconhecida internacionalmente.

A produção acadêmica sobre o tema também vem se expandindo. Damos como exemplo um resumo do excelente artigo da professora Heloisa Starling mostrando como a tortura e a corrupção andaram de mãos dadas durante a ditadura.

Combate

Não ficamos só na história ou no diagnóstico. Buscamos conhecer também as propostas concretas existentes para ampliar os mecanismos de combate à corrupção. Aqui estão algumas, formuladas pelos partidos de esquerda, essenciais nesse processo.

É mais uma contribuição de Caros Amigos para o debate em torno de políticas públicas capazes de enfrentar a corrupção de forma democrática e republicana.

A edição especial As Raízes da Corrupção já está nas bancas e em nossa loja virtual.

Sumário do Especial

EXTERIOR
Em graus diferentes o vírus da corrupção ataca no mundo todo
Por Renato Pompeu

CORRUPTORES
Corrupção ativa é acionada por grandes grupos empresariais
Por Redação

COMPRAS E SERVIÇOS
As brechas ainda existentes nos processos de licitação
Por João Paulo Brito e Raul Galhardi

CRÍTICA
Os desvios cometidos no “dia-a-dia”
Por Renato Pompeu

HISTÓRIA
Casos inesquecíveis, a maioria impune
Por Luana Copini

CONTROLE
Instrumentos eficientes e transparência inibem fraudadores
Por Jerônimo Calorio Pinto

PARTIDOS
A posição da esquerda diante da corrupção
Por Raul Galhardi

OLHAR ENVIESADO
A visão seletiva dos meios de comunicação
Por João Paulo Brito

TORTURA
Tortura e corrupção tornaram-se inseparáveis
Por Heloisa Maria Murgel Starling

junho 27, 2013

Papa vai investigar lavanderia do Banco do Vaticano

O papa Francisco anunciou na quarta-feira (26) a criação de uma comissão de investigação do Instituto para as Obras de Religião (IOR), mais conhecido como Banco do Vaticano para “harmonizar sua ação com a missão da Igreja”.
A ficha corrida do Banco do Vaticano é longa, com destaque para operações de lavagem de dinheiro de organizações criminosas, empréstimos duvidosos e investimentos na indústria armamentista.

Em 1982, na falência fraudulenta do Banco Ambrosiano, o IOR esteve envolvido ao lado da CIA e da Maçonaria. Neste episódio, o banqueiro Roberto Calvi, dono do Ambrosiano, foi encontrado enforcado, embaixo de uma ponte em Londres.
No ano passado, o Banco voltou a ocupar espaço especial nas páginas policiais no caso que ficou conhecido como VaticanoLeaks. O episódio envolvia um camareiro do papa que roubava documentos secretos e os “disponibilizava” para a imprensa. Entre os documentos, que deveriam ser lidos somente pelo papa, mais denúncias de corrupção.

O Banco do Vaticano, que emprega pouco mais que 100 pessoas, tem uma só agência em todo o mundo, gere cerca de 19 mil contas, a maior parte delas ligadas ao próprio clero e movimenta oficialmente cerca de 7 bilhões de euros.
A Comissão que deverá investigar o IOR será composta de cinco pessoas que, além de um relatório final, deverão informar o Papa periodicamente sobre suas descobertas.
HORA DO POVO

EUA: Fraude em massa impede voto de negros e hispânicos

Nas últimas três eleições nos EUA, foram patentes as manobras do Partido Republicano para impedir em massa o voto de negros e latinos, valendo-se da bagunça que é o sistema eleitoral do país, que nem é unificado nacionalmente, e onde cada estado ou condado tem sua própria cédula e normas eleitorais. A eleição não é conduzida por uma justiça eleitoral nacional, mas pelo partido no poder em cada estado ou condado, abrindo espaço para todo tipo de fraude. Nos cálculos do procurador Robert F. Kennedy, que investigou as fraudes da eleição de 2004, o total de votos subtraídos chegou a 6 milhões.

Como destacou Palast, no ano passado o secretário de Estado da Flórida, o republicano Ken Detzner, tentou purgar 180.000 americanos, a maioria latinos – que votam majoritariamente nos democratas – das listas de votantes. Nas áreas negras do estado, as filas se estenderam nas últimas eleições porque as estações de votação haviam sido cortadas pela metade, assim como o tempo de votação. Na Califórnia, 40% dos pedidos de registro de eleitores foram recusados pelo secretário de Estado republicano – majoritariamente latinos e asiáticos. Outro esquema é a redefinição das fronteiras dos distritos eleitorais, de modo a diluir o voto negro e a garantir a vitória dos republicanos. Nas eleições de 2012, os democratas tiveram um milhão de votos a mais, mas um número bem menor de deputados.

Se a lei do direito de voto foi decisiva para garantir a cidadania aos negros americanos, nos dias atuais é essencial para a garantia do direito de voto aos latinos, cujo número de imigrantes candidatos a legalizarem sua estadia no país chega a 11 milhões. Assim como o Arizona, outros estados têm aprovado leis para perseguir os imigrantes.

A.P.
HORA DO POVO

junho 26, 2013

Os debates do G8, por Thierry Meyssan: A Síria

A Síria

A cimeira que se desenrolou em Lough Erne (Irlanda do Norte), a 17 e 18 de junho, era tanto mais importante quanto se tratava do primeiro encontro entre os presidentes Obama e Putin, desde a reeleição do primeiro, nove meses antes. Ora, após a sabotagem da conferência de Genebra (30 de junho de 2012) por Hillary Clinton e David Petraeus, tinha ficado combinado entre os dois chefes de Estado que o seu primeiro reencontro permitiria anunciar uma solução da crise síria. Mas, apesar da mudança de equipa em Washington, a cimeira foi muitas vezes adiada enquanto o novo secretário de Estado, John Kerry, se perdia em declarações contraditórias.

Durante este longo período de espera, os dados mudaram. O Líbano não tem governo após a nomeação de Tammam Salam como Primeiro-ministro, há dois meses e meio. Na Arábia saudita, o príncipe Khaled ben Sultan, ministro-adjunto da Defesa, falhou o derrube do rei Abdallah. No Catar, os Estados-Unidos deram até ao início de agosto ao príncipe Hamad Al-Thani para ceder o trono ao seu filho Tamim e para sair de cena com o seu Primeiro-ministro. Na Turquia, uma maioria da população levantouse contra a política dos Irmãos muçulmanos conduzida por Recep Tayyip Erdogan. No Irão, o Povo elegeu um economista liberal, Hassan Rohani, para a presidência da República. E na Síria, o exército lealista acaba de libertar Qoussair e inicia a batalha por Alepo.

Do lado da propaganda, tal como em 2003 no Iraque, a França, o Reino-Unido e os Estados-Unidos tentaram « o golpe das armas de destruição massiva » : as três capitais, supostamente, teriam provas de uso de armas químicas por Damasco. O « regime de Bachar » teria « passado a linha vermelha ». Uma intervenção internacional ter-se-ia então tornado indispensável tanto « para salvar os Sírios » como « para salvar a paz mundial ». Realmente ? Aos olhos de Moscovo, as « provas » apareceram distantes das normas da Organização para a proibição das armas químicas (OPAC). Seja como for, ninguém vê porque é que um exército em plena reconquista utilizaria gaz sarin, e a Síria, (tal como Israel), não é signatária da Convenção sobre as armas químicas.

Na realidade, a França e o Reino-Unido prosseguem o seu projeto de recolonização, tal como combinado, entre eles, aquando da assinatura do Tratado de Lancaster House (2 de novembro de 2010), ou seja, muito antes da chamada « primavera árabe ». Eles apoiam-se sobre os regimes árabes sionistas Turquia, Arábia saudita e Catar.

Por seu lado, os Estados-Unidos « manobram por trás », segundo a expressão da Senhora Clinton. Eles apoiarão a iniciativa se for bem sucedida, e opor-se-ão se ela falhar. Após a comédia das armas químicas, eles assumiram o compromisso de fornecer oficialmente armas ao Exército sírio livre, mas não à Frente Al-Nosra (sucursal da Al-Qaïda).

Logo, aquando do início da cimeira do G8, a situação é desfavorável para o campo colonial. E, ainda se complicou mais com as revelações de Edward Snowden, um empregado do gabinete de advogados Booz Allen Hamilton, que acaba de publicar documentos internos da NSA após se ter refugiado em Hong Kong. A maior agência de segurança do mundo espia as comunicações web e de telefone dos Americanos, e do mundo inteiro. E até colocou sob escuta os delegados do G20 de Londres, em 2009, com a ajuda do CGHQ britânico. Em suma, os Anglo-Saxões (EUA, Reino- Unido e Canadá) estão em posição de inferioridade na discussão, e os convidados evitaram usar os seus telefones.

