ENCALHE ( Descontinuado em 05.10.2013 )

novembro 12, 2012

“Direitos humanos para humanos direitos” versão Esopo (*)


Recentemente, meu grande amigo Vinícius Duarte “curtiu” no Facebook e compartilhou o link desse texto publicado na Carta Capital, e, sofreu – o texto, não o Vinícius que, de todo modo, é muito polido com os comentaristas contrários – algumas críticas. Uma delas dizia – no meu modo de entender – que as ironias e sarcasmos do texto não eram legais, e que os argumentos deviam ser sérios, o embate de idéias só pode ser feito diretamente. Como se o grandioso Machado de Assis não recorresse a tais subterfúgios estilísticos, ou mesmo Voltaire. Vamos e venhamos: os tais argumentos contra o dito “cidadão de bem” existem, às vezes naquela empolada ou hermética linguagem acadêmica. Mas tá ao alcance de todos. Assim, não dá para dizer que não existem, e que só se combate os “de direita” com ironias. Isso não é verdade. Só é verdade no caso desse texto.
Por sua vez, o ex-escravo Esopo recorria às figuras de animais humanizados para, disfarçadamente, passar as mensagens morais que desejava, que julgava serem importantes para a formação humana, segundo suas argutas observações.
De modo que eu recorrerei às figuras animais-humanas para que o texto abaixo, que alguns poderão julgar bastante irônico e ofensivo, perca essas “qualidades” suspeitas e a mensagem seja dada. Se ficou bom, eu não sei.

