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abril 21, 2013

Venezuela: oposição desmente discurso conciliador, demonstra ódio às classes populares, provoca oito mortes e 61 feridos ( um deles queimado vivo )

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AS MÁSCARAS CAÍRAM
VENEZUELA | Com manifestações violentas e assassinatos, a oposição desmente o discurso conciliador e demonstra o ódio às classes populares e ao bem-estar social

Por ANTONIO LUIZ M. C. COSTA
Carta Capital, Edição 745

 

1366200981717javu-detallednO resultado apertado da eleição venezuelana, 50,75% a 48,98%, quando há duas semanas, no início oficial da campanha, o razoavelmente confiavel Datanálisis dava a Nicolás Maduro uma margem de 9,7%, quase igual à de Hugo Chávez em sua última eleição ( apontada corretamente pelo mesmo instituto ), mostra o quanto o candidato e seu partido conduziram mal a campanha eleitoral. Mas a reação violenta da oposição ao resultado comprova, para quem duvide, que a direita continua mais autoritária e politicamente mais incompetente.
Maduro lidou com ônus incontornáveis, principalmente a desvalorização do bolívar ( de 4,30 para 6,30 por dólar ) em 12 de fevereiro, medida adiada demais pelas campanhas eleitorais de 2012 e a doença de Chávez, que não era mais possível postergar e que teve impacto negativo ( na compra de eletrodomésticos, por exemplo ) inclusive nas classes populares. Sua postura na campanha eleitoral, tudo indica, contribuiu para o resultado fraco. Insinuar dúvidas sobre a masculinidade do adversário, insistir na visita de um passarinho e evitar o debate político soaram a tentativas de imitar o estilo popularesco do comandante sem transmitir o mesmo conteúdo. O falecido se via como herdeiro de Simón Bolívar, mas jamais alegou ser visitado em espírito por ele e, quando foi sua vez de enfrentar o mesmo candidato da oposição, insistiu no seu histórico elitista e golpista , não na sua sexualidade.
Tudo isso se reduziu a pecadilhos ante a atitude de Henrique Capriles ao recusar reconhecer o resultado da eleição, cuja confiabilidade foi atestada pelos observadores internacionais. Inclusive aqueles da Espanha, cuja equipe de sete deputados incluiu um representante do PP, o partido conservador no governo. Capriles alegou incidentes esparsos “suspeitos” e, antes de apresentar provas ou uma queixa formal à Justiça Eleitoral, declarou-se vitorioso e pediu a seus eleitores para sairem às ruas e exigir a recontagem completa dos votos. A diferença foi de quase 273 mil votos, muito mais do que os 18 mil pelos quais Chávez foi derrotado no referendo de 2007, sem recorrer ou pedir recontagem. Em porcentagem, foi muito maior do que aquela que elegeu o ex-presidente mexicano Felipe Calderón, ou os estadunidenses Richard Nixon ( 1968 ), John Kennedy ( 1960 ) e Bush júnior ( 2000 ).

Na noite da segunda-feira 15, de maneira difícil de conceber caso não tenha sido planejada em algum nível, os oposicionistas não se limitaram a protestar, mas atacaram em várias partes do país não só sedes do partido governista PSUV, casas de seus militantes e tevês estatais, mas emissoras comunitárias, mercados populares subsidiados, conjuntos habitacionais e até creches e centros de saúde. Tudo que representasse a política social do chavismo. Uma demonstração de ódio não só ao governo, mas às classes populares.
Um panfleto ( acima à esquerda ) distribuído por uma das organizações juvenis de direita, a JUVA, dá a medida das percepções e expectativas desses grupos. “Nós, a Juventude Ativa da Venezuela, temos o dever de denunciar por esta via o seguinte: por meio de nossos militantes, descobrimos uma rede de informantes para o Regime que hoje pretende sequestrar o resultado das eleições que Capriles ganhou limpamente.  Nossos movimentos estão sendo seguidos por choferes, domésticas, mecânicos, zeladores e demais vendidos ao comunismo cubano. Pedimos que os revistem ao entrar e sair de suas casas, que suspendam qualquer tipo de conversações em sua presença,  que mantenham seus filhos afastados deles e se possível não os deixem entrar em suas casas. A este governo ilegítimo e corrupto lhes retam poucos dias.”
Em Miranda, antichavistas invadiram um Centro de Diagnóstico Imntegral inaugurado em dezembro com panelaços e cartazes “fuera los cubanos”. Exigiram a expulsão dos médicos e jogaram um coquetel molotov, além de ameaçar um paciente com uma pistola. Um homem e uma mulher chavistas que defenderam o centro foram motos a tiros. Três mercados populares, cinco sedes do PSUV e 18 centros de saúde foram incendiados, às vezes com pacientes dentro. Em Carabobo, atearam fogo a casas populares construídas pelo governo. Dois foram mortos e dois feridos a tiros ao celebrar a vitória de Maduro em bairros de classe média de Caracas. Um jovem foi morto em carreata governista atacada em Macaraibo. Em Táchira, um militante do PSUV perdeu a vida e foram queimadas duas retransmissoras de tevê e a casa de dois vereadores governistas. Ao todo, registraram-se oito mortos e 61 vítimas de ferimentos, uma delas queimada viva.

