ENCALHE

agosto 13, 2009

"Reaparecimento do Cabo Anselmo após 45 anos", por Jasson de Oliveira Andrade

O Cabo Anselmo, 67 anos, reapareceu depois de 45 anos vivendo clandestino. O motivo desse aparecimento foi para tirar impressões digitais em São Paulo para recuperar documentos. O que foi feito em 30/7/2009. O procedimento, segundo o jornalista Lucas Ferraz, em reportagem para a Folha (31/7), é para instruir o seu pedido de anistia, visando a ser indenizado como “vítima” do golpe de 64. No artigo “O dito cabo Anselmo” (Folha, 4/8), Janio de Freitas escreveu: “Quem é esse Anselmo, que história verdadeira tem vivido há meio século e por que se decidiu a fazê-la são ainda segredos. Para os quais Anselmo pretende a reparação criada, entre outras, PARA AS SUAS VÍTIMAS” (Destaque meu). Aí é que entra a “misteriosa” vida de Cabo Anselmo, que vamos ver adiante.
Cabo Anselmo vivia escondido porque estava supostamente jurado de morte. O motivo dessa ameaça resultou de sua traição aos ex-companheiros, dedurando-os ao regime militar, precisamente ao delegado Fleury. Devido a essas delações, muita gente foi presa, torturada e, segundo ele mesmo declarou a uma revista, resultou na morte de “cem, duzentos” militantes de organizações de extrema esquerda, inclusive sua companheira, a jovem paraguaia Soledad Viedma, grávida dele. Temeroso de vingança, ele se escondeu por 45 anos, só reaparecendo agora!
Antes dessa traição, Cabo Anselmo, em 1964, era dirigente de uma entidade que reunia marinheiros. Ele comandou uma revolta considerada por vários analistas como estopim do Golpe militar daquele ano. Maria da Conceição Tavares, em “Fatos e mitos de 1964” (Folha, 28/3/2004), endossa essa opinião: “A sublevação dos marinheiros, quebrando a hierarquia militar, foi a gota d´água e o sinal para antecipar o golpe, deslocando a lealdade ao presidente [João Goulart, Jango] de quase todos os comandantes do Exército”. Após o Golpe, Cabo Anselmo foi preso. Aí aconteceram alguns fatos estranhos, relatados por mim no artigo “Cabo Anselmo e o Golpe de 64” e que consta de meu livro GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA, á página 222. Neste texto, mostrei que ele traiu seus companheiros, o que ficava comprovada sua traição após o Golpe. No entanto, algumas declarações do Cabo Anselmo são fortes indícios que ele traiu antes de 31 de março de 1964. Na entrevista dele ao jornalista Octávio Ribeiro, já falecido, na revista Istoé (28/3/1984), sob o título “Confissão do cabo”, Anselmo declarou sobre a sua fuga da prisão: “A chave da cela ficava na minha mão. A fuga veio com o pessoal da Polop (Organização Política Operária, grupo de esquerda que reunia trotskistas e militares)”. Adiante confessou: “Disse ao guarda de plantão que ia encontrar uma mulher e saí pela porta da frente. O pessoal da Polop me levou para São Paulo e de lá, de carro, fui para o Uruguai” (pág.27). Quem conhece a repressão daquela época (prisão, tortura e, muitas vezes, morte), não pode acreditar que o cabo Anselmo tivesse tanta facilidade (chave da cela na mão dele, bem como o guarda permitiu que ele saísse pela porta da frente para se encontrar com uma mulher!). Principalmente, como disse o jornalista Janio de Freitas no citado artigo: “Não, porém, para o maior incitador da rebelião [dos marinheiros antes do Golpe de 64] e das ameaças à oficialidade (…)”. Isto NUNCA iria acontecer, a não ser que ele era um auxiliar dos golpistas!
Em suma, pode não existir uma prova contundente da traição dele antes do Golpe, mas essas declarações, repito, são fortes evidências de sua colaboração já naquele período. Portanto, Cabo Anselmo não tem direito à indenização, que é uma reparação criada para atender, como afirmou Janio de Freitas, entre outras, as suas vítimas.
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu
Agosto de 2009