Sobre a Síria, a posição franco-britânica consiste, pois, em pressionar a Rússia para forçá-la a abandonar a Síria. Excelente neste papel, o anfitrião da cimeira, David Cameron, denuncia o ditador-que-mata-o-seu-povo-com-armas-químicas. Ele clama por uma conferência de Genebra 2, que marque a capitulação do presidente el-Assad e transfira o poder para os amigos do Ocidente. Ele confirma iminente fornecimento de armas aos « revolucionários », propõe uma saída honrosa a « Bachar », anuncia a manutenção da administração baasista e distribui as concessões de gaz natural. Quanto à bandeira já se sabe que será a da colonização francesa.

Esta verborreia esbarra em Vladimir Putin. Interrogado pela imprensa após a sua chegada, o presidente russo declarava diante de um Cameron atónito : « Eu estou certo que estareis de acordo, que nós não deveríamos nunca ajudar gente que não sómente mata os seus inimigos, mas desfaz o corpo e come as suas entranhas à frente do público e das cameras. É este o tipo de gente que quereis apoiar ? Quereis armá-los ? Se for o caso, pareceme que há aqui muito pouca relação com os valores humanitários que a Europa abraçou, e difundiu durante séculos. Em todo o caso, nós, na Rússia, não podemos conceber nunca uma tal coisa. Mas, pondo as emoções de lado, adoptando uma abordagem puramente prática sobre a questão, permiti-me sublinhar que a Rússia fornece armas ao governo sírio legalmente reconhecido, em total conformidade com as regras do direito internacional. Eu insisto no facto que nós não violamos aqui nenhuma lei, nenhuma, e peço aos nossos parceiros para agir no mesmo sentido. »

À conversa-fiada humanitária, Putin responde com a visão dos factos e com o direito internacional. Não, não há revolução na Síria, mas sim uma agressão estrangeira. Não, a Síria não utiliza armas de destruição maciça contra o seu próprio povo. Sim, a Rússia fornece armas anti-aéreas à Síria para protegê-la de um ataque estrangeiro. Sim, o fornecimento de armas pelo Ocidente aos contras constitui uma violação do direito internacional sancionável pelos tribunais internacionais.

No fim, em nenhum momento, o Francês e o Britânico conseguiram encurralar o Russo. Vladimir Putin encontrou sempre o apoio de outros participantes — muitas vezes a Alemã Angela Merkel — exprimindo dúvidas.

Diante da firmeza russa, David Cameron tentou convencer os seus parceiros ocidentais que a sorte das armas poderia ainda mudar : o MI6 e a DGSE estão prontos para lançar um golpe de Estado militar em Damasco. Um agente, recrutado no palácio, poderia matar o presidente, enquanto um general, recrutado no topo dos serviços secretos, liquidaria os lealistas e tomaria o poder. As novas autoridades implantariam uma ditadura militar que cederia progressivamente o lugar a uma democracia parlamentar.

Para além de todos se perguntarem sobre quem seriam os traidores recrutados no circulo presidencial, a proposta britânica não convenceu. Não era a primeira vez que esta hipótese fora lançada e que falhara. Já houve a tentativa de envenenamento dos membros do Conselho nacional de segurança, e a tomada de poder por um dentre eles (mas o traidor agiu como um agente duplo) ; Depois, o atentado à bomba que custou a vida aos membros do Conselho nacional de segurança, sincronizado com o ataque da capital por 40.000 jihadistas (mas a Guarda nacional defendeu a cidade) ; houve o ataque ao Estado-maior por kamikazes, acoplado com o levantamento de um regimento que nunca se deu ; etc. E, os planos que falharam quando a maré era propicia terão poucas hipóteses de sucesso agora que o exército nacional reconquista o território.

No Comunicado final (parágrafos 82 a 87), os participantes do G8 reiteraram a sua confiança no processo de Genebra, sem no entanto clarificar as suas ambiguidades. Continua sem saber o que é uma « transição política ». Tratar-se-á de uma transição entre guerra civil e paz, ou entre uma Síria governada por el-Assad e uma outra governada por pró-Ocidentais ? No entanto, dois pontos são aclarados : por um lado, a Frente Al-Nosra não deverá participar em Genebra 2 e deve ser expulsa da Síria e, por outro lado, uma comissão ad hoc das Nações Unidas investigará o uso de armas químicas, mas será formada por peritos da Organização para a proibição destas armas e da Organização mundial da Saúde.

É ao mesmo tempo positivo e negativo. Há o negativo porque os franco-britânicos não abandonaram nunca a ideia que Genebra 2 deveria ser a conferência da capitulação síria face às exigências da colonização ocidental. É positivo porque o G8 condena explicitamente o apoio do Conselho de cooperação do Golfo à Frente Al- Nosra, e porque enterra honoravelmente a polémica mediática sobre as armas químicas. Restará saber si tudo isto é sincero.

Parece em todo o caso que a Rússia não está certa disso. Num encontro com a imprensa, no final da cimeira, Vladimir Putin indicou que outros membros do G8 também não acreditavam no uso de armas químicas pelo governo de Damasco, mas sim pelos grupos armados. Ele lembrou que a polícia turca tinha confiscado gás sarin aos combatentes da oposição síria e que, segundo os documentos turcos, este gaz lhes tinha sido fornecido a partir do Iraque [pelo antigo vice-presidente do Baas iraquiano, Ezzat al-Douri]. Mais do que isso, o presidente Putin evocou várias vezes as suas duvidas sobre a entrega de armas pelos Estados-Unidos e seus aliados. Ele sublinhou que a questão não tinha a ver com fornecer ou não, mas sim de o fazer oficiosamente ou oficialmente ; já que todos sabiam que, desde há dois anos, os « comandos » dispõem de armas que lhes chegam do estrangeiro.

Dois dias mais tarde, o ministro russo dos Negócios estrangeiros, Sergei Lavrov, punha à prova a coerência dos Estados-Unidos. Ele sublinhou que as iniciativas de condenação unilateral da Síria na ONU, e as declarações sobre a possível criação de uma zona de exclusão aérea eram sinais de encorajamento aos « comandos » de mercenários, incluindo os da Al-Qaeda.

( Este é apenas um trecho de “Os debates do G8, publicado em VOLTAIRENET. Link para o texto integral )

junho 25, 2013

Roteiro golpista circula pelas redes sociais

Filed under: WordPress — Tags:, , — Humberto @ 7:18 pm

Um levantamento feito pela Rede Brasil Atual das iniciativas golpistas que passaram a parasitar as mobilizações pela redução das tarifas de transporte, divulgada no dia 21 de junho, mostra que há ligação entre elas, bem como revela a tentativa de montar uma ação organizada. “As redes sociais ligadas a esses grupos já começam a traçar uma espécie de “roteiro do golpe”. De um lado, defendem o afastamento da presidenta Dilma Rousseff, de “todos os políticos” e de “todos os partidos”. De outro, clamam para que o presidente do STF, Joaquim Barbosa, assuma o comando do país para que as forças armadas ajam “em defesa da população que se manifesta nas ruas”, diz o artigo.

Embora sejam difusamente compartilhadas, as campanhas atingem um número relevante de pessoas. Uma delas, com a foto de Barbosa pedindo que assuma a presidência do país, já passa de 270 mil compartilhamentos. Outra, no site Avaaz.org, pede o impeachment de Dilma e tem 315 mil assinaturas. Junto a elas, comentários pedindo o fim dos partidos, ação das forças armadas, separação de São Paulo do restante do país etc. Na manifestação de São Paulo já se via faixa com pedido de “intervenção militar” para “combater a corrupção”. A instigação dos manifestantes contra os partidos e entidades populares fazia parte do caldo de cultura criado pela direita.

Em outra ação, esses grupos de direita criaram um evento no Facebook convocando greve geral para 1º de julho. Na pauta de reivindicações estão o “fim da roubalheira”, a “auditoria no caixa do governo” e a “punição para os corruptos“, entre outros nove temas. O ato contava 390 mil confirmações até as 13h do dia 21. O movimento “ChangeBrazil” produziu filmes com técnica refinada, dirigidos aos manifestantes e aos policiais, incitando a violência. O apresentador tinha forte sotaque inglês e dizia ao final que com nossa perseverança “o Brasil vai se dobrar”.

Um vídeo da organização Anonymous, publicado na terça (18), chegou à marca de 1,4 milhão de compartilhamentos. O filme divulga “as cinco causas diretas, sem cunho religioso ou ideológico, sem bandeiras partidárias ou subjetividades”. As ideias propostas como de “cunho moral” e “unanimemente aceitas” são: Não à PEC 37; saída de Renan Calheiros da presidência do Congresso Nacional — ele é presidente do Senado [ grifo nosso ] — investigação e punição das irregularidades na organização da Copa do Mundo; lei que torne a corrupção crime hediondo; e fim do foro privilegiado. Uma pauta compartilhada e badalada pela mídia golpista.

Na noite do dia 20 o site do jornal Brasil de Fato denunciava a realização de uma pesquisa pelo Instituto Datafolha, que perguntava às pessoas qual afirmação ela se identificava mais: “a democracia é sempre melhor que qualquer forma de governo”; “em certas circunstâncias, é melhor uma ditadura do que um regime democrático”; ou “tanto faz se o governo é uma democracia ou uma ditadura”.

