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abril 26, 2009

Hospital da rede estadual de São Paulo libera paciente que possuia apendicite e precisava de cirurgia emergencial. O cara quase morre!


O local é o Hospital de Vila Alpina, que tem na ficha corrida alguns casos de gestantes que morreram na cirurgia, devido, parece, à imposição de parto normal [ Celso Lungaretti tomou ciência destes casos e falou deles em seus blogs. Vejam mais adiante. ], e outros como este: “Mais um caso: Liberada do Hospital de Vila Alpina, paciente é operada no ABC no dia seguinte por rompimento do intestino” ( Folha de Vila Prudente, Data: ? ). Imprensalão não fala nada. Este hospital é [ ou era ] administrado por uma OSCIP. A vergonha: percebam as desculpas da assessoria de imprensa da Secretaria. Só falta dizerem, naquela maneira burocrática, que os doentes inventaram a doença depois que sairam do HVA.
Com alta no Hospital de Vila Alpina, paciente passa por cirurgia emergencial
Rafael Gonçalo, da Folha de Vila Prudente

Francisco Pulice Neto mostra documentos que comprovam as passagens pelos dois hospitais

O restaurador Francisco Pulice Neto, de 32 anos, morador da Santa Clara, viveu dias de agonia neste mês. No último dia 3, ele começou a sentir fortes dores na barriga e seguiu para a Assistência Médica Ambulatorial (AMA) do Jardim Independência. Medicado, voltou para casa, porém, o mal-estar prosseguiu. Então, Neto foi até o Hospital Estadual de Vila Alpina e após exames, ouviu que se tratava de uma infecção no fígado. Foi encaminhado então para tomar soro e recebeu alta durante a madrugada, junto com um receituário de Buscopan e Plasil. Entretanto, não conseguiu dormir devido às fortes dores que persistiram. Na noite do dia 4, Neto resolveu ir ao Hospital Municipal Ignácio Proença de Gouvêa (antigo João XXIII), na Mooca, onde foi internado imediatamente e no dia seguinte sofreu uma cirurgia de emergência, por conta de uma apendicite aguda, que se não fosse tratada a tempo, poderia levá-lo à morte.
“Cheguei no Hospital de Vila Alpina vomitando e com dor. Falaram que era uma inflamação no fígado. Me deram soro, remédio, receita e me deram alta. Cheguei em casa e não consegui dormir. Minha sogra disse que a vizinha comentou que podia ser apendicite. Minha mulher procurou na Internet e eu estava com todos os sintomas. Fui para o João XXIII e logo de cara o médico me disse que era apendicite mesmo”, narrou Neto.
O restaurador ainda comentou os momentos que precederam a cirurgia. “Os médicos que me atenderam no João XXIII fizeram todos os exames e diagnosticaram a apendicite. Já no dia 5, às 13h, fui operado. Me falaram que se demorasse mais um pouco para eu ir ao hospital, podia até morrer, pois estava muito inflamado”, explica o restaurador, que afirma ter recebido outro tratamento no Vila Alpina. “Podiam ter ao menos me examinado, mas nem chegaram a me tocar”, ressalta.
Neto ficou internado no hospital municipal até o último 17, devido à gravidade da infecção. “Me faziam exames de sangue diários. Mesmo depois da cirurgia, ainda davam alterações. O médico não me liberou enquanto eu não estava 100%. Mesmo agora que estou em casa, ele me deu 15 dias de atestado, para não fazer nenhum esforço”, completou.
Segundo a esposa do restaurador, Andréa Camargo Pulice, o casal não têm a intenção de processar o hospital. “Acho que não iremos abrir processo não. Tem que contratar advogado, não tem como. A intenção foi mais de divulgar o que aconteceu com meu marido mesmo”, explica.
Apuração
Através da assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Saúde, o Hospital Estadual de Vila Alpina esclareceu que o “paciente deu entrada na unidade no dia 3 deste mês, às 20h, com queixa de dor no estomago e náuseas”. Ainda segundo a nota, foi ressaltado que Neto “foi avaliado inicialmente, fez exames laboratoriais e eletrocardiograma, que não apontaram alteração. O paciente estava bem hemodinâmicamente, sem indícios de abdômen cirúrgico e foi medicado para as queixas de dores. Como o paciente apresentou melhora e bom quadro clinico e físico, foi liberado com medicações para os sintomas citados”.
Para finalizar, o órgão de saúde explicou que “o caso foi enviado para apuração interna do hospital. E que havendo indícios de irregularidade no atendimento, será encaminhado para o Conselho Regional de Medicina, instância adequada para a apuração imparcial dos acontecimentos e punição dos responsáveis”. A Folha vai cobrar o resultado da apuração.
Caso parecido, que resultou em morte de mulher de 30 anos, não gerou apuração
No último dia 27, a Folha trouxe matéria de capa, relatando a história de Karine Narvaes, de 30 anos, portadora de um leve atraso mental, que começou a sentir dores na região do abdômen. Ao ver que o quadro não melhorava, e já apresentava disenteria e vomito, Karine foi levada pelo irmão, Fernando Narvaes, ao Hospital Estadual de Vila Alpina. Na unidade, segundo Fernando, ela passou por consulta com uma médica, que teria dito ser apenas uma virose. A moça foi medicada e liberada. Já na madrugada do dia 17, dois dias após a alta, Karine piorou, o Resgate precisou ser chamado e ela voltou ao hospital, onde faleceu três horas depois. O laudo do Instituto Médico Legal (IML) apontou como causa da morte, apendicite aguda supurada, o que gerou revolta nos familiares.
Na ocasião, o Hospital Estadual de Vila Alpina, através da Secretaria Estadual de Saúde, se limitou a responder que “não havia qualquer indício de problemas cirúrgicos e que a paciente foi medicada e liberada”. Ainda foi explicado, que dois dias depois, ela voltou a dar entrada no hospital com um mal-estar geral, foi novamente atendida e medicada, mas veio a falecer. Na nota não havia menção a qualquer tipo de investigação do caso. ( Folha de Vila Prudente, edição 880, 24.04.09 )

