ENCALHE

fevereiro 2, 2008

A CRIMINALIDADE É INTRÍNSECA AO CAPITALISMO

Celso Lungaretti (*)

O problema da escalada da criminalidade no Brasil vai muito além da ótica simplista e repressiva da nossa mídia. Tem a ver com o estilhaçamento da família e da sociedade sob o capitalismo globalizado.

No chamado capitalismo industrial, ambas ainda se mantinham razoavelmente estruturadas, apesar de todos os defeitos que tão bem conhecemos: desigualdades econômicas e sociais, elitismo, autoritarismo, etc.
No final da década de 1960, entretanto, esse modelo chegou ao esgotamento. O próprio capitalismo demandava uma desestruturação da antiga sociedade, para erguer uma nova sobre seus escombros. Os jovens, entretanto, tentaram ir mais longe: em vez da substituição de uma forma de dominação por outra, sonharam com o fim de todas as dominações. Com o fracasso das tentativas revolucionárias do período, implantou-se, em meio à paz dos cemitérios, a sociedade de massas, em que tudo e todos devem estar permanentemente disponíveis para o consumo.
A comunicação de massas deixou de lado a missão de formar (expoentes da elite) para o exercício do pensamento crítico, restringindo-se a apenas informar fragmentariamente e a repisar os valores capitalistas.
O trabalho perdeu qualquer atrativo que ainda tivesse como concretização do potencial criativo do ser humano. Tornou-se uma corrida de ratos atrás do dinheiro, sem ética nem o mínimo respeito pelo interesse público.
O ingresso em massa da mulher no mercado de trabalho aviltou remunerações e colocou toda a família a serviço do sistema, transformando o lar em mero dormitório.
A família foi desvalorizada pela influência atordoante da comunicação de massas. Pais e mães cansados não conseguem competir em sapiência com a telinha que hipnotiza as crianças, impingindo os valores consumistas.
Então, nada existe de estranho no fato de que as pessoas sem aptidões para competir dentro do sistema busquem atalhos para conseguir aqueles bens dia e noite propagandeados como objetos de desejo. Perplexos, muitos cidadãos gostariam de ver aplicadas aqui as punições drásticas dos países muçulmanos: que se cortassem as mãos dos ladrões, o pênis dos estupradores e a vida dos assassinos. Olho por olho, dente por dente.
Outros pedem mais policiais nas ruas, de preferência atirando primeiro e perguntando depois… nos bairros pobres ou quando os suspeitos são negros, pardos ou malvestidos, é claro.
E há os que defendem a maioridade penal a partir dos 14 ou 16 anos, o que somente fará os bandidos diminuírem proporcionalmente a idade do recrutamento de seus serviçais, até que tenhamos crianças empunhando fuzis e metralhadoras. O velho chavão moralista mudará de “hoje mocinho, amanhã bandido” para “hoje bandido, amanhã defunto”.
No fundo, tudo isso são paliativos. Inexiste forma ideal de se lidar com aqueles que já se tornaram bestas-feras, nocivos para si próprios e para a sociedade. Pode-se, quanto muito, controlá-los – e a um custo dos mais elevados para um país de tantas e tão dramáticas carências.
Exterminá-los, jamais! Isso levaria a violência a patamares apocalípticos, pois os bandidos não teriam mais nada a perder. Nós, sim, perderíamos, ao abrirmos mão da civilização arduamente construída nos milênios que nos separam da horda primitiva, voltando à estaca zero.
O xis do problema, no entanto, nunca é discutido: o fato de que a criminalidade é intrínseca ao capitalismo e subsistirá enquanto não substituirmos o primado da ganância e da competição pelo da solidariedade e da cooperação.
Vivemos numa sociedade que desperdiça o potencial já existente para se proporcionar uma existência digna a cada habitante do planeta; que faz as pessoas trabalharem muito mais do que o suficiente para a produção do necessário e útil; que condena parcela substancial da população economicamente ativa ao desemprego, à informalidade e à mendicância; que estimula ao máximo a compulsão consumista sem dar à maioria a condição de adquirir seus objetos de desejo; que retirou do trabalho qualquer atrativo como realização individual, tornando-o apenas um meio para obtenção do vil metal (ou seja, uma nova forma de escravidão).
Então, os que ainda têm emprego e os empreendedores continuarão irrealizados, esforçando-se demais para nunca obterem as gratificações almejadas, pois a lógica do capitalismo é perpetuar a insatisfação e mitigá-la com o consumo (a cenoura colocada à frente do asno para que ele continue puxando a carroça). Um círculo vicioso perverso que faz a fortuna dos analistas, dos farsantes religiosos e dos picaretas da auto-ajuda.
Alguns excluídos continuarão vivendo das esmolas dos programas oficiais e vão ajudar a eleger aqueles a quem convém mantê-los em eterna dependência.Outros tentarão obter pela força aquilo que jamais alcançarão pela competência. E servirão de espantalho para intimidar as classes superiores, fazendo-as crer que uma sociedade policial seria a solução.
É paradoxal que, em nossa época, formidáveis avanços científicos e tecnológicos coexistam com uma regressão ao ambiente medieval, com os nobres entrincheirados em condomínios de alto padrão, circulando em veículos brindados e só podendo levar vida social em shopping centers, não ousando mais exporem-se fora de suas fortalezas. No exterior desses espaços fortificados e vigiados, os bárbaros estão sempre à espreita, prontos para desferir seus golpes.
Uma previsão terrível de Friedrich Engels, um dos pais do marxismo: quando uma sociedade consegue aniquilar as forças progressistas que poderiam levá-la a um estágio superior de civilização, acaba sendo destruída pela barbárie. O paralelo é com Roma, que venceu os gladiadores de Spartacus mas sucumbiu aos povos atrasados, condenando o mundo a séculos de trevas.
Resta saber se, no século 21, a ameaça maior à civilização se corporifica nos criminosos cada vez mais abusados e no surto de populismo autoritário no 3º mundo, nos fanáticos religiosos que derrubam torres gêmeas ou na fúria com que a natureza começa a reagir às agressões sofridas.

