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março 10, 2012

Demóstenes é amigo do peito de contraventor, descobre PF


“Somos só amigos”, disse o líder do Dem
Bicheiro importou cozinha dos EUA para presentear o probo Demóstenes
Polícia Federal registra 298 ligações telefônicas entre corda e caçamba
A PF detectou que o senador Demóstenes Torres (Dem-GO) mantinha profundas ligações com o bicheiro e contraventor, Carlos Cachoeira, que comandava um esquema de jogos de azar há dezessete anos. A Operação da PF, através de escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, descobriu que o líder do Dem no Senado trocou 298 telefonemas com o bicheiro e que o contraventor também presenteou Demóstenes com uma cozinha importada dos EUA, no valor de US$ 27 mil (cerca de R$ 46,7 mil). “Sou amigo dele há anos. Pensei que ele tivesse abandonado o crime”, disse Demóstenes candidamente.
“Sou amigo dele há anos”, admitiu o líder do Dem, que trocou 298 telefonemas com o bicheiro
O senador Demóstenes Torres (Dem-GO) foi flagrado pela Polícia Federal em profundas ligações com o bicheiro e contraventor, Carlos Augusto Ramos, conhecido como Carlos Cachoeira, mafioso que comandava um esquema de jogos de azar há dezessete anos. A Operação Monte Carlo, da PF, através de escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, descobriu que o líder do Dem no Senado trocou 298 telefonemas com o bicheiro entre fevereiro e agosto de 2011, como mostram as transcrições das gravações feitas pela investigação federal.
E as descobertas da PF não ficaram apenas nas inexplicáveis e suspeitíssimas 1,4 ligações diárias em média do senador para o criminoso. As conversas telefônicas revelaram que o contraventor também presenteou o paladino da moralidade com uma cozinha importada dos EUA no valor de US$ 27 mil (cerca de R$ 46,7 mil). O singelo presente seria de uma marca conhecida por equipar a cozinha da Casa Branca. Além do vultoso agrado a Demóstenes, o bicheiro, que há anos não tinha seus negócios incomodados em Goiás, presenteou também o prefeito de Águas de Goiás, Geraldo Messias (PP) e sua esposa, com uma viagem para Las Vegas, com tudo pago.
Em um singelo e cândido pronunciamento da tribuna do Senado, feito na terça-feira (6), Demóstenes Torres jurou que achava que “o amigo tinha se regenerado”. “Sou amigo dele há anos. Pensei que ele tivesse abandonado o crime”. “Depois do escândalo Waldomiro Diniz, eu pensei que ele tivesse abandonado a contravenção, e se dedicasse apenas a negócios legais”, disse candidamente o senador, que há dez anos posa na Casa como se fosse o único honesto e ético na face da terra. “Aí fora eu não sei, mas aqui em Goiás ele é um empresário de sucesso, muito simpático, com trânsito em vários setores”, afiançou o líder do Dem. “Para mim, foi uma surpresa as revelações feitas por essa operação da Polícia Federal”. E sobre o presente recebido do contraventor, ele tentou convencer os senadores que “foi apenas um presente de casamento”. “Não perguntei o preço por uma questão de educação”, acrescentou, como se fosse isso o que que está em questão.
Apesar de Demóstenes tentar justificar que não sabia da vida do contraventor Carlos Cachoeira, isso é ridículo, porque o bandido foi muito badalado no Brasil inteiro no caso das propinas envolvendo Waldomiro Diniz, então assessor da Casa Civil, em 2004. Só o ex-promotor Demóstenes Torres jura de pés juntos não conhecer a ficha criminal de Cachoeira. O meliante já tinha sido condenado a dez anos de prisão pelos crimes de corrupção ativa e passiva e fraude em licitação. E, cá entre nós, dizer que não sabia que Carlinhos Cachoeira era criminoso é piada de salão. Só os ingênuos, entre eles seus diversos aparteadores, acreditam nessa balela.
Oito pessoas foram presas durante a Operação Monte Carlo, incluindo Cahoeira. Outros três suspeitos que estavam foragidos se entregaram nas Superintendências da PF em Goiânia e em Brasília, no fim de semana. Eles deverão depor nas próximas horas. Carlos Cachoeira está em um presídio federal em Mossoró (RN). O inquérito que resultou na operação da Polícia Federal (PF) mostra as ligações do bicheiro com várias autoridades de Goiás. Em uma das escutas telefônicas utilizadas na investigação, Cachoeira liga para o delegado Fernando Byron Filho, da PF de Anápolis (GO), e pede para que ele não indicie o prefeito Geraldo Messias na Operação Apate, que havia identificado fraudes de R$ 200 milhões na Receita Federal e envolveu diversas prefeituras.