"Reaparecimento do Cabo Anselmo após 45 anos", por Jasson de Oliveira Andrade

O Cabo Anselmo, 67 anos, reapareceu depois de 45 anos vivendo clandestino. O motivo desse aparecimento foi para tirar impressões digitais em São Paulo para recuperar documentos. O que foi feito em 30/7/2009. O procedimento, segundo o jornalista Lucas Ferraz, em reportagem para a Folha (31/7), é para instruir o seu pedido de anistia, visando a ser indenizado como “vítima” do golpe de 64. No artigo “O dito cabo Anselmo” (Folha, 4/8), Janio de Freitas escreveu: “Quem é esse Anselmo, que história verdadeira tem vivido há meio século e por que se decidiu a fazê-la são ainda segredos. Para os quais Anselmo pretende a reparação criada, entre outras, PARA AS SUAS VÍTIMAS” (Destaque meu). Aí é que entra a “misteriosa” vida de Cabo Anselmo, que vamos ver adiante.
Cabo Anselmo vivia escondido porque estava supostamente jurado de morte. O motivo dessa ameaça resultou de sua traição aos ex-companheiros, dedurando-os ao regime militar, precisamente ao delegado Fleury. Devido a essas delações, muita gente foi presa, torturada e, segundo ele mesmo declarou a uma revista, resultou na morte de “cem, duzentos” militantes de organizações de extrema esquerda, inclusive sua companheira, a jovem paraguaia Soledad Viedma, grávida dele. Temeroso de vingança, ele se escondeu por 45 anos, só reaparecendo agora!
Antes dessa traição, Cabo Anselmo, em 1964, era dirigente de uma entidade que reunia marinheiros. Ele comandou uma revolta considerada por vários analistas como estopim do Golpe militar daquele ano. Maria da Conceição Tavares, em “Fatos e mitos de 1964” (Folha, 28/3/2004), endossa essa opinião: “A sublevação dos marinheiros, quebrando a hierarquia militar, foi a gota d´água e o sinal para antecipar o golpe, deslocando a lealdade ao presidente [João Goulart, Jango] de quase todos os comandantes do Exército”. Após o Golpe, Cabo Anselmo foi preso. Aí aconteceram alguns fatos estranhos, relatados por mim no artigo “Cabo Anselmo e o Golpe de 64” e que consta de meu livro GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA, á página 222. Neste texto, mostrei que ele traiu seus companheiros, o que ficava comprovada sua traição após o Golpe. No entanto, algumas declarações do Cabo Anselmo são fortes indícios que ele traiu antes de 31 de março de 1964. Na entrevista dele ao jornalista Octávio Ribeiro, já falecido, na revista Istoé (28/3/1984), sob o título “Confissão do cabo”, Anselmo declarou sobre a sua fuga da prisão: “A chave da cela ficava na minha mão. A fuga veio com o pessoal da Polop (Organização Política Operária, grupo de esquerda que reunia trotskistas e militares)”. Adiante confessou: “Disse ao guarda de plantão que ia encontrar uma mulher e saí pela porta da frente. O pessoal da Polop me levou para São Paulo e de lá, de carro, fui para o Uruguai” (pág.27). Quem conhece a repressão daquela época (prisão, tortura e, muitas vezes, morte), não pode acreditar que o cabo Anselmo tivesse tanta facilidade (chave da cela na mão dele, bem como o guarda permitiu que ele saísse pela porta da frente para se encontrar com uma mulher!). Principalmente, como disse o jornalista Janio de Freitas no citado artigo: “Não, porém, para o maior incitador da rebelião [dos marinheiros antes do Golpe de 64] e das ameaças à oficialidade (…)”. Isto NUNCA iria acontecer, a não ser que ele era um auxiliar dos golpistas!
Em suma, pode não existir uma prova contundente da traição dele antes do Golpe, mas essas declarações, repito, são fortes evidências de sua colaboração já naquele período. Portanto, Cabo Anselmo não tem direito à indenização, que é uma reparação criada para atender, como afirmou Janio de Freitas, entre outras, as suas vítimas.
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu
Agosto de 2009

maio 2, 2009

Cartum: DICK CHENEY ENSINA TRUQUES AO "PUPPY" DA NETINHA

Filed under: cartuns, Comedy Central, Dick Cheney, Mike Peters, tortura — Humberto @ 1:51 am
April 28, 2009
Dick Cheney Gets Things Done
posted by: Matt Tobey
From Indecision
Mike Peters shows us a lighter side of the former vice president, pitching in
to train his granddaughter’s dog

But don’t worry, the information he acquired from the dog prevented three vet bombings.
http://ccinsider.comedycentral.com/2009/04/28/dick-cheney-gets-things-done/
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Cartum: DICK CHENEY ENSINA TRUQUES AO "PUPPY" DA NETINHA

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Cartum: DICK CHENEY ENSINA TRUQUES AO "PUPPY" DA NETINHA

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April 28, 2009
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abril 20, 2008

Convidados do "Guantanamo Spa DeLuxe" processam governo e serviços secretos britânicos em milhões de libras por péssimo serviço de quarto ( ENG )

Filed under: Afeganistão, EUA, Guantánamo Spa, Inglaterra, invasão, Iraque, MI5, MI6, Paquistão, tortura — Humberto @ 5:41 pm
From The Times
April 19, 2008
Guantanamo Britons to sue MI5 over ‘illegal interrogation’

The eight men were detained in Afghanistan and Pakistan at various times

Fiona Hamilton
Eight men freed from Guantanamo Bay are suing the British Government for millions of pounds, claiming that it was complicit in the process in which they were detained and sent for interrogation at the detention camp.
The group have issued writs against MI5 and MI6 and said that the British authorities had knowledge of their illegal abduction, treatment and interrogation.
The eight men were detained in Afghanistan and Pakistan at various times. It is understood that they claim that the British authorities were aware that they would be removed to Guantanamo but nonetheless continued to co-operate with the Americans. The Daily Mail last night reported that two separate writs had been lodged by the group, with five Britons and three foreign citizens naming “The Security Services”, “The Secret Intelligence Agency” and “The Attorney-General” as defendants.
The first writ was issued at the High Court in London by lawyers acting for Omar Deghayes, a Libyan, Jamil el-Banna, a Jordanian — both released last December — and Bisher al-Rawi, an Iraqi, released this year. All three men live in Britain but are foreign nationals.

The second names five Britons as claimants: Moazzam Begg, released in 2005, Richard Belmar, and the so-called “Tipton Three” — Ruhal Ahmed, Shafiq Rasul and Asif Iqbal. All were released in previous years.
The newspaper reported that one of the eight men claimed that the group were put on CIA “torture flights” to the prison camp in Cuba.
The Government has faced calls recently to order an independent inquiry into the process, known as “extraordinary rendition”, in which terrorism suspects are sent for interrogation in states where they have no legal protection.
Irene Membhard, a solicitor with Birnberg Pierce, confirmed that writs had been issued on behalf of the men. She told the Daily Mail: “Service is not imminent but watch this space within the next two months.”
Mr Begg, who was arrested by the CIA in Pakistan in 2002, said that the case would centre on the “general behaviour and complicity in the abuse of British citizens” by MI5 and MI6.
Mr Begg, from Birmingham, told the newspaper: “It is actual involvement in some cases, in the process of interrogation, in the process of us being handed over. It is culpability by the British authorities in being involved in most of the process, their presence on every step of the journey before we got to Guantanamo.”
The eight men were all re-arrested when they returned to Britain but freed without charge.
The three men from Tipton launched a lawsuit against the American authorities two years ago, alleging they were mistreated during their time in captivity. The US Court of Appeal dismissed their action earlier this year but they are appealing to the Supreme Court.
News of the lawsuits came as it was reported that America’s most senior general was “hoodwinked” by officials in the Bush Administration in relation to interrogation procedures at the prison.
The Guardian reported that General Richard Myers, chairman of the US Joint Chiefs of Staff from 2001 to 2005, wrongly believed that inmates at Guantanamo were protected by the Geneva conventions. It said that he was duped by senior officials in Washington who believed that the Geneva conventions and other traditional safeguards were out of date.
The disclosures were contained in a new book by Philippe Sands, QC, a professor at University College London. The book, Torture Team, also claims that the Guantanamo lawyers charged with devising interrogation techniques were inspired by the character Jack Bauer, from the television series 24.

