ENCALHE

junho 5, 2008

"TRIBUTO A UM IMPRESCINDÍVEL: D. PAULO EVARISTO ARNS", por CELSO LUNGARETTI

“Há homens que lutam um dia, e são bons;há outros que lutam um ano, e são melhores;há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons.Porém há os que lutam toda a vida,esses são os imprescindíveis.”(Bertolt Brecht, “Os Que Lutam”)
A grande imprensa só destaca os personagens quando eles estão realizando coisas, completando décadas disso e daquilo ou morrendo. Vai daí que um homem como D. Paulo Evaristo Arns está há 10 anos longe dos holofotes e é quase desconhecido das novas gerações.
Pior: alguns jovens formam seu conceito sobre ele a partir do que lêem nos textos repulsivos da propaganda neo-integralista, apontando-o como principal inspirador da política de direitos humanos “que só protege os bandidos”…
Então, em vez de esperar que surja o que os jornalistas chamamos de gancho, uma justificativa qualquer para falar de D. Paulo, vou fazê-lo unicamente porque se trata de um daqueles imprescindíveis a que se referiu Brecht. Neste Brasil da ganância e da competição que o capitalismo globalizado está engendrando, é fundamental evocarmos exemplos como este, até como antídoto.
Cardeal e arcebispo emérito de São Paulo, D. Paulo está com 87 anos, é um homem combalido e tem problemas de audição – decorrentes, esclarece, de ferimentos sofridos quando de uma tentativa de seqüestro num país latino-americano (pretendiam obter, em troca, a liberdade de um chefão do narcotráfico).
A entrevista que fiz há algum tempo com D. Paulo permanece atual, daí eu estar reproduzindo aqui seus principais trechos Não quis privar os leitores da oportunidade de conhecer-lhe a história a partir de suas próprias palavras, que tive o privilégio de escutar numa ensolarada tarde de dia útil, no convento franciscano que fica ao lado da tradicional Faculdade de Direito do Largo São Francisco.
No final, apesar de sua dificuldade de locomoção, fez questão de percorrer comigo o longo caminho até o corredor. E se despediu com uma frase marcante: “Precisamos contar essas histórias [do que aconteceu neste país durante a ditadura militar] às novas gerações. É importante que elas saibam de tudo isso!”
A missão do educador – Muitos programas pioneiros, na linha da inserção social, foram introduzidos na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) entre novembro/1970 e maio/1998, período em que, como arcebispo metropolitano de São Paulo, D. Paulo foi Grão Chanceler da instituição.
Logo que se tornou o principal responsável pelos rumos dessa universidade, D. Paulo fez primeira visita ao Conselho da PUC. E disse: “Não quero uma escola de 2º grau melhorada. O que me interessa é que vocês façam uma pós que dê bons professores para todos os lugares do Brasil; e que todas as teses e tudo o que vocês discutirem além da escola se refira ao povo e ajude o povo. Que isso seja a norma daqui para a frente”.
Os resultados não tardaram, diz D. Paulo. “A Arquidiocese se organizou em pastorais diferentes – p. ex., a Operária, a da Terra, a do Trabalhador –, então eu consegui que a Faculdade de Direito se interessasse em ir, durante a semana ou no sábado, à periferia e ver como se poderia ajudar essa população e quais os problemas reais da periferia. A mesma coisa aconteceu com a assistência social, que, aliás, está trabalhando nessa linha até hoje, com métodos sempre novos e recebendo apoio da Europa e de outros lugares, com uma eficiência muito grande.”
Hoje, essas iniciativas pioneiras da PUC/SP encontraram muitos seguidores e há um sem-número de empresas e instituições esforçando-se para dar uma contribuição positiva à sociedade.
Ofícios para vítimas da ditadura – “Os estudantes da USP me procuraram em 1973 quando um colega [Alexandre Vannucchi Leme] foi assassinado pelos órgãos de segurança. Os estudantes se reuniram, uns 10 mil, e mandarem representantes à minha casa, à noite, para que eu fosse lá falar aos alunos. Eu disse que era melhor reunir os estudantes, mas não dava para fazer no campus da universidade, porque ele estava cercado por policiais e oficiais do Exército.
