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julho 25, 2011

Em nova manifestação de sua famosa e venal canalhice, Estadão diz que “custo trabalhista” no Brasil é o maior do mundo, quando a Fiesp disse exatamente o contrário


O Brasil tem o mais baixo encargo trabalhista entre 34 países, diz a Fiesp
Entidade patronal se atrapalha e deixa escapar: em dinheiro, o custo do trabalho no País é muito pequeno.
O Brasil tem o mais baixo valor de encargos trabalhistas entre 34 países pesquisados pelo Departamento de Estatística do Trabalho dos EUA (BLS, sigla em inglês). Em dólares, a média brasileira é de US$ 2,70 a hora, enquanto a média das outras 33 nações avaliadas é de US$ 5,80 por hora.
Essa é a conclusão mais evidente trazida por um texto publicado pelo jornal “O Estado de S. Paulo” neste final de semana. Porém, essa informação, a mais clara de toda a reportagem, vinha apenas no penúltimo parágrafo.
Estranhamente, o título deste texto era “Brasil é o número 1 em encargos trabalhistas”.
Mas o texto não consegue defender a manchete, apesar do esforço.
O Estadão afirma que, segundo compilação feita pela Fiesp a partir de dados do BLS, o peso percentual dos “custos com mão de obra na indústria de transformação brasileira” é de 32,4%, contra a média de 21,4% dos demais.
Não há maiores detalhes sobre quais são esses custos, portanto não há dados amplos sobre qual a base de comparação usada pela Fiesp.
Mas, se esses números estiverem corretos, a diferença brasileira, em dólares, para os outros países, fica ainda mais espantosa. Imaginem, se a nossa carga é percentualmente maior, mas em valores monetários é tão menor, os proventos dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiras são muito baixos em comparação com a média dos países industrializados.
Esse fato já conhecíamos, e insistimos nessa informação há muito tempo, como forma de desconstruir o falso discurso conservador de que o trabalho no Brasil é caro e tira competitividade do País. Só que não é sempre que a própria Fiesp deixa um dado como esse à mostra.
Cabe mais reparos ao texto do Estadão. O jornal elenca como “encargos” valores que, na verdade, são complemento salarial. O FGTS, a Previdência Pública e o 13º, citados na reportagem, retornam ao trabalhador – e ao mercado – como complemento salarial, na forma de poupança. Nem de longe são encargos.
Em estudo preparado pela subseção do Dieese na CUT Nacional, tomando como base dados do mesmo Departamento de Estatística dos EUA, referentes a 2008, a diferença do custo de mão de obra é ainda mais gritante. Enquanto na Alemanha é de U$36,07 a hora e nos Estados Unidos de US$ 25, 65, no Brasil a mão de obra/hora é de US$ 6,93 – o recorte do Dieese não mistura alhos com bugalhos e concentra-se na questão salário, daí a diferença e, também, uma chave para compreender a própria contradição dos números divulgados pela Fiesp.
A conjunção desses fatores e dados só reforça a impressão de que os salários no Brasil ainda são baixos. Por serem reduzidos, acabam por exigir complementos como o FGTS e o 13º e, ainda assim, a média em dólar perde de longe para os países que a Fiesp usa como referência.
E tudo a despeito de o real estar sobrevalorizado. Nem assim o valor do trabalho no Brasil chega a se aproximar da média internacional segundo o olhar BLS/Fiesp.
Sem esquecer de um dado fundamental, que precisa ser alardeado até que a elite econômica se convença de que há muito por fazer neste País e que não é retirando do trabalhador que chegaremos no ponto que queremos e desejamos: o índice GINI, usado para medir a concentração de renda, no Brasil atinge 0,56, perdendo apenas para Haiti, Bolívia e Tailândia num grupo de 14 países pesquisados. O GINI, utilizado pela ONU, é tão mais representativo de concentração de renda quanto mais próximo de um.
Se a Fiesp quer cortar custos de seus associados botando o trabalhador como réu, enfrentará novamente nossa resistência.