A Polícia Civil do DF identificou Cláudio Roberto Borges, 32 anos, como o homem que lançou um coquetel molotov contra o Palácio do Itamaraty, durante o protesto de aproximadamente 30 mil pessoas no gramado do Congresso Nacional na quinta-feira. Em depoimento à polícia, na noite de sexta-feira, ele confessou o crime. Borges tem cinco passagens pela polícia e duas condenações por furto. No momento, ele estava cumprindo pena em regime domiciliar. Quem o teria contratado para o serviço?

Outro suspeito de participar da depredação no Itamaraty foi um fuzileiro naval. A Marinha abriu uma sindicância interna para apurar a participação de um de seus fuzileiros na tentativa de invasão do Itamaraty, durante o protesto em Brasília na quinta-feira (20) e acabou com um rastro de destruição. Usando um gorro na cabeça, bermuda e camisa de manga comprida, ele tinha um capacete da PM nas mãos e assistia sem nada fazer homens tentarem quebrar a pontapés as vidraças do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores.

O Movimento Passe Livre, por sua vez, declarou na manhã de sexta-feira que não convocaria mais protestos, pois tinha alcançado a vitória almejada, e criticou a violência contra organizações políticas ocorridas na manifestação de quinta-feira (20) na avenida Paulista.

O outro passo ensaiado pelos golpistas foi a tentativa de instalação de uma CPI sobre os gastos da Copa. O PPS anunciou nesta segunda-feira que vai tentar instaurar a CPI sobre “os gastos e indícios de superfaturamento com as obras da Copa do Mundo de 2014”. A iniciativa deveria ser do tucano Álvaro Dias, mas como ele não entrou com o pedido, o PPS afirmou que vai iniciar a coleta de assinaturas para a instalação da comissão. As avaliações são de que, mesmo que o partido consiga as assinaturas, a CPI dificilmente será instalada nesta legislatura já que outras CPIs aguardam abertura e apenas cinco podem funcionar concomitantemente.

HORA DO POVO

Presidente da Rússia desafia Casa Branca a explicar por que apoia terroristas na Síria

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou que não há justificativa para que os EUA, e demais países ocidentais, apoiem as forças terroristas vinculadas a AlQaeda na Síria, organização estrangeira considerada terrorista pelo Departamento de Estado norte-americano e pela União Europeia. A denúncia foi feita durante a seção plenária do Fórum Econômico Internacional, realizado em São Petersburgo durante os dias 20 e 22 de junho. Durante o evento Putin recordou que o conflito com os mercenários na Síria só se arrasta por tanto tempo devido ao apoio com armas e suprimentos fornecido pelos EUA.

“E se os mercenários decidirem chamar a atenção sobre o fato de que há muito tempo recebem armas do estrangeiro ? Não vamos tratar da origem dessas armas? Como é sabido, se não existissem esses fornecimentos, o que está ocorrendo na Síria seria impossível. Há envio de dinheiro e armas”. O presidente russo ressaltou que o fornecimento de armas aos mercenários viola o direito internacional e ameaça desestabilizar mais um país Árabe.

“Por que fornecer armas a forças terroristas na Síria, quando não estamos seguros da composição desses grupos?” Se os EUA “reconhecem a al-Nusra, uma das principais organizações de oposição como terrorista, como podem entregar armas aos membros da oposição?” Putin reiterou que a Rússia fornece armas ao governo legítimo da Síria, portanto não infringe nenhuma lei.

Putin também enfatizou que não é o povo Sírio que está lutando contra o governo de Bashar al-Assad, durante coletiva de imprensa conjunta com a chanceler alemã, Ângela Merkel, que se encontrava em visita oficial à Rússia para participar do Fórum Econômico Internacional. Para ele, os supostos combatentes são na verdade mercenários, terroristas fortemente armados e pagos pelo exterior.

Na mesma semana, durante Conferência de “Amigos da Síria” realizada na sexta-feira (22), um dirigente da oposição síria, Hassan Abdel Azim, chefe do Comitê Nacional de Coordenação para a Mudança Democrática, condenou o envio de armas aos terroristas sírios, e qualificou a ideia como “ridícula”. Durante a mesma reunião o secretário de estado norte-americano, John Kerry, anunciou que os mercenários necessitam de mais apoio “para serem capazes de fazer frente aos desequilíbrios no campo de batalha”.

HORA DO POVO

Encontro internacional rejeita intervenção dos EUA na Síria

Resolução dos participantes do 22º Seminário Comunista Internacional sobre a Síria

1) Afirmamos que as políticas e ações subversivas do imperialismo com o objetivo de impor sua hegemonia no Oriente Médio são a razão principal dos conflitos, tensões e guerras na região. O imperialismo dos EUA, da União Europeia, da OTAN e também de Israel e dos regimes reacionários pró-imperialistas da região compartilham responsabilidades comuns nos crimes cometidos contra os povos da região.

2) Condenamos a instrumentalização por parte do imperialismo e seus aliados na região das diferenças e dos conflitos religiosos. O imperialismo intervém vulgarmente nos assuntos dos Estados apoiando as forças reacionárias internas e não duvidando em intervir em apoio direto às organizações provocadoras fundamentalistas e terroristas sob o pretexto de intervenção humanitária.

3) Condenamos a agressão militar israelense contra a Síria em flagrante violação do direito internacional e denunciamos o apoio incondicional do imperialismo a este ato bélico.

4) Apoiamos o direito absoluto do povo sírio que sofre os ataques subversivos e terroristas apoiado pelo imperialismo e os regimes reacionários da região a escolher seu próprio caminho político e sua direção sem ingerência estrangeira. Declaramos nossa solidariedade plena e sem reservas ao povo sírio.

“O erro não é construir estádios com recursos do BNDES, o erro é pagar juros para banqueiros com recursos do tesouro”

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Estádios, educação e juros

CARLOS JORGE ROSSETTO*

A oposição ao Governo argumenta que não deveria o Governo investir na construção e reformas de estádios de futebol em preparação para a Copa das Confederações em 2013 e Copa do Mundo em 2014. Argumenta que esse dinheiro deveria ser investido em educação e saúde.

São 12 estádios sendo construídos ou reformados. 1-Manaus, estádio Vivaldão 2. São Paulo, Itaquerão 3. Fortaleza, Castelão 4. Porto Alegre, Pinheirão 5. Brasília, Mané Garrincha 6. Rio de Janeiro, Maracanã 7. Cuiabá, José Fragelli 8. Belo Horizonte, Mineirão 9. Natal, Arena das Dunas 10. Salvador, Fonte Nova 11. Curitiba, Arena da baixada 12. Recife, Cidade da Copa.

A estimativa para construção ou reforma desses 12 estádios de alto padrão é inferior à média de 1,78 bilhões cada um, ou seja investimento total inferior a 21,39 bilhões. O Brasil pagou de juros para os banqueiros apenas no ano de 2012 o total de 213,9 bilhões, ou seja 10 vezes mais. O Brasil não gastou para reformar ou construir 12 estádios espetaculares, que são dignos de orgulho, não gastou 10% do que pagou de juros apenas no ano de 2012 para banqueiros. Além do que o dinheiro gasto com estádios foram em grande parte financiamentos do BNDES para empreiteiras que terão que pagá-los de volta ao BNDES. Para os banqueiros o pagamento é do tesouro a fundo perdido. Este sim deveria ser investido em educação e saúde. É dinheiro que não retorna aos cofres do Estado. É dinheiro que não deixa resíduo material. A construção ou reforma dos estádios empregou de forma direta mais de 50 mil brasileiros, numa época em que o desemprego assolou parte do mundo. E deixa um resíduo expressivo, deixa rastro, deixa benefícios estruturais históricos. O dinheiro pago a banqueiros em forma de juros não deixa nenhum rastro, não dá emprego, ao contrário, desemprega porque retira recursos do tesouro reduzindo a capacidade de investimento e criação de emprego do Estado. A oposição e também a maioria da mídia brasileira silencia, não protesta contra esse desequilíbrio, não protesta contra esse absurdo pagamento de juros para banqueiros. O fato inegável é que procura-se esconder do povo brasileiro o que aconteceu na Islândia com os juros e os banqueiros. O erro não é construir estádios com recursos do BNDES o erro é pagar juros para banqueiros com recursos do tesouro. A oposição quando governou pagou muito mais.

Referência: Maria Lucia Fattorelli, Coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida http://www.dividaauditoriacidada.org.br Outubro -2010. Como a Dívida Pública afeta o Orçamento da União e aprofunda as Desigualdades Sociais no Brasil.