“Então, decidi fazer na catedral. Eu disse: ‘Na catedral, nós falamos o que queremos, e nós falaremos aos estudantes. Encham a catedral de estudantes e de povo, que nós diremos a verdade’. E foi o que eles fizeram. Às 15h, eu fui lá, fiz aquele ato solene em favor do estudante e celebrei a missa para o falecido. Fiz o sermão sobre o ‘não matarás!’, o mandamento central dos 10 mandamentos. Foi sobre isso que eu falei para eles, e eles participaram, vivamente, da missa e de toda manifestação religiosa posterior.
“Depois, em 75, foi a vez do Herzog; em 76, a do Manuel Fiel Filho; e em 79, a do Santo Dias, quando recebemos de 150 mil a 200 mil pessoas, que andaram desde a igreja de Nossa Sra. da Consolação. A multidão foi engrossando. Ao chegar na Catedral da Sé, não cabia nem na igreja nem na praça, então nós fizemos uma cerimônia mais curta, mas muito mais participada por todos os operários.”
Missa de 7º dia de Vladimir Herzog – Foi celebrada na Catedral da Sé, simultaneamente, por religiosos de três confissões: a católica (D. Paulo), a judaica (rabino Henry Sobel) e a protestante (reverendo James Wright).
“Quando o Herzog foi assassinado – lembra D. Paulo –, em 1975, os jornalistas me pediram que houvesse um ato ecumênico na catedral. Os judeus fazendo o ato deles em hebraico, portanto, não na língua que compreendêssemos. Foi impressionante e muito bonito.”
[Modesto, D. Paulo evitou comentar que sua decisão foi um ato de enorme coragem. Primeiramente, porque a alta hierarquia católica não viu com simpatia sua iniciativa de oficiar missa ao lado de um rabino e de um reverendo. Depois, por ser um desafio frontal à ditadura militar, que o presidente Geisel engoliu, pedindo apenas a D. Paulo que segurasse seus radicais, “enquanto eu seguro os meus”. Finalmente, por ter, em nome de ideal de justiça e solidariedade cristãs, corrido o risco da ocorrência de tumultos e mortes que teriam um peso devastador em sua consciência de religioso. Graças a ele, foi viabilizado o ato que acabou se tornando um divisor de águas: a partir dessa vitória sobre a intimidação, a ditadura começou sua lenta, mas irreversível, marcha para o fim.]
Invasão da PUC em 1977 – “Eu estava em Roma quando o Erasmo Dias, então secretário da Segurança do estado de São Paulo, invadiu a PUC sem dizer ou ter motivo nenhum. Os estudantes estavam em exame e os policiais destruíram mais de 2 mil cópias de documentos, estragaram o refeitório, danificaram os instrumentos musicais e até derrubaram um professor no chão.
“Eu fui chamado às pressas de Roma e, na manhã seguinte, já dei uma declaração ao desembarcar no aeroporto, dizendo que ‘na PUC só se entra prestando exame vestibular, e só se entra na PUC para ajudar o povo e não para destruir as coisas’. Depois, nós fizemos toda uma reação contra eles e toda uma manifestação junto aos estudantes.”
Eleição direta para reitor da PUC – “No início dos anos 80, nós queríamos nos opor ao regime totalitário que estava vigorando no Brasil e provar que funcionários, professores e alunos são igualmente capazes de escolher o diretor, o reitor ou o presidente da instituição.
“Antes eu reunia o conselho de cada classe, para ter uma certa democracia entre os professores, e pedia que me indicassem o nome. Achei que era pouca democracia. Então, pedi à reitora e aos três vice para haver uma escolha entre todos os alunos, que eu aceitaria o resultado e mandaria para a aprovação de Roma.
“E Roma aprovou imediatamente. Então, foi a primeira eleição dentro de uma universidade pontifícia católica e, também, foi a primeira vez que se escolheu um reitor entre todos os funcionários, alunos e professores.”
Contratação de professores perseguidos – “O minstro da Justiça ordenou a expulsão de vários professores da Universidade de São Paulo. Então a reitora da PUC me telefonou perguntando se podia admiti-los entre nós. Eu disse: ‘Não só pode como deve, porque são excelentes professores e patriotas’.
