ENCALHE ( Descontinuado em 05.10.2013 )

abril 9, 2009

"Nossa cultura mima os adolescentes" ( Maria Rita Kehl, em entrevista publicada na revista Carta na Escola )


Quando bati o olho nessa entrevista pensei: “Taí. Tem que deixar para quem sabe.”
O que isso quer dizer? Bem, em uma entrevista curta e agradável de se ler a gente vai ter contato com algumas bárbaras reflexões de Maria Rita ( que se adianta em apresentar-se como uma “não pedagoga” e “não professora”, mas como psicanalista com uma “visão panorâmica” das coisas e interessada na questão da juventude ) sobre escola, adolescência, vida em sociedade, autoridade, gravidez precoce, drogas, classes sociais etc.
Mas, bacana mesmo, é quando ela trata de temas como consumo, rebeldia, anos 60, busca incessante do prazer, drogas ( de novo, meu ). E aí é que chega no ponto que eu me referi, sobre “deixar para quem sabe”. Em poucas palavras ela – que viveu e presenciou algumas delas – derruba do altar “revoluções” comportamentais e culturais que, depois de certo tempo, acabam sendo apoderadas pelo sistema ( tá bom, vai: pelo “capitalismo” ) e devolvidas na forma de mercadorias encontráveis em gôndolas de supermercados [ Mmmm. Sobre algo parecido com isso, lembro-me de um trecho de música dos Dead Kennedys: ” ( … ) We strip-mine your underground culture / Take the bite out and rinse it clean / Give ourselves credit for creating it / Then sell it back to you / At twice the price ( … )” – “FLESHDUNCE” ]. Ou seja, em suas próprias palavras: ” ( … ) houve mudanças imensas, mas mudanças sempre compatíveis com os regimes liberais capitalistas. Não é o comportamento que vai mudar o mundo. Na verdade, essas forças são água no moinho nessa sociedade em nova fase, dita de consumo.”
Em meu entender, isso significa que as coisas se resumem a entretenimento e ilusão. Não é de todo mal, quando admitimos e aceitamos isso.

CARTA NA ESCOLA, edição 34
Para a psicanalista, Maria Rita Kehl, o professor precisa aprender a valorizar seu capital intelectual, que não tem preço
A psicanalista Maria Rita Kehl é uma observadora atenta do que acontece nas escolas, embora não se apresente como especialista em educação. Também reflete agudamente sobre os dilemas e contradições da juventude, seja a partir das queixas de pais e professores, em sessões individuais de terapia, seja prestando consultoria a escolas com problemas de indisciplina. Nesta entrevista concedida a Ricardo Prado, sob o olhar vigilante de um Sigmund Freud na estante de seu consultório, Maria Rita alerta para os riscos vividos pelas escolas que negociam demais sua cultura de socialização e transmissão de saberes com a cultura juvenil. E atenta para o papel decisivo da publicidade como indutora do convite ao prazer, ao “barato” imediato. O que pode ser uma droga, literalmente.
Carta na Escola: As diferenças entre a cultura escolar e a cultura da juventude podem estar na origem de muitos dos conflitos existentes dentro da escola?
Maria Rita Kehl: Primeiro gostaria de alertar aos leitores que eu não sou nem pedagoga, nem professora, nem especialista em ensino. Sou só psicanalista e a experiência que tenho é com a minha clínica, que me dá uma espécie de panorâmica do “estado das coisas”. E gosto também de pensar a questão da juventude, mas é diferente da visão de quem está ali na escola e de quem é diretor ou professor de escola secundária. Em relação à sua pergunta, eu tenho impressão que a escola negociou demais. Digo isso como mãe de aluno de escola, que já não sou mais, e com base na minha participação em reuniões de pais. Acho que houve um mal-entendido, lá pelos anos 60. Não que não tenha sido importante ter tido uma abertura e uma mudança curricular depois dessa década, já que a escola não podia ficar rígida e fechada como era antes. Mas o que tornou a escola um pouco sem sentido, para os alunos e professores, é que se negociou demais. E isso não é culpa da escola, mas é fruto de uma cultura que mima a criança e o adolescente, principalmente o adolescente. Ele é a fatia privilegiada do mercado, é o consumidor por excelência, porque está sempre mudando. Isso acontece mais na classe média, mas atinge a cultura em geral. Então, os professores não sabem mais o que estão ensinando, porque eles estão ensinando coisas que seus alunos não querem aprender. Mas a escola sempre foi obrigação e pouca gente ia para ela porque adorava. E essa pergunta: “Para que serve aprender isso, para que serve aprender aquilo?”, também era feita. Mudanças curriculares podem ser importantes, mas eu acho que, se a escola negocia demais sua posição, que é de formadora de socialização, mais do que de conhecimento, fica muito difícil sustentar-se diante do aluno, porque o professor passa a não ver mais sentido no que faz, porque, se a televisão é importante, se os videogames são interessantes e qualquer site ensina mais do que uma aula, para que serve a escola?
