ENCALHE ( Descontinuado em 05.10.2013 )

março 13, 2013

A morte suspeita do Presidente Hugo Chávez, Por William Blum


Certa vez, escrevi sobre o presidente Salvador Allende do Chile:
Washington não conhece heresia no Terceiro Mundo, mas a verdadeira independência. No caso de Salvador Allende, a independência chegou vestida em um traje especialmente provocante – um marxista constitucionalmente eleito que continuou a honrar a Constituição. ( … ) Ele sacudiu os alicerces sobre os quais a torre anti-comunista é construído: a doutrina, cuidadosamente cultivada por décadas, de que os “comunistas” podem tomar o poder só através da força e do engano, que podem manter esse poder só através de lavagem cerebral e aterrorizando a população . Só havia uma coisa pior do que um marxista no poder – um marxista eleito no poder.

Em todo o universo daqueles que possuem e dirigem a “United States, Inc.” não havia ninguém que mais desejassem ver morto do que Hugo Chávez. Ele era pior do Allende. Pior do que Fidel Castro. Pior do que qualquer líder mundial fora do campo americano porque falava claro e em termos vigorosos acerca do imperialismo estado-unidense e da sua crueldade. Reiteradamente. Constantemente. Dizendo coisas que se supõe que chefes de estado não digam. Nas Nações Unidas, num nível chocantemente pessoal, acerca de George W. Bush. Por toda a América Latina, pois ele organizou a região em blocos anti Império.
Os leitores habituais destes relatórios sabem que não costumo ter reacções imediatas de teórico da conspiração. Mas quando alguém como Chávez morre numa idade tão jovem como 58 anos tenho de indagar acerca das circunstâncias. Cancro persistente, infecções respiratórias intratáveis, ataques de coração maciços, um após o outro… É bem sabido que durante a Guerra Fria a CIA trabalhou com afinco para desenvolver substâncias que podiam matar sem deixar qualquer rastro. Gostaria de ver o governo venezuelano seguir todas as pistas de investigação uma vez realizada a autópsia.
Em Dezembro de 2011, já sob tratamento do cancro, Chávez perguntou em voz alta: “Seria tão estranho que eles tenham inventado a tecnologia para disseminar o cancro e nós não soubéssemos acerca disso durante 50 anos?” O presidente venezuelano estava a falar um dia depois de a presidente progressista da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, ter anunciado que lhe fora diagnosticado cancro na tiróide. Este aconteceu depois de três outros eminentes líderes progressistas latino-americanos terem sido diagnosticados com cancro: a presidente do Brasil, Dilma Roussef, Fernando Lugo do Paraguai e o antigo líder brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.
“Evo tome cuidado consigo. Correa, seja cuidadoso. Nós simplesmente não sabemos”, disse Chávez referindo-se ao presidente da Bolívia, Evo Morales, e a Rafael Corre, o presidente do Equador, ambos líderes progressistas.
Chávez disse que recebera palavras de advertência de Fidel Castro, ele próprio alvo de centenas de fracassadas e muitas vezes bizarras tramas de assassinato da CIA. “Fidel sempre me dizia: Chávez tome cuidado. Esta gente desenvolveu tecnologia. Vocês são muito descuidados. Tome cuidado com o que come, com o que lhe dão para comer… uma pequena agulha e injectam-no com não sei o que”. [1]
Quando o vice-presidente Nicolas Maduro sugeriu o possível envolvimento americano na morte de Chávez, o Departamento de Estado dos EUA considerou a alegação absurda. [2]
Várias organizações progressistas dos EUA apresentaram sob a Freedom of Information Act (Lei de Liberdade de Informação) requerimento à CIA, a perguntar de “qualquer informação respeitante a planos para envenenar ou assassinar de qualquer outra forma o Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que acabou de morrer”.
Pessoalmente acredito que Hugo Chávez foi assassinado pelos Estados Unidos. Se esta doença e morte NÃO fossem induzidas, a CIA – que tentou assassinar mais de 50 líderes estrangeiros, muitos com êxito [3] – não estava a fazer a sua tarefa.
Quando Fidel Castro ficou doente vários anos atrás, os media de referência americanos implacavelmente conjecturavam sobre se o sistema socialista cubano poderia sobreviver à sua morte. A mesma especulação existe agora em relação à Venezuela. A mente ianque não pode acreditar que grandes massas de povo possam virar as costas ao capitalismo quando lhes é mostrada uma boa alternativa. Isso só poderia ser o resultado da manipulação do público por um ditador, repousando tudo sobre um homem cuja morte marcaria o fim do processo.
11/Março/2013

[1] The Guardian (London), December 29, 2011
[2] Huffington Post, March 7, 2013
[3] http://killinghope.org/bblum6/assass.htm

[*] Escritor, historiador e crítico da política externa dos EUA. É autor de Killing Hope: U.S. Military and CIA Interventions Since World War II e de Rogue State: A Guide to the World’s Only Superpower , dentre outros.

O original encontra-se em http://williamblum.org/aer/read/114

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

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