“O Florestan Fernandes até escreveu um artigo me agradecendo. Ele ficou satisfeito porque pôde dirigir os estudantes da pós-graduação na PUC da maneira mais livre possível.
“Quanto ao Paulo Freire, eu fui a Genebra para convencê-lo a voltar ao Brasil, depois de 10 anos de exílio. Garanti que eu iria cuidar da chegada dele aqui. E mandei toda a nossa Comissão de Justiça e Paz, que eram mais de 40 pessoas, junto com amigos, para recebê-lo em Campinas.
“De fato a polícia o prendeu, mas, depois de duas horas de interrogatório, eles viram que todos estavam contra eles e soltaram o Paulo Freire, que ficou conosco, com uma grande amizade comigo, até o momento da sua partida.”
Convicções e esperanças – Sobre o Governo Lula, antes mesmo da crise do mensalão, D. Paulo já mostrava uma ponta de apreensão, ao se dizer esperançoso de que “o Brasil não perca esta ocasião e não afunde o barco em vez de conduzi-lo a uma margem da terra onde haja outra terra e outro céu, como diria a Sagrada Escritura; onde haja outra possibilidade de sonhar e outra possibilidade de viver com dignidade, mas para todas as pessoas e não só para uma parte”.
E, inquirido sobre o menor engajamento atual da Igreja às causas sociais, ele finalizou com uma mensagem de esperança: “A Igreja é o povo. Se o povo se mobiliza bem, a Igreja também se mobiliza. Então, é preciso unir esses dois conceitos, o povo de Deus e o povo, simplesmente. Nós precisamos caminhar para a fraternidade, para uma possibilidade de todos serem respeitados como filhos de Deus e irmãos uns dos outros”.
Não há como retratar a grandeza de um D. Paulo Evaristo Arns numa única entrevista. Faltou dizer, p. ex., que ele criou a Comissão de Justiça e Paz de São Paulo e foi o grande artífice do projeto Brasil: Nunca Mais ( livro-levantamento dos casos de violações de direitos humanos durante o regime militar ), integrando também o movimento Tortura Nunca Mais, dele decorrente.
O principal, no entanto, é que suas gestões junto às autoridades salvaram a vida e evitaram a tortura de resistentes, no pior momento da ditadura.
Fiel ao espírito da igreja das catacumbas, foi o pastor que tudo fez para que seu rebanho sobrevivesse a um tempo de lobos. Um imprescindível.
Celso Lungaretti, 57 anos, é jornalista e escritor. Mais artigos em
http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

outubro 28, 2007

Enojado com matéria da Veja "A solução é derrubar" ( Janeiro de 2006 ), professor enviou carta à editora cancelando assinatura

Cancelamento da revista Veja
Por Waldemar Luiz Kunsch
CMI ( Centro de Mídia Independente )
06/03/2006
“Como estão fazendo dezenas de entidades e personalidades, recomendo aos que lerem este e-mail, bem como a seus amigos, que façam o mesmo, cancelando a assinatura de Veja. E, desde já, autorizo a publicação deste e-mail por quem desejar fazê-lo.”
“Cancelamento de assinatura de Veja
Eu, Waldemar Luiz Kunsch, jornalista, relações-públicas, editor, filósofo e professor universitário, solicito que cancelem minha assinatura da revista Veja, que está no nome da minha esposa, Margarida Maria Krohling Kunsch, e tem o código 530335819. A assinatura vence só em agosto. Seu serviço de atendimento ao assinante informou-me que, em caso de cancelamentos, o valor correspondente ao período ainda não vencido é devolvido.