( Blog do Arthur Henrique )

LEITURA COMPLEMENTAR – MAS PODE COMEÇAR POR ELA:
Mentira e cara-durismo ( ou: a imprensa no reinado FHC )
Terça-feira 1º de agosto de 2000
Este último texto de Aloysio Biondi em Caros Amigos foi lembrado pelo jornalista Cláudio Júlio Tognolli como constante no Anuário de Jornalismo da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero que nos autorizou a publicá-lo e da qual Biondi recebeu o título de Professor Notório Saber
“Uai, então, governo e seus aliados também sabem que o Brasil está mal?” Coçando a cabeça, era essa a reflexão do pobre cidadão brasileiro, em novembro último, ao ler, ver ou ouvir figurões de Brasília e celebridades da mídia explicarem que a inflação, subitamente renascida, não preocupava nem um pouco. “Ah, diziam candidamente os Polianas, essa alta é passageira. Não tem jeito de a inflação aumentar…” Por quê? “É simples.” Pontificavam “O brasileiro está sem poder aquisitivo, a massa salarial (total de salários pagos pelas empresas) caiu 5 por cento, por isso o consumo despencou. Então, a indústria e o comércio não têm condições de majorar seus preços, mesmo que sofram aumentos forçados de custos de matérias-primas como o petróleo, ou peças e componentes que importam de suas matrizes, encarecidos este ano com a alta do dólar. Se aumentarem preços, aí que as empresas não vendem mesmo.”
A surpresa do perplexo cidadão brasileiro não era, certamente, com o otimismo de Brasília, delirantemente exibido nos últimos anos.Tampouco, com o adesismo dos de-formadores de opinião, cada vez mais desnudados aos olhos do públicom a ponto de alguns deles provocarem engulhos até em antigos admiradores. A surpresa, mesmo, era com o total cara-durismo do governo FC e adeptos:”Uai, ué, refletia o cidadão: até há poucos dias, a gente só via, lia e ouvia esse pessoal dizer que o Brasil “surpreendeu”, a economia está muito bem; a indústria em recuperação; o consumidor, voltando às compras… Cumé que, da noite para o dia, o governo e imprensa passam a dizer exatamente o contrário, a admitir que o Brasil está em recessão, forçados a mudar de conversa para dizer que a inflação não assusta?” Na verdade, a volta da inflação criou uma das poucas oportunidades em que o povo brasileiro pôde descobrir, por si mesmo, a gigantesca e, mais do que vergonhosa, deprimente e lesa-sociedade manipulação do noticiário econômico (e político) no governo FHC. Sem medo de se exagerar, pode-se comprovar que as técnicas jornalísticas e experiências de profissionais regiamente pagos foram utilizadas permanentemente para encobrir a realidade.Valeu lançar mão de tudo: de manchetes falsas, inclusive “invertendo a informação”, a colocar o lide no final das matérias, isto é, esconder a informação realmente importante nas últimas quatro linhas. Segue-se um pequeno roteiro, dos truques mais usados, pelos meios de comunicação, para ajudar o leitor a ler, ver e ouvir os meios de comunicação brasileiros neste reinado de FHC. Ou para ajudar os estudantes de comunicação e jornalistas principiantes a decidirem se estão dispostos a aderir ao jogo da manipulação.
Advertência essencial: é absolutamente injusta, e até politicamente equivocada, a mania de criticar o adesismo desta ou daquela rede de televisão, deste ou daquele jornal e, principalmente, desta ou daquela colunista/comentarista de economia e política. Esse é um grave erro político, porque transmite à opinião públicaa falsa impressão de que a manipulação – permanente – tem sido feita por este ou aquele veículo, ou por este e aquele profissional. Com isso, acaba-se levando a sociedade a acreditar que se trata de exceções, quando a verdade é que a manipulação é generalizada e constante, contando-se nos dedos os profissionais e veículos que têm procurado manter a eqüidistância em relação ao governo FHC e interesses a ele ligados. Por isso mesmo, como seria injusto citar especificamente determinados veículos e jornalistas, todos os exemplos abaixo são reais, retirados do noticiário e devidamente guardados em nossos arquivos, mas deixamos de identificar seus autores.
