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abril 14, 2012

Demóstenes, Veja e Perillo, os mais implicados, abrem CPI do Cachoeira


Sepúlcros caiados eram sócios no crime
PSDB, Demistas e mídia golpista querem mudar foco para reduzir perdas
Os presidentes do Senado e da Câmara, José Sarney (PMDB-AP) e Marco Maia (PT-RS), fecharam um acordo na terça-feira para a instalação de uma CPI mista que vai investigar as ligações da quadrilha de Carlinhos Cachoeira com o senador Demóstenes Torres (ex-Dem-GO), o governador de Goiás Marconi Perillo (PSDB) e a revista Veja. Durante a Operação Monte Carlo da PF foram flagradas conversas bastante comprometedoras entre o senador e Cachoeira. Foram detectados também 200 telefonemas entre o diretor de Veja, Policarpo Jr., e o contraventor Carlos Cachoeira. ( HORA DO POVO )
Sarney e Maia acertam CPI para apurar conexões de Cachoeira
Veja, Perillo e Demóstenes são os alvos da comissão por terem ligações com o mafioso reveladas nas gravações da PF
Os presidentes do Senado e da Câma ra dos Deputados, José Sarney (PMDB-AP) e Marco Maia (PT-RS) fecharam um acordo na terça-feira para a instalação de uma CPI mista que vai investigar as ligações da quadrilha de Carlinhos Cachoeira com o senador Demóstenes Torres (ex-Dem-GO), o governador de Goiás Marconi Perillo (PSDB) e a revista Veja. Segundo Maia, “a CPI não é uma CPI do Parlamento. A CPI vai investigar a ligação do Cachoeira com o Legislativo, o Executivo, Judiciário e também com o setor privado, inclusive a imprensa”, disse ele, no plenário da Casa.
Durante a Operação Monte Carlo da Polícia Federal foram flagradas conversas bastante comprometedoras entre o senador Demóstenes Torres e Carlos Cachoeira. Uma das gravações mostrou o criminoso orientando um de seus comparsas a repassar R$ 1 milhão para o senador. Foram detectadas também 200 ligações telefônicas entre o chefe de redação e da sucursal de Brasília da revista “Veja”, Policarpo Jr., e Carlos Cachoeira. O deputado Fernando Ferro (PT-PE) afirmou que “estes fatos mostram que a revista Veja associou-se ao crime”. “Logo que a CPI for instalada vou apresentar um requerimento convocando Roberto Civita, dono da revista, para que ele dê explicações ao parlamento”, disse o deputado, na quarta-feira (11), da tribuna da Câmara.
NEXTEL
Outro integrante da oposição captado pelas investigações da Operação Monte Carlo é o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB). Além de ter recebido R$ 4,3 milhões como doação de Cachoeira para sua campanha, sua chefe de gabinete, Eliane Gonçalves Pinheiro, foi flagrada pela PF trocando uma série de telefonemas e mensagens de texto com o contraventor. Ela foi informada por Cachoeira que haveria uma operação (a Apate) da PF em alguns estados, inclusive várias prefeituras de Goiás, entre as quais a de Águas Lindas, administrada por Geraldo Messias (PP), aliado de Marconi Perillo. Em certo trecho das gravações interceptadas com autorização judicial, o contraventor pergunta a Eliane se ela falou “pro maior” (sic) da operação. Ela responde que sim, e acrescenta: “Estou com ele aqui. Tá aqui. Imagina como que tava”. A atuação de Eliane com Cachoeira inviabilizou a operação da PF.
Segundo a PF, além de Eliane, Cachoeira nomeou dezenas de outros cargos no governo de Goiás. Perillo teve que admitir que reuniu-se “algumas vezes” com Cachoeira. Segundo ele, apenas para “dar os parabéns” ao bicheiro e para “discutir incentivos fiscais” para as “empresas” do criminoso. Sua chefe de gabinete, que também usava um “Nextel” fornecido por Cachoeira, foi exonerada do cargo.