A oposição passou as três últimas campanhas eleitorais tentando mudar sua imagem e se apresentar como popular e até meio socialista e bolivariana. Capriles prometeu manter as políticas sociais de Chávez, se disse inspirado em Lula e até intitulou de “comitês Simón Bolívar” seus núcleos de campanha. Agora, a direita venezuelana fez a Maduro o favor de demonstrar em poucas horas o que ele não conseguiu em semanas de campanha. Revelou-se dominada pela mesma elite truculenta, reacionária e rancorosa, promotora da tentativa de golpe de 2002 e da manobra para bloquear o país em 2003. Lançou os disfarces ao lixo e mostrou que continua a alimentar o sonho de afogar o chavismo em um banho de sangue.
“Pior que um crime, foi um erro”, teria dito o chanceler Talleyrand em 1804 sobre a decisão de Napoleão de prender e executar o duque d’Enghien, o que enfureceu a realeza européia. O mesmo pode ser dito, com mais razão e ênfase, do gesto de Capriles e da orgia de ódio de classe de seus seguidores. Os chavistas se sentiam derrotados e falavam de “vitória de Pirro” e da necessidade de uma ampla autocrítica. A pequena margem nas urnas deixava dúvidas sobre o caminho a seguir e sua capacidade de impor novas reformas.
Conforme atestam correspondentes estrangeiros, inclusive órgão de esquerda, há insatisfação nos bairros populares, onde se viram também manifestações de apoio a Capriles e muitos entrevistados disseram desejar a mudança. Pareciam crer no discurso oposicionista de que a politica social seria mantida com mais competência e menos confrontos. O governo de Maduro provavelmente continuaria a enfrentar dificuldades nos próximos anos, além do risco de fissuras entre radicais e moderados no bloco governista. Se a oposição chegou tão perto de ganhar agora, suas chances de vitória seriam muito boas na próxima oportunidade, dado o acúmulo de problemas e o esquecimento da comoção nacional com a morte do comandante. Nem seria preciso esperar por 2019, pois a Constituição bolivariana possibilita o referendo revocatório no meio do mandato, ou seja, em 2016.
O cenário mudou. A direita desmentiu suas palavras com atos: não quer administrar o bem-estar social legado por Chávez e sim destruí-lo da forma mais literal. Os militantes da esquerda devem ter compreendido que, além do chavismo, as próprias vidas estiveram em risco. E os eleitores mais ingênuos devem ter percebido que a vitória da direita não teria trazido uma correção de curso, e sim um retrocesso irreparável. Assim como em 2002, essa tentativa de tomar o poder pela força pode custar muitos anos de ostracismo à oposição.
Autorizado pelos excessos dos opositores, Maduro sentiu-se respaldado para proibir a marcha que a oposição prometia [ Nota deste blog: Talvez por isto ] para quarta-feira 17 e Capriles, intimidado, a desmobilizou. O governo tem razões compreensíveis para processar, inclusive por formação de quadrilha, os 135 manifestantes presos e investigar líderes da oposição, inclusive Capriles. em represália ao não reconhecimento do resultado, o presidente da Assembléia, Diosdado Cabello destituiu oposicionistas de comissões. A presidenta do Supremo disse que a recontagem manual voto a voto é impossível e exigi-la serve apenas para incitar violência. O presidente eleito apareceu na tevê prometendo “revolução, revolução e mais revolução. Estou disposto a radicalizar”.

Deve haver consequências no cenário internacional. Com a perda de seu fundador, a divisão de suas bases e o difícil quadro econômico da Venezuela, o chavismo estava enfraquecido e talvez a caminho de ser diluído, domesticado e, no médio prazo, derrotado, mas essa turbulência reanimou sua combatividade e a solidariedade das esquerdas sul-americanas. Viu-se que há mais que retórica ou paranóia em suas frequentes denúncias de conspirações golpistas e talvez também nas acusações de participação da embaixada e dos serviços secretos dos EUA nessas movimentações. Mais uma vez, a Casa Branca apressou-se em respaldar as exigências de recontagem da oposição, sob pena de não reconhecer o resultado. Deu substância às acusações de Evo Morales de que Washington busca um pretexto para intervir na Venezuela. A OEA, a França e os sul-americanos cumprimentaram Maduro pela vitória. A Unasul fez reunião de emergência para respaldar a Venezuela. O único outro governo a pedir auditoria do resultado foi Madri, que no dia seguinte voltou atrás e emitiu uma nota para reconhecer a eleição. Nesse intervalo, Maduro recomendar ao governo espanhol preocupar-se com seus 25% de desemprego e ameaçou “medidas exemplares” contra suas empresas na Venezuela, entre as quais a petroleira Repsol.

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