TRUQUE 1: MANCHETE ÀS AVESSAS
A falta de ética da imprensa chegou a tal ponto, que se chega a inverter completamente a informação, para enganar o público. Excelente exemplo dessa prática ocorreu com uma pesquisa sobre o endividamento das famílias brasileiras, realizada por uma empresa de consultoria. As conclusões foram aterradoras: nada menos de 40 por cento do orçamento familiar já estava “amarrado” com o pagamento de compromissos financeiros: cartões de crédito, cheques pré-datados, prestações diversas. E, mais exatamente: esse comprometimento havia exatamente duplicado de 20 por cento para 40 por cento, após o Real. Qual a importância desse dado? Ele já mostrava as perspectivas de problemas sérios para a economia, com menos dinheiro disponível para o consumo, isto é, mais recessão – e aumento inevitável da inadimplência, ou “calote” forçado, por parte dos consumidores. Os resultados da pesquisa ganharam uma manchete na edição dominical. Mas, pasme-se o leitor: o editor fez uma mágica desonesta. A manchete dizia: “Dobra acesso do consumidor ao crédito”, e o texto mentia que, “graças a estabilidade da moeda, as famílias brasileiras já estão conseguindo planejar seus orçamentos e programar o endividamento desejado e lá-rá-li-lá-rá-lá, e as instituições financeiras, reconhecendo a nova situação criada pelo Real, blém-blém-blém, até duplicaram a concessão de financiamentos ao consumidor…”. Pois é. Cinismo total. Com um toque de mágica e muita falta de ética os problemas foram transformados em “novas vantagens” do Real, martelando-se na tecla da “estabilidade da moeda”, que tantos dividendos políticos trazia ao governo FHC…
TRUQUE 2: MANCHETES ENCOMENDADAS
O governo fornece textos e dados estatísticos para os meios de comunicação noticiarem com destaque, geralmente em manchete, mentiras ou verdades aparentes. A estratégia é usada em muitas ocasiões: para obter apoio da opinião pública; para impedir a formação de CPI’s, para esconder desmandos do governo; para forçar a aprovação de “reformas”; para justificar “privatizações” para desmoralizar oposicionistas e assim por diante. Exemplos? O governo FHC massacrou a agricultura com a cobrança da TR, até 40 por cento acima da inflação, e cortes violentos no crédito para plantio. Os agricultores, arruinados, pediram a renegociação das dívidas, para poder pagá-las a longo prazo, O governo pautou os jornais e revistas para provar que os produtores eram “caloteiros”. Matérias sórdidas foram publicadas contra eles. No entanto, nos últimos dias de 1999, em entrevista à Folha de S. Paulo, o presidente FHC reconheceu como “um dos maiores erros do seu governo” que os agricultores tinham razão, e que ele havia pensado que era tudo “choradeira” (esse reconhecimento por parte do presidente não teve nenhum destaque na edição da entrevista. A opinião pública continua a acreditar, portanto, que os agricultores são “caloteiros”).
Como desmoralizar oposiocionistas? Em novembro, manchete anunciava que “Aposentadorias fraudulentas foram descobertas no Banco Central”. A notícia revelava um caso insignificante, com a descoberta de uma quadrilha que havia falsificado documentos para cinqüenta funcionários públicos, dos quais dezesseis do BC. Por que ganhou a manchete, de foram duplamente desonesta, já que dava todo o destaque ao pessoal do BC, que nem sequer era maioria dos beneficiários (cinqüenta) envolvidos? Claramente, material e destaque pedidos pelo governo, porque o pessoal do Banco Central estava denunciando, ao Congresso, aberrações cometidas pelo presidente do BC, que iriam reduzir a fiscalização sobre os bancos e remessa de dólares, narcotráfico, lavagem de dinheiro, etc.
TRUQUE 3: CIFRAS ENGANOSAS
Mais mágicas? A falta de apoio ao Nordeste, no auge da seca, contribuiu para derrubar a popularidade presidencial. para ganhar o perdão da opinião pública, nada melhor portanto do que reforçar aquela velha ladainha de que o dinheiro destinado à região é mal aplicado, desviado pelas elites e coronéis. Maquiavelicamente, manchete (sempre encomendada) de domingo dizia: “Empresas do Nordeste desviam 550 milhões de reais”. O que o texto mostrava? Que os incentivos (desconto de imposto de renda) para projetos no Nordeste tionham sido mal utilizados, com emepresas beneficiadas indo à falência, ou mesmo aplicando em “projetos fantasmas”. Para os leitores, uma “prova de bondade do governo” e uma “prova de que o Nordeste é um saco sem fundo”. Os brasileiros sempre se impressionam com cifras que falam em “milhões”, não conseguindo ver a diferença entre eles, “milhões” e “bilhões”. A manchete se aproveitava disso, dando a impressão de um “rombo gigantesco”, que, na verdade, não passa de meio bilhão de reais – contra os 42 bilhões (com “b”) de reais doados para socorrer os banqueiro no programa Proer, por exemplo. Mas a desonestidade dessa manchete e do governo foi muitíssimo mais longe: o texto dizia que aquele “rombo” maquiavelicamente anunciado era a soma de todas as perdas e desvios ao longo de nada mais, nada menos de quarenta anos. Conta que, evidentemente, nenhum leitor faz – e por issomesmo é função dos jornalistas fazerem, quando querem informar e não manipular pró- governo. E tem mais: se os 550 milhões de reais forem divididos pelos quarenta anos, darão apenas uns 13 milhões (com “m”) por ano, cifra absolutamente ridícula, verdadeiros tostões. Mas a manchete maquiavélica cumpriu a missão de “salvar a cara” do governo FHC, à custa do reforço dos preconceitos contra o Nordeste e os nordestinos. Missão duplamente cumprida.
