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março 20, 2013

Dinheiro da Privataria Tucana voltando em forma de picolé?


Por que Lemann e Verônica pagaram tanto pelo  picolé?
Tomando como  exemplo a compra da gigante americana Heinz, pelo fundo 3G, de Jorge Paulo  Lemann, há pouco mais de um mês, o negócio foi fechado por duas vezes o  faturamento e 19 vezes o lucro da companhia. No caso da minúscula sorveteria  Diletto, adquirida por Verônica Serra, filha de José Serra, e o bilionário  Lemann, os parâmetros foram totalmente distintos, numa aquisição precificada em  17 vezes o faturamento de uma sorveteria que talvez ainda nem tenha começado a  lucrar. Ou há muita confiança ou algo ainda permanece misterioso na  transação

Brasil 247 – No dia 14 de março deste ano, o fundo 3G,  do bilionário Jorge Paulo Lemann, protagonizou a maior aquisição da história da  indústria alimentícia. Por US$ 23 bilhões, ele e seus sócios compraram a  gigantesca empresa norte-americana Heinz, dona da principal marca de ketchups do  mundo.
Negócios desse porte sempre obedecem a  critérios claros e objetivos. No caso da Heinz, o 3G pagou o equivalente a duas  vezes o faturamento da Heinz, de US$ 11,5 bilhões no ano passado, e 19 vezes o  lucro da companhia. Essa relação preço/lucro, o chamado P/E (price/earnings), é  o principal parâmetro utilizado em avaliações de empresas. Uma relação de dez  vezes o lucro, muitas vezes, é adequada numa aquisição, mas há também casos em  que se pagam prêmios, como no caso da Heinz.
Nada, no entanto, é comparável ao negócio  fechado por Lemann e Verônica Serra, sócios do fundo Innova, na compra de 20% da  minúscula sorveteria Diletto, de Cotia (SP), por R$ 100 milhões. A empresa, que  tem dois anos de vida e fatura R$ 30 milhões por ano, foi avaliada em R$ 500  milhões. Ou seja: 17 vezes o faturamento. Se o critério utilizado na Heinz fosse  semelhante, a empresa americana valeria US$ 195,5 bilhões, e não os US$ 23  bilhões pagos pelo 3G. A relação preço/lucro da Diletto é desconhecida, uma vez  que seus números não são públicos e não se sabe sequer se a companhia começou a  lucrar.
Procurados pela reportagem do 247, nem o fundo  Innova nem o bilionário Lemann informaram quais foram os critérios que embasaram  a aquisição. Por exemplo, quem fez a avaliação e quais foram os parâmetros  utilizados?
Verônica, como se sabe, é filha de José Serra  e teve seus negócios esquadrinhados no livro “Privataria Tucana”, um best-seller  publicado pelo jornalista Amaury Ribeiro Júnior.  Depois de uma bolsa de  estudos em Harvard, concedida pelo próprio Jorge Paulo Lemann, ela se tornou  gestora de fundos de investimento, ao lado do marido Alexandre Bourgeois.
Lemann, por sua vez, foi diretamente  beneficiado no governo FHC, pela decisão mais importante de sua trajetória  empresarial: a aprovação, pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o  Cade, da fusão entre Brahma e Antarctica, ocorrida em 1999, que lhe deu 70% do  mercado brasileiro e musculatura monopolista para crescer em outros  países.
Naquele momento, o Cade era presidido por  Gesner Oliveira e José Serra era candidato à sucessão de FHC. Serrista de  carteirinha, Gesner se tornou presidente da Sabesp, estatal de saneamento, no  governo tucano. E, depois da fusão Brahma-Antarctica, o Cade jamais voltou a  permitir a realização de outros atos de concentração de mercado tão intensos.  Por exemplo, ao comprar a Sadia, a Perdigão se viu forçada a vender vários  ativos.
Leis que restringem monopólios existem nos  Estados Unidos desde o início do século passado para proteger indivíduos e  consumidores do poder das grandes corporações. Recentemente, ao tentar comprar a  cervejaria mexicana Modelo, Lemann teve suas pretensões barradas por autoridades  regulatórias dos Estados Unidos, país onde ele também enfrenta a acusação de  aguar a cervejaria Budweiser, prejudicando a qualidade de um ícone americano, em  favor do lucro.
O caso Diletto é tão fora dos padrões que  gerou até uma movimentação atípica, nos meios de comunicação, para preservar as  imagens de Lemann e de Verônica. Nas reportagens, o nome da filha de Serra  aparece no fim, quase escondido. Além disso, embora a transação tivesse sido  anunciada na noite de segunda-feira, uma reportagem-exaltação já aparecia  impressa, na manhã do dia seguinte, na versão brasileira da revista Forbes,  sobre o “estilo Lemann” e o porquê da decisão de entrar no mercado de  sorvetes.
Em reportagem anterior do 247 sobre o caso  (leia mais aqui), diversos leitores levantaram uma questão  intrigante: será que, por meio de uma aquisição totalmente fora dos parâmetros  tradicionais, recursos oriundos da chamada “privataria” estariam sendo  internalizados no Brasil?

EXTRAÍDO DO Blog Sujo  == > Dinheiro da Privataria voltando em forma de picolé?

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