CE: O papel preponderante da escola, hoje, seria de formadora da socialização?
MRK: Eu ainda acho que a escola é um aprendizado de convívio civilizado, da negociação de interesses e reconhecimento de quem se deve respeitar e como respeitar. Conheci uma escola pública de São Paulo no ano passado, chamada Amorim Lima (veja matéria publicada em Carta na Escola, ed. 25, abril de 2008) e fiquei impressionada porque é uma escola que, de um jeito muito progressista, nada rígido ou conservador, não negocia determinadas coisas. Criou um ambiente regrado, que para os alunos é um alívio. Não são regras rígidas, porque na conversa que tive eles disseram: “A gente sabe dessas regras, porque nós as escrevemos no mural”. Quer dizer, eles criaram um modo de convívio que mantém o papel educativo formador da escola e leva em consideração que os alunos, hoje em dia, não são robôs aterrorizados com medo de palmatória e de ir à sala do diretor. E acho que isso é uma questão para os pais também. O que é que sustenta o exercício da autoridade em uma sociedade tão aberta e democrática como a nossa? É diferente um professor que exerce a autoridade em nome da ordem, de Deus e das tradições, como acontecia nas escolas antigamente.
CE: E hoje onde se sustenta a autoridade do professor?
MRK:
O professor não está escorado por todos esses pilares de mármore, felizmente não está, mas, ao mesmo tempo, ele tem uma posição de autoridade. Eu acho que a minha geração sofreu muito com a ditadura e ficou com horror do autoritarismo, passando a fazer uma confusão entre autoridade e autoritarismo. O autoritarismo é totalmente arbitrário, desmedido, punitivo e cruel. Autoridade é o exercício de uma diferença de posição que tem a ver com gerações, pais e filhos, professores e alunos, e que se exerce para, a partir daí, ter o que negociar. Porque, se não, é a desmoralização da escola. O filme do João Jardim, Pro Dia Nascer Feliz, é muito impressionante, porque vemos a diferença de postura. Mesmo em escolas públicas muito pobres há alguns professores que acreditam no que estão fazendo e seguem alguma coisa e outros que negociam tudo. No filme havia uma escola do Rio que tinha um aluno que estava totalmente fora dela e o pessoal continuava negociando com ele. É aí que a escola perde a “borda”. É aquele medo de não perder o aluno e com isso se perde a escola toda.
CE: Isso me faz lembrar uma expressão que você usou no seu livro Fratria Órfã, de que ‘a vaga de adulto está aberta’ em nossa sociedade. Essa dificuldade que o professor tem em exercer sua autoridade tem a ver com isso?
MRK: Acho que tem. O professor não quer fazer o papel do careta, né? Como muitos pais também. Hoje em dia eu vejo mudanças ótimas da relação do adulto com o adolescente, como, por exemplo, o tipo de coisas que podem ser confiadas e conversadas, mas alguma diferença de lugar deve ser mantida.
CE: Quando começou essa ampliação da adolescência?
MRK: Eu costumo brincar que do homem o capitalismo aproveita tudo, até o berro, porque tem essa brincadeira que se fazia que do boi só não se aproveita o berro. E o berro, que os jovens deram nos anos 60, que era anticapitalista, libertário e progressista, foi incorporado pelo capitalismo. Os movimentos de 68, embora não fosse a intenção dos seus agentes, prepararam a transformação do capitalismo produtivo em capitalismo de consumo. Paradoxalmente por uma recusa. E era uma recusa em relação aos padrões de consumo e bom comportamento estabelecidos até então. Chama a atenção que os movimentos dos anos 60 tiveram mais efeito sobre os países capitalistas. No Leste Europeu eles foram abafados e não sobrou rastro, mas no Ocidente foram assimilados como força econômica. Lembro do meu desencanto quando no início dos anos 70 vi um outdoor de uma marca de jeans que dizia: “Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada”. Então, pensei: ‘Eles já nos devolviam o que nós tínhamos exigido em forma de mercadoria’. Isso me faz pensar, também, que as revoluções do comportamento das décadas de 60 e 70 foram fundamentais, por exemplo, para as mulheres, no que diz respeito ao comportamento, à liberdade sexual e à circulação no mundo, houve mudanças imensas, mas mudanças sempre compatíveis com os regimes liberais capitalistas. Não é o comportamento que vai mudar o mundo. Na verdade, essas forças são água no moinho nessa sociedade em nova fase, dita de consumo.