Em entrevista no último fim de semana, o ex-prefeito de Anápolis, Ernani José de Paula, que antes era ligado a Cachoeira, revelou detalhes sobre a participação do contraventor na preparação das principais gravações clandestinas que deram origem à farsa do chamado “escândalo do mensalão” de 2005. A gangue de Cachoeira foi responsável pela filmagem do vídeo em que Maurício Marinho aparecia recebendo uma propina de R$ 3 mil dentro dos Correios. Tal reportagem, coincidentemente assinada por Policarpo Júnior, da revista Veja, deu origem à CPI dos Correios.
“Foi o próprio Cachoeira que me contou que fez essas fitas”, diz o ex-prefeito. “Foi uma represália. Porque eles (a máfia de Cachoeira) estavam muito contentes com a desenvoltura do Demóstenes que iria pegar um cargo no Ministério da Justiça”, disse o ex-prefeito. Segundo Ernani, a vingança foi feita porque o José Dirceu vetou a participação de Demóstenes no governo. Ele contou ainda que Cachoeira habilitou vários aparelhos de telefone nos EUA achando que, com isso poderia fugir das escutas da PF. “Ele entregou um aparelho para o Demóstenes e outro para mim”, disse Ernani. O ex-prefeito informou ainda que conheceu Policarpo Jr, integrante da cúpula da revista Veja, numa reunião com Cachoeira, dentro de uma de suas empresas.
ASSOCIAÇÃO
O deputado Fernando Ferro (PT-PE) cobrou da revista Veja explicações sobre sua associação com o crime organizado. “É interessante como a junção dos interesses de um órgão de comunicação como a revista Veja, um traficante de influência e bicheiro como Carlinhos Cachoeira e um senador corrupto como o senador Demóstenes Torres introduziu uma série de mazelas na política brasileira, como escutas clandestinas em vários momentos da vida do país”, denunciou Ferro. Ele mostrou a capa de um exemplar da revista Veja e ironizou a figura de Demóstenes mostrado como um “Mosqueteiro”. “A Veja elegeu Demóstenes como bastião da moralidade”, afirmou. “Essa revista vai ter que fazer autocrítica. Ela associou-se ao crime”, frisou o parlamentar.
A CPI deverá ser instalada até o final da próxima semana. O acordo de Maia e Sarney prevê que a presidência fique com um senador do PMDB e a relatoria com um deputado do PT.
A oposição, que não queria as investigações, acabou tendo que aderir. Já bastante debilitada por ser a mais atingida pelas denúncias, ela, evidentemente, além da mídia golpista, tentam desviar o foco das investigações, apontando em várias direções, para reduzir o impacto das perdas. Por isso, estão surgindo os arremedos de “denúncias” mais recentes envolvendo o governo de Brasília e o deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) (ver aqui ), parlamentar que iniciou as coletas de assinaturas para a instalação da CPI. Mas, por mais que tucanos, demistas e mídia golpista insistam em criar essas cortinas de fumaça, as investigações deverão mesmo é se concentrar nas denúncias mais consistentes. Ou seja, a CPI vai dar prioridade a investigar os mais implicados na associação com a quadrilha de Cachoeira: o senador Demóstenes, o governador Marconi Perillo e a revista Veja. Esses terão que dar muitas explicações à CPI. Depois, todo o resto poderá também ser investigado. Como a investigação vai se concentrar nesses casos envolvendo integrantes da oposição, a intenção do senador Álvaro Dias (PSDB-PR) de ficar com a relatoria da CPI não está sendo levada a sério, nem mesmo pelos parlamentares da oposição.
