É o seguinte: tem uma dama do Partido Verde que, até onde sei, tem ( ou teve ) seu curral eleitoral em Mauá. Amiguinha do PSDB, ela e mais um outro que nunca esteve morando aqui estão, aos poucos, tentando criar uma área de influência no bairro de Vila Prudente, e eu não entendo porquê, já que papai da dama é prefeito de Mauá e, até onde eu saiba, este município apresenta carências e desafios muito mais a ser enfrentados que o bairro de Vila Zelina.
Aqui, um bairro que, aos poucos e progressivamente vem sendo pilhado e saqueado pela especulação imobiliária.
Faz tempo que estou para escrever sobre isso, mas sempre acho que não sei o suficiente. Vai na raça, com o coração e com o fígado.
Este bairro ( leiam os posts anteriores ) já foi o bairro mais sossegado desta cidade, e não há muito. Residencial e sem prédios ( um ou dois ). Casas antigas, em bom estado, do tipo que tem mutos e portões baixos e jardins na frente do imóvel. Chegava a ser chato, até. Muitos idosos. Poucas casas comerciais.
E, de repente ( eu não sei como nem quando ) veio o progresso. Esqueci das aspas.
As ruas ficaram estreitas para tantos carros. Os jardins foram cimentados. As casas colocadas abaixo e em seus terrenos construídos dois ou três residências – extremamente apertadas, claro – e vagas para automóveis. Os muros cresceram. As belíssimas escolas modernas de arquitetura deram as caras e fizeram uma plástica no bairro.
Eu sei bem que está resumido, mas este é o aspecto mais aparente. Eu não faço idéia de quantas casas antigas foram derrubadas e nem quantos prédios apareceram, mas uma coisa é certa: isso aqui não é mais tão sossegado.
Vê só: um dos principais atrativos deste bairro é justamente o que está levando-o a perdê-lo: a tranquilidade ( inclua-se aí a tão procurada “segurança” ).
Já fui assaltado. Cerca de 5 ou 6 vezes, num comércio ( na região de Pinheiros/ Jd. América ) em que trabalhava ( sozinho, por sinal, e à noite ). Sempre à mão armada. Num destes eu reagi e, não fossem os dois sujeitos em nada parecidos com o que o Marcelo Rezende ou o Datena mostra toda noite, teriam me matado, só que não o fizeram. Acho que um pouco das crises de pânico que eu tive vieram daí. Bastaria terem me matado. Ponto final. Vivinho da Silva.
Conclusão: não tenho o perfil de “defensor dos direitos humanos para bandidos” ( se é que isso existe ) e, em tese, não teria motivos para isso. Pelo contrário, eu deveria ser o tipo paranóico e metido a valente, daqueles que chegam no lugar – tipo, na padaria – com seu jeito expansivo, falando alto e forte, sempre com uma notícia policial na ponta da língua e dando a entender que, quando tiver concurso público para isso, vai dormir na porta para pegar o melhor lugar na fila de admissão para carrasco. Vai assistir o “Tropa de Elite” umas dez vezes. Manja, aquele sujeito que tá sempre com um cano na cintura ou no porta-luvas, sempre exibindo pros amigos, com a desculpa de que tem que “se proteger de vagabundos”, mas acaba usando em briga de trânsito ou de bar, por causa de mulher. Entendeu, né? O cara que diz ser macho, só que precisa provar isso o tempo todo. O tal que é contra a restrição ao porte e uso de armas. Não se garante contra as ameaças que, na maioria das vezes, tá em sua cabeça.
Não é policial. Eu os chamo de paga-pau de polícia – apesar de que, curiosamente, têm o maior preconceito contra os caras ( os policiais ) que arriscam a vida para proteger seu patrimônio maior ( o carro, não é a vida, não ) – e mantém um discurso meio ambíguo, de acordo com a audiência e conveniência.
Muito parecidos com o camarada de classe-média que reclama do menor de rua mas não tá nem aí quando surgem denúncias que a Nestlé ou a Coca-Cola envenenam ou exaurem fontes de água potável, o típico paga-pau de patrão. Reclama do chefe mas quer, ardentemente virar chefe, e é capaz de quase tudo para atingir seu objetivo ambicioso. Grana manda.