* Engenheiro agrônomo, pesquisador

HORA DO POVO

Verba que falta no serviço público foi para juro e múltis e não para a Copa ( Sem vedar esses ralos, solução fica difícil )

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Mídia manobra incautos para blindar privilégios de maiores anunciantes
De janeiro de 2011 a abril de 2013 foram desviados R$ 305 bilhões – que o governo federal empregaria na Saúde, Educação, Transportes, etc. – para a reserva dos juros, o “superávit primário”. Mas o total de juros transferidos aos bancos foi ainda maior: R$ 448 bilhões. Só em “desonerações”, o governo concederá R$ 70,1 bilhões este ano, beneficiando monopólios, via de regra multinacionais, com o único efeito de aumentar suas margens de lucro. Enquanto isso, o governo bloqueia gastos em seu Orçamento e mantém Estados e municípios sob uma asfixiante camisa-de-força financeira.
HORA DO POVO

Bancos tiraram da educação, saúde e transportes R$ 448 bi em 2 anos
Mídia dá cobertura para esse desvio de 5% do PIB feito pelos banqueiros e dispersa o foco das reivindicações

Em seu pronunciamento de sexta-feira, a presidente Dilma propôs “um grande pacto em torno da melhoria dos serviços públicos” – sobretudo os transportes urbanos, a Saúde e a Educação. Disse, também, que além de “convidar os governadores e os prefeitos das principais cidades do país”, iria ouvir “os líderes das manifestações pacíficas, os representantes das organizações de jovens, das entidades sindicais, dos movimentos de trabalhadores, das associações populares”.

Na segunda-feira, a presidente reuniu-se com alguns integrantes do Movimento Passe Livre e fez outro pronunciamento ante governadores e prefeitos. Disse a presidente que “nós todos sabemos onde estão os problemas. Nós todos sabemos que podemos construir soluções”.

Realmente, “os problemas” estão no monstruoso confisco de recursos públicos para juros, desonerações e financiamentos para as multinacionais, esmagamento financeiro dos principais Estados e municípios e contingenciamento sistemático das verbas orçamentárias. A solução (ou “construção das soluções”) está no fim da drenagem desses recursos e sua colocação para resolver os problemas do povo.

Sucintamente: de janeiro de 2011 a abril de 2013 foram desviados R$ 305 bilhões (mais exatamente: R$ 304.996.588.916) que estavam destinados às “despesas primárias” do governo federal (Saúde, Educação, Transportes e as demais despesas não-financeiras) para a reserva dos juros – o “superávit primário” do governo federal.

Apesar disso, no mesmo período, o total de juros transferidos aos bancos pelo governo federal somou R$ 448 bilhões (exatamente: R$ 448.178.902.484).

Esse gasto estúpido, quase 5% do PIB, foi uma decisão de política econômica, isto é, uma decisão do governo em nome de coisas tão mentirosas quanto “responsabilidade fiscal”, “austeridade fiscal”, “disciplina fiscal”, “consolidação fiscal” ou lá que apelido tenha essa pilhagem de recursos da coletividade em prol de meia dúzia (aliás, nem isso) de bancos. Este ano, em nome desse tipo de vigarice, além do previsto no Orçamento, já foram cortados mais R$ 28 bilhões com o mesmo objetivo.

O governo já está abatendo R$ 45 bilhões do “superávit primário”. Pela Lei Orçamentária Anual, pode abater até R$ 65,2 bilhões. Logo, há R$ 20,2 bilhões que podem e necessitam ser liberados, já e agora. (cf. SOF/MP, “Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias”, Brasília, maio 2013, p. 8).

O total de desonerações e benefícios fiscais concedidos pelo governo está, em 2013, em R$ 170 bilhões (R$ 170.015.969.718 – cf. SRF/MF, “Demonstrativo dos Gastos Governamentais Indiretos de Natureza Tributária – 2013”, págs. 13 a 98, Quadro I ao XXIII).

Porém, concentremo-nos na atual onda de desonerações, concedidas a partir do segundo semestre de 2011. Segundo o Ministério da Fazenda, essas montam, em 2013, a R$ 70,1 bilhões (cf. SPE/MF, “Economia Brasileira em Perspectiva”, 18ª Edição, março 2013, p. 42).

Muitas dessas desonerações – possivelmente a maior parte em valor – servem apenas para aumentar a margem de lucros dos monopólios privados, via de regra multinacionais, sem qualquer efeito positivo no crescimento ou no emprego, pelo contrário. É o caso das desonerações concedidas à indústria automobilística, à “linha branca”, às teles, aos açambarcadores de aeroportos, ferrovias, ao cartel de armadores e aos futuros açambarcadores de portos, e, inclusive, à mídia (a MP nº 612 concedeu R$ 1,266 bilhão de desonerações cumulativas à mídia). Imediatamente é possível liberar mais R$ 20 bilhões a.a., no mínimo, que hoje não são pagos em função das desonerações.

A terceira fonte de recursos é o fim da opressão pela dívida que o Tesouro, desde o governo Fernando Henrique, mantém sobre Estados e municípios. Um exemplo: o Estado de São Paulo renegociou uma dívida de R$ 50,3 bilhões em junho de 1998 e, até o final de 2012, pagara R$ 91,8 bilhões ao Tesouro, por conta dessa renegociação; no entanto, a dívida cresceu para R$ 188,5 bilhões (março de 2013). Ou seja, São Paulo pagou 1,8 vezes a dívida e, apesar disso, a dívida estadual aumentou 3,7 vezes (todos os dados têm como fonte o BC).

Logo, a proposta de – além de mudar o indexador da inflação nos contratos dos Estados com a União para o IPCA (ao invés do atual, o irreal IGP-DI) – abater 45% do principal da dívida, recentemente em discussão na Câmara dos Deputados, nada tem de absurda. Pelo contrário, é insuficiente: seria necessário diminuir na mesma proporção o comprometimento das receitas estaduais com essa dívida (hoje entre 13% e 15%) e os juros (hoje em 6% ao ano).

Isso liberaria recursos importantes para o investimento nos serviços públicos – até porque a maior parte do investimento público, no Brasil, é feito pelos Estados e municípios, que no momento estão sitiados por essa dívida e pelas desonerações – que reduzem o Fundo de Participação dos Estados (FPE) e o Fundo de Participação dos Municípios (FPM).

Além disso, é preciso cumprir o próprio Orçamento. Hoje existem R$ 170 bilhões em “restos a pagar”, ou seja, pagamentos que não foram feitos no ano de vigência de Orçamentos anteriores. Enquanto isso, no ano passado, o setor de Transportes, fora os “restos a pagar”, realizou apenas 34,91% da verba aprovada pelo Congresso no Orçamento de 2012. A Educação, pelo mesmo critério, realizou 68,26% (dados do SIAFI correspondentes à execução orçamentária até 31/12/2013).

Para este ano, segundo nota publicada pelo Ministério do Planejamento, “o governo repetirá o receituário de anos anteriores e executará prioritariamente neste primeiro semestre os chamados ‘restos a pagar’ – recursos já autorizados de Orçamentos passados”. Esse é um caminho que só conduzirá à catástrofe.

C.L.

Para professor da UFRJ , governo deve aumentar os investimentos públicos e diminuir os juros

junho 24, 2013

A voz da Rua, Por Jasson de Oliveira Andrade

Filed under: WordPress — Tags:, , , , — Humberto @ 8:23 pm

ALCKMIN E CABRAL MOVIMENTO DOS ESTUDANTESTivemos no Brasil quatro grandes manifestações. 1- “Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade”, em março de 1964, comandada pelo então governador de São Paulo, Ademar de Barros, contra o comunismo, culminando com o Golpe de 64. 2- Entre março de 1983 a abril de 1984, tivemos o movimento pelas Diretas, Já, que reuniu milhões de pessoas. No comício da Praça da Sé (1984), houve reunião de políticos, representando todos os partidos oposicionistas à Ditadura: Ulysses Guimarães, presidente do PMDB, Tancredo Neves, Leonel Brizola, Miguel Arraes, Franco Montoro, Mário Covas, Orestes Quércia, Luiz Inácio Lula da Silva, Eduardo Suplicy, Fernando Henrique Cardoso e outros. O movimento pedia a eleição direta para Presidente, mas a emenda do deputado Dante de Oliveira, foi rejeitada. Mesmo assim, ele foi vitorioso com a eleição indireta de Tancredo Neves (PMDB) e o fim do regime militar em 1985. 3- Em 1992, houve o movimento dos Caras-Pintadas, que pedia Impeachment (Impedimento) do então presidente Fernando Collor, o que ocorreu em 29/9/1992, na Câmara Federal, por 441 votos a 38, e, em 29/12/1992, no Senado, por 73 votos a 3. 4- Em 17/6/2013, tivemos grandes manifestações em São Paulo, que depois se espalhou para outros Estados, em protesto contra o aumento das passagens. Sem uma liderança conhecida. Ele, segundo Luís Nassif, foi “turbinado pelo fenômeno das redes sociais [internet]”. O jornalista concluiu assim sua observação: “E a rapaziada apartidária – mas não apolítica – observando tudo, trocando impressões entre si e gradativamente formando sua opinião. E sua opinião explodiu na forma de condenação geral ao modelo de poder”. Nassif também constatou: “Há um corre-corre febril de interpretação das manifestações, cada qual pretendendo puxar a brasa para a sua sardinha”. Realmente o novo movimento das ruas é contra os governantes que aumentaram as passagens, atingindo TODOS os partidos no Poder. É o que veremos a seguir.