Segundo a PF, o delegado integrava o grupo criminoso comandado pelo bicheiro e foi detido na Monte Carlo.
O prefeito Geraldo Messias negou que tenha recebido passagens aéreas, mas admitiu que o bicheiro pagou o hotel onde ele e sua esposa se hospedaram em Las Vegas, em maio de 2011. “O hotel é de uma pessoa ligada a ele”, disse o prefeito. Geraldo Messias e o bicheiro se conhecem há um ano e meio, segundo informação do próprio prefeito. As conversas telefônicas degravadas para a investigação da Monte Carlo mostram a importância do prefeito para os negócios de Cachoeira. A cidade abrigou diversas máquinas caça-níqueis e casas de bingo do grupo criminoso.
O contato para falar sobre a Operação Apate foi feito em 27 de abril de 2011, conforme as investigações. A operação foi deflagrada 16 dias depois, em Goiás e em Minas Gerais. Não há informação no inquérito sobre o resultado do pedido feito por Cachoeira, que, na mesma conversa, foi orientado pelo delegado da PF a “proteger as máquinas em razão de possível operação relacionada à exploração de jogos”.
Em seu discurso, Demóstenes, conhecido por ser sempre o primeiro a atacar qualquer político, principalmente quando é integrante do governo, à primeira acusação – sem provas – da mídia oposicionista, reclamou que a investigação da Polícia Federal tinha se precipitado. Se fosse um governista a essa hora já estaria ardendo no inferno queimado e torrado por Demóstenes. Uma CPI teria sido a primeira providência por parte deste inquisidor-mor demista.
“Deveria ter guardado mais discrição”, declarou Demóstenes. Ora, a Polícia Federal desarticulou uma quadrilha que explorava máquinas de caça-níquel em quatro estados e no Distrito Federal, prendeu oito pessoas, inclusive o seu amigo e descobriu a íntima relação do bicheiro com o tão zeloso senador demista, e ele queria “discrição”. Evidentemente que esse discurso não cola. Que discrição ele queria ainda? Que o nome do seu amigo não fosse revelado? E em que a polícia foi precipitada? Ela não deveria ter prendido o criminoso tão logo comprovou-se sua atividade criminosa? Deveria ter consultado o senador em respeito à sua longa amizade com o contraventor?
Como dissemos, o senador recebeu alguns apartes ao seu discurso. Mas, apesar do esforço de seus pares para tentar livrá-lo das explicações mais embaraçosas, ele confirmou ser amigão do criminoso condenado Carlos Augusto Ramos. “Mas, eu não sabia de nada era só amizade”, garantiu. ( HORA DO POVO )

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Ao longo de nove anos no Congresso Nacional, o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás, notabilizou-se por não dar trégua à corrupção. Nem aos corruptos. Nem aos amigos dos corruptos. Nem aos amigos dos amigos dos corruptos. Ex-promotor de Justiça, ex-delegado e ex-secretário de Segurança Pública de Goiás, Torres sempre se mostrou inflexível com o crime. Dele, portanto, não se esperava outra coisa senão distância de criminosos e corruptos.Mas a força desse mito desmoronou em 29 de fevereiro passado, quando aconteceu a Operação Monte Carlo, da Polícia Federal. Naquele dia, a PF desmontou uma quadrilha que atuava no ramo ilegal da jogatina e prendeu, em Goiânia, o famoso bicheiro Carlos Augusto Ramos. Apelidado de Carlinhos Cachoeira, o contraventor, quem diria, é um amigão do senador linha-dura.
Entre fevereiro e agosto de 2011, Torres e Cachoeira trocaram nada menos que 298 telefonemas, segundo interceptações telefônicas feitas pela Polícia Federal, com autorização da Justiça. No inquérito aberto pelo Ministério Público Federal, é possível observar que a dupla conversou, no período, mais de uma vez por dia, inclusive nos fins de semana, mas ainda não foi revelado o exato teor de tanta prosa. Por ser senador, Torres tem direito a foro privilegiado, e a investigação será encaminhada à Procuradoria-Geral da República. Caberá ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, denunciar ou não o parlamentar do DEM por associação com o notório criminoso goiano.