Breaking News and Alternative Media

março 26, 2008

Celso Lungaretti confronta mais uma vez "entulho autoritário" de Elio Gaspari

COMPANHEIROS E AMIGOS:
A POLÊMICA QUE EU E OUTROS ARTICULISTAS ESTAMOS TRAVANDO COM ELIO GASPARI E A “FOLHA DE S. PAULO” TEM UM SIGNIFICADO MAIOR: EXTIRPAR DE VEZ ESSA ERVA DANINHA QUE É O USO DE INFORMAÇÕES CONTAMINADAS PELA TORTURA ( E, PORTANTO, SEM VALOR LEGAL NENHUM ) PARA ACUSAR PERSONAGENS HISTÓRICOS NA IMPRENSA E NA INTERNET.
A ÚLTIMA COLUNA DO GASPARI ESTÁ ABAIXO, PARA QUEM QUISER AVALIAR. E A MINHA RESPOSTA ( QUE LHES ESTOU REPASSANDO EM VERSÃO CONDENSADA ) EVIDENCIA QUE, MAIS DO QUE UM HISTORIADOR EM QUEM SÓ OS DESINFORMADOS CONFIAVAM, ESTÁ SENDO CONFRONTADA UMA PRÁTICA SISTEMÁTICA DE DESMORALIZAÇÃO DOS PARTICIPANTES DA RESISTÊNCIA À DITADURA MILITAR, MEDIANTE DIFAMAÇÕES E CALÚNIAS.
PEÇO A TODOS QUE REDOBREM SEUS ESFORÇOS PARA QUE AS POSIÇÕES CIVILIZADAS TAMBÉM CIRCULEM E CHEGUEM AOS LEITORES, JÁ QUE O ENTULHO AUTORITÁRIO TEM AMPLO E IRRESTRITO ACESSO À GRANDE IMPRENSA.
EM DEFESA DA DIGNIDADE, DA VERDADE E DA JUSTIÇA,
CELSO LUNGARETTI