Em São Paulo, o movimento foi contra o governador Alckmin (PSDB), que aumentou as passagens dos trens e metrô, bem como contra Fernando Haddad (PT), que aumentou as passagens dos ônibus. No Rio de Janeiro, o protesto foi contra o Governador Sérgio Cabral (PMDB) e o prefeito Eduardo Paes (PMDB). Em Minas Gerais, ocorreu um fato inusitado, que o Estadão (19/6) noticiou com uma enorme manchete: “Minas pede ajuda da Força Nacional – O apoio da tropa nacional foi solicitado pelo governador Antonio Anastasia (PSDB) durante encontro com a presidente Dilma Rousseff”. Até pouco tempo, era impensável que um governador tucano, justamente de Minas que tem em Aécio Neves (PSDB) o principal candidato contra Dilma, iria pedir socorro à Presidenta! Outros Estados, governados por políticos de diferentes partidos, também foram atingidos pelos protestos. O movimento foi vitorioso. O tucano Alckmin e o petista Haddad, juntos, em entrevista, anunciaram o fim dos aumentos que concederam. Um fato também inédito. Os outros governantes tomaram a mesma decisão. Qual vai ser o reflexo desse movimento contra TODOS no futuro político do Brasil, principalmente em 2014? Ninguém sabe!

A Voz da Rua, vitoriosa, fez-me lembrar uma frase cantada nas Diretas, Já: “O povo unido, jamais será vencido”.

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu
Junho de 2013

junho 22, 2013

Está tudo tão estranho, e não é à toa., Por Marília Moschkovich

Filed under: WordPress — Tags:, , , , — Humberto @ 5:19 pm

Um relato do quebra-cabeças que fui montando nos últimos dias. Aviso que o post é longo, mas prometo fazer valer cada palavra.

[*nota da autora, adicionada após muitos comentários e compartilhamentos desviando um pouco o sentido do texto: este é um texto de esquerda]

Começo explicando que não ia postar este texto na internet. Com medo. Pode parecer bobagem, mas um pressentimento me dizia que o papel impresso seria melhor. O papel impresso garantiria maiores chances de as pessoas lerem tudo, menores chances de copiarem trechos isolados destruindo todo o raciocínio necessário.

Enquanto forma de comunicação, o texto exige uma linearidade que é difícil. Difícil transformar os fatos, as coisas que vi e vivi nos últimos dias em texto. Estou falando aqui das ruas de São Paulo e da diferença entre o que vejo acontecer e o que está sendo propagandeado nos meios de comunicação e até mesmo em alguns blogs.

Talvez essa dimensão da coisa me seja possível porque conheço realmente muita gente, de vários círculos; talvez porque sempre tenha sido ligada à militância política, desde adolescente; talvez porque tenha tido a oportunidade de ir às ruas; talvez porque pude estar conectada na maior parte do tempo. Não sei. Mas gostaria de compartilhar com vocês.

E gostaria que, ao fim, me dissessem se estou louca. Eu espero verdadeiramente que sim, pois a minha impressão é a de que tudo é muito mais grave do que está parecendo.

Tentei escrever este texto mais ou menos em ordem cronológica. Se não foi uma boa estratégia, por favor me avisem e eu busco uma maneira melhor de contar. Peço paciência. O texto é longo.

1. Contexto é bom e mantém a pauta no lugar
Hoje é dia 18 de junho de 2013. Há uma semana, no dia 10, cerca de 5 mil pessoas foram violentamente reprimidas pela Policia Militar paulista na Avenida Paulista, símbolo da cidade de São Paulo. Com a transmissão dos horrores provocados pela PM pela internet, muitas pessoas se mobilizaram para participar do ato seguinte, que seria realizado no dia 13. A pauta era a revogação no aumento das tarifas de ônibus, que já são caras e já excluem diversos cidadãos de seu direito de ir e vir, frequentando a própria cidade onde moram.

No dia 13, então, aconteceu a primeira coisa estranha, que acendeu uma luzinha amarela (quase vermelha de tão laranja) na minha cabeça: os editoriais da folha e do estadão aprovavam o que a PM tinha feito no dia 10 de junho e, mais do que isso, incentivavam ações violentas da pm “em nome do trânsito” [aliás, alguém me faz um documentário sensacional com esse título, faz favor? ]. Guardem essa informação.

Logo após esses editoriais, no fim do dia, a PM reprimiu cerca de 20mil pessoas. Acompanhei tudo de casa, em outra cidade. Na primeira hora de concentração para a manifestação foram presas 70 pessoas, por sua intenção de participar do protesto. Essa intenção era identificada pela PM com o agora famoso “porte de vinagre” (já que vinagre atenua efeitos do gás lacrimogêneo). Muitas pessoas saíram feridas nesse dia e, com os horrores novamente transmitidos – mas dessa vez também pelos grandes meios de comunicação, inclusive esses dos editoriais da manhã, que tiveram suas equipes de reportagem gravemente feridas -, muita gente se mobilizou para o próximo ato.

2. Desonestidade pouca é bobagem
No próprio dia 13, à noite, aconteceu a segunda “coisa estranha”. Logo no final da pancadaria na região da Paulista, sabíamos que o próximo ato seria na segunda-feira, dia 17 de junho. Me incluíram num evento no Facebook, com exatamente o mesmo nome dos eventos do MPL, as mesmas imagens, bandeiras, etc. Só que marcado para sexta-feira, o dia seguinte. Eu dei “ok”, entrei no evento, e comecei a reparar em posts muito, mas muito esquisitos. Bandeiras que não eram as do MPL (que conheço desde adolescente), discursos muito voltados à direita, entre outros. O que estava ali não era o projeto de cidade e de país que eu defendo, ou que o MPL defende.

Dei uma olhada melhor: eram três pessoas que haviam criado o evento. Fucei o pouco que fica público no perfil de cada um. Não encontrei nenhuma postagem sobre nenhuma causa política. Apenas postagens sobre outros assuntos. Lá no fim de um dos perfis, porém, encontrei uma postagem com um grupo de pessoas em alguma das tais marchas contra a corrupção. Alguma coisa com a palavra “Juventude”, não me lembro bem. Ficou claro que não tinha nada a ver com o MPL e, pior que isso, estavam tentando se passar pelo MPL.

Alguém me deu um toque e observei que a descrição dizia o trajeto da manifestação (coisa que o MPL nunca fez, até hoje, sabiamente). Além disso, na descrição havia propostas como “ir ao prédio da rede globo” e “cantar o hino nacional”, “todos vestidos de branco”. O alerta vermelho novamente acendeu na minha cabeça. Hino nacional é coisa de integralista, de fascista. Vestir branco é coisa de movimentos em geral muito ou totalmente despolitizados. Basta um mínimo de perspectiva histórica pra sacar. Pois bem.

Ajudei a alertar sobre a desonestidade de quem quer que estivesse organizando aquilo e meu alerta chegou a uma das pessoas que, parece, estavam envolvidas nessa organização (ou conhecia quem estava). O discurso dela, que conhece alguém que eu conheço, era totalmente despolitizado. Ela falava em “paz”, “corrupção” e outras palavras de ordem vazias que não representam reivindicação concreta alguma, e muito menos um projeto de qualquer tipo para a sociedade, a cidade de São Paulo, etc. Mais um pouco de perspectiva histórica e a gente entende no que é que palavras de ordem e reivindicações vazias aleatórias acabam. Depois de fazer essa breve mobilização na internet com várias outras pessoas, acabaram mudando o nome e a foto do evento, no próprio dia 13 de noitão. No dia seguinte transferiram o evento para a segunda-feira, “para unir as forças”, diziam.

3. E o juiz apita! Começa a partida!
Seguiu-se um final de semana extremamente violento em diversos lugares do país. Era o início da Copa das Confederações e muitos manifestantes foram protestar pelo direito de protestarem. O que houve em sp mostrou que esse direito estava ameaçado. Além disso, com a tal “lei da copa”, uma legislação provisória que vale durante os eventos da FIFA, em algumas áreas publicas se tornam proibidas quaisquer tipos de manifestações políticas. Quer dizer, mais uma ameaça a esse direito tão fundamental numa [suposta] democracia.

No final de semana as manifestações não foram tão grandes, mas significativas em ao menos três cidades: Belo Horizonte, Brasília e Rio de Janeiro. No DF e no RJ as polícias militares seguiram a receita paulista e foram extremamente violentas. A polícia mineira, porém, parecia um exemplo de atuação cidadã, que repassamos, compartilhamos e apoiamos em redes sociais do lado de cá do sudeste.

