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fevereiro 20, 2013

O mito da iniciativa privada, Por Arthur Meucci


Reproduzido do Portal FILOSOFIA CIÊNCIA & VIDA

O mais novo técnico da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari, fez um comentário preconceituoso sobre uma parte do funcionalismo público. Em sua primeira entrevista coletiva no comando da seleção brasileira, ao falar sobre a pressão de ganhar uma Copa do Mundo no Brasil, disse: “Se não quer pressão, vai trabalhar no Banco do Brasil. Senta no escritório e não faz nada, aí não tem pressão nenhuma”. Segundo o técnico, bancos e empresas públicas não são eficientes, pois seus funcionários, por gozarem de uma estabilidade, não têm motivos para melhorar seu trabalho. Essa ideia popular, baseada no mito da iniciativa privada, não encontra fundamentos reais que a justifiquem em comparação ao setor público.
A depreciação do setor público teve início nos governos neoliberais que administraram o Brasil após o regime militar. Herdamos da ditadura empresas públicas que funcionavam como cabide de emprego, contratando funcionários nomeados por generais, sem concurso, para alimentar esquemas de corrupção. O discurso da privatização das empresas públicas nas décadas de 1980 e 1990 foi baseado no mito da “ineficiência” do Estado frente ao “dinamismo eficiente” do mercado. Porém, com a redemocratização, o funcionalismo público voltou a exigir concursos e seleções rigorosas para todos os funcionários que trabalham nestas instituições. Se por um lado há a estabilidade e os benefícios especiais de cargos e aposentadoria, por outro existe uma competitividade entre os candidatos e funcionários de empresas estatais e a busca contínua pela capacitação. Afinal, a Constituição exige que somente os melhores candidatos podem ser contratados e promovidos. A exoneração por problemas éticos ou legais impossibilita a contratação em qualquer outra instituição pública. A meritocracia, regra que rege o bem público, não é compartilhada pelo mercado.
Sacralizada pela ideologia midiática e pela classe média, as empresas privadas ganham fama de eficientes, performáticas, competidoras e lucrativas. Sempre buscando se aperfeiçoar para conquistar clientes e superar seus concorrentes. Afinal, na visão liberal, é a mão invisível do mercado que guia a sociedade para o bom caminho. Parece- nos tão lógico que é difícil duvidar das promessas feitas pela iniciativa privada. Porém, basta ter olhar crítico para constatarmos as falácias desses argumentos, sobretudo no Brasil.
Em nosso país, as universidades públicas são muito superiores às universidades particulares, gozando de menores recursos que uma particular e com um quadro docente estável. Nossa melhor universidade particular está na décima terceira posição, e a segunda colocada bem mais distante, segundo os critérios acadêmicos e mercadológicos do Ranking Universitário Folha.
Como professor universitário, já ministrei aulas em muitas universidades particulares tradicionais, ou seja, mais preocupadas com o lucro do que com a educação. Tive recentemente três alunos do último ano de Administração que poderiam ser facilmente classificados como analfabetos. Com o sistema de “DPs” on-line criado pela instituição, eles passavam de ano pagando para outras pessoas fazerem as provas a distância. Um dos alunos trabalhava em um hospital particular de São Paulo, aprovando ou reprovando autorização de procedimentos médicos via convênio. Os outros dois, que também não sabiam escrever e fazer contas, estagiaram e se efetivaram em dois grandes bancos privados.
Eu fiquei preocupado, pois era cliente de um dos bancos em questão. Quando o meu novo gerente me chamou por e-mail para me vender um fundo de investimento (que eu não pedi), percebi que o domínio do idioma não era um fator importante na contratação. Os grosseiros erros de conta, quando me mostrou o possível retorno dos investimentos, me convenceram a transferir meu ordenado para minha antiga conta no banco público. Esse banco público nunca me ligou no aniversário, não telefona de noite para me oferecer produtos e nem me ofereceu tratamento personalité, porém, nestes últimos dez anos, eu jamais tive problemas. Como consultor de Ética, que presta serviços no sistema financeiro, posso afirmar que os gerentes do meu banco público, de agências simples, são muito mais bem preparados que alguns diretores financeiros que conheci no setor privado.
Na cidade de São Paulo temos cada vez mais relatos de pessoas que sofreram erros médicos em importantes hospitais particulares. Os serviços de telefonia, que foram privatizados em nome da eficiência, não funcionam satisfatoriamente nem se comparam ao antigo sistema estatal – que, apesar de não expandir de forma agressiva o oferecimento das novas linhas, mantinha boa qualidade na prestação dos serviços. A média geral das notas nas escolas particulares é tão ruim quanto a média geral das escolas públicas, mesmo com práticas antiéticas para melhorar suas posições no Ranking do Exame Nacional do Ensino Médio.
Em tempos de crescimento econômico, a falta de mão de obra bem preparada no mercado torna cada vez mais evidente o abismo entre a qualidade dos prestadores de serviço públicos e particulares. Beleza, roupas, persuasão, submissão ao chefe, corroboração aos assédios morais, indicação e alienação são os pré-requisitos básicos de contratação em um RH. Pessoas com conteúdo, críticas e que se esforçam para subir na hierarquia, típico de um sistema de meritocracia, são vistas com maus olhos. Como todo mito, a sacralização do privado é muito mais ilusório e teatral que verdadeiro.

Arthur Meucci é mestre em Filosofia pela USP, doutorando em Educação, Arte e História da Cultura pelo Mackenzie, é membro da Associação Filosófica Scientiae Studia. Professor conferencista da ECA/USP e do curso de Ética e Meio Ambiente do PEC/FGV-SP e consultor do Espaço Ética. www.meucci.com.br

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