Nada como um título bacana para despertar a atenção do navegante incauto…
Antes, umas considerações, uns apontamentos balizadores:
As ruas da Capital paulistana devem, obrigatoriamente – eu insisto! – ser reformadas, recapeadas, aprumadas etc constantemente. Sem perder tempo com cálculos de custos e delongas inúteis. Não importa o preço! O motivo é simples, e revela a alma paulistana, de sua sociedade: as calçadas, o local designado aos pedestres, são intransitáveis. As ruas, ou seja, por onde circulam os veículos, são o melhor lugar para o pedestre transitar. A chamada opinião pública fica revoltada por causa dos buracos, valas, crateras e costelas-de-vaca encontrados nas pistas, pois isso danfica os carros. A imprensa ecoa essa revolta. Os governantes são eleitos com promessas tais como construir mais ruas, asfaltar e pavimentar mais vias. Isso rende votos.
As calçadas, por sua vez, são mantidas pelos proprietários dos imóveis, a quem cabe fazer a sua manutenção. As prefeituras ( por meio das administrações regionais ) fiscalizam essa manutenção. Mas, no entanto, cada trecho de calçada é construído da forma que mais agradar o dono do imóvel. Como este, geralmente, possui um carro no mínimo, a calçada deverá ser projetada para facilitar a entrada do carro na garagem ou vaga no imóvel. Se este tiver sido construído num patamar muito mais alto que o nível da calçada que atravessa a frente da propriedade, então tem-se aí um problema. Assim, o sujeito vai dar um jeito nisso, construíndo na calçada uma espécie de degrau / declive ligando a entrada da garagem ao meio fio. O carro terá seu acesso garantido, o pedestre ganhará um obstáculo no caminho, e a prefeitura não fará coisa alguma. Sabem o segredo? A “opinião pública” a quem me referi acima, que exige reformas e manutenções constantes nas vias de São Paulo, para a melhor circulação de seus carros e motos é formada, EXATAMENTE, pelos cidadãos que constroem as calçadas repletas de obstáculos para pedestres pela cidade afora. Eis aí a formação geral da “opinião pública” combativa.
Os pedestres, por sua vez, são seus cúmplices, já que esperam não permanecer no papel de “seres andantes” eternamente. De modo que consideram as demandas dos motoristas como sendo mais importantes que as suas próprias.
Diante deste quadro, resta ao pedestre que não tem a mentalidade de “wanna be” motorista, caminhar pela rua, pois o asfalto, geralmente, é lisinho e uniforme. Ou seja: ruas asfaltadas e recapeadas são do mais puro interesse até para quem não anda de carro por elas. Logo, a prefeitura faz muito bem em dedicar recursos e esforços em sua manutenção.
MÓVEIS
Quando você depara com um sofá, cadeira, armário velho, abandonados na rua, há de se observar duas coisas:
- Tem gente que não parece se importar com a possibilidade daquilo causar um acidente ou, mais comum, ajudar a provocar uma inundação;
- O objeto foi abandonado numa calçada;
- A pessoa que abandonou esse objeto acredita em mágica, poder do pensamento positivo, gênio da lâmpada ou alguma outra entidade fantástica.
O ítem dois é o mais revelador: revela a índole do cidadão que abandonou aquela porcaria ali, e sua relação com a idéia do “trânsito na Capital”. Explico: da mesma forma que um automóvel estacionado ( ou semi- ) sobre uma calçada “rouba” a parte que caberia aos pedestres, também é isso que ocorre quando abandonamos objetos nas calçadas, na esperança de que alguma força mágica ( a “entidade fantástica” supra mencionada ) se encarregue de sumir com aquilo. Ou seja: “rouba-se” o espaço do pedestre.
Oras, isso significa que, mesmo fazendo uma merda dessas, nota-se que o sujeito ainda tem a preocupação de não atrapalhar a circulação dos carros. Acho que é um tipo de pensamento similar ao daquelas culturas que fazem oferendas a totens. Não se pode desrespeitar e nem desagradar o ídolo, sob pena de receber castigos horrendos. E espera-se que a obediência seja recompensada. Algo como um mortal ser convidado para uma festa no Olimpo, apenas para pessoas exclusivas.
Isso explica por quê não se jogam sofás velhos no meio da rua. Não se pode ofender os deuses, na esperança de sermos acolhidos em suas graças. Por isso, somos obedientes, “humildes”, servis, solícitos. Desde muito cedo, somos apresentados ao culto. Às orações que reforçam a nossa fé
( “Brasileiro adora carro! Hereges e ímpios, não!” ) e nos consolam, fazendo-nos acreditar que fomos aceitos pelo grupo e não estamos sós, que somos um rebanho unido, pro que der e vier.
Somos levados a crer que seremos ungidos e todas as graças recairão sobre nós, se escolhermos trilhar o caminho ( “Tá certo. Mas como é que faz pra comer mulher se não tiver carro? Estou em São Paulo tem 1 ano e descobri que a mulher paulistana só dá pra quem estiver motorizado. Elas dizem que homem de verdade tem que ter carro.” - Comentário publicado em “É O CARRO, ESTÚPIDO!”, publicado no portal do CMI ) e que somente se for assim nossa existência estará assegurada e garantida e tudo o mais fará sentido.




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