Não me lembro bem, mas acho que foi no intervalo entre uma coisa e outra que percebi a terceira “coisa estranha”. Um pouco depois do massacre na região da Paulista, e um pouco antes do final de semana de horrores, mais um sinal: ficamos sabendo que uma conhecida distante, depois do dia 13, pegou um ônibus para ir ao Rio de Janeiro. Essa pessoa contou que a PM paulista parou o ônibus na estrada, antes de sair do Estado de São Paulo. Mandaram os passageiros descerem e policiais entraram no veículo. Quando os passageiros subiram novamente, todas as coisas, bolsas, malas e mochilas estavam reviradas. A policial perguntou a essa pessoa se ela tinha participado de algum dos protestos. Pediu pra ver o celular e checou se havia vídeos, fotografias, etc.

Não à toa e no mesmo “clima”, conto pra vocês a quarta “coisa estranha”: descobrimos que, após o ato em BH, um rapaz identificado como uma das lideranças políticas de lá foi preso, em sua casa. Parece que a nossa polícia exemplar não era tão exemplar assim, mas agora ninguém compartilhava mais. Coisas semelhantes aconteceram em Brasília, antes mesmo das manifestações começarem.

4. Sequestraram a pauta?
Então veio a segunda-feira. Dia 17 de junho de 2013. Ontem. Havia muita gente se prontificando a participar dos protestos, guias de segurança compartilhados nas redes, gente montando pontos de apoio, etc. Uma verdadeira mobilização para que muita gente se mobilizasse. Estávamos otimistas.

Curiosamente, os mesmos meios de comunicação conservadores que incentivaram as ações violentas da PM na quinta-feira anterior (13) de manhã, em seus editoriais, agora diziam que de fato as pessoas deveriam ir às ruas. Só que com outras bandeiras. Isso não seria um problema, se as pessoas não tivessem, de fato, ido à rua com as bandeiras pautadas por esses grupos políticos (representados por esses meios de comunicação). O clima, na segunda-feira, era outro. Era como se a manifestação não fosse política e como se não estivesse acontecendo no mesmo planeta em que eu vivo. Meu otimismo começou a decair.

A pauta foi sequestrada por pessoas que estavam, havia alguns dias, condenando os manifestantes por terem parado o trânsito, e que são parte dos grupos sociais que sempre criminalizaram os movimentos sociais no Brasil (representados por um pedaço da classe política, estatisticamente o mais corrupto – não, não está nem perto de ser o PT -, e pelos meios de comunicações que se beneficiam de uma política de concessões da época da ditadura). De repente se falava em impeachment da presidenta. As pessoas usavam a bandeira nacional e se pintavam de verde e amarelo como ordenado por grandes figurões da mídia de massas, colunistas de opinião extremamente populares e conservadores.

As reações de militantes variavam. Houve quem achasse lindo, afinal de contas, era o povo nas ruas. Houve quem desconfiasse. Houve quem se revoltasse. Houve quem, entre todos os sentimentos possíveis, ficasse absolutamente confuso. Qualquer levante popular em que a pauta não eh muito definida cria uma situação de instabilidade política que pode virar qualquer coisa. Vimos isso no início do Estado Novo e no golpe de 1964, ambos extremamente fascistas. Não quer dizer que desta vez seria igual, mas a história me dizia pra ficar atenta.

5. Não, sequestraram o ato!
A passeata do dia 17, segunda-feira, estava marcada para sair do Largo da Batata, que fica numa das pontas da avenida Faria Lima. Não se sabia, não havia decisão ainda, do que se faria depois. Aos que não entendem, a falta de um trajeto pré-definido se justifica muito bem por duas percepções: (i) a de que é fácil armar emboscadas para repressão quando divulga-se o trajeto; e, (ii) mais importante do que isso, a percepção de que são as pessoas se manifestando, na rua, que devem definir na hora o que fazer. [e aqui, se vocês forem espertos, verão exatamente onde está a minha contradição – que não nego, também me confunde]

A passeata parecia uma comemoração de final de copa do mundo. Irônico, não? Começamos a teorizar (sem muita teoria) que talvez essa fosse a única referência de manifestações públicas que as pessoas tivessem, em massa: o futebol. Os gritos eram do futebol, as palavras de ordem eram do futebol. Muitas camisetas também eram do futebol. Havia inclusive uns imbecis soltando rojões, o que não é muito esperto pois pode gerar muito pânico considerando que havia poucos dias muita gente ali tinha sido bombardeada com gás lacrimogêneo. Havia pessoas brincando com fogo. [ guardem essa informação do fogo também ]

Agora uma pausa: vocês se lembram do fato estranho número dois? O evento falso no Facebook? Bom, o trajeto desse evento falso incluía a Berrini, a ponte Estaiada e o palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado. Reparem só.

Quando a passeata chegou ao cruzamento da Faria Lima com a Juscelino, fomos praticamente empurrados para o lado direito. Nessa hora achamos aquilo muito esquisito. Em nossas cabeças, só fazia sentido ir à Paulista, onde havíamos sido proibidos de entrar havia alguns dias. Era uma questão de honra, de simbologia, de tudo. Resolvemos parar para descobrir se havia gente indo para o lado oposto e subindo a Brigadeiro até a Paulista. Umas amigas disseram que estavam na boca do túnel. Avisei pra não irem pelo túnel que era roubada. Elas disseram então que estavam seguindo a passeata pela ponte, atravessando a Marginal Pinheiros.

Demoramos um tanto pra descobrirmos, já prontos pra ir para casa broxados, que havia gente subindo para o outro lado. Gente indo à esquerda. Era lá que preferíamos estar. Encontramos um outro grupo de pessoas conhecidas e amigas e seguimos juntos. As palavras de ordem não mudaram. Eram as mesmas em todos os lugares. As pessoas reproduziam qualquer frase de efeito tosca de maneira acrítica, sem pensar no que estavam dizendo. Efeito “multidão”, deve ser.

As frases me incomodaram muito. Nem uma só palavra sobre o governador que ordenara à PM descer bala, cassetete e gás na galera havia poucos dias. Que promove o genocídio da juventude negra nessa cidade todos os dias, há 20 anos. Nem mesmo uma. Os culpados de todos os problemas do mundo, para os verde-amarelos-bandeira-hino eram o prefeito e a presidenta. Ou essas pessoas são ignorantes, ou são extremamente desonestas. [ Grifo do Blog ENCALHE ]

Nem chegamos à Paulista, incomodados com aquilo. Fomos para casa nos sentindo muito esquisitos. Aí então conseguimos entender que aquelas pessoas do evento falso no Facebook tinham conseguido de alguma maneira manobrar uma parte muito grande de pessoas que queria ir se manifestar em outro lugar. A falta de informação foi o que deu poder para esse grupo naquele momento específico. Mas quem era esse grupo? Não sei exatamente. Mas fiquei incomodada.

6. O centro em chamas.
Quem diria que essa sensação bizarra e sem nome da segunda-feira faria todo sentido no dia seguinte? Fez. Infelizmente fez. O dia seguinte, “hoje”, dia 18 de junho de 2013, seria decisivo. Veríamos se as pessoas se desmobilizariam, se a pauta da revogação do aumento se fortaleceria. Essa era minha esperança que, infelizmente, não se confirmou. A partir daqui são todos fatos recentes, enquanto escrevo e vou tentar explica-los em ordem cronológica. Aviso que foram fazendo sentido aos poucos, conforme falávamos com pessoas, ouvíamos relatos, descobríamos novas informações. Essa é minha tentativa de relatar o que eu vi, vivi, experienciei.

No fim da tarde, pegamos o metrô Faria Lima lotadíssimo um pouco depois do horário marcado para a manifestação. Perguntei na internet, em redes sociais, se o ato ainda estava na concentração ou se estava andando, e para onde. Minha intenção era saber em qual estação descer. Me disseram, tomando a televisão como referencia (que é a referencia possível, já que não havia um único comunicado oficial do MPL em lugar algum) que o ato estava na prefeitura. Guardem essa informação.

Fomos então até o metrô República. Helicópteros diversos sobrevoavam a praça e reparei na quinta “coisa estranha”: quase não havia polícia. Acho que vimos uns três ou quatro controlando curiosamente a ENTRADA do metrô e não a saída… Quer dizer, quem entrasse no metro tinha mais chance de ser abordado do que quem estava saindo, ao contrário do dia 13.

A manifestação estava passando ali e fomos seguindo, até que percebemos que a prefeitura era outro lado. Para onde estavam indo essas pessoas? Não sabíamos, mas pelos gritos, pelo clima de torcida de futebol, sabíamos que não queríamos estar ali, endossando algo em que não acreditávamos nem um pouco e que já estávamos julgando ser meio perigoso. Quando passamos em frente à câmara de vereadores, a manifestação começou a vaiar e xingar em massa. Oras, não foram eles também que encheram aquela câmara com vereadores? O discurso de ser “apolítico” ou “contra” a classe política serve a um único interesse, a história e a sociologia nos mostram: o dos grupos conservadores para continuarem tocando a estrutura social injusta como ela é, sem grandes mudanças. Pois era esse o discurso repetido ali.