* resumo da exposição de Celso Lungaretti na mesa-redonda “Metamorfoses sócio-econômicas, segregação sócio-espacial e o fenômeno da violência na Grande Vitória”, durante o “II seminário Internacional de Desenvolvimento Local”, realizado no mês de dezembro de 2007 em Vitória, ES. Artigos e crônicas de Celso Lungaretti estão disponíveis em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

janeiro 15, 2008

País "ganha" novos milhares de milionários. Brasil perde.

Aumenta número de milionários no Brasil
Bancos engordam seus lucros e quem paga mais impostos continua sendo quem ganha menos
São Paulo – A fortuna dos milionários do país equivale a praticamente metade do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. A afirmação está em uma reportagem publicada da Folha de S. Paulo nesta segunda, dia 14, sobre o aumento do número de milionários no Brasil e o conseqüente lucro do setor de private banks. O bom desempenho da economia brasileira e a alta rentabilidade oferecida pelo mercado financeiro são os fatores que mais contribuem para o aumento de milionários e o crescimento no lucro dos bancos. Em 2006 havia 130 mil milionários no Brasil, número que subiu para 190 mil em 2007, ou 46,1% mais.
O setor de private banks administra grandes fortunas, ajuda na construção de estratégias para expandir as riquezas desses clientes milionários e ganha em troca com as altas taxas cobradas referentes a esses serviços. Segundo o BCG (The Boston Consulting Group), milionários são aqueles que têm mais de US$ 1 milhão aplicado no mercado financeiro. O Itaú Private Bank aceita investimentos de no mínimo R$ 4 milhões. Com o crescimento de milionários no país, o banco ficou entre os 15 maiores private banks do mundo, segundo ranking da revista Euromoney.
Repasse – Apesar do rotineiro aumento dos lucros dos bancos, a dívida do setor financeiro com a sociedade brasileira continua. As taxas de juros para crédito agrícola e para pequenas e médias empresas são extremamente altas. Se oferecessem crédito a juros mais baixos os bancos continuariam a lucrar e ainda contribuiriam de maneira substancial com o crescimento da economia.“O trabalhador do setor bancário precisa de salário melhor”, ressalta o presidente do Sindicato, Luiz Cláudio Marcolino. “Os bancos precisam contratar, melhorar as condições de trabalho e oferecer melhor atendimento também aos clientes que não são donos das grandes fortunas”, diz o presidente do Sindicato, Luiz Cláudio Marcolino. O dirigente lembra, ainda, que alguns bancos, apesar de estarem na lista dos mais lucrativos e dos que mais recebem investimentos dos novos milionários, ainda não pagam o auxílio-educação aos seus funcionários. É o caso do Bradesco, que já conta com 5 mil clientes com mais de R$ 1 milhão.
Gisele Coutinho – 14/01/2008
Sindicato dos Bancários