SOBRE HISTORIADORES E ARAPONGAS
Celso Lungaretti (*)
O episódio algoz e vítima, que vem provocando uma discussão tensa desde o dia 12, trouxe à tona acontecimentos dolorosos, mas serviu também para aclarar o papel hoje desempenhado pela grande imprensa e por um de seus expoentes mais destacados.
As máscaras foram arrancadas e os leitores, perplexos, vão se dando conta de que formam opinião a partir de informações distorcidas, altamente manipuladas, enquanto os defensores da verdade não encontram tribuna, não têm verdadeiro direito de resposta nem espaço para apresentar o outro lado.
Tudo começou quando o jornalista e historiador Elio Gaspari publicou em sua coluna na Folha de S. Paulo, O Globo e outros jornais uma diatribe contra a União (“Em 2008 remunera-se o terrorista de 1968”), por ter decidido pagar ao suposto algoz Diógenes Carvalho de Oliveira uma indenização duas vezes maior do que a outorgada à sua suposta vítima Orlando Lovecchio Filho.
Como o primeiro era um militante da Resistência à ditadura e o segundo, o cidadão que perdera a perna no atentado supostamente por ele cometido, o assunto logo transbordou do circuito habitual do Gaspari para outros jornais, revistas semanais, sites de extrema-direita e correntes de e-mails neo-integralistas.
Desde então, as refutações têm sido sempre ignoradas ou relegadas à seção de cartas (cortadas até se tornarem anódinas, publicadas com imenso atraso, etc.), enquanto os espaços nobres servem para repercutir o texto de Gaspari ou trazer-lhe acréscimos, na vã tentativa de respaldar suas afirmações indefensáveis.
Tanto a Folha quanto Gaspari chegaram a reconhecer que, dos quatro militantes apontados levianamente como autores do atentado ao consulado estadunidense em 1969, Dulce Maia era inocente e havia sido por eles caluniada.
Mas, nem mesmo o depoimento do único participante ainda vivo desse atentado obteve o merecido destaque, apesar de provocar uma verdadeira reviravolta no caso: Sérgio Ferro, admitiu sua culpa e seus remorsos, mas desmentiu a participação de Diógenes de Carvalho e Dulce Maia, além de esclarecer que se tratou de uma ação da ALN e não (como Gaspari afirmara) da VPR.
Outra informação importantíssima que a grande imprensa escamoteou de seus leitores: Ferro foi acionado na Justiça por Lovecchio e obteve ganho de causa graças aos relatórios médicos que apresentou como prova. O primeiro dá conta de que o ferimento de Lovecchio era grave, mas existia possibilidade de recuperação. Depois, o socorro a Lovecchio foi interrompido pelo Deops, que quis interrogá-lo, provavelmente para saber se ele era vítima do atentado ou um participante azarado. Quando os policiais afinal o liberaram, sua perna já havia gangrenado e teve de ser amputada (2º relatório).
Ora, se o algoz não era algoz, então o texto inteiro do Gaspari perdia o gancho e desabava, bem como as matérias caudatárias publicadas pela Veja e da Época. O que fizeram os veículos, face à evidência de haverem informado mal seus leitores, além de caluniarem dois cidadãos e acusarem falsamente a VPR? Deram desmentido com o mesmo destaque? Nem remotamente.
A consciência da vulnerabilidade de sua posição aos olhos dos (poucos) cidadãos bem informados fez Gaspari voltar ao assunto na sua coluna dominical de 25/03. E o fez recorrendo às informações que, desde o início, foram a viga-mestra de suas perorações fantasiosas: os famigerados inquéritos inquéritos policiais-militares da ditadura.
Como um mero araponga, ele se pôs a revolver o lixo ensanguentado da ditadura, dando grande importância ao fato de que havia congruência entre os depoimentos extorquidos dos torturados e omitindo que os torturadores forçavam todos os presos a coonestarem a versão oficial, a síntese elaborada pelos serviços de Inteligência das Forças Armadas, para que o resultado final tivesse alguma verossimilhança.
Se fosse, como pretende, um verdadeiro historiador, saberia que os militantes eram coagidos a admitir os maiores absurdos nas instalações militares e, depois, encaminhados a delegacias civis onde deveriam repetir, sem torturas, as mesmas afirmações. Os que, pelo contrário, desmentiam tudo, eram recambiados aos quartéis e novamente submetidos a sevícias brutais, até se conformarem em obedecer ao script.
Destrambelhado, Gaspari ousou até fazer novo ataque a Dulce Maia, a quem pedira humildes desculpas no domingo anterior. Que credibilidade espera ter, agindo com tanta incoerência?
A última intervenção de Gaspari no debate foi, de longe, a mais desastrosa. Colocou-o ao lado dos torturadores, defendendo o entulho autoritário. Se a inicial arranhou sua imagem de historiador, a derradeira disse muito sobre suas verdadeiras devoções.
O que, aliás, já se suspeitava: não é qualquer cidadão que desfruta de tal confiança de personagens como Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, a ponto de ser por eles escolhido para repassar ao distinto público suas desculpas esfarrapadas pelo papel histórico que desempenharam, como protagonistas do arbítrio.
O entulho autoritário - Se esse episódio deplorável serviu de algo, foi para comprovar, definitivamente, que o entulho autoritário deve ficar no lugar a que pertence: a lata de lixo da História.
Um regime de exceção utilizou práticas hediondas para investigar a ação dos resistentes que a ele se opunham e os inquéritos assim produzidos serviram para condenar patriotas, heróis e mártires em tribunais militares, com oficiais das Forças Armadas fazendo as vezes de jurados, o que atropelava flagrantemente o direito de defesa.
O quadro era tão kafkiano que, num julgamento em que fui réu, o advogado de ofício designado para um companheiro apresentou-se completamente embriagado e começou sua peroração não falando coisa com coisa. O juiz auditor o expulsou da sala e mandou que outro advogado de ofício improvisasse a defesa, imediatamente, mal tendo tempo para ler os autos. O julgamento prosseguiu.
A Lei da Anistia de 1979 sustou os efeitos concretos desses julgamentos e as ações seguintes do Estado brasileiro, como a constituição das comissões de Anistia e de Mortos e Desaparecidos Políticos, evidenciaram que os antes tidos como criminosos passaram a ser considerados, oficialmente, vítimas.
Enfim, os IPMs foram, tão-somente, a versão que um inimigo apresentava do outro, para dar aparência de legalidade ao que não passava de arbitrariedade, sem compromisso nenhum com a verdade e a justiça.
Qual a credibilidade de um regime que fez afixarem-se em logradouros públicos do País inteiro, em meados de 1969, cartazes me acusando de “terrorista assassino” que teria “roubado e assassinado vários pais de família”, embora eu fosse um dirigente e nunca um homem de ação?
Mas, para aqueles militares, a verdade não existia em si. Só lhes interessava a verdade operacional, as versões mais adequadas a seus objetivos na guerra psicológica que travavam.
Passadas quatro décadas, essas versões unilaterais, fantasiosas e espúrias infestam a internet, chegando até a impregnar textos jornalísticos – por má fé dos seus autores ou por preguiça de profissionais que preferem colher subsídios nos sites de busca do que nos arquivos de seus próprios veículos, acabando por comer na mão dos Brilhantes Ustras da vida.
Então, é mais do que tempo da imprensa se compenetrar que, sem uma sentença lavrada por um tribunal na vigência plena do estado de direito, ninguém pode ser apontado taxativamente nos textos jornalísticos como “terrorista” ou autor de tais ou quais crimes com motivação política.
Os repórteres, comentaristas, articulistas e editorialistas que agirem de outra forma, estarão coonestando a prática de torturas e os julgamentos realizados por tribunais de exceção.
E, já que nada do que Gaspari contrapôs pode ser aceito pelos homens decentes que não aceitam mancomunar-se com práticas hediondas, subsiste o fato de que uma versão distorcida e panfletária do episódio teve enorme destaque editorial e, conseqüentemente, ampla repercussão, enquanto as informações que repuseram a verdade dos fatos ficaram, quando muito, jogadas na seção de cartas.
Que cada um tire suas conclusões acerca dessa praga que cada vez mais se alastra pela imprensa brasileira: a burla do direito de resposta e a tendenciosidade no tratamento editorial, não se expondo convenientemente o outro lado ou omitindo-o por completo.
Celso Lungaretti, 57 anos, é jornalista, escritor e ex-preso político. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