CE: Você vê, então, que a sociedade de consumo nunca esteve tão forte?
MRK:
Nunca esteve tão forte como ideologia. Não sei se estamos no auge do consumismo, mas sob o aspecto da ideologia, da crença profunda de que você vale o quanto você consome, essa crença é muito arraigada.
CE: Como o professor pode levar essa questão do consumo para a sala de aula que não pareça uma coisa sublimadora, sua mera negação?
MRK:
Se pensarmos o que é a tradição do intelectual, que é mais europeia do que brasileira, ele não é, necessariamente, um cara que está no topo econômico da sociedade. O intelectual é alguém que, de certa forma, se considera elite, na medida em que tem um patrimônio cultural valiosíssimo. Por isso acho que seria muito interessante que os professores se apropriassem desse valor, de que eles são detentores de um patrimônio cultural que não tem preço. E é isso que eles vão transmitir. Porque ouço que muitos alunos dizem: “Você é um zé-mané que não ganha nem para trocar de carro, e quer mandar em mim?”, principalmente em escolas particulares. Se o professor tiver engolido essa crença que ele vale pelo que pode comprar, sairá arrasado de um confronto desses. Agora, se ele puder dizer: “O que eu tenho você vai ter de suar muito para obter e posso te transmitir se você aprender a me respeitar”, é outra história. Talvez as escolas tenham de fazer um trabalho com suas equipes de professores. Uma vez fui numa reunião de alunos e veio esta pergunta: “Para que serve aprender isso, para que serve aprender aquilo?”, aí me ocorreu dizer que eles estavam numa situação muito privilegiada, porque antes de começarem a funcionar e serem úteis, tinham o privilégio de ter uma fatia do melhor que a sociedade já produziu. E o melhor que a sociedade produziu não foi dinheiro, foi o conhecimento. Agora, se os professores estão desmotivados, os assuntos são chatos e difíceis, e o aluno tem o celular e a tevê para se entreter, fica difícil. E é claro que essa valorização do professor deve ser primeiramente salarial.
CE: Será que o excesso de negociação que você menciona nasceu da crença de que toda a aprendizagem precisa ser prazerosa?
MRK: É, mas essa é a revolução dos anos 60, que, se teve um lado muito interessante, teve um outro que se tornou completamente indulgente em relação às crianças e jovens. Lembro de um livro do Gramsci, Literatura e Vida Nacional, no qual ele faz um elogio da escola, muito engraçado e antigo para nós, dizendo: “A escola nos ensina coisas que vão ser úteis para o resto de nossas vidas, como, por exemplo, ficar sentado quatro horas ouvindo sobre um assunto”. Quer dizer, tem algo que é precioso na escola, que é se concentrar, prestar atenção e acompanhar um raciocínio longo. Eu briguei muito em uma escola em que meu filho estudava, porque eles não davam livros para os alunos do Ensino Médio. Eu questionava porque eles não davam a oportunidade de eles lerem livros e eles diziam que os alunos não eram capazes de acompanhar. Mas é a escola que tem de torná-los capazes de acompanhar, quer dizer, se a escola vem com esse paternalismo de que é difícil demais para eles, eles não serão capazes de acompanhar mesmo. E isso começou com esse processo, demasiado, de negociação.
CE: A gravidez na adolescência, no seu ponto de vista, parece ter uma aceitação muito mais imediata do que seria de esperar. Elas querem ficar grávidas?