INÍCIO
Marco Maia salientou que a CPI vai investigar tudo. O PMDB afirmou que apóia a CPI. “Não há condição da CPI ficar restrita aos congressistas”, disse Maia. “Se fosse assim, não precisaríamos fazer CPI, era só mandar direto ao Conselho de Ética. Vamos investigar tudo e todos os envolvidos na Operação Monte Carlo”, acrescentou. A CPI será criada e irá cumprir sua meta de apurar tudo. Todo mundo quer que se investigue. Nós queremos a investigação, a presidente Dilma quer, o Lula quer”, completou o presidente da Câmara. Segundo ele, depois de fechar o texto, serão colhidas as assinaturas, depois os partidos indicarão os membros e haverá a disputa na escolha de relator e presidente da CPMI. Para Maia, a partir da metade da próxima semana a CPI deverá iniciar os seus trabalhos. ( SÉRGIO CRUZ )

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O Brasil de Cachoeira
Leandro Fortes – CARTA CAPITAL
No submundo controlado pelo bicheiro, interesse inconfessáveis e a volúpia pelo poder.
Solitário e deprimido em uma cela de 12 metros quadrados no presídio federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte, o bicheiro Carlinhos Cachoeira mal consegue acreditar no estrago que causou ao ser preso em 29 de fevereiro, alvo principal da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal. A temperatura do xadrez onde vive oscila entre 35 e 40 graus centígrados, a depender dos humores do sol potiguar, mas nem de longe se assemelha ao calor do inferno político causado pelos vazamentos das escutas telefônicas da PF e pela consequente CPI Mista que se avizinha no Congresso Nacional.
Transformada em praça de guerra antes mesmo de ser instalada, a CPI do Cachoeira promete dar um nó nas relações entre governo e oposição, em pleno ano eleitoral, e lançar luzes sobre vários episódios passados durante o governo Lula. A começar pela explosão e os desdobramentos do escândalo vulgarmente chamado de “mensalão”. A ameaça de que a comissão revolva as entranhas das relações entre o jornalismo autointitulado investigativo e o submundo da arapongagem e da contravenção, a ponto de expor os reais interesses de ambos, jornalismo e contravenção, talvez explique a esquizofrenia da cobertura midiática do atual escândalo da República.
Nos últimos dias, “mancheteiros”, editores e colunistas variados que até há pouco tempo pareciam sonolentos se lançaram em uma clara campanha de intimidação, a apontar os riscos ou os supostos motivos ocultos da instalação da CPI. Seria, dizem em coro, uma tentativa do PT de encobrir o julgamento do mensalão. Como se os fatos por si e sua extensão não justificassem uma CPI. Por bem menos, comissões de inquéritos são instaladas em Brasília.
Não por acaso, o principal personagem dessa tragicomédia nacional, o senador Demóstenes Torres, ex-DEM, cuja cassação em plenário é uma morte anunciada, tem sido relegada pelo noticiário a segundo plano. O mesmo se dá com o governador tucano de Goiás, Marconi Perillo, brindado com generosos espaços para sua defesa, ao contrário dos demais acusados.
A nota à imprensa distribuída pelo presidente do PSDB, Sérgio Guerra, na quinta-feira dia 12 dá o tom da reedição da velha aliança entre a mídia e a oposição. No texto, Guerra garante que os tucanos apoiam a CPI do Cachoeira, defende uma “apuração ampla que alcance todos os agentes públicos e privados”, mas foca na necessidade de ir para cima de representantes do PT, como o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, e o deputado Rubens Otoni (PT-GO). Nenhuma linha sobre Perillo ou a respeito de outro influente tucano goiano, o deputado federal Carlos Alberto Lereia, metido com a quadrilha de Cachoeira.
Mais adiante, Guerra acusa a mobilização em torno da CPI como um movimento para evitar o julgamento do mensalão – tese preferida da mídia. “O mensalão foi desvendado há sete anos e até hoje ninguém foi punido”, reclama, com razão a respeito da demora do julgamento. E emplaca uma tese tortuosa: o esforço do PT em reabilitar vários dos 37 acusados no processo do STF “certamente contribuiu para que outros contraventores como Cachoeira continuassem agindo, confiando na impunidade de crimes contra o patrimônio público”. Ou seja, segundo Guerra, a inclinação criminosa de Cachoeira, embora desenvolvida em todo o seu esplendor em parceria com um velho aliado do PSDB, o senador Torres, está diretamente ligada à impunidade dos mensaleiros petistas.