LEIA MAIS:

Hospital paulistano impõe parto normal às gestantes pobrespor Celso Lungaretti

09 setembro 2008
Em julho noticiei e comentei que uma mulher fora praticamente assassinada pela incúria do Hospital Estadual de Vila Alpina (na capital paulista), o qual, mesmo diante das evidências gritantes de que se tratava de procedimento de alto risco, ainda assim a submeteu a longa espera na tentativa de forçar o parto normal:
http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/2008/07/umas-e-outras.html ( OBS: ESTE BLOG REPRODUZ O POST MENCIONADO, LOGO A SEGUIR )
Foi o suficiente para eu receber uma enxurrada de mensagens de um tal GestaMga, grupo de mulheres defensoras do parto normal, tentando me convencer de que se tratava de uma fatalidade e que o chamado parto humanizado é infinitamente superior à cesárea.
Eu me baseara na reportagem de um jornal de bairro que me caiu por acaso nas mãos, a Folha da Vila Prudente. Tive interesse em acessá-lo nas semanas seguintes e acompanhei os desdobramentos do episódio: outras famílias se queixando de danos terríveis às parturientes ou aos bebês pela mesmíssima insistência em forçarem o parto normal, contra a vontade das pacientes; panos quentes e explicações inconvincentes da Secretaria de Saúde; alguma repercussão na mídia.
Liguei para o repórter responsável pela série, Rafael Gonçalo, e fiquei sabendo que a proporção de partos normais no Hospital da Vila Alpina ultrapassa 75%. Trata-se, em suma, de hospital escolhido pela Secretaria de Saúde como cartão postal das excelências do tal parto humanizado. Daí o empenho das fanáticas do GestaMga em abafar o caso.
Mas, se esse grupo me pareceu um tipo de Liga das Senhoras Católicas — mulheres ricas atrás de alguma ocupação para preencher seu tempo ocioso –, desconfio que o empenho da Secretaria da Saúde não se deva apenas à obsessão em impor às coitadezas a solução que é melhor para elas. Afinal, o parto normal sai muito mais barato para os cofres estaduais e a vida me ensinou que quem pensa o pior dos governos, quase sempre acerta.
Enfim, autoridades e fanáticas têm todo direito de tentarem persuadir as gestantes pobres de que o parto normal é melhor para elas, mas nenhum direito de forçá-las a abdicar da cesárea, se é o que elas preferem.
E, muito menos, de agirem sorrateiramente, não esclarecendo de antemão à gestante que tudo farão para que o parto seja normal.
Essas infelizes obrigadas a recorrer à rede pública estão, na verdade, servindo inadvertidamente como garotas-propaganda de uma campanha promocional do parto humanizado.
Isto é tão inadmissível como as experiências com cobaias humanas que os nazistas desenvolviam e nos causam tanta repugnância quando as vemos nos filmes.
Parece que perdemos a capacidade de indignarmo-nos com os descalabros presentes.