ELIO GASPARI

O terrorista de 1968 remunera-se em 2008
A família do soldado morto no atentado recebe R$ 1.140 mensais, já o rapaz da VPR fatura R$ 1.627
QUARENTA ANOS DEPOIS do atentado a bomba contra o Consulado Americano em São Paulo, Sérgio Ferro, intitulando-se “único sobrevivente” do grupo terrorista que fabricou, transportou e detonou o explosivo, informa:
1) Diógenes Oliveira e Dulce Maia não participaram dessa ação.
2) A ação foi iniciativa da ALN (Ação Libertadora Nacional), e não da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária).Quem disse que Diógenes, o “Luís”, e Dulce de Souza, a “Judith”, participaram do atentado, organizado pela VPR, foi o doutor Sérgio Ferro em seu depoimento à polícia em 29 de março de 1971. Na ocasião, Ferro estava preso e a tortura era uma política de Estado para obtenção de confissões, verdadeiras ou falsas. Passados 37 anos, Ferro julgou oportuno corrigir seu testemunho. Em 1969, na prisão, Pedro Lobo de Oliveira e Diógenes, ambos da VPR, revelaram suas participações no atentado. Diógenes admitiu ter fabricado a bomba, com “um ou dois quilos de dinamite”.
Quando Ferro incriminou Dulce de Souza Maia, sabia que ela estava a salvo, no exílio. Além disso, uma bomba a mais, uma bomba a menos, não faria muita diferença na carga que a polícia imputava à dupla mencionada por Ferro.
Diógenes e Dulce foram associados a dois retumbantes atentados terroristas. No dia 26 de junho de 1968, a VPR lançou um caminhão-bomba com 15 quilos de dinamite contra o Quartel General do 2º Exército, em São Paulo. Na explosão, morreu o soldado Mário Kozel Filho, de 18 anos. Dulce Maia contou sua participação nesse episódio numa entrevista a Luiz Maklouf Carvalho. Ela foi publicada no livro “Mulheres que foram à luta armada”, em 1998. Diógenes nunca falou publicamente sobre o caso. Os documentos conhecidos, que devem ser vistos com reservas, são o depoimento dele e de camaradas seus, todos presos. Diógenes admitiu ter fabricado a bomba. Onofre Pinto, que participou do atentado, disse que Diógenes acendeu o estopim.
Diógenes e Dulce também foram acusados de terem participado do planejamento e do assassinato do capitão americano Charles Chandler, em outubro de 1968. Na mesma entrevista a Maklouf, Dulce narrou sua colaboração no levantamento dos hábitos do capitão. Diógenes nunca discutiu esse atentado em público. Contudo, Pedro Lobo de Oliveira, seu colega de VPR, contou aos organizadores do livro “Esquerda Armada no Brasil”, premiado em Cuba em 1973, que eram três as pessoas que estavam no carro do qual partiram os assassinos do capitão: ele, que ficou ao volante, e mais dois, um com um revólver e outro com uma metralhadora. Pedro Lobo não os nomeou. Informou que a dupla só foi identificada quando um militante da VPR que “sabia quais os companheiros que haviam participado” contou o caso à polícia, na prisão. Esse “delator”, Hermes Camargo, tornou-se um colaborador do regime. Anos mais tarde ele repetiu o dois nomes numa entrevista a “O Estado de S. Paulo”: os atiradores foram Diógenes Oliveira, o “Luís”, e Marco Antonio Brás de Carvalho, o “Marquito”, morto meses depois do atentado.Assim como deve-se dosar o crédito às confissões de Sérgio Ferro e deve-se duvidar dos depoimentos de pessoas presas, é necessário registrar que a narrativa de Diógenes, preso, é semelhante à de Pedro Lobo, solto. Diógenes reconheceu ter sido um dos autores dos disparos.Orlando Lovecchio, que teve a perna esquerda amputada abaixo do joelho por conta da explosão da bomba que Sérgio Ferro e seus camaradas puseram no Consulado Americano, recebe R$ 570 mensais da Viúva. Os pais do soldado Mário Kozel conquistaram em 2003 uma pensão de R$ 330, reajustada no ano seguinte para R$ 1.140 mensais. Desde o dia 24 de janeiro, Diógenes ficou em melhor situação. Ele ganhou uma Bolsa Ditadura de R$ 1.627 mensais (as vítimas, juntas, recebem R$ 1.710), com direito a R$ 400 mil de atrasados. Repetindo: há algo de errado na aritmética das indenizações e numa álgebra que acaba remunerando melhor o terrorista que participou de um atentado do que a família da sentinela assassinada ou o transeunte amputado.

março 14, 2008

Anistia divulga investigação sobre os luxuosos SPAs que os EUA mantém ao redor do mundo…

Terror e tortura
Anistia aponta bases secretas usadas pelos EUA
Claudio Julio Tognolli
A Anistia Internacional, entidade de direitos humanos do mundo, divulga nesta sexta-feira (14/3) sua maior investigação sobre o programa de detenções secretas de suspeitos de terrorismo. As prisões são feitas pela CIA, a central de inteligência dos Estados Unidos. O programa foi retomado, em junho de 2007, pelo presidente George W. Bush (
Clique aqui para ler a íntegra do relatório em inglês).
Os detalhes das operações da CIA foram dados com exclusividade para a Anistia pelo detento Khaled Abdu Ahmed Saleh al-Maqtari, natural do Iêmen. Ele tem 31 anos de idade. Inicialmente tido como um preso “fantasma” (sem registro) na cadeia de Abu Ghraib, no Iraque, ele foi transferido, sob custódia da CIA, para o Afeganistão. Desde então, peregrinou por várias cadeias desconhecidas, em todo o mundo, por dois anos e meio. Tudo isso sem ter os registros de suas passagens pelos locais e sem que seu paradeiro fosse conhecido. Khaled Abdu sustenta que foi submetido a sessões de tortura.
Ele foi detido em Fallujah, no Iraque, em janeiro de 2004, por soldados americanos juntamente com outros 60 suspeitos de terrorismo, segundo o relatório. Khaled Abdu afirma que foi espancado, impedido de dormir, suspenso por cordas para que seu sono fosse impossibilitado, intimidado por cães e induzido à hipotermia. “Numa ocasião, após ter sido espancado num pequeno quarto, fui forçado ficar nu defronte a um ar condicionado potente, sendo obrigado a segurar com uma das mãos um recipiente cheio de água. Também fui dependurado de ponta-cabeça, com as mãos algemadas para trás, e mergulhado num poço de água, nesta condição”.
Após sair do Iraque, ele sustenta ter sido mantido por três meses numa central de tortura da CIA, no Afeganistão. “Lá havia luzes e efeitos sonoros, diuturnamente, empregados como forma de tortura”, diz. Juntamente com ele, segundo os dados, foram torturados Majid Khan, tido como o principal preso mantido pelos EUA na Base Naval de Guantánamo, em Cuba.
“Também fiquei preso numa central secreta da CIA na Europa Oriental, por 28 meses, antes que voltasse ao Iêmen em maio de 2007”, afirma ele.
Reação
O relatório da Anistia Internacional vem à tona exatamente uma semana depois de o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, ter vetado legislação aprovada pelo Congresso que proibiria a CIA de simular afogamento e outras técnicas controversas de interrogatório. Os legisladores americanos inseriram a medida contra a tortura em uma lei mais ampla sobre o que seria permitido nas atividades da inteligência americana.
“Como o perigo continua, nós temos que assegurar aos nossos funcionários da inteligência todas as ferramentas que eles precisem para conter os terroristas”, disse Bush em uma rádio. Segundo ele, a legislação “iria reduzir essas ferramentas vitais”. A Câmara dos Deputados aprovou a legislação contra a tortura em dezembro. O Senado confirmou a lei, em fevereiro, apesar dos avisos da Casa Branca de que ela seria vetada.
O diretor da CIA, Michael Hayden, disse no mês passado ao Congresso que interrogadores do governo simularam afogamento em três suspeitos capturados depois dos ataques de 11 de setembro. O presidente do Comitê de Inteligência no Congresso, Silvestre Reyes, tentou enquadrar a votação como um referendo dos direitos humanos. “Trata-se de tortura”, disse.
Os legisladores queriam que a CIA a utilizasse apenas os 19 métodos de interrogatório aprovados no manual do Exército. O guia proíbe a utilização de simulação de afogamento. Mas o governo vetou esse desejo.
O começo
Todas essas ações de Bush se baseiam no chamado Patriotic Act, um pacote legislativo gerado pelo temor aos terroristas, 45 dias após o 11 de setembro sem nenhuma consulta à população. O significado da expressão Patriotic — Provide Appropriate Tools Required to Intercept and Obstruct Terrorism — explica a intenção do governo Bush: gerar ferramentas necessárias para interceptar e obstruir atos de terrorismo.
Para manter essas centrais de inteligência, inclusive as prisões secretas mundo afora, o governo dos EUA gastou US$ 43,5 bilhões no ano de 2007. O dado consta de documento tornado público, na noite de terça-feira (30/10), pelo diretor nacional de inteligência do país, Mike McConnell.
O orçamento da espionagem americana é mais de duas mil vezes maior do que o orçamento da Abin, a Agência Brasileira de Inteligência. Seu orçamento, em 2007, ficou na casa dos R$ 40 milhões.
Revista
Consultor Jurídico
14 de março de 2008