A melhor resposta do PT e da base aliada, caso queiram mesmo esclarecer os fatos, seria levar a CPI às últimas consequências, sem poupar ninguém. À semelhança de Perillo, o governador Agnelo Queiroz (PT-DF) deve muitas explicações a respeito de suas relações com o bicheiro. Uma interceptação telefônica da Polícia Federal sugere uma tentativa do petista de se aproximar de Cachoeira. Em um grampo de 16 de junho de 2011, o araponga Idalberto Matias, o Dadá, refere-se a um certo “01” e “Magrão”. Estes seriam, segundo a PF, apelidos de Queiroz no meio da quadrilha. No telefonema, Dadá afirma ter conversado com o ex-subsecretário de Esporte do DF João Carlos Feitoza, conhecido como Zunga. Marcavam um encontro entre Cachoeira e o “01”. “O Zunga me ligou aqui. Tá querendo falar com você que o chefe dele, o 01, o Magrão, quer falar com você”, afirma o araponga.
Queiroz nega ter conversado com Cachoeira, desdenha das acusações e acusa a oposição de fazer uma “tentativa desesperada”de incluir o PT nas denúncias, mas há elementos comprometedores nessa história. Além de ter trabalhado no governo do Distrito Federal, Zunga teve participação na campanha de Cláudio Monteiro, ex-chefe de gabinete de Queiroz, deputado distrital pelo PRP em 2010. Monteiro foi obrigado a se demitir do cargo na terça-feira 10 depois de o Jornal Nacional divulgar uma escuta telefônica em que Dadá conversa com o diretor da Delta Construções, Cláudio Abreu. Na conversa, o araponga trata da nomeação de cargos da estatal de coleta de lixo do Distrito Federal, a Serviço de Limpeza Urbana (SLU). Caso emplacasse um nome da turma de Cachoeira, Dadá receberia 20 mil pelo serviço.
Revelada pelo site do Jornal do Brasil, a participação da Delta Construções no esquema de Cachoeira serviu ainda para tirar do foco as ligações do PSDB e do DEM com o bicheiro e, outra vez, jogar o noticiário nas costas do governo Dilma Rousseff. A empreiteira foi a que mais recebeu recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) até agora. Do total de 11,8 bilhões de reais gastos pelo governo federal neste ano, a Delta Construções recebeu a maior fatia, um montante de 254,6 milhões de reais. Segundo grampos da Operação Monte Carlo, Cachoeira tentava saber antecipadamente sobre investigações e ações judiciais contra a Delta, dona de contratos com inúmeros governos estaduais e municipais do PT, PMDB e PSDB. Cláudio Abreu, diretor da empreiteira no Centro-Oeste, aparece em diversas escutas telefônicas em conversas com integrantes da quadrilha.
Protógenes Queiroz, deputado federal pelo PCdoB de São Paulo, foi outro que entrou na mira. Primeiro parlamentar a requerer formalmente a instalação de uma comissão de inquérito para apurar as estripulias de Cachoeira, Protógenes teve o nome ligado ao caso a partir de escutas telefônicas reveladas pelo jornal O Estado de São Paulo. Nas gravações, o deputado aparece em conversa, no ano passado, com Dadá, com quem trabalhou na Operação Satiagraha, de 2008, que prendeu o banqueiro Daniel Dantas. As conversas nada tinham a ver com os negócios da quadrilha. Sua divulgação parece uma tentativa de constranger o deputado e, mais uma vez, sustentar a tese de que a Satiagraha foi conduzida de forma ilegal. É uma das tantas balas perdidas, das vendetas comuns durante CPIs.
