ENCALHE ( Descontinuado em 05.10.2013 )

agosto 30, 2011

O partido anticiência, Por Paul Krugman


John Huntsman Jr., ex-governador de Utah e embaixador na China, não é um forte pré-candidato à indicação do Partido Republicano para concorrer à Presidência.  E isto é muito ruim porque o desejo de Huntsman é dizer o indizível sobre o partido – especialmente que ele está se tornando o “partido anticiência”.  Isto é algo enormemente importante.  E deveria nos aterrorizar.

 

Para entender o que Huntsman defende, considere declarações recentes dos dois mais fortes pretendentes à indicação republicana: Rick Perry e Mitt Romney.

 

Perry, governador do Texas, fez manchetes recentemente ao fazer pouco da evolução humana como uma “simples teoria”, que tem “algumas lacunas” – uma observação que soaria como novidade para a vasta maioria dos biólogos.  Mas o que mais chamou a atenção foi o que ele disse sobre mudança climática: “Penso que há um número substancial de cientistas que manipulou dados para obter dólares para seus projetos.  E penso que estamos vendo, quase toda semana, ou todo dia, cientistas questionando a ideia original de que o aquecimento global provocado pelo homem é a causa da mudança climática.” É uma declaração extraordinária – ou talvez o adjetivo correto seja “vil”.

 

 A segunda parte da declaração de Perry é falsa: o consenso científico sobre a interferência humana no aquecimento global – que inclui 97% a 98% dos pesquisadores de campo, segundo a Academia Nacional de Ciências – está se tornando mais forte à medida que aumentam as evidências sobre a mudança do clima.

 

De fato, se você acompanha a ciência climática sabe que o principal aspecto nos últimos anos tem sido a preocupação crescente de que as projeções sobre o futuro do clima estejam subestimando o provável aumento da temperatura.  Advertências de que poderemos enfrentar mudanças cimáticas capazes de ameaçar a civilização no fim do século, antes consideradas estranhas, partem agora dos principais grupos de pesquisa.

 

Mas não se preocupe, sugere Perry; os cientistas estão apenas atrás de dinheiro, “manipulando dados” para criar uma falsa ameaça.  Em seu livro “Fed Up”, ele despreza a ciência do clima como “uma bagunça falsa e artificial que está se desmanchando”.

 

Eu poderia dizer que Perry está tirando isso de uma teoria conspiratória verdadeiramente louca, que afirma que milhares de cientistas de todo o mundo estão levando dinheiro, sem que nenhum deseje quebrar o código de silêncio.  Poderia apontar que múltiplas investigações em acusações de falsidade intelectual da parte dos cientistas climáticos acabaram com a absolvição dos pesquisadores de todas as acusações.  Mas não se preocupe: Perry e os que pensam como ele sabem em que desejam acreditar e sua resposta a qualquer um que os contradiga é iniciar uma caça às bruxas.

 

Então de que modo Romney, o outro forte concorrente à indicação republicana, respondeu ao desafio de Perry?  Correndo dele.  No passado, Romney, ex-governador de Massachusetts, endossou fortemente a noção de que a mudança climática provocada pelo homem é uma real preocupação.  Mas, na semana passada, ele suavizou isso e disse pensar que o mundo está realmente esquentando, mas “eu não conheço isto” e “não sei se isso é causado principalmente pelo homem”.  Que coragem moral!

 

 É claro, sabemos o que está motivando a súbita falta de convicção de Romney.  Segundo o Public Policy Polling, somente 21% dos eleitores republicanos de Iowa acreditam no Aquecimento Global (e somente 35% creem na evolução).  Dentro do Partido Republicano, ignorância deliberada tornou-se um teste decisivo para os candidatos, no qual Romney está determinado a passar a qualquer custo.

 

Então, é agora altamente provável que o candidato presidencial de um de nossos dois grandes partidos políticos será ou um homem que acredita no que quer acreditar, ou um homem que finge acreditar em qualquer coisa que ele ache que a base do partido quer que ele acredite.

 

E o caráter crescentemente anti-intelectual da direita, tanto dentro do Partido Republicano como fora dele, se estende além da questão da mudança climática.

 

 Ultimamente, por exemplo, a seção editorial do “Wall Street Journal” passou da antiga preferência pelas ideias econômicas de “charlatães e maníacos” — pela definição famosa de um dos principais conselheiros econômicos do ex-presidente George W. Bush – para um descrédito geral do pensamento árduo sobre questões econômicas.  Não prestem atenção a “teorias fantasiosas” que conflitam com o “senso comum”, diz-nos o “Journal”.  Por que deveria alguém imaginar que se precisa mais do que estômago para analisar coisas como crises financeiras e recessões?

 

Agora, não se sabe quem ganhará a eleição presidencial do próximo ano.  Mas há chances de que, mais dia menos dia, a maior nação do mundo será dirigida por um partido que é agressivamente anticiência, mesmo anticonhecimento.  E, numa era de grandes desafios – ambiental, econômico e outros – é uma terrível perspectiva.

 

Paul Krugman é colunista do “New York Times”.

( Publicado no Globo; extraído do Jornal da Ciência )

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