MRK: Isso é uma hipótese, um pouco a partir da minha clínica, um pouco a partir de filhas de conhecidos, um pouco a partir do filme Meninas, da Sandra Werneck; tudo isso foi fortalecendo essa minha hipótese. Minha pergunta inicial foi essa: como é que, com essa febre de liberdade, as meninas, hoje, não abortam? Até vinte anos atrás as meninas engravidavam e abortavam. Um pouco era por medo dos pais, mas também tinha a ver com aquela fase da liberdade delas, tanto é que nos anos 80 houve as grandes polêmicas sobre o aborto. E hoje em dia a questão aparece com um certo moralismo, mas acho que essa rapidez com que as meninas quando engravidam assumem que vão ser mães é uma espécie de artifício para colocar algum tipo de limite no excesso a que elas são convocadas. E essa inversão é muito rápida, é uma inversão que se deu em duas, três gerações. E acho que a publicidade não deve ser desprezada como um indicador dessa mudança, porque as técnicas de sondagem de marketing são muito sofisticadas. Deve-se pensar, hoje em dia, a publicidade como um dos maiores indicadores da cultura espontânea. E a publicidade convoca os jovens ao gozo e vai, desse modo, criando um ambiente cultural imaginário de que isso é o que se espera de um jovem. Então, o que percebi em meninas que ficaram grávidas e queriam, imediatamente, ter o filho, é que na falta de uma função paterna que deveria vir do pai, ou dessa corrente geracional anterior a elas, elas apostam que o filho é que vai dar o limite que, antes, era imposto pelos pais. [ NOTA DESTE BLOG: Há um texto bastante perturbador sobre o tema da “Gravidez Adolescente”, na edição de janeiro do jornal ultra-comunista A Nova Democracia. Sigam o LINK, please. ]
CE: Esse fenômeno acontece na população de baixa renda também?
MRK:
No filme Meninas, da Sandra Werneck, ela acompanha cinco moradoras de favelas do Rio de Janeiro, grávidas na adolescência, que querem ter seus filhos. Apenas em dois casos o pai assume, mas é muito impressionante como ao longo da gravidez elas apresentavam um discurso do tipo: “Agora eu vou cuidar do meu filho”, como se dissessem que agora iam colocar um limite na disponibilidade. E, depois que nasciam, os filhos ficavam com as avós e elas voltavam aos bailes funk. Porque você não amadurece só porque teve um bebê. Essa esperança de que, a partir do momento em que você é mãe, você se transforma como sujeito e vai saber lidar melhor com seus desejos não é o filho que faz isso. Em meu livro sobre depressão, que estou terminando, um dos elementos que analiso como responsável pelo aumento das depressões, que é considerado um aumento epidêmico, é que o imaginário social que sustenta a função paterna está esgarçado. Então, o sujeito se vê meio à deriva. Nas meninas a gravidez tem essa imagem de impor um limite. E nos meninos, uma coisa que me impressiona muito, é o aumento de crise de pânico na adolescência.
CE: Você acha que isso está ligado, também, a essa obsessão por ser feliz?
MRK:
É, mas não é só isso. É o conceito de gozar. Gozar, em psicanálise, é um conceito que significa ir além dos limites do prazer. Por isso que a droga é o objeto privilegiado disso. Porque destrói barreiras, até corporais, da experiência e dos limites banais que a gente tem. Não é tanto a felicidade, acho que a felicidade já foi até superada. O objeto de desejo não é mais a felicidade, mas o gozo. Porque ele é mais imediato, já que a felicidade está ligada, ainda, a uma ideia de continuidade e longo prazo. E a sociedade de mercado é acelerada, porque tem de produzir, rapidamente, a absorção do que ela gera, para a roda continuar girando.
CE: Como as campanhas antidroga costumam negar o prazer, e isso é uma das coisas mais difíceis na nossa sociedade, gostaria de saber se existe algum jeito de fazer uma campanha que fuja dessa abordagem.
MRK: Não tenho uma resposta. Vou falar livremente sobre o assunto. A primeira coisa que me vem é um artigo do Eugênio Bucci, no qual ele diz: “O que vale uma campanha contra as drogas se todo o resto da publicidade é a favor das drogas?” Aí você pensa que nunca viu publicidade de cocaína e maconha. Não, mas todas as publicidades dirigidas aos jovens fazem apologia do “barato” e depois vem uma dizendo, em 30 segundos, “droga não”. Há uma de vodca, por exemplo, onde se vê uma paisagem cinzenta e através da garrafa a paisagem se transformava numa praia maravilhosa. Ou então, o cara come uma pastilha e flutua. Tudo é brincadeira, sem dúvida, mas é uma permanente convocação ao “barato”. E, como a gente se acomoda rapidamente, a dose deve ser aumentada, a dose do “barato” e da imagem do “barato”. E depois vai dizer que é para não se drogar? A sociedade está convocando o jovem a viver “de barato” permanentemente. Ele veste um tênis e pula, como se ele tivesse usado LSD. É tudo muito divertido, pensando friamente. Mas o convite que a sociedade de consumo faz ao jovem é o do mercado do “barato”. Então, eu sou a favor de legalizar, mesmo porque se legalizar vai morrer menos gente de overdose do que morre de efeito colateral da violência do tráfico. O problema principal social do País hoje é o tráfico de drogas. E, certamente, quem tem menos interesse na legalização das drogas, hoje em dia, são os chefes do tráfico.
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