ENCALHE ( Descontinuado em 05.10.2013 )

abril 18, 2012

Os honestos, que canalhas!, Por Jasson de Oliveira Andrade


Quando criança, já entrado na juventude, politicamente eu era ligado à UDN ( União Democrática Nacional ), um partido supermoralista. Este moralismo me contaminou por boa parte de minha vida. O líder moralista da UDN era o político e jornalista Carlos Lacerda. Ele fazia uma campanha massacrante contra o então presidente Getúlio, acusando seu governo de “Mar de Lama”, o que levou Vargas ao suicídio, em 24/8/1954. Depois da morte dele, nada se provou contra Getúlio. Já era tarde demais. O historiador Hélio Silva no livro “1954: Um Tiro No Coração” relatou detalhadamente o que ocorreu naquela época. Posteriormente o moralista da UDN repetiu a campanha massacrante, agora contra o presidente Juscelino, o JK. Com o advento do Golpe de 64, JK foi cassado e seus direitos políticos suspensos por 10 anos, provavelmente inspirados por Lacerda. Nada descobriram contra ele. Quando ele morreu, em acidente automobilístico, na via Dutra, município de Resende, em 22 de agosto de 1976, ainda em pleno governo ditatorial, o então senador Paulo Brossard ( MDB-RS ) pronunciou no Senado, em 24 de agosto ( por coincidência no aniversário da morte de Vargas ), um discurso que intitulou: “JK: TRIUNFO NA MORTE”. Neste discurso afirmou: “O fato, objetivo e histórico, é que o Presidente Juscelino era um exilado dentro de seu País. Não tinha poder; e pela filosofia da época, que transformou a pena política de dez anos em pena eterna, jamais poderia possuí-lo [poder]. Nem mesmo vir a ser Vereador em Diamantina [terra natal de Juscelino]”. Já o político udenista, Chefe Civil do Golpe de 64, rompeu com este Movimento, passando a criticar os governantes de Plantão. Foi preso e teve seus direitos políticos suspensos por 10 anos. O feitiço virou contra o feiticeiro! Carlos Lacerda, o poderoso moralista, morreu de enfarte, em 21 maio de 1977. Afonso Arinos de Melo Franco, seu companheiro na UDN, disse dele: “(…) sem peias na escolha dos métodos administrativos, estigmatiza a corrupção alheia”. Era o fim do moralista, mas o moralismo udenista persiste até hoje, como veremos a seguir.
O moralismo udenista, tão a gosto da classe média brasileira, reviveu no senador Demóstenes Torres, ex-DEM de Goiás. Seus discursos ficaram conhecidos no Brasil pelo combate à corrupção. Tornou-se o paladino do moralismo. Com a prisão do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, descobriu-se que o senador estava comprometido com a corrupção. Agora corre o perigo de ser cassado. Parece que é o fim de outro moralista, até aparecer outro no lugar dele. Serve para o senador Demóstenes Torres o desabafo do escritor francês Emile Zola quando a “gente bem” de Paris o perseguia por ocasião do caso Dreyfus: “Ah lês honnêtes gens! Quelle canaille!” (citado por Gondin da Fonseca, no livro “Senhor Deus dos Desgraçados!”, pág. 16). Em tradução livre: Ah as gentes honestas! Que canalhas!
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu
Abril de 2012

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