Resolvemos então descer pela rua Jandaia e tentar voltar à Sé, pois disseram nas redes sociais que o ato real, do MPL, estava no Parque Dom Pedro. Como aquilo fazia mais sentido do que um monte de pessoas bem esquisitas, com cartazes bem bizarros, subindo para a Paulista, lá fomos nós.

Outro fato estranho, número seis: no meio da Rua Jandaia, num local bem visível para qualquer passante nos viadutos do centro, um colchão em chamas. A manifestação sequer tinha passado ali. Uma rua deserta e um colchão em chamas. Para quê? Que tipo de sinal era aquele? Quem estava mandando e quem estava recebendo? Guardamos as mascaras de proteção com medo de sermos culpados por algo que não sabíamos sequer de onde tinha vindo e passamos rápido pela rua.

Cruzamos com a mesma passeata, mais para cima, que vinha lá da região que fica mais abaixo da Sé, mas não sabíamos ainda de onde. Atrás da catedral, esperamos amigos. Uma amiga disse que o marido estava chateado porque não conseguiu pegar trem na Vila Olímpia. Achamos normal, às vezes a CPTM trava mesmo, daí essa porcaria de transporte e os protestos, etc. pois bem. Guardem a informação.

Uma amiga ligou dizendo que estava perto do teatro municipal e do Vale do Anhangabaú, que estava “pegando fogo”. Imbecil que me sinto agora, na hora achei que ela estava falando que estava cheio de gente, bacana, legal. [que tonta!] Perguntei se era o ato do MPL, se tinha as faixas do MPL. Ela disse que sim mas não confiei muito. Resolvemos ir ver.

[A partir daqui todos os fatos são “estranhos”. Bem estranhos.]

O clima no centro era muito tenso quando chegamos lá. Em nenhum dos outros lugares estava tão tenso. Tudo muito esquisito sem sabermos bem o quê. Os moradores de rua não estavam como quem está em suas casas. Os moradores de rua estavam atentos, em cantos, em grupos. Poucos dormiam. Parecia noite de operação especial da PM ( quem frequenta de verdade a cidade de São Paulo, e não apenas o próprio bairro, sabe bem o que é isso entre os moradores de rua ).

Só que era ainda mais estranho: não havia polícia. Não havia polícia no centro de São Paulo à noite. No meio de toda essa onda. Não havia polícia alguma. Nadinha de nada, em lugar nenhum. [ idem ]

Na Sé, descobrimos mais ou menos o caminho e fomos mais ou menos andando perto de outras pessoas. Um grupo de franciscanos estava andando perto de nós, também. Vimos uma fumaça preta. Fogo. MUITO fogo. Muito alto. O centro em chamas.

Tentamos chegar mais perto e ver. Havia pessoas trepadas em construções com latas de spray enquanto outros bradavam em volta daquela coisa queimando que não conseguíamos identificar. Outro colchão? Os mesmos que deixaram o colchão queimando na Jandaia? Mas quem eram eles?

De repente algumas pessoas gritaram e nós, mais outros e os franciscanos, corremos achando que talvez o choque estaria avançando. Afinal de contas, era óbvio que a polícia iria descer o cacete em quem tinha levantado aquele fogaréu ( aliás, será q ela só tinha visto agora, que estava daquele tamanho todo? ). Só que não.

Na corrida descobrimos que era a equipe da TV Record. Estavam fugindo do local – a multidão indo pra cima deles – depois de terem o carro da reportagem queimado. Não, não era um colchão. Era o carro de reportagem de uma rede de televisão. O olhar no rosto da repórter me comoveu. Ela, como nós, não conseguia encontrar muito sentido em tudo que estava acontecendo. Ao lado de onde conversávamos, uns quatro policiais militares. Parados. Assistindo o fogo, a equipe sendo perseguida… Resolvemos dar no pé que bobos nós não somos. Tinha algo muito, mas muito errado (e estranho) ali.

Voltamos andando bem rápido para a Sé, onde os moradores de rua continuavam alertas, e os franciscanos tentavam recolher pertences caídos pelo chão na fuga e se organizarem novamente para dar continuidade a sua missão. Nós não fomos tão bravos e decidimos voltar para nossas casas.

7. Prelúdio de um… golpe?
No metrô um aviso: as estações de trem estavam fechadas. É, pois é, aquela coisa que havíamos falado antes e tal. Mal havíamos chegado em casa, porém, uma conhecida posta no Facebook que um amigo não conseguiu chegar em lugar nenhum porque algumas pessoas invadiram os trilhos da CPTM e várias estações ficaram paradas, fechadas. Não era caos “normal” da CPTM, nem problemas “técnicos” como a moça anunciava. Era de propósito. Seriam os mesmos do colchão, do carro da Record?

Lemos, em seguida, em redes sociais, que havia pessoas saqueando lojas e destruindo bancos no centro. Sabíamos que eram os mesmos. Recebi um relato de que uma ocupação de sem-teto foi alvo de tentativa (?) de incêndio. [ ibidem ] Naquele momento sabíamos que, quem quer que estivesse por trás do “caos” no centro, da depredação de ônibus na frente do Palácio dos Bandeirantes no dia anterior, de tentativas de criar caos na prefeitura, etc. não era o MPL. Também sabíamos que não era nenhum grupo de esquerda: gente de esquerda não quer exterminar sem-teto. Esse plano é de outro grupo político, esse que manteve a PM funcionando nos últimos 20 anos com a mesma estrutura da época da ditadura militar.

Algum tempo depois, mais uma notícia: em Belo Horizonte, onde já se fala de chamar a Força Nacional e onde os protestos foram violentíssimos na segunda-feira, havia ocorrido a mesma coisa. Depredação total do centro da cidade, sem nenhum policial por perto. Nenhunzinho. Muito estranho.

Nessa hora eu já estava convencida de que estamos diante de uma tentativa muito séria de golpe, instauração de estado de exceção, ou algo do tipo. Muito séria. Muito, muito, muito séria. Postei algumas coisas no Facebook, vi que havia pessoas compartilhando da minha sensação. Sobretudo quem havia ido às ruas no dia de hoje.

Um pouquinho depois, outra notícia: a nova embaixadora dos EUA no Brasil é a mesma embaixadora que estava trabalhando no Paraguai quando deram um golpe de estado em Fernando Lugo. [ idem ]

Me perguntaram e eu não sei responder qual golpe, nem por que. Mas se o debate pela desmilitarização da polícia e pelo fim da PM parece que finalmente havia irrompido pelos portões da USP, esse seria um ótimo motivo. Nem sempre um golpe é um golpe de Estado. Em 1989 vivemos um golpe midiático de opinião pública, por exemplo. Pode ser que estejamos diante de outro. Essa é a impressão que, ligando esses pontos, eu tenho.

Já vieram me falar que supor golpe “desmobiliza” as pessoas, que ficam em casa com medo. De forma alguma. Um “golpe” não são exércitos adentrando a cidade. Não necessariamente. Um “golpe” pode estar baseado na ideia errônea de que devemos apoiar todo e qualquer tipo de indignação, apenas porque “o povo na rua é tão bonito!”. [ idem ]

Curiosamente, quando falei sobre a manifestação do dia 13 com meus alunos, no dia 14, vários deles me perguntaram se havia chances de golpes militares, tomadas de poder, novas ditaduras. A minha resposta foi apenas uma, que ainda sustento sobre este possível golpe de opinião pública/mídia: em toda e qualquer tentativa de golpe, o que faz com que ela seja ou não bem-sucedida é a resposta popular ao ataque. Em 1964, a resposta popular foi o apoio e passamos a viver numa ditadura. Nos anos 2000, a reposta do povo venezuelano à tentativa de golpe em Chávez foi a de rechaço, e a democracia foi restabelecida.

O ponto é que depende de nós. Depende de estarmos nas ruas apoiando as bandeiras certas (e há pessoas se mobilizando para divulgar em tempo real, de maneira eficaz, onde está o ato contra o aumento da passagem, porque já não podemos dizer que é apenas “um” movimento, como fez Haddad em sua entrevista coletiva). Depende de nos recusarmos a comprar toda e qualquer informação. Depende de levantarmos e irmos ver com nossos próprios olhos o que está acontecendo.

Se essa sequencia de fatos faz sentido pra você, por favor leia e repasse o papel. Faça uma cópia. Guarde. Compartilhe. Só peço o cuidado de compartilharem sempre integralmente. Qualquer pessoa mal-intencionada pode usar coisas que eu disse para outros fins. Não quero isso.

Quero apenas que vocês sigam minha linha de raciocínio e me digam: estamos mesmo diante da possibilidade iminente de um golpe?

Estou louca?

Espero sinceramente que sim. Mas acho que não.

MEDIUM.COM

LEITURA COMPLEMENTAR ( Acrescentado em 29.06.13 )

Leiam atentamente. Bom fim de semana.

Para Leandro Fortes
A máscara caiu!!! Eis a verdade sobre os vândalos. Saiba quem são eles.