março 1, 2008

UMA RUA CHAMADA TORTURADOR

Celso Lungaretti (*)

Personagens repulsivos, patéticos ou meramente insignificantes dão nome a uma infinidade de rodovias, ruas, avenidas e praças brasileiras. Antigamente, ao ver na placa uma homenagem descabida, eu até me indignava. Com o tempo, passei a encarar o fenômeno de forma mais condescendente, como parte da geléia geral brasileira, tão bem retratada pelos compositores do tropicalismo.
Mário Hato, que foi meu professor de Química no colegial e depois fez carreira política, explicou-me que há um acordo de cavalheiros no Legislativo: vereadores e deputados não vetam as propostas louvaminhas dos seus colegas, salvo em casos extremos – como o ocorrido quando o hoje deputado estadual Carlos Giannazi tentou fazer com que escolas da rede pública reverenciassem a memória dos revolucionários Carlos Marighella e Carlos Lamarca. A bancada de extrema-direita reagiu de forma exacerbada.
Para melhor acomodar vaidades póstumas, chega-se a atribuir vários nomes à mesma rua: para cada trecho, um homenageado. Se fosse descendente de algum desses pseudo-figurões, eu me sentiria ofendido: por que uns são lembrados ao longo de uma estrada inteira e outros têm de se contentar com míseras centenas de metros de uma via secundária?
Meu companheiro de lutas Eremias Delizoicov, que era menor de idade quando tomou a decisão de confrontar uma ditadura bestial e acabou sendo assassinado aos 18 anos, com 35 balaços cravados no corpo, virou nome de uma rua que ninguém conhece, onde ninguém sabe ir e que ninguém jamais viu.
É muito pouco para quem perdeu tanto. Tenho me empenhado em conseguir que, pelo menos, uma escola paulistana receba o nome do Eremias, mantendo viva a lembrança do seu sacrifício – até porque é como estudante que nós, os amigos de infância, nos recordamos dele. Está difícil.
Já a Câmara Municipal de Ribeirão Preto acaba de decidir que uma via pública desse simpático município paulista receberá o nome de Juarez Guimarães de Brito, com a seguinte inscrição na placa indicativa da rua: “patriota brasileiro assassinado pela Ditadura Militar”.
Fico pensando em como o bom Juvenal (o nome-de-guerra pelo qual o conhecíamos) receberia a qualificação de “patriota”. Era um internacionalista, adepto fervoroso da liberdade e justiça social para todos os povos e nações.
Enfim, vale a intenção e é merecidíssima a homenagem a quem deixou uma cátedra universitária para ser professor de humanidade na guerrilha. Sua obsessão em planejar exaustivamente as ações armadas, de forma a reduzir a um mínimo a possibilidade de derramamento de sangue, chegava a ser comovente.
Preferiu, até o fim, correr riscos do que causá-los a outros. Era quem mais se aproximava do homem novo que tínhamos como meta: o indivíduo livre da ganância e do egoísmo, totalmente voltado para o bem comum, que construiria a si próprio à medida que fosse construindo a sociedade nova.
Lesa-humanidade – No outro extremo, a cidade paulista de São Carlos houve por mal ter uma rua com o nome de Sérgio Paranhos Fleury, o que levou os grupos Tortura Nunca Mais de SP e RJ a protestarem energicamente:

Este delegado de Polícia, integrante do Esquadrão da Morte, em São Paulo nos anos de 1960, tornou-se um dos principais agentes do terrorismo de Estado que se instaurou em nosso país oficialmente após o AI-5. (…) Entendemos que tal “homenagem” produz uma memória que enaltece os crimes de lesa-humanidade cometidos por estes agentes.