Alvo de 32 processos administrativos da Polícia Federal durante a gestão do ex-diretor geral Luiz Fernando Corrêa, Protógenes Queiroz, nos grampos, orienta Dadá a como se comportar nos depoimentos a serem dados na corregedoria da PF. Ainda funcionário da Agência Brasileira de Inteligência à época da Satiagraha, Dadá foi um dos arapongas oficiais recrutados pelo delegado para dar suporte à operação. Mas o vazamento das gravações deverá servir para afastar o deputado do PcdoB da composição da CPI do Cachoeira, o que agrada tanto à oposição quanto ao Palácio do Planalto. O delegado foi afastado da Satiagraha, logo depois da prisão de Dantas, por ser considerado “incontrolável” pelo PT. “Desafio qualquer um a mostrar alguma ligação minha com Cachoeira ou qualquer outro bandido”, rebateu o parlamentar.
A cortina de fumaça em torno da CPI do Cachoeira tem como questão central o esvaziamento da futura cobertura do julgamento do mensalão, se ele vier mesmo a acontecer neste ano, antecipadamente prejudicado pela proximidade de uma comissão que deverá tomar conta do noticiário, gostem ou não os meios de comunicação. Desde o início do ano, as redações dos maiores jornais, revistas e tevês do País têm se planejado para a cobertura, a partir de pesquisas antecipadas, definição de equipes e formulação de pautas especiais. O show previsto para o noticiário começou a fazer água a partir do vazamento da informação de que o jornalista Policarpo Júnior, diretor da sucursal da Veja em Brasília, manteve cerca de 200 ligações telefônicas com o bicheiro, segundo a PF.
A relação, se exposta em toda a sua extensão, poderá trazer à tona não somente os métodos pouco jornalísticos usados pela semanal da Abril para fazer reportagens a partir de um esquema clandestino de arapongagem, mas a participação da revista na construção do escândalo do mensalão. O pontapé inicial do caso foi o vídeo, gravado por arapongas de Cachoeira em 2005, do pagamento de suborno ao ex-diretor dos Correios Maurício Marinho, indicado pelo PTB, presidido pelo deputado cassado Roberto Jefferson.
A fita foi parar na Veja, mais precisamente nas mãos de Policarpo Junior. Certo de que o ex-chefe da Casa Civil José Dirceu, também deputado cassado no rastro do escândalo, estava por trás da trama, Jefferson resolveu denunciar a existência do tal pagamento mensal do governo Lula para deputados da base aliada.
Em setembro do ano passado, ao apresentar sua defesa no STF, Jefferson negou a existência do mensalão e afirmou que a expressão era apenas “retórica”. Um dos grampos da PF demonstra com precisão a ligação da quadrilha de Goiás com a Veja. Em uma conversa com o araponga Jairo Martins, cinegrafista do pagamento ao ex-diretor dos Correios, Cachoeira revela o seguinte: “Porque os grandes furos do Policarpo fomos nós que demos, rapaz. Todos eles fomos nós que demos”.
O mais recente deles pode ter sido, segundo informações da PF, a capa da Veja na qual aparecem imagens de uma romaria de ministros e parlamentares roubadas do circuito interno de um hotel de Brasília onde José Dirceu mantém um escritório de trabalho. Para fazer a “reportagem”, o repórter Gustavo Ribeiro, da sucursal de Brasília, usou dos mesmos métodos da quadrilha: tentou invadir o quarto do ex-ministro, mas foi surpreendido por uma camareira. A Polícia Civil do Distrito Federal chegou a investigar a ação do jornalista, mas o caso acabou arquivado. Por essas e outras, o deputado Fernando Ferro (PT-PE) anunciou o intuito de apresentar um requerimento à CPI do Cachoeira para ouvir o empresário Roberto Civita, dono da Editora Abril.