QUEREM COLOCAR UM CADÁVER NO COLO DA PRESIDENTA DILMA
Relato do Médico e Professor Giovano Iannotti (que socorreu as vítimas que caíram dos viadutos em 22/06/2013)

Ontem, 22 de junho de 2013, minha mulher e eu fomos à manifestação ocorrida em Belo Horizonte na qualidade de médicos. Somos professores e vários de nossos alunos estavam presentes. Como já havíamos testemunhado a violência no ato da segunda-feira anterior, fomos preparados para atender possíveis vítimas, levando na mochila alguns elementos muito básicos para pequenos ferimentos e limpeza dos olhos irritados por gás.

A manifestação foi tranquila durante todo o trajeto. Até mesmo a intolerância com militantes de partidos de esquerda foi pouco vista. Uma grande bandeira vermelha era orgulhosamente carregada e, salvo um ou outro, respeitada. Contudo, o clima começou a piorar quando a manifestação encontrou o cordão policial. Como tem ocorrido, a maioria aceitou o limite imposto, mas os provocadores instavam os moderados a enfrentarem a polícia. Parecem colocados estrategicamente entre o povo, porque se repartem em certo padrão e gritam as mesmas frases.

Como é sabido, eventualmente o conflito aconteceu. Retiramo-nos para a pequenina área verde que sobra naquele encontro as avenidas Abraão Caran e Antônio Carlos. E ali ficamos tratando sobretudo intoxicações leves e ferimentos superficiais causados por estilhaços e balas de borracha. Em um momento, fui chamado para atender um senhor ferido na cabeça. Fui correndo, mas ele já passara o cordão de isolamento da polícia. Identifiquei-me como médico aos policiais do Governo de Minas Gerais e disse que poderia atender o senhor ferido. A resposta foi uma arma apontada contra meu peito. Pedi para falar com algum oficial, mas a PM recomeçou a atirar. Voltei para nosso pronto-socorro improvisado. De dentro do campus da UFMG começaram a atirar bombas de gás sobre nós que atendíamos os feridos e recuamos ainda mais, para o meio da Antônio Carlos.

Minutos depois, chamaram-nos com urgência informando que alguém caíra do viaduto José de Alencar. Quando chegamos, um jovem com o rosto sangrando estava sofrendo uma pequena convulsão. Fizemos a avaliação primária e, na medida em que surgiam problemas, tratávamos da melhor forma possível. Aquele paciente precisava de atendimento avançado urgentemente, em um centro de trauma, mas a polícia não arrefecia. Aproximou-se de mim um sujeito com o rosto tampado por uma camiseta. Ele descobriu parcialmente a face e me disse no ouvido que era policial e que pediria que não atirassem para que pudéssemos evacuar a vítima (penso ter visto esse autodeclarado policial perto de mim, quando eu tentava falar com um oficial, e depois correndo ao meu lado. Se for a mesma pessoa, ele era um dos exaltados que instavam à violência). Chegaram algumas pessoas com camiseta vermelha, na qual se lia “bombeiro civil”. Eles nos ajudaram a improvisar uma maca com um cavalete da empresa de transportes e faixas de manifestantes. Algum tempo depois, por coincidência ou não, os tiros pararam e fomos, com dificuldade, levando a vítima em direção do cordão policial. Minha mulher ficou na barreira.

Quando passamos a barreira, vi uma ambulância parada a uns 20 metros. Gritei para os que ajudavam para que fôssemos para ela. Todavia, para meu horror, a polícia não permitiu. Disse que aquela viatura era somente para policiais feridos. Tentei discutir, mas vi que seria improdutivo. Disse a um oficial, então, que conseguisse outra. Não tínhamos muito tempo. Colocamos a vítima no chão, imobilizando sua coluna cervical e iniciei a avaliação secundária. Na medida do possível, limpamos o rosto ensanguentado do jovem e realinhamos os membros fraturados. Pedi aos policiais que, pelo menos, trouxessem equipamentos da ambulância “deles” para imobilização e infusão. Recusaram-se.

Esperamos um bom tempo até que uma ambulância do resgate do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais chegasse. O veículo praticamente não tinha nenhum equipamento. Somente a prancha, talas, colar cervical e oxigênio para ser usado com máscara. “Soro” não havia. Transferimos e imobilizamos o paciente. Nesse tempo, tentávamos descobrir para onde levar a vítima. Respostas demoravam a chegar. Pensamos no Mineirão, bem próximo de nós, mas primeiro disseram que era para torcedores e depois que não dispunha de centro de trauma. Fomos para o Pronto Socorro de Venda Nova, Risoleta Neves. Lá uma colega assumiu o tratamento do ferido.

Entrei em contato com minha mulher e ela me disse havia se juntado a meu irmão, que dois outros haviam caído do viaduto e que havia vários feridos, mas que eles não estavam conseguindo mais atender.

Mais tarde, quando os reencontrei no metrô de Santa Efigênia eles me contaram uma história de terror. Depois de me deixar com a primeira vítima, minha mulher se identificou aos policiais e disse que queria passar também para me ajudar. A polícia não deixou e ameaçou atirar nela. Como as agressões reiniciaram logo depois, ela ficou presa entre bombas e pedras, até que conseguiu fugir e retomar a antiga posição para socorro, no meio da Antônio Carlos. Foi quando encontrou meu irmão. Logo depois, receberam um chamado, avisando que outro rapaz havia caído. A situação clínica desse paciente era muito pior do que a do anterior. Não interessa escandalizar ou ofender com detalhes médico-cirúrgicos. Relato somente que o quadro que os dois descrevem é gravíssimo. A vítima não reagia, estava em coma, mas respirava e o coração batia. Meu irmão, sabendo da primeira experiência, correu para os policiais, desta vez um outro cordão formado na Antônio Carlos, levantando as mãos, agitando uma camisa branca e gritando que havia um ferido morrendo. Os policiais, vários, apontaram-lhe armas e gritaram para que ele fosse embora. Quando ele tentou avançar um pouco mais, os tiros começaram e ele correu em direção de minha mulher para ajudá-la.

Ali, ao lado da vítima, perceberam que a polícia atirava neles. Relatam que já não havia ninguém próximo. Somente a vítima, ele e minha mulher de jaleco branco. Os tiros e as bombas de efeito moral e de gás vinham com um único endereço. O deles. Ficaram o quanto aguentaram; mais não puderam fazer. Desesperados, tiveram que abandonar o rapaz que morria e buscar refúgio.

Depois, tiveram a notícia de que um terceiro homem caíra do mesmo viaduto. A cavalaria já estava em ação e não havia como atravessar a avenida para socorrer essa terceira vítima. Quando cheguei em casa, alguns alunos relataram que socorreram um homem que caíra do viaduto (perece que foram quatro, no total). Quando a polícia passou, eles conseguiram chegar à vítima e ficar com ela até que o SAMU chegasse.

Algumas ideias ficam em minha cabeça. Quem já conviveu com militares sabe na maioria das vezes reconhecer um por sua forma de agir, andar, cortar o cabelo e de falar. Sem leviandade, acredito que vários dos provocadores eram militares infiltrados. Vi o homem de rosto coberto dizer ser policial e que pediria para que os policiais alinhados dessem uma trégua e nos deixassem passar. Isso aconteceu. Outra imagem simbólica foi ver a tropa de choque da Polícia Militar de Minas Gerais dentro de uma universidade federal (deveria ser um território livre e sagrado da paz, da inteligência e da cultura) fechada para os estudantes. Da universidade vinham bombas que machucavam a juventude. Já ampliando o horizonte, o Itamaraty em chamas, a bandeira de São Paulo queimando, o Congresso quebrado, um governador sitiado em sua casa. Há que se ler nos símbolos e nos fatos. Amplie-se mais esse horizonte. Não se vê que os métodos são os mesmos usados nas “primaveras” árabes, em Honduras, no Paraguai, no Equador, na Venezuela e que começa também a ser usado na Argentina?

Nada há de espontâneo no que está ocorrendo e não é à toa que os meios de comunicação têm promovido e estimulado a agressividade e a multiplicidade de slogans e bandeiras. Não é verdade que não haja líderes nessas manifestações. Os líderes estão nas sombras, colhendo os frutos das últimas tecnologias. São discretos. Quem sabe o que são o Instituto Millenium, o instituto Fernando Henrique Cardos, o Council on Foreign Relations, a Trilateral Commission, o Carnegie Council? Preparam o Brasil para a guerra global idealizada pelos think tanks? É essa a forma de chegar aos recursos naturais do imenso território brasileiro sem a mínima resistência de governos mais progressistas? Incomoda o acordo com a Rússia para a compra e desenvolvimento de armas?

Uma certeza: querem atacar a democracia. Em vez de atacar partido, tome partido. Você está sendo manipulado. Pelo que vi e vivi é certo que querem jogar um cadáver no colo da Presidente Dilma.

Giovano Iannotti
Professor de Medicina

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