ENCALHE

setembro 26, 2007

Criminosos lutam por perdão e muito dinheiro na Guerra do Iraque

Filed under: El País, EUA, George W.Bush, Iraque, mercenários, USA, Via Política — Humberto @ 12:35 am
Daniel Herrera Lussich*
VIA POLÍTICA
25/09/07
Todo mundo fala dos 160.000 militares norte-americanos enviados ao Iraque pelo governo de George W. Bush. Mas pouco ou nada se diz sobre os mercenários, os contratos privados e, ultimamente, os quadrilheiros que engrossam essas forças. Esses quadrilheiros são, em geral, centro-americanos que alcançaram a “isenção moral”, que deixa de lado ou apaga longos prontuários de criminalidade. Em troca de altos salários, são enviados a somar-se às forças em luta no Iraque, e têm quase garantida a “residência” norte-americana ao retornar da guerra. Hoje, no que se converteu em um frutífero negócio para as 67 empresas particulares que operam no Iraque, a indústria privada militar conta com mais de 180.000 homens. E aí vale tudo. Contratos são firmados com veteranos de guerra norte-americanos, iraquianos, e de todas as nacionalidades do mundo, que se acercam para arriscar a vida e obter altas remunerações. Os soldos são três, quatro e até dez vezes superiores comparados com o que ganha um marine que parte com seu uniforme de qualquer cidade dos Estados Unidos. Um veterano que esteve na “elite” americana, ou de outro exército, é contratado por essas companhias por cifras que vão desde os 150.000 dólares a 250.000 dólares anuais. Entre elas encontra-se a questionada “Halliburton” que, em um determinado momento, teve Dick Cheney em suas hierarquias, antes que chegasse à vice-presidência, com 50.000 pessoas contratadas na zona. Cobre, especialmente, grande parte ou todas as tarefas de infra-estrutura, logística e segurança. Como os quadrilheiros conseguem se incorporar ao exército dos Estados Unidos? Assombrosamente, a cada dia, incorporam-se às fileiras mais centro-americanos para ir à frente de batalha, entre eles a temida “Mara Salvatrucha 13”, de origem salvadorenha. Nos EUA, a organização é implacavelmente perseguida em 30 dos 50 estados da União, onde atuam no tráfico de drogas, como pistoleiros contratados pela máfia, e mesmo na luta frontal entre diferentes bandos. O crime, a violação e o roubo cobrem as capas dos processos dos quadrilheiros que purgam pena quando são detidos, logo deportados, e, pouco tempo depois, na clandestinidade, retornam para delinqüir em território estadounidense. Agora, segundo relatórios do FBI e do Comando de Investigação Criminal, alistam-se nas forças americanas e demoram muito pouco tempo para fazer notar sua presença. Depósitos e equipamentos blindados aparecem à noite com grafittis, pintados com figuras nada agradáveis e inscrições ameaçadoras. A investigadora Jennifer Simon, do FBI, acaba de apontar que “não é um segredo que os membros das quadrilhas estão dentro das Forças Armadas, incluídas as de ultramar”. Estima-se que 11% dos incorporados às fileiras pertencem aos bandos e obtiveram isenções morais para serem admitidos. As empresas privadas, que trabalham com seu próprio pessoal, em geral em interesses norte-americanos, encarregam-se das tarefas de cozinha, recuperação de edifícios, atendimento a feridos, vigilância de edifícios públicos, segurança de chefes militares e civis, e também se somam às frentes de luta contra os insurgentes iraquianos. Cabe sublinhar que o pagamento dessa indústria sai, em grande parte, dos impostos dos cidadãos dos EUA, outra dos carregamentos especiais que chegam ao Iraque sem obrigações claras e fixas. O mesmo ocorreria com as armas; grandes partidas são enviadas para apetrechar os aliados iraquianos ou mercenários, e poucos se animam a assegurar que sempre chegam às mãos “leais” e não terminem nas inimigas. O antigo general do exército, William Nash, foi categórico ao descrever os riscos: “Não temos controle de todas as armas da coalizão no Iraque, o que é perigoso para nosso país.” Outras altas fontes militares, como descreveu há poucos dias o diário Los Angeles Times, manifestam sua desconfiança com clareza: “Os contratados por empresas privadas operam fora de todo controle militar e nem sempre se mantêm na frente ou aceitam ordens em situação de perigo.” Entretanto, o subsecretário do Pentágono, Gari Motsek, discorda dessas versões: “Recorre-se aos contratados para reduzir gastos e permitir que as tropas se concentrem em outras tarefas.” Sem dúvida, um quadro de caos e incerteza. Há quase quatro mil soldados americanos mortos no Iraque e, embora não apareçam nas listas oficiais, deveriam ser agregados 1.200 contratados privados, de nacionalidade incerta.
* Daniel Herrera Lussich é correspondente permanente em Washington do jornal El País, de Montevidéu, Uruguai.
Traduzido em 20/09/2007. Publicado na edição impressa de El País em 7/09/2007, sob o título original de EE.UU. tiene 180 mil “soldados privados e pandilleros” en Irak
Tradução do espanhol para o português de Omar L. de Barros Filho, editor de ViaPolítica e membro de Tlaxcala, a rede de tradutores para a diversidade lingüística.

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