Em e-mail à parte lhes enviarei o número de minha conta bancária, para efetuar tal devolução. Para seu conhecimento, essa importância (pequena no montante, mas expressiva em seu simbolismo) será passada ao Padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua, da Arquidiocese de São Paulo. Como estão fazendo dezenas de entidades e personalidades, recomendo aos que lerem este e-mail, bem como a seus amigos, que façam o mesmo, cancelando a assinatura de Veja. E, desde já, autorizo a publicação deste e-mail por quem desejar fazê-lo. O motivo da decisão que estou tomando são as afirmações ofensivas e sem fundamento feitas exatamente contra o Pe. Júlio Lancelotti, na edição de 11 de janeiro de Veja, por Camila Antunes, no entretítulo “O pecado da demagogia”, da matéria “A solução é derrubar”, que trata das rampas antimendigo implantadas em São Paulo pelo secretário municipal Andrea Matarazzo, numa prática administrativa caracterizada por peritos e pesquisadores como nitidamente “higienista”. Até hoje não consegui “assimilar” a referida matéria, simplesmente porque ela era insuportável, do ponto de vista do jornalismo e da ética. Só lamento ter demorado tanto em cancelar a assinatura da revista. Do ponto de vista do jornalismo, a repórter cometeu muitos pecados, inclusive o da demagogia que ela acusa no Pe. Júlio Lancelotti.
Que “competência” (antropológica, política, humana, filosófica, teológica, religiosa, sentimental etc.) ela se arrogou para alinhar tantas inverdades, arvorando-se em “analista social” ou “socióloga urbana” sem o ser, além de “inquisidora” que lembra lances dos mais tristes da Idade Média? Pastoral de Rua, uma “organização política”, que propiciaria àquele sacerdote, “criador de uma categoria [sic] formada por mendigos, menores abandonados e loucos que vagam pelas ruas de São Paulo”, residente em um “bunker antimendigo”, ter à disposição um “rebanho de manobra para fazer política”, sendo seus motivos “muito mais do que religiosos”… É isto que a repórter deduziu da entrevista com o Pe. Júlio, reconhecidamente um cidadão muito esclarecido, consciente, objetivo, batalhador, bem intencionado, muito humano? Além do quê, por falta de uma pesquisa mais consistente, ela só prova não entender que “o que falta mesmo na cidade é política pública para esta população e as rampas não são de forma alguma solução para nada”, devendo-se ver e trabalhar esse contexto como uma “realidade complexa que exige respostas complexas”, conforme disse Fernando Altemeyer Júnior, que cito mais adiante. Do ponto de vista da ética, ela contradisse quase tudo o que a Editora Abril declara como sua missão – “contribuir para a difusão de informação, cultura e entretenimento, para o progresso da educação, a melhoria da qualidade de vida, o desenvolvimento da livre iniciativa e ofortalecimento das instituições democráticas do país” – e preconiza como seus valores – “excelência, integridade, pioneirismo e valorização das pessoas”. Atente-se para os grifos.
Tanto do ponto de vista do jornalismo quanto do da ética, têm razões de sobra todas as entidades e pessoas que viram na “reportagem” em questão uma matéria mal feita, demagógica, repleta de preconceitos e, por tudo isso, uma expressão de mau jornalismo, considerando a repórter uma “sonsa, atrapalhada com conceitos e categorias” e a revista Veja um “panfleto político”, marcado por “cinismo retórico”. O cinismo, no caso em questão, ficou mais do que patente no “acordo” que a “repórter” propõe ao Pe. Júlio: “A prefeitura retira as rampas e o padre abandona o seu bunker e passa a morar debaixo do viaduto. Lá, poderá controlar os assaltantes e encontrar a santa felicidade junto ao Povo da Rua”.
Duas manifestações acerca dessa matéria me pareceram especialmente pertinentes: a de Fernando Altemeyer Júnior, professor e ouvidor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em http://www.adital.com.br/, no dia 16.01.2006; e a do jornalista Walter Falceta Jr., em http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos, no dia 18.01.2006. Para Altemeyer, “Veja erra gravemente! A repórter cometeu “o pecado original do mau jornalista: matéria sem pesquisa e comprovação de dados. Criou ficção e não foi capaz de ver a realidade. Este é um paradoxo terrível para um órgão semanal que se denomina Veja”. No texto de Falceta “Quando o jornalismo de latrina dispara contra a beatitude” – sobressaem a lucidez e competência com que o autor expõe “a enorme quantidade de incorreções em tão escassas e mal digitadas linhas, analisando “onze pecados da ‘reportagem’ [aspas do autor] de 11 de janeiro”.