* Celso Lungaretti, 57 anos, é jornalista e escritor. Mantém os blogs O Rebate, em que disponibiliza textos destinados a público mais amplo; e Náufrago da Utopia, no qual comenta os últimos acontecimentos.
http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/

UMAS E OUTRAS

9.7.08
“O acaso faz com que essas duas

Que a sorte sempre separou

Se cruzem pela mesma rua

Olhando-se com a mesma dor”
(Chico Buarque, “Umas e Outras”)
Cristina dos Santos Cavalcante residia num bairro pobre da zona Leste paulistana, a uns 15 quilômetros do Centro. Tinha 29 anos e esperava sua segunda criança.
Fez o pré-natal na Unidade Básica de Saúde do Jardim Independência, da rede municipal. O nascimento do filho estava previsto para o dia 15 de junho.
A data chegou, passou… e nada. Então, recorreu ao Hospital Estadual de Vila Alpina. Mas, em cada consulta, diziam-lhe que estava tudo normal e deveria voltar dentro de dois dias.
Apesar de suas precárias condições financeiras, ela pagou por um ultra-som numa clínica particular. O exame revelou que o cordão umbilical tinha dado duas voltas no pescoço da criança.
Levou o laudo na consulta seguinte, às 9 horas do dia 27 de junho, sendo internada imediatamente. Em vez de efetuarem logo uma cesárea, deram-lhe medicamentos para induzir o parto normal, que acabou ocorrendo somente às 23h20.
Cristina teve então hemorragia e não havia médico capacitado para dar-lhe o atendimento correto. Os jovens residentes tiveram de chamar “um especialista”.
Quando este finalmente chegou, não havia vaga para Cristina na UTI. Quarenta minutos depois (!), levaram-na a uma sala de observação (!!), na qual não havia equipamento nenhum. E foi lá que ela morreu, seis horas depois do parto. Parte desse tempo foi desperdiçada com a repetição de exames de sangue que a paciente já fizera no mesmo hospital – como se, no momento da emergência, não houvesse a certeza de que o tipo sanguíneo dela fosse aquele que constava da sua ficha.
Segundo o viúvo Márcio Ferreira da Costa, a primogênita já nascera por meio de cesariana, “o que mostra que já não era muito aconselhável fazer o parto normal desta vez”. E acrescentou:- Ela não tinha nada de dilatação. Minha mulher tinha a cintura muito fina e o neném nasceu com quase 4 quilos. Chegando na parte do ombro, o bebê travou e ficou cerca de 5 minutos sem respirar. Ao nascer, nem chorou, foi direto para os aparelhos.
O hospital registrou a morte como “natural” no 56° Distrito Policial – Vila Alpina. O resgate (oportuno e justificado) de Ingrid Betancourt mobilizou três governos e foi assunto da semana na grande imprensa paulista.
A morte (desnecessária e inaceitável) de Cristina dos Santos Cavalcante não comoveu governo nenhum nem interessou à grande imprensa paulista.
Eu só soube dela graças a um valoroso jornal de bairro (a Folha de Vila Prudente) e a um repórter (Rafael Gonçalo) ainda dotado do senso de justiça que deveria ser inerente à nossa profissão.
E só posso fazer o que estou fazendo: compartilhar minha indignação com os leitores, na esperança de que pelo menos alguns percam uns minutinhos enviando e-mails às autoridades, à imprensa e aos amigos.
Depende de nós fazermos com que Cristina dos Santos Cavalcante não tenha morrido em vão, como tantas outras Cristinas de nosso povo sofrido e injustiçado.
Celso Lungaretti, 57 anos, é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

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