TRUQUE 4: LIDE ÀS AVESSAS
Conhecer este truque ajuda muito a quem não quer gastar muito tempo lendo jornais e revistas, e quer a informação verdadeira. No jornalismo do reinado FHC, é bobagem confiar nos títulos e na abertura, ou primeiras linhas (lide) da matéria, que são sempre otimistas. Os editores escondema verdade, isto é, os problemas, nas “últimas quatro linhas” – o que lhes permite fingir que não estão deixando de noticiar nada, uma atitude hipócrita, pois eles sabem muitíssimo bem que a informação que impressiona o leitor é aquela estampada no título e do lide. Técnica de edição, certo? Diariamente os jornais estão cheios desse truque de escondeção da verdade. Um exemplo freqüente se refere às vendas do comércio , que vão mal há muito tempo. São publicadas extensas entrevistas com fontes pró-governo dizendo que está tudo ótimo; lá nas últimas quatro linhas, vem a informação verdadeira, que é a violenta queda nas consultas ao Telecheque (como aconteceu no último natal) ou ao SPC, utilizados como “termômetros das vendas”.
TRUQUE 5: PROMETENDO O FUTURO
Poucos brasileiros sabem que a venda de automóveis caiu a menos da metade no país: eram 180.000 veículos por mês, em 1997, e menos de 80.000, nos últimos meses de 1999. Da mesma forma que a venda de televisões despencou de 8 milhões para 4 milhões por ano (Como se vê, o presidente da República e os de-formadores de opinião têm toda razão quando dizem que a “crise” não é tão grande quanto os catastrofistas previam… Imagine-se se fosse). Por que essas informações são desconhecidas? Primeiro, porque nunca chegam às manchetes. Há mais, porém. Aqui, o truque é esconder o resultado do mês (nas últimas quatro linhas, de preferência), e entrevistar o presidente da associação, federação ou confederação so setor, geralmente capachildos pró-governo. Como bom capachildo, ele fará uma previsão de que, “no próximo mês, o setor deve crescer 10 a 20 por cento”, e os jornalistas poderão alegremente colocar esse futuro otimista no título – mantendo a ética, o respeito à informação, é claro. Todos hipócritas.
TRUQUE 6: O SUJEITO ERRADO
“Sujeito”, dizem os gramáticos, “é quem pratica a ação”. não para os jornalistas do reinado FHC, claro. Em abril, títulos de páginas internas gritavam que “Seca aumenta mortalidade infantil no Nordesta”. No texto, as verdades, e as mentiras. Terríveis: no interior nordestino, a mortalidade infantil chegou a quatrocentas crianças mortas para cada 1.000 crianças de até um ano. Um dado espantoso, pois representa o recorde mundial de duzentas crianças mortas – pertencente até então… à África subsaárica, devastada pela sexa e pelas guerras tribais. No texto, a causa da mortandade: distribuição de cestas básicas suspensa há três meses. Corte de 60 por cento nas “frentes de trabalho”, e atraso de três meses no pagamento aos flagelados que continuaram trabalhando. Moral da história: quem está matando crianças (e adultos também) do nordeste não é a “seca”. O autor da ação, o “sujeito”, é outro, portanto: o governo FHC, que cortou e reteve as verbas para a região – como, de resto, para todas as áreas sociaism dentro do programa de “ajuste fiscal”, ou saldo positivo para o Tesouro (sem contar o pagamento dos juros), combinado com o FMI. Nestes tempos de hipocrisia e cinismo, os de-formadores de opinião encobrem até genocídios – e depois, angelicalmente, escrevem ou fazem comentários indignados quando, em certa época do ano, aparecem os relatórios de organismos como a Unicef falando das mazelas sociais no Brasil. Indignação, por quê? São cúmplices do genocídio e de tudo o mais…
TRUQUE 7: O BOI PELO BIFE
Outra técnica para esconder a realidade é deixar de lado o quadro geral, negativo, e “pinçar” um dado positivo, para dar destaque a ele, no título e no lide. Exemplo incrível, mas verdadeiro: em um trimestre, houve queda no PIB (valor dos bens e serviços produzidos no país), isto é, a economia recuou. Agricultura, indústria, comércio, tudo recuou. Houve somente uma exceção: a economia do Rio cresceu, por causa do valor da produção do petróleo na fantástica bacia de Campos. os jornalistas não tiveram dúvida: começaram a matéria por aí, e tascaram no título: “Economia do Rio cresce”. O bife no lugar do boi.