Trocando em miúdos: atuando no radiopatrulhamento de São Paulo, Fleury organizou um grupo de extermínio semiclandestino chamado Esquadrão da Morte, que, aparentemente, queria livrar a sociedade de suas ervas daninhas.
Requisitado pelo Departamento Estadual de Ordem Política e Social, alcançou repercussão nacional ao comandar a operação que resultou na morte do guerrilheiro Carlos Marighella. Graças à censura, a opinião pública não foi informada das torturas brutais mediante as quais chegou ao seu alvo, nem que organizou a emboscada de forma tão canhestra que o fogo cruzado acabou matando também uma policial e o motorista de um veículo que trafegava na região.
Responsável por um festival de horrores, incluindo a execução de prisioneiros como Devanir José de Carvalho, Fleury ainda cedia seu sítio como aparelho clandestino para os serviços sujos da repressão. Por lá passou Eduardo Leite, o Bacuri, no longo calvário que antecedeu seu assassinato.
Apesar das evidências gritantes da responsabilidade de Fleury nos crimes do Esquadrão da Morte, a ditadura militar não deixava que o bravo promotor Hélio Bicudo o colocasse na cadeia. Chegou até a criar uma lei com o único objetivo de impedir que, pronunciado, Fleury tivesse de aguardar preso o julgamento.
O guarda-chuva protetor só foi retirado quando Bicudo conseguiu provar que Fleury não eliminava marginais em benefício da sociedade, mas sim para fazer jus às recompensas de um grande traficante, empenhado em livrar-se da concorrência. Moralistas, os generais admitiam acobertar um justiceiro, mas não um capanga da contravenção.
Para piorar, com o fim da luta armada haviam terminado também as recompensas que os empresários direitistas ofereciam pela prisão ou morte dos revolucionários; e os rapinantes da repressão já não podiam mais apropriar-se dos bens de suas vítimas, outra das fontes de renda que lhes permitira viver muito acima de suas posses.
Fleury, dono de uma lancha, teria morrido ao cair na água. Falou-se muito em queima de arquivo: sem conseguir mais sustentar o vício que teria ( cocaína ), ele estaria exigindo dinheiro de seus antigos financiadores para não trombetear o que sabia. Como entre eles havia até sádicos que atuaram como torturadores voluntários de presos políticos, dá para imaginar o efeito devastador de uma chantagem dessas… e as prováveis conseqüências.
Nem mesmo os neo-integralistas gostam de mirar-se num exemplo desses, preferindo esquecer que Fleury existiu. Os vereadores de São Carlos provavelmente não sabiam de quem se tratava.
Independentemente do desfecho deste episódio, será sempre uma gota d’água no oceano. Uma busca no Google revela a existência, p. ex., de várias ruas com o nome de Filinto Muller, o torturador-símbolo da ditadura getulista, que chegava a ser comparado aos carrascos da Gestapo.
Para não falar das avenidas Presidente Médici que há no País inteiro, homenageando quem nunca foi presidente eleito pelo povo, mas sim ditador empossado pelas baionetas, sendo responsável pelo período mais tenebroso da História brasileira.

Celso Lungaretti, 57 anos, é jornalista, escritor e ex-preso político. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

fevereiro 28, 2008

Chico Pinto, cassado por criticar Pinochet

Jasson de Oliveira Andrade
Fotos: Reprodução

No dia 19/2/2008, morreu, aos 77 anos, vitimado por um câncer, o ex-deputado Chico Pinto. Tornou-se famoso na década de 70, quando pronunciou um discurso contra a visita do ditador chileno ao Brasil, na posse de Geisel. Por este discurso, ele foi cassado e preso. Teve ainda destacada atuação no MDB autêntico. Apesar dessa famosa carreira, a morte dele não foi noticiada na imprensa. Apenas a Folha, na seção MORTES, publicou, no dia 23 de fevereiro, uma pequena nota de Willian Vieira, sob o título “Chico Pinto, autêntico mesmo no MDB”.

Em 3/1/2008, Chico Pinto foi entrevistado pelo jornalista Cláudio Leal para o Terra Magazine. O que se vai ler a seguir são alguns trechos dessa longa e definitiva entrevista. São dados importantíssimos e que precisam ser conhecidos. Não se deve esquecer um parlamentar que honrou a política brasileira.

Em 1964, [ depois do Golpe militar ] fora deposto da prefeitura de Feira de Santana, na Bahia. [ Chico Pinto ] Fez, sozinho, sua defesa no tribunal militar. Absolvido, partiu para novo encontro com as urnas, elegendo-se deputado federal. Ele declarou ao jornalista: “No meu primeiro discurso na Câmara terminei falando: “Brasil acima de tudo!”. Era um recado pra eles. Médici quis me cassar por esse discurso. Proibiram a publicação no Diário Oficial, enquanto eles decidiam. A notícia é que eu seria cassado. Os jornalistas: “ó, você vai ser cassado…” (…) E eles começaram a dizer que era um discurso agressivo, comunista, contra as Forças Armadas. Não pegou porque espalhei o discurso entre os militares conhecidos, muitos deles reimprimiram com os colegas. Criou um clima de resistência. (…) Como é que vão cassar este homem que está defendendo os militares? E como é que eu defendia? Peguei a origem das Forças Armadas brasileiras, toda luta travada contra a escravidão, a resistência de muitos militares daquela época em cumprir a ordem de perseguição aos escravos… A revolução de 22, 24, 25 … Se não cassaram nesta oportunidade, cassaram-no 10 anos depois.

Prossegue Cláudio Leal. Em 14 de março de 1974, [ Chico ] Pinto discursou contra a presença de Pinochet no Brasil. O general viera [ juntamente com outros ditadores ] prestigiar a posse de Geisel e sugeriu a formação de um eixo Brasil-Bolívia-Chile-Uruguai. Soou o alarme. O deputado do MDB redigiu o discurso com cuidado. Mediu as palavras. Preservou a artilharia verbal. “O que nos vem do Chile de Pinochet é o fechamento de jornais, é a censura desvairada à imprensa remanescente. O que nos vem do Chile é a opressão mais cruel, de que nos dá idéia a reportagem e as fotos publicadas pela revista Visão [ extinta ], do campo de concentração da Ilha Dawson. O que nos vem do Chile é o clamor dos presos (…) Três mil mortos, segundo Pinochet declarou a Dorrit Harazim, da revista Veja. (…) Mas o que nós desejamos, Sr. Presidente, é apenas deixar registrado nos Anais, o nosso protesto e a nossa repulsa pela presença indesejável dos vários Pinochets que o Brasil infelizmente está hospedando. Se aqui houvesse liberdade, o povo se manifestaria seu descontentamento e a sua ira santa, nas ruas, contra o opressor do povo chileno. Para que não lhe pareça, contudo, que no Brasil estão todos silenciosos e felizes com a sua presença, falo pelos que não podem falar, clamo e protesto por muitos que gostariam de reclamar e gritar nas ruas contra sua presença em nosso País”.Em vista desse discurso, aconteceu o fato que o jornalista relata. A pedido do presidente Geisel, o ministro da Justiça Armando Falcão representou contra Chico Pinto, com base num artigo da Lei de Segurança Nacional que vedava ofensas a chefes de nações estrangeiras. Mandato cassado, preso no 1º Batalhão da Polícia Militar de Brasília, Chico Pinto foi libertado em abril de 1975. Dois anos depois, o deputado seria absolvido pelo Supremo Tribunal Federal. Em 17/12/1974, em carta a Geisel recusou indulto de Natal: “Rogo a Vossa Excelência que me livre de mais este constrangimento – o de um perdão que não solicitei”. Willian Vieira revela que ele voltou à Câmara em 1978, afirmando ainda: “Junto com nomes como Jarbas Vasconcelos e Tancredo Neves, foi fundamental no diálogo com os militares para a futura distensão política. Saiu da Câmara em 1990, desiludido”.