Ambiciosos e extremamente apegados aos bens materiais, desejam que a roda do Estado gire sempre a seu favor e de sua mesquinhez. Votam por interesse, mas se queixam de que outro faça igual. Gastam 300 reais de conta do celular – que a filha usa durante as aulas ( eu disse DURANTE ) – desperdiçam água lavando o asfalto e o carro, fazem o diabo para sonegar e passar os outros para trás, mas são os primeiros a apontar o dedo acusador para o Governo, quando este se dispõe a suprir, minimamente, as necessidades de outros.
Ganhar e roubar, para eles têm o mesmo significado. Um Bolsa-Família, por exemplo, para este sujeito que descrevo, é um roubo.
Mas não só: receber uma multa merecida de trânsito é um roubo. Rodízio de automóveis é um roubo.
O Governo, os sem-terra, a CET e o PCC estão na esquina, escondidos, prestes a dar o bote. Vão tirar tudo o que ele tem de importante: carro, relógio, celular. Às vezes ele é morto pelos delinqüentes, e isso é notícia e deverá ser foco de todas as atenções do aparelho repressivo, já que quem morreu era um sujeito honesto, inteligente, trabalhador, pagador de impostos e tinha um futuro pela frente, uma família bonita.
Seus semelhantes vão cuidar de manter o assunto na pauta. Vão cobrar providências. Vão pressionar. Os bodes expiatórios que se cuidem – uma pessoa ou um monte delas – pois, ao contrário do sujeito acima, não têm nome, sobrenome, diploma superior ou Cursinho Universitário caro, família considerada, carreira profissional a ser mencionada como “prova” de inquestionável superioridade moral, estes destaques sociais todos que fazem a vítima merecer atenção especial do Governo. Já uma chacina, esta é espetacular ( no sentido de “espetáculo” ) mas só. Gado tem sempre a mesma cara e cai logo no esquecimento. A gente acostuma, tão comum se torna a morte no atacado de pessoas que moram na multidão. Mais um Silva morreu, mas qual? Tem tantos. Mas se um membro – ou a família inteira – Rodovalho de Mesquita Vergueiro – na ( mais que improvável ) hipótese de que seja vítima de uma chacina policial, a Cidade “ganhará” um Memorial em sua homenagem. Destaque. Lágrimas e editoriais.
Eu me distraio…
Pois bem, depois de tantas voltas, chego ao ponto: qual a razão de um posto policial no bairro ( Vila Zelina ) ? Moro aqui há mais de 30 anos. A região – majoritariamente a Vila Prudente, como Subdistrito – teve vários candidatos a diversos cargos eletivos. Cito, de memória: Anercides Valente, Manoel Sala, João Prando, Brasil Vita ( este acho que não morou aqui, mas aqui é seu curral eleitoral ), Adriano Diogo, mas jamais vi alguém se colocar à frente dos supostos interesses da Vila Zelina, como a Dama do PV. Um senhor que não está “morando” aqui também gosta de tirar uma casquinha do bairro. Não sei dizer ainda o porquê, mas meu palpite é que ( eu ainda não mencionei ) o perfil sócio-econômico do bairro e dos adjacentes teve uma mudança – para cima -, em termos aquisitivos e veio gente de “fora”, talvez fugindo da falta de “segurança” e excesso de trânsito de outros bairros da Capital e buscando, também, bons lugares, só que um pouco mais baratos. Quando encontram, tratam de transformá-lo naquilo que deixaram para trás… É o tipo de público que tem suas demandas e reclamações de classe-média alta prontamente acolhidos pelo poder público, ainda mais considerando que é o eleitor alvo do PSDB, o perfil padrão e entre suas demandas, a segurança ocupa lugar privilegiado, já que ( em sua própria opinião ), eles têm mais coisas importantes a perder que nós, proletas.
Mas eles não têm motivos, coitados? Esse lugar, a Vila Zelina, não é um local idílico?
Não, não é. Tá cheio de assalto. É direto.
Mas adivinha quem trouxe junto.