Os sinais da amizade foram detectados não só pelo número de ligações entre o senador e o contraventor, mas pela singular generosidade de Carlinhos Cachoeira com o amigo parlamentar. Torres ganhou do amigo uma cozinha completa, com fogão e geladeira, no valor de 27 mil dólares (46,7 mil reais). O regalo foi importado dos Estados Unidos, não se sabe ainda se pelas vias oficiais. Outro a cair nas graças do bicheiro foi Geraldo Messias (PP), prefeito de Águas Lindas de Goiás, um dos municípios mais miseráveis da região do entorno do Distrito Federal. Messias ganhou uma viagem a Las Vegas, em maio de 2011, hotel e despesas incluídos.
Foi o próprio senador, graças a um corolário de desculpas esfarrapadas, quem revestiu a história de tragicomédia. Sobre a cozinha de luxo, explicou que a mulher com quem casou em 13 de julho do ano passado é, além de advogada, boa cozinheira. Por essa razão singela Cachoeira havia prometido um “bom presente”. Como promessa é dívida e o bicheiro parece ser um homem de palavra, a cozinha foi entregue sem atrasos.
Mas e as outras mais de 200 conversas telefônicas? O assunto, diz Torres, também era mulher, mas não a dele. O parlamentar garante ter gastado tanto tempo para contornar uma grave crise conjugal protagonizada pelo empresário Wilder Pedro de Morais, atual secretário de Infraestrutura de Goiás e seu primeiro suplente. De acordo com Torres, a mulher de Morais, Andressa, mudou-se de mala e cuia para a casa de Carlinhos Cachoeira. Essa traição foi suficiente para acionar o gatilho de um psicodrama capaz de obrigar o senador, por longos seis meses, a atuar de conselheiro amoroso na nobre tentativa de evitar uma tragédia passional.
Aparentemente por ter sido surpreendido pela ação da Polícia Federal e do Ministério Público, o senador foi obrigado a montar o álibi que até o momento só serviu para torná-lo alvo de piadas na internet. No Twitter e no Facebook, por exemplo, criou-se a figura do “Pai Demóstenes”, um curioso cartomante que “traz a pessoa amada de volta em 298 ligações”.
Mas nenhuma declaração do senador foi mais constrangedora do que a desculpa para justificar a aproximação com o bicheiro. “Pensei que ele tivesse abandonado a contravenção e se dedicasse apenas a negócios legais”, declarou, após perceber que negar a amizade seria tecnicamente impossível. Para quem foi promotor, delegado e secretário de Segurança Pública, é no mínimo humilhante não saber que um amigo tão próximo estava no topo de uma rede de cassinos ilegais. E ao que parece, Cachoeira ainda dava pitaco nas nomeações de delegados de polícia de Goiás.
A história não deixa de trazer embutida uma ironia particularmente cruel à oposição fincada pelo DEM, em parceria com o PSDB, no Congresso Nacional. Isso porque o bicheiro foi o pivô do primeiro escândalo do governo Lula, em 2004. Na época, Waldomiro Diniz, então assessor da Casa Civil comandada por José Dirceu, apareceu numa gravação de 2002, quando presidia a Loteria Estadual do Rio de Janeiro, em um escancarado achaque ao contraventor. A crise instalou-se no governo e o Congresso acabou por editar uma Medida Provisória para acabar com os bingos e as máquinas de caça-níquel em todo o País. No início de março deste ano, Diniz foi condenado por corrupção a 12 anos de reclusão.
Cachoeira foi preso agora, em compa-nhia de outros 34 suspeitos, sob a acusação de explorar as mesmas máquinas caça-níqueis e por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Segundo a ordem expedida pela Justiça Federal, a ação da PF se deu assim: “a partir do monitoramento do terminal utilizado por Carlos Cachoeira, foram identificados laços estreitos com políticos e empresários. Além disso, descobriu-se a influência de Carlos Cachoeira na nomeação de dezenas de pessoas para ocupar funções públicas no estado de Goiás”.
A prisão do contraventor coincidiu com sua condenação no mesmo processo de Diniz. A juíza Maria Tereza Donatti, da 29ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, o sentenciou a oito anos de cadeia pelos crimes de corrupção passiva e contra a Lei de Licitações. Não fosse pela infeliz coincidência de ver sua estranha amizade revelada ao público, Torres teria sido o primeiro, sem dúvida, a subir à tribuna do Senado para louvar mais uma vitória da Justiça contra a corrupção. Agora, apesar dos afagos dos colegas senadores, corre o risco de sofrer um processo por quebra de decoro. ( CARTA CAPITAL )

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