O tempo se encarregou de dar razão às palavras de Chico Pinto contra Pinochet. Finda a Ditadura chilena, ele foi preso ( prisão domiciliar por estar doente ) por causa da repressão e acusado de corrupção!

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu

Fevereiro de 2008

Postado por Redação Portal Mogi Guaçu

fevereiro 6, 2008

CIA: Afogamento ou lavagem cerebral?

Filed under: 11 de Setembro, Al-Qaida, CIA, EUA, Guantánamo Spa, tortura — Humberto @ 2:43 pm
CIA admite uso de técnica de afogamento em interrogatórios
BBC Brasil
O diretor da CIA, Michael Hayden, admitiu nesta terça-feira que a agência de inteligência americana utilizou a técnica de interrogatório conhecida como waterboarding, que simula a sensação de afogamento, em três suspeitos da Al-Qaeda.
Em pronunciamento durante uma audiência no Senado americano, Hayden disse que a prática foi adotada há cinco anos e, depois, não foi mais usada.
Na polêmica técnica, o prisioneiro é deitado e um pano é colocado em sua boca ou um pedaço de plástico colocado sobre seu rosto. Os interrogadores jogam então água sobre o rosto do prisioneiro.
Segundo James Coomarasamy, correspondente da BBC em Washington, esta é a primeira vez que uma autoridade do alto escalão do governo americano revela quando e em quem a técnica foi utilizada.
Guantánamo
Em seu depoimento para o Senado, Hayden afirmou que, no final de 2001 e em 2002, três suspeitos da Al-Qaeda, que estão atualmente presos em Guantánamo, passaram pela técnica que simula a sensação de afogamento.
Entre os três estava Khaled Sheikh Mohammed, que teria planejado os ataques de 11 de setembro de 2001.
Hayden afirmou que a técnica, que foi proibida entre os militares, mas não para a CIA, não foi usada nos últimos cinco anos e apenas foi usada naquela ocasião porque as autoridades temiam um outro ataque contra os Estados Unidos.
Em dezembro de 2007, a CIA admitiu que tinha destruído vídeos que mostravam os interrogatórios de dois dos três homens que foram citados por Hayden em seu depoimento desta terça-feira.
De acordo com Coomarasamy, a pressão para que o governo de George W. Bush declare que a técnica de interrogatório é contra a lei está aumentando.
Críticos e organizações de defesa dos direitos humanos afirmam que a simulação da sensação de afogamento é tortura.
Mas o novo secretário da Justiça dos Estados Unidos, Michael Mukasey, já se recusou diversas vezes a revelar sua opinião sobre a legalidade da técnica.

janeiro 5, 2008

Não é o Pará: PMs e escrivão acusados de torturar menores em SÃO PAULO, em favor de amizade com fazendeiro. ( …?!?! )

Filed under: ECA, Estado de São Paulo, Polícia Militar, tortura — Humberto @ 2:29 pm
Caso de Polícia
Advogado acusa PMs e escrivão de torturar menores
por Claudio Julio Tognolli
O advogado criminalista paulistano Cezar Rodrigues entrou com representação contra um escrivão do 73º DP e policiais militares. Ele alega que dois menores de idade foram torturados. A representação foi ajuizada na Corregedoria da Polícia Civil do Estado de São Paulo, com cópias para a Corregedoria da Polícia Militar e para o juiz-corregedor do Dipo.
Ele quer a instauração de procedimento administrativo contra os acusados. Segundo o advogado, a empresa Alba Comercial, por meio da advogada Aurora dos Santos, comprou três máquinas industriais processadoras de café no valor de US$ 150 mil cada, de um fazendeiro. O advogado diz que o fazendeiro se arrependeu do negócio e doou as máquinas para o filho. Segundo registro na Corregedoria de Polícia, ele usou a amizade com policiais civis e militares para “melar” o negócio.
De acordo com o advogado, o fazendeiro disse ter “fortes ligações com o comandante da Polícia Militar da área do DP” e também “do escrivão chefe do 73º DP”. E mais: “Ao efetuarem a remoção das máquinas, o fazendeiro, seus amigos policiais e o escrivão-chefe estancaram a operação. Mas já no DP uma das autoridades presentes entendeu que aquilo não era problema policial e sim, civil. E liberou todos, de pronto”, conforme o pedido de procedimento administrativo.
Ainda segundo o documento, as máquinas foram removidas do Distrito por dois menores de idade, acompanhados por um ajudante. Os menores, sem habilitação, foram rastreados e perseguidos por um carro da PM, que obedeceu a ordens oriundas da Delegacia, mesmo com a autoridade de plantão tendo dado o caso como encerrado, relata o advogado na representação.
De acordo com o documento, depois de parados, “os menores foram retirados do caminhão que transportava as máquinas e espancados brutalmente pelos milicianos”. Em seguida, ainda segundo o documento, foram reconduzidos ao Distrito, onde o chefe dos escrivães optou por desautorizar a ordem do delegado e resolveu reter as máquinas e deter os menores.
“Os menores espancados aguardaram no camburão da PM, incomunicáveis por horas, e não constaram do boletim de ocorrência elaborado. O ajudante Danilo, também espancado, manteve-se praticamente, com os menores, em cárcere privado”, relata o documento. O criminalista Cezar Rodrigues diz que a chefia dos escrivães, no dia seguinte, teria assinado o confisco das máquinas e as prisões “falsificando a assinatura da autoridade policial”.
Revista
Consultor Jurídico
4 de janeiro de 2008

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