Para ele, “o esclarecimento dos fatos sugere duas hipóteses: a) Como é de praxe, o material da moça foi violentamente adulterado e editado pela intelligentsia que controla a revista. b) Durante o contato com o padre, a jornalista desenvolvia à sorrelfa a manjada tática de Veja: simular uma grande entrevista para coletar uma frase ou palavra que comprometa a vítima da vez ou que corrobore as mirabolantes teorias engendradas pelos editores da revista”.
Falceta também se refere à seção de cartas da edição seguinte de Veja. A análise por ele feita traduz exatamente o que todo leitor inteligente pôde perceber nessa seção: “Escancara no desequilíbrio da seleção de opiniões mais uma molecagem. Exagera-se em número e intensidade o que serve para desqualificar a vítima. Reduz-se na peraltice o que lhe possa ser favorável. No caso presente, os que reconhecem a beatitude foram ignorados. Imagina-se que as manifestações indignadas de entidades, clérigos, políticos e cidadãos seguiram despachadas, em via inversa, nas produtivas latrinas da redação”.
Vale acrescentar aqui considerações anotadas a partir de relatos de notáveis jornalistas na IV Semana de Jornalismo, realizada na Universidade Metodista de São Paulo de 20 a 22.09.2005, em comemoração ao 30º. aniversário do assassinato de Wladimir Herzog – por sinal, diretor da Editora Abril à época. Disse, no evento, Marcelo Beraba, ombudsman daFolha de S. Paulo: “Se formos discutir os vários problemas que assolam a imprensa e contribuem para um questionamento em relação à sua credibilidade, veremos que o ponto fundamental é a questão da apuração da informação. Apuramos muito mal”. Para José Hamilton Ribeiro, é necessário ter vocação para fazer um verdadeiro jornalismo investigativo: “A pessoa que tem vocação para ser jornalista vai ser jornalista – e dos bons. É uma profissão de competição, de muita cobrança. O erro do jornalista é mais visível, fica escancarado. Mas, havendo vocação, o resto é fácil”. Comentando os resultados da IV Semana de Jornalismo, Rodolfo Martino, coordenador do Curso de Jornalismo da Metodista, pondera: “A lembrança e discussão do caso Herzog trazem à tona uma realidade distante das novas gerações – sejam estudantes de jornalismo, sejam profissionais recém-formados. Esta tônica trata das implicações sociais e transformadoras que acarreta o exercício da profissão”. Para Martino, “hoje o glamour de ser jornalista está em alta – muito provavelmente, a partir da notoriedade que a televisão consagra a quem apareça na telinha, seja apresentando um noticioso, seja como participante de um abominável reality show”. E acrescenta: “Talvez por isso os profissionais de imprensa estão mais preocupados com a ascensão social e financeira ( nenhum demérito nisso, aliás ) do que propriamente com as funções crítica e fiscalizadora que todo e qualquer jornalista deve exercer”.
São ponderações que vêm muito a propósito no caso da “jornalista” Camila Antunes, com sua “reportagem” na revista Veja. Ainda segundo Martino, “as intervenções dos jornalistas convidados para o evento puderam, de certa forma, assinalar o peso da individualidade na tarefa de alargar os limites que o mercado muitas vezes nos impõe. Ficou claro para os estudantes: essa marca só é possível mediante competência técnica e uma sólida formação cidadã e contemporânea”. Concluo este e-mail com as revelações feitas, no evento da Metodista, por Mino Carta, hoje diretor de Redação da excelente revista Carta Capital e que, no passado, foi responsável pela renovação editorial e visual da revista Veja. Diz ele, relembrando o caso Herzog: “Tive um grande envolvimento com este episódio. Entendi ali que o país precisava de um jornalista e não apenas de um profissional de imprensa”. Rodolfo Martino lembra, a propósito, o que o notável jornalista registrou em seu livro Castelo de âmbar, na pele de Percúcio Parla: “A morte de Wladimir Herzog é o ponto de ruptura. Mino sabe que a sua concepção de jornalismo já não se justifica à sombra da arvorezinha, símbolo da Abril, e o impele na direção de outras experiências”.
São Paulo, 06 de março de 2006. “
URL:: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/01/343179.shtml

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