TRUQUE 8: O BIFE PELO BOI
No truque anterior, escolhe-se um determinado aspecto da notícia, ou o bife, para não falar do todo, isto é, do boi. E há também o truque inverso, insto é, falar do boi para esconder o bife. Como assim? Lá vai mais um exemplo real. Ao contrário do que dizem o governo e de-formadores de opinião, os banqueiros não voltaram a emprestar ao Brasil, em 1999. Sempre escondidos, os dados sobre financiamentos externos ou vendas de títulos no exterior, quando surgiam, eram sempre acompanhados de afirmações do tipo “os banqueiros internacionais estão emprestando menos para os países emergentes, porque estão com medo do bug do milênio”. Isto é, os cofre não estavam fechados apenas para o brasil 9o bife), mas para todos os países emergentes (o boi). Essa versão foi plenamente confirmada na manchete “Banqueiros emprestam menos à América Latina”, de uma reportagem de página inteira publicada no final de 1999. O texto também confirmava a ladainha. Mas a publicação trazia também uma tabela de estatísticas e quem se dispusesse a analisá-la teria uma “surpresa”: realmente, os empréstimos à América Latina (o boi) como um todo haviam caído 12 bilhões de dólares. Mas, analisando a tabela, via-se que a Argentina recebeu 8 milhões de dólares a mais; o México, 1 bilhão a mais; o Chile, 1 bilhão de dólares a mais. Em resumo, esses três países juntos receberam 10 bilhões de dólares a mais, na comparação com o ano anterior. Por que então a América Latina ficou com 12 bilhões a menos? Porque o brasil, sim, recebeu 22 milhões de dólares a menos. Essa era a notícia, e o título verdadeiro: bancos não emprestam ao Brasil. Como isso desmascararia o governo e seus de-formadores, a tática foi deixar os números só na tabela e publicar manchete e texto enganosos.
TRUQUE 9: OMISSÃO ESCANDALOSA
Este breve roteiro da manipulação no reinado de FH poderia ser alongado infinitamente. Por enquanto, fica-se por aqui. Não se pode deixar de falar, no entanto, na omissão total de determinadas informações, levantando-se desde já uma ressalva. Sempre pareceu odioso meios de comunicação ignorarem determinados fatos. Mas será mesmo que é menos odiosa toda a manipulação vista acima, que acaba transmitindo conceitos errados à opinião pública, levando-a a apoia propostas incorretas e rejeitar caminhos que melhor atenderiam os interesses do país? Como exemplo máximo da omissão total e indecente de informação, não se pode deixar de citar o acordo entre o governo e os meios profissionais de comunicação, para esconder a disparada dos preços do petróleo no mercado mundial, que mais do que duplicaram desde janeiro/fevereiro de1999. Durante dois anos, os preços do petróleo se mantiveram em queda no mercado mundial, saindo de 20 dólares para menos de 10 dólares o barril, em janeiro deste ano. A partir daí, os países produtores iniciaram negociações para cortar a produção e forçar a recuperação dos preços, que entraram em alta já em fevereiro. O acordo foi feito em 23 de março, os preços subiram 30, 40, 60, 100 por cento, sem que aparecesse nenhuma informação na imprensa brasileira – que, ironicamente, sempre foi estremamente preocupada com o menor reajuste que houvesse para os combustíveis. Essa conspiração do silêncio foi tão intensa, que a opinião pública levou um susto quando os preços da gasolina subiram: ninguém sabia da alta mundial. Por que essa conspiração? Porque o governo havia marcado leilões para doar, a multinacionais, as áreas de Petróleo descobertas pela Petrobrás, exigindo apenas preços “simbólicos” em troca. O grande argumento do governo para essa “doação” era, exatamente, que o mercado mundial de petróleo havia desabado, e “ninguém queria mais explorá-lo”. Quando os preços dispararam, era preciso esconder a realidade para evitar reações no Congresso – ou da opinião pública. A conspiração pactuou com um dos maiores assaltos praticados contra a sociedade brasileira: há áreas na região do litoral de Campos com reservas de até 2 bilhões de barris, isto é, que podem faturar 40 bilhões (com a letra “b”) de dólares, ou 80 bilhões de reais, com o barril a 20 dólares (preço “normal” dos últimos anos). O maior preço recebido pelo governo brasileiro foi de míseros 150 milhões (com a letra “m”) de dólares, já incluído aí o ágio oferecido pela multinacional. Crime de lesa-sociedade, só possível com a conivência e cumplicidade da imprensa, mestra da manipulação no reinado FHC.

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