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novembro 16, 2010

“Obras como ‘1822’, de Laurentino Gomes, não educam, desinformam, mas encontram espaços nos meios de comunicação”, diz professora da USP

Filed under: WordPress — Tags:, , , — Humberto @ 6:05 pm

1822, Laurentino Gomes. 351 páginas, Ed. Nova Fronteira.

O livro 1822 desconsidera investigações e questionamentos que há mais de 30 anos vêm sendo desenvolvidos e divulgados por centenas de pesquisadores brasileiros e portugueses sobre o tema da Independência, dos quais resultaram não só profunda ampliação dos conhecimentos sobre a época como a superação de interpretações correntes.
Dedicado a “professores de História no seu trabalho anônimo de explicar as raízes de um país sem memória”, o livro banaliza Saiba a versão mais conservadora e simplificada das complexas circunstâncias nas quais foram delineadas a separação de Portugal e a fundação do Império do Brasil. O fio condutor da narrativa é, aparentemente, a vida de D. Pedro. Entretanto, para fazer uma “reportagem” e contar como o Brasil conseguiu “manter a integridade de seu território e se firmar como nação independente”, o autor se fundamentou em duas premissas: para ele, a
Independência foi produto de “sorte, acaso, improvisação”, pois a desorganização interna era tamanha que só um “milagre” faria “dar certo” um país “que tinha tudo para dar errado”; desta forma, as decisões cruciais só poderiam ser tomadas por estrangeiros e portugueses -uma princesa austríaca, um militar mercenário inglês, D. Pedro, os deputados das Cortes em Lisboa e um “homem sábio”, José Bonifácio, inspirado pelos padrões europeus. Como o próprio autor afirma, o livro é um “mosaico” de personagens e episódios, mas não está livre de equívocos: na cronologia, por exemplo, 12 de outubro de 1823 aparece como data do fechamento da Assembleia Constituinte pelo imperador, quando o correto é I2 de novembro.
Os capítulos não formam propositadamente uma sequência, havendo idas e vindas no tempo e no espaço, e, além disso, a composição do texto pressupõe que a História seja um grande depósito de dados, que o observador arrebanha como quer, e com eles monta um tabuleiro manipulando fragmentos e dando-Ihes a fisionomia que considerar mais adequada ou palatável. A “técnica jornalística” que o autor diz adotar, contudo, não o inocenta do partido que tomou. O enredo apresentado – desmentido por obras que ele mesmo cita e pela literatura atualmente disponível -sugere que o voluntarismo de indivíduos comanda a História, que a sociedade brasileira, tanto no passado quanto no presente, é incapaz de se autogovernar, e que ainda estão por nascer o povo e a nação brasileiros. Edições como esta disparam, sobretudo, um alerta: não educam, desinformam, são conformistas e encontram espaço nos
meios de comunicação.
CECÍLIA HELENA DE SALLES OLIVEIRA É DIRETORA DO MUSEU PAULISTA EPROFESSORA DA USP.
Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 6, n° 62, novembro de 2010. p. 92.

Texto extraído do site ATELIÊ DE HISTÓRIA

JUSTIÇA SEJA FEITA ( Acresentado em 16.12.2013 ): Edição 200 da Revista Caros Amigos traz entrevista bem legal com o autor. Recomendo: http://www.carosamigos.com.br/index.php/component/content/article/230-revista/edicao-200/3703-um-olhar-sobre-o-brasil

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