Instalou-se aparentemente um princípio de pânico nos mercados internacionais nos últimos dias. Fala-se em risco de “tsunami financeiro” e no começo de um movimento massivo de liquidação de ativos ( ações, bônus, commodities, imóveis e moedas mais frágeis ). O pano de fundo desse movimento é a deterioração do quadro econômico-financeiro, principalmente nos países desenvolvidos, mas também em alguns mercados emergentes importantes.
A União Européia e o Japão registraram queda do nível de atividade no segundo trimestre, e as expectativas para o segundo semestre de 2008 e para 2009 são, na melhor das hipóteses, de crescimento econômico modesto.
Os Estados Unidos tiveram um segundo trimestre melhor do que o esperado, mas as expectativas para o futuro imediato são de desaceleração acentuada. Em agosto, a taxa de desemprego nos EUA alcançou 6,1% – o maior nível em quase cinco anos; nada menos que 605 mil empregos foram perdidos em 2008.
Outro foco de preocupação é o sistema financeiro. Dos dois lados do Atlântico Norte, a situação de alguns bancos e de outros intermediários financeiros é muito delicada, para dizer o mínimo.
Anteontem, Janet Yellen, presidente da Reserva Federal de São Francisco, declarou que a contração do crédito estava se aprofundando e o sistema financeiro continuava “muito frágil”. O mercado imobiliário ainda não chegou ao fundo do poço. Nos EUA, a execução de hipotecas e a inadimplência bateram recordes no segundo trimestre. E os preços dos imóveis continuam caindo de modo significativo.
O grande risco é que se instale um círculo vicioso com a fragilidade financeira provocando contração da economia real e esta, por sua vez, agravando a fragilidade financeira.
Os bancos centrais dos países desenvolvidos têm procurado evitar esse risco. Mas estão agora entre dois fogos. Por um lado, gostariam de subir as taxas de juro para combater a inflação, que aumentou bastante em 2008. Por outro, precisam manter juros baixos para tentar evitar a crise financeira e o risco de recessão. O dilema parece ser especialmente agudo nos países que adotam o regime de metas para a inflação.
E os emergentes? Até agora, os países de renda média, como o Brasil, têm resistido bem à crise.
Brasil, China, Índia e Rússia – os chamados BRICs – continuam a contribuir com cerca de 40% do crescimento do PIB mundial. Até recentemente, pelo menos, as estimativas indicavam uma desaceleração muito pequena do ritmo de crescimento dos BRICs e dos países em desenvolvimento como um todo.
Nos meses recentes, contudo, começaram a aparecer fissuras importantes. Os países mais vulneráveis são aqueles que registram déficits elevados no balanço de pagamentos em conta corrente, grande dependência de capitais voláteis ou de curto prazo e reservas internacionais relativamente baixas. Os países da Europa emergente, por exemplo, são apontados como especialmente frágeis. Mas há problemas nos outros continentes também – em países da América Latina, da África e da Ásia. Até a Coréia do Sul, com cerca de US$ 240 bilhões de reservas, andou dando sinais de fraqueza na semana passada.
Nesse ambiente conturbado, todo cuidado é pouco. O Brasil precisa continuar praticando uma política econômica prudente.
Isso significa, entre outras coisas, manter uma política fiscal austera, evitar desequilíbrios elevados no balanço de pagamentos em conta corrente e, quando possível, acumular reservas adicionais em moedas de liquidez internacional.
Só assim preservaremos o crescimento econômico e a autonomia nacional.
PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. é economista e diretor-executivo pelo Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional
A União Européia e o Japão registraram queda do nível de atividade no segundo trimestre, e as expectativas para o segundo semestre de 2008 e para 2009 são, na melhor das hipóteses, de crescimento econômico modesto.
Os Estados Unidos tiveram um segundo trimestre melhor do que o esperado, mas as expectativas para o futuro imediato são de desaceleração acentuada. Em agosto, a taxa de desemprego nos EUA alcançou 6,1% – o maior nível em quase cinco anos; nada menos que 605 mil empregos foram perdidos em 2008.
Outro foco de preocupação é o sistema financeiro. Dos dois lados do Atlântico Norte, a situação de alguns bancos e de outros intermediários financeiros é muito delicada, para dizer o mínimo.
Anteontem, Janet Yellen, presidente da Reserva Federal de São Francisco, declarou que a contração do crédito estava se aprofundando e o sistema financeiro continuava “muito frágil”. O mercado imobiliário ainda não chegou ao fundo do poço. Nos EUA, a execução de hipotecas e a inadimplência bateram recordes no segundo trimestre. E os preços dos imóveis continuam caindo de modo significativo.
O grande risco é que se instale um círculo vicioso com a fragilidade financeira provocando contração da economia real e esta, por sua vez, agravando a fragilidade financeira.
Os bancos centrais dos países desenvolvidos têm procurado evitar esse risco. Mas estão agora entre dois fogos. Por um lado, gostariam de subir as taxas de juro para combater a inflação, que aumentou bastante em 2008. Por outro, precisam manter juros baixos para tentar evitar a crise financeira e o risco de recessão. O dilema parece ser especialmente agudo nos países que adotam o regime de metas para a inflação.
E os emergentes? Até agora, os países de renda média, como o Brasil, têm resistido bem à crise.
Brasil, China, Índia e Rússia – os chamados BRICs – continuam a contribuir com cerca de 40% do crescimento do PIB mundial. Até recentemente, pelo menos, as estimativas indicavam uma desaceleração muito pequena do ritmo de crescimento dos BRICs e dos países em desenvolvimento como um todo.
Nos meses recentes, contudo, começaram a aparecer fissuras importantes. Os países mais vulneráveis são aqueles que registram déficits elevados no balanço de pagamentos em conta corrente, grande dependência de capitais voláteis ou de curto prazo e reservas internacionais relativamente baixas. Os países da Europa emergente, por exemplo, são apontados como especialmente frágeis. Mas há problemas nos outros continentes também – em países da América Latina, da África e da Ásia. Até a Coréia do Sul, com cerca de US$ 240 bilhões de reservas, andou dando sinais de fraqueza na semana passada.
Nesse ambiente conturbado, todo cuidado é pouco. O Brasil precisa continuar praticando uma política econômica prudente.
Isso significa, entre outras coisas, manter uma política fiscal austera, evitar desequilíbrios elevados no balanço de pagamentos em conta corrente e, quando possível, acumular reservas adicionais em moedas de liquidez internacional.
Só assim preservaremos o crescimento econômico e a autonomia nacional.
PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. é economista e diretor-executivo pelo Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional
06.09.08

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