ENCALHE ( Descontinuado em 05.10.2013 )

março 30, 2012

Em defesa do ENEM, Por Marcos Bagno


Mais de cinco milhões de estudantes brasileiros participaram do último ENEM.
Para quem não sabe, ( e para se ter uma ideia do que esses os representam ), a população absoluta de muitos países ( Dinamarca, Finlândia, Noruega, Zelândia, Uruguai, etc.) não chega a esse total. Isso quer dizer que se, por exemplo, cinco mil testes tivessem apresentado algum problema, seria apenas 0,1 por cento do universo de provas.
Se fossem quinhentos mil, seriam 10 por cento. No entanto, em todo o histórico do ENEM, nunca em suas edições ocorreram tal número de falhas.
Recentemente, numa escola do Ceará, 639 provas ficaram sob suspeita porque algum professor, cometendo um ato de absoluta desonestidade profissional, copiou os pré-testes que o MEC aplica aleatoriamente no país antes do exame oficial e que devem ser incinerados.
Quem for bom de mate­mática ( eu não sou ) faça as contas e descubra o que são 639 num universo de 5 milhões. E ainda vem um procurador ávido por seus 15 segundos de fama pedindo a anulação de todo o exame. Haja!
O ENEM se apresenta hoje como uma excelente alternativa para a extinção dessa monstruosidade chamada vestibular. Nada justifica que uma pes­soa, tendo concluído com sucesso o ensino médio, precise se submeter a uma maratona de testes es­tressantes para ter acesso ao ensino superior. Pior ainda, que alguém que vá, por exemplo, para um curso de Letras, tenha de fazer provas de Matemá­tica, Química, Física e Biologia. A monstruosida­de também está na indústria multimilionária que o vestibular criou ao longo de décadas e que fez ele perder qualquer razão de ser, se jamais teve algu­ma.
Ainda que se alegue que o exame servia para aferir o que os estudantes tinham aprendido, o que surgiu na verdade foi uma preparação para o ves­tibular, uma distorsão absoluta dos supostos obje­tivos do exame. Com isso, os três escassos anos do ensino médio se tornaram simplesmente uma longa prévia da tortura psicológica que estaria por vir no final do terceiro ano.
Fui matricular certa vez meus filhos recém-alfabetizados numa escola de classe média em São Paulo e perguntei à diretora qual era a linha educacional do estabelecimento. Ela res­pondeu sem titubear: “Aprovar nossos alunos no vestibular”. Saí correndo de lá com as crianças.
O ENEM se configura como uma interessante ferramenta de avaliação do ensino médio e, ao con­trário do vestibular, não tem como gerar uma in­dústria de cursinhos, apostilas etc. Sua metodologia rejeita as questões pontuais, conteudísticas, e apela muito mais para as habilidades cognitivas do candi­dato. Na prova de linguagem, por exemplo, nada de nomenclatura gramatical, análise sintática e outras idiotices do gênero, mas questões que tentam mo­bilizar o raciocínio lógico, a intuição linguística e a capacidade de leitura e interpretação de textos.
Agora, a perguntinha boba: por que a mídia faz tanto alarde quando ocorre alguma falha no ENEM? E a respostinha ainda mais boba: porque ela se en­trega de corpo e alma ao lobby poderoso da indús­tria do vestibular. Essa indústria tem seu máximo representante no bilionário grupo Objetivo, espa­lhado por todo o território nacional, do qual sur­giu outra excrescência, a Unip, que de universidade tem só o nome. Quem acha que Globo, Veja, Esta­dão e caterva poderiam resistir aos vestibudólares dessa indústria? Quem acha que nossa mídia vendi­da vai apoiar o que quer que seja que venha de um governo que tenta retirar das oligarquias seus bens mais preciosos?
Marcos Bagno é lingüista, escritor e professor da UnB
( Publicado na Revista CAROS AMIGOS edição 180 )

Anúncios

2 Comentários »

  1. Olha o jogo entre números relativos e números absolutos. Se houve somente problemas em cinco mil testes é o suficiente para preencher todas as Escolas de Medicina Públicas que usam o ENEN como único critério de avaliação, e, diga-se de passagem, se há interessados em promover fraudes estes serão exatamente os que concorrem a estas vagas.

    Se houve problemas em 5.000 testes e estes problemas foram detectados, houve formas de conseguir isto, logo podemos supor que também há um número oculto de fraudes não descobertas.

    O problema do ENEM é que o mesmo foi idealizado para um tipo de objetivo, avaliação do ensino do segundo grau, e está sendo usado para outro, o acesso dos alunos ao ensino superior. Isto dá problemas, por exemplo, o uso da Teoria da Resposta, método ideal para comparar desempenho de provas feitas durante diferentes épocas, é totalmente inadequado, devido a sua falta de transparência, a uma prova geral que é utilizada num único ano. Se quiséssemos ter um padrão único de comparação era só normalizar os resultados das provas que para um universo tão grande de provas dá no mesmo resultado.

    Quanto esta ideia que o ENEM está baseado em questões que apelam para as habilidades cognitivas do candidato e não para questões pontuais não fecha com as provas reais que estão sendo aplicadas e com o método da Teoria da Resposta, explico melhor, no ENEM há questões deste tipo como há questões cognitivas (não há como escapar de questões cognitivas em provas como matemática, química, física e biologia), pois se não houver se cai no risco de se tornar um tipo de Teste de QI (?), que mostram não só a inteligência, mas o grau de inserção cultural do examinado no universo do examinador, o emprego do método da Teoria da Resposta numa prova deste tipo, simplesmente valorizará as questões mais difíceis (as com menor número de acertos, nos grupos de controle) e como estes grupos de controle devem contemplar todo o território nacional quem tiver uma formação mais ampla terá maiores chances do que quem estuda e fica limitado a uma só região brasileira.

    Há outro problema talvez mais grave que ninguém talvez esteja se dando conta, sendo as questões amplas e dependendo mais da interpretação de textos longos, provavelmente os candidatos da elite brasileira, com maior grau de letramento terão muito mais chance do que aqueles com menor domínio da linguagem e menor inserção cultural.

    Há uma espécie de sonho que não foi comprovado, o sonho que o ENEM favorece grupos sociais mais desfavorecidos, este sonho poderia ser simplesmente verificado se houvesse cruzamento do desempenho no ENEM com o desempenho no vestibular de Universidades que adotam os dois critérios para definir a classificação. Isto nunca foi feito e acho que quando o for o ENEM termina como modo de avaliação para ingresso nos cursos superiores, pois ficará provado que o ENEM, por mais que se deseje ao contrário é um exame menos democrático do que um vestibular (que já não é nada democrático).

    Comentário por rogeriomaestri — março 30, 2012 @ 11:11 pm

  2. Em resumo…? :)

    Comentário por Humberto — março 31, 2012 @ 3:45 pm


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: