Não me entendam mal, por favor, mas espero que não passe de uma idéia temporária, no calor da comoção.
Vi no SPTV que a Prefeitura de São Paulo cogitaria construir um memorial para as vítimas do vôo da TAM, no local onde ocorreu a tragédia.
Nada contra, eu não sei o que é necessário para que uma data ou evento seja digna de merecer um memorial ou uma celebração póstuma no calendário.
Vejam o que diz Eric Nepomuceno, autor de um livro sobre a chacina do Eldorado dos Carajás, em entrevista publicada na Carta Capital desta semana ( edição 454 ) :
“É curioso comparar a repercussão do massacre nos meios de comunicação no Brasil e no resto do mundo. O 17 de abril virou o Dia Mundial da Luta pela Terra [ Grifo do Blog ]. Duvido que muitos no Brasil saibam disso. Tornou-se por causa do massacre de Eldorado de Carajás [ Grifo do Blog ] . Qualquer pesquisa superficial na Internet enumera a quantidade de organizações que debatem o massacre mundo afora, enquanto o Brasil parece ter se acostumado com essas coisas ( … ) “.
Se não estou equivocado, o Dia do Trabalho tem origem numa ocorrência dramática. Bom, não importa.
O caso é que, se um acidente gravíssimo num meio de transporte é relevante historicamente a ponto de merecer um memorial, o que dizer de tragédias humanas, que mostram como tratamos os cidadãos de segunda classe e, no final das contas, as questões sociais ( mais próximas do evento que deu a origem ao Dia do Trabalho, comemorado mundialmente ) no país ?
Falando só de São Paulo, Capital, temos a famosa e esquecida Chacina da Tabatingüera e os policiais que foram caçados pelo crime organizado, naqueles ataques do PCC, prá ficar em dois casos “famosos”. Não estou nem considerando algum desastre ecológico que tenha vitimado uma coletividade, ou tantos outros assassinatos, agressões e execuções de sem-terra, homossexuais, menores ou moradores de rua, padres, fiscais da Receita ou do INSS ( que representam e simbolizam a presença do Estado ), advogados, promotores, juízes.
A lista seria enorme e igualmente merecedora de atenção quanto aos papéis representados pelos protagonistas e sua relevância, se inserida num contexto mais amplo, social.
Em resumo, tratá-los ou não como dignos de lembrança, mostraria o que pensamos a respeito da expressividade de certas coisas.
Não posso deixar passar a oportunidade de sugerir uma obviedade: a criação de um memorial para as vítima do craterão tucano da Linha 4 do Metrô, assunto sumido do noticiário de imprensalão.