Enquanto isso, as denúncias não param de pipocar. A mais recente atribui a Cachoeira a nomeação de vários coronéis da Polícia Civil de Goiás. Chamado de “a farra dos coronéis”, o esquema tinha por objetivo criar um sistema de proteção às bancas de jogos ilegais no estado. Descobriu-se ainda que um dos sócios do bicheiro, Rossine Aires Guimarães, doou 4,3 milhões de reais a campanhas do PSDB, DEM e PMDB em 2010. Na esteira das denúncias, Perillo demitiu sua chefe de gabinete, Eliane Pinheiros, por ligações com a quadrilha. Ainda assim o governador declara mal conhecer Cachoeira e de ter estado com ele apenas em três oportunidades, sempre em eventos sociais.
Na quarta-feira 11, o presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT-RS), e o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), acertaram os ponteiros para a instalação da CPI. Objetivamente, a Comissão investigará as relações de parlamentares e funcionários de outros poderes com o bicheiro, além de incluir agentes do setor privado (a Delta Construções) e da mídia (a revista Veja). Maia prometeu uma atuação “ampla” e negou haver algum temor dentro do governo em relação ao rumo das investigações. Segundo ele, o caso é grave demais para ser tratado dessa forma. “Estamos diante de uma articulação de poder à revelia do Estado brasileiro, e que montou uma teia, uma rede de contatos, de relações, tentando influenciar na decisão de órgãos públicos ligados ao poder público, ao Legislativo, ao Judiciário e também à imprensa”, disparou o presidente da Câmara.
Imagina-se que a CPI terá ainda o interesse em entender o motivo de o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, manter dentro de uma gaveta por longo tempo – e sem maiores razões – as denúncias contra o senador Demóstenes Torres. E talvez, em um ato de ousadia, tateie as relações do parlamentar com o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. Para quem não se lembra, Torres e Mendes protagonizaram o episódio do suposto grampo (até hoje sem áudio) que levou ao afastamento do delgado Paulo Lacerda da direção da Abin e que serviu de pretexto para derrubar a Satiagraha.
Em um movimento claramente articulado, pouco antes da reunião de Maia com Sarney, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, afirmou desconhecer os bastidores da criação da CPI. Carvalho apressou-se, porém, em dizer que os trabalhos da futura comissão não vão intimidar o governo Dilma. Segundo ele, a presença de petistas no escândalo não vai mudar a atitude do Palácio do Planalto em relação ao caso. O vice-presidente Michel Temer bateu na mesma tecla. Segundo ele, o governo não “moveu uma palha” pela comissão.
Pelo acordo firmado entre Maia e Sarney, a CPI deverá ter 22 titulares e 22 suplentes. Os partidos começaram a se articular para indicar nomes à comissão, sobretudo no bloco de oposição. No DEM, ou no que sobrou do partido, o líder na Câmara, ACM Neto, anunciou a participação do deputado gaúcho Onyx Lorenzoni, trompetista da banda udenista que fez a festa na CPI dos Correios em 2005. No Senado, o líder do PT, Walter Pinheiro, articula as indicações de Wellington Dias, ex-governador do Piauí, e José Pimentel, ex-ministro da Previdência Social. O PSDB deverá indicar seu quadro mais atuante, o senador Aloysio Nunes Ferreira. Na Câmara, é certa a participação do deputado Fernando Francischini (PSDB-PR), delegado da Polícia Federal com grande experiência no combate ao crime organizado.
Enquanto isso, o cadafalso de Demóstenes Torres começa a ser erguido. Na terça-feira 10, na falta de uma definição do PMDB, que deveria indicar um nome para a presidência do Conselho de Ética do Senado, os líderes dos partidos decidiram seguir o regimento interno e designaram para a vaga o integrante mais velho do conselho, o senador Antonio Carlos Valadares (PSB-ES). Em menos de 24 horas, Valadares ordenou a instalação de processo contra o colega sem partido.
O relator do caso será o senador Humberto Costa (PT-PE). Valadares será o responsável por conduzir o pedido do PSOL de abertura de processo de quebra de decoro contra Torres. Em uma rápida e calculada aparição, o senador goiano prometeu se defender e provar sua inocência, apesar do caminhão de evidências de sua ligação com Cachoeira, de quem era uma espécie de empregado de luxo com mandato parlamentar.

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