DIREITOS ANIMAIS PARA ANIMAIS DIREITOS
Raposinho era o sujeito inventado pelos amigos de faculdade florestal para personalizar tudo o que não queríamos nos transformar ao longo dos anos. A projeção era a de um animal médio: resmungão na toca, satisfeito com o emprego na “firma” e à espera da aposentadoria para poder tomar banho no riacho, colocar pijama às quatro da tarde, assistir ao Datoca e reclamar da janta preparada pela esposa Dona Raposa. O Raposinho é aquele sujeito capaz de rir de qualquer piada de bode português, gambá negro, quati gay e arara loira. Que guarda revistas de sexo animal no armário, baba nas patas da raposa vizinha desquitada ( é assim que ele fala ) mas implica quando a filha coloca um vestido mais curto. Que não perde a chance de dizer o quanto a raposa esposa ( ele chama de “patroa” ) engordou desde o casamento.
O Raposinho, para nosso espanto, está hoje em toda parte. Multiplicou-se em proporção geométrica e, com os anos, se modernizou. O sujeito que montava no carro de boi do bosque no fim de semana e levava a família para ir ao jardim humano dar pipoca aos australopitecos ( apesar das placas de proibição ) sucumbiu ao sinal dos tempos e aderiu à floresternet. Virou um militante das correntes de e-mail com alertas sobre o perigo formigo-comunista, as contas no exterior do ex-rei da selva, os planos do Congresso Animal para acabar com o 13º salário. Depois foi para o Animorkut. Depois para o Focinhobook. Ali encontrou os amigos da firma que todos os dias o lembram dos perigos de se viver num mundo-cão sem valores familiares. O Raposinho presta serviços animalitários ao compartilhar alarmes sobre privacidade na rede, homenagens a animais doentes e fotos de filhotes deformados. O Raposinho também distribui bons dias aos amigos com piadas sobre o time de patabol Palmeira Verde ( “estude para o vestibular porque vai cair…hihihii” ) e mensagens motivacionais. A favorita é aquela sobre amar as criaturas como se não houvesse amanhã, que ele jura ser do Cigarra mas chegou a ele como Galo Fernandes (sic) Abreu.
O Raposinho gosta também de se posicionar sobre os assuntos que causam comoção. Para ele, a atual onda de violência em São Paulo da Floresta só acontece porque os animais pobres, para ele potenciais criminosos ( seja assassino ou ladrão de galinha ) têm direitos demais. O Raposinho tem um lema: “Direitos Animais para Animais Direitos”. Aliás, é ouvir essa expressão, que ele não sabe definir muito bem, e o Raposinho boa praça e inofensivo da vizinhança se transforma. “Lógica da criminalidade”, “superlotação de gaiolas”, “sindicato do crime”, “enfrentamento”, “uso excessivo da força”, para ele, é conversa de intelectual, como a Dona Coruja. E se tem uma coisa que o Raposinho detesta mais que o Lula do Mar ou o Lobo Menezes ( sempre nesta ordem ) é intelectual, como a Dona Coruja. O Raposinho tem pavor. Tivesse duas bombas eram dois endereços certos: a floresta-favela e a floresta-USP. A favela porque ele acredita no governador Sergio Cabra quando ele fala em fábrica de marginais. A floresta-USP porque está cansado de trabalhar para pagar a conta de filhote desmamado que não tem nada a fazer a não ser promover greves, invasões, protestos e espalhar palavras difíceis. O Raposinho vota no primeiro candidato a rei da Selva que propuser esterilizar a fábrica de marginal e a construção de um estacionamento no lugar da universidade animal-pública.
Uma mandíbula dilacerante na mão do Raposinho e não sobraria vagabundo na Floresta Encantada. ( O Raposinho até grunhe baixo para não ser repreendido pela “patroa”, mas se alguém falar ao ouvido dele que “Hitler de Dentes de Sabre não estava assim tão errado” ganha um amigo para o resto da vida ).
A cólera, que o fazia acordar condenando o mundo pela manhã, está agora controlada graças aos frutos estranhos de uma árvore além dos limites da floresta. O Raposinho evoluiu muito desde então. Embora desconfiado, o Raposinho anda numas, por exemplo, de que agora as coisas estão entrando nos eixos porque os animais políticos – para ele a representação de tudo o que o impediu de ter uma toca na praia – estão indo para a caverna. Ele não entende uma palavra do que diz o tal do Joaquim Babuíno, mas já reservou espaço para um pôster do ministro do Supremo Tribunal das Selvas ao lado do cartaz do Luciano Hiena (“cara bom, ajuda os bichos”) e do Girafinha Bastos (“ele sim tem coragem de falar a verdade”). O Raposinho não teve colegas negros na escola florestal nem na faculdade florestal, mas ele acha que o exemplo de Babuíno e do presidente Barata Obama é prova inequívoca de que o sistema de cotas é uma medida populista ( ou animalista ). É o que dizia o “meme” que ele espalhou no Focinhobook com o argumento de que, na escravidão, o tráfico de ratos escravos tinha participação dos ratões africanos do Nilo. Por isso, quando o assunto encrespa, ele costuma recorrer ao “nada contra, até tenho amigos roedores de cor ( é assim que ele fala ), mas muitos deles têm preconceitos contra eles mesmos”.
O Raposinho costuma repetir também que os animais pobres é que não se ajudam. Vê o caso da ema-pregada, que achou pouco ganhar vinte reais por dia para lavar suas tangas e preferiu voltar a estudar. Culpa do Bolsa Ninhada, ele diz, esse instrumento eleitoral que leva todos os animais da caatinga, descendentes de animais da caatinga e simpatizantes de animais a votar com medo de perder a boquinha. Em tempo: o filhote do Raposinho tem quase 30 anos e nunca conseguiu suas próprias uvas. Falta de oportunidade, diz o Raposinho, só porque o filho não tem pistolão. Vagabundo é outra coisa. Outra cor. Como o pai, o filho do Raposinho detesta qualquer tipo de bolsa governamental. A bolsa-casco que recebe do pai, garante, é outra coisa. Não mexe com recurso floresto-público. ( O Raposinho não conta pra ninguém, mas liga todo dia, duas vezes por dia, para o primo de um conhecido instalado na prefeitura do mato para saber se não tem uma boca de assessor para o filho em algum gabinete).
O filho do Raposinho também é ativista virtual. Curte PlayJungle, as sacadas do Willy Fante, frases sobre erros de gramática do Enemal, frases sobre o frio, sobre o que comer no almoço e sobre as bebedeiras com os moleques no fim de semana ( segue a página de oito marcas de cerveja ). Compartilha vídeos de propagandas de ração e fotos de fêmeas barrigudas e sem presas na praia. Riu até doer a barriga com a página das barangas. Detesta política – ele não passa um dia sem lembrar a eleição do JaguaTiririca para dizer que só tem peixe-palhaço em Brasília. E se sente vingado toda vez que alguém do CQSelva faz “lero-lero” na frente do Congresso Animal. Acha todos eles uns caras fodásticos (é assim que ele fala). Talvez até mais que o Arnaldo Jaboti. Pensa em votar com nariz de peixe-palhaço na próxima eleição ( pensa em fazer isso até que o voto deixe de ser obrigatório e ele possa aproveitar o domingo no videogame ). Até lá, vai seguir destruindo placas e cavaletes que atrapalham suas andanças pela cidade.
Como o pai, o filhote do Raposinho tem respostas e certezas para tudo. Não viveu na AnimalFarm, mas morre de saudade dos tempos em que as coisas funcionavam. Espera ansioso um plebiscito para introduzir de vez a pena de morte ( a única solução para a macacagem ) e reduzir a maioridade penal até o dia em que se poderá levar filhotes de oito meses para a cadeia. Quer um plebiscito também para acabar com a Marcha das Vacas. O que é bonito, para ele, é para se ver. E se tocar. E ninguém ouve cantada se não provoca ( a favorita dele é “hoje não é seu aniversário mas você está de parabéns, sua linda”. Fala isso com os amigos e sai em disparada no carro do pai. O filhote do Raposinho era “O” zoão da turma na facul-ani ).
Pai e filhote estão cada vez mais parecidos. O pai já joga PlayJungle e o menino de 30 anos já fala sobre a decadência dos costumes. Para tudo têm uma sentença: “Ê, Pau-Brasil”. Raposinho pai e filhote têm admiração similar ao estilo civilizado de vida dos bosques europeus. Não passam um dia sem dizer que a vida, deles e da humanidade em geral, seria melhor se o país fosse dividido entre o Pau-Brasil do Sul e o Pau-Brasil do Norte. Quando esse dia chegar, garantem, o Pau-Brasil enfim será o país do presente e não do futuro. Um país à imagem e semelhança de um Raposinho.

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