novembro 10, 2007

Os brasileiros que lutaram ao lado de Hitler

Há três anos, o professor Dennison de Oliveira, do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), busca uma editora para publicar uma obra no mínimo reveladora sobre a realidade de brasileiros, descendentes de alemães, que lutaram pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Em Os soldados brasileiros de Hitler, o pesquisador relata a história real de seis pessoas que, vivendo na Alemanha e impedidas de voltar ao Brasil por causa da guerra, tiveram de servir às potências do Eixo e viver os conflitos éticos gerados pelo nazismo.
A motivação do autor partiu do curitibano Norberto Toedter, de ascendência alemã, deportado junto com a família depois que seu pai foi acusado de ser espião nazista e convocado a prestar serviços às forças armadas daquele país. Suas memórias, narradas no livro E a guerra continua, serviram de inspiração para que Dennison buscasse mais exemplos de brasileiros que viveram experiência semelhante. “Ele citou que muitas famílias viveram casos como o dele e me passou alguns contatos”, lembra.
As recordações dos entrevistados foram transformadas em livro. Antes de a guerra estourar as famílias desses “soldados” foram para a Alemanha em busca de melhores condições de vida. “Mas, com a eclosão da guerra, ficaram impedidos de voltar”, conta o professor. Enquanto isso, os meninos atingiam a idade de alistamento e, como todo cidadão alemão, tinham de arcar com as obrigações militares.
De acordo com Dennison, centenas de brasileiros passaram por essa situação, mas apenas um relatou um episódio conflituoso ao ser enviado para combater na frente italiana, onde certamente lutaria contra os amigos brasileiros. “Ele deduziu que os colegas estariam lá. Além disso, se fosse capturado e dado como traidor, sofreria represálias”, diz. No entanto, o apelo emocional não foi capaz de tirá-lo da missão. “Quem o livrou foi um médico que, vendo o difícil momento por que passava, na hora do embarque o declarou doente.”
O pesquisador lembra que a motivação desses soldados em estar na Alemanha e participar da guerra estava longe de ser política, segundo seus relatos: era uma questão de sobrevivência e de obrigação com a pátria. Tanto que, de volta ao Brasil, logo após a guerra, eles sofreram as conseqüências da revolta contra o nazismo. “No pós-guerra, tiveram de se evadir do preconceito. Em decorrência disso, elaboraram uma visão de recusa à responsabilidade da Alemanha pela guerra e negaram a perseguição aos judeus”, diz o pesquisador, citando que, ainda assim, alguns dos entrevistados que compõem sua obra reconhecem as atitudes negativas do movimento conduzido por Hitler.
Paraná-Online
09/11/07

novembro 5, 2007

O Brasil tem mais a ganhar com acidentes de helicópteros do que com os de avião. Pergunte-me como.

Leia as matérias ( algumas antigas, é verdade, mas a distribuição de renda do Brasil permanece quase igual, há 500 anos, então… ) a seguir e veja o perfil dos passageiros ( digamos, mais claramente, os proprietários ) de helicópteros.
Trânsito nos céus
Frota de helicópteros cresce 20% ao ano graças a executivos dispostos a investir milhões de dólares para fugir do trânsito
Revista Época
10/07/2000
A grandiosidade de São Paulo atingiu o espaço aéreo. A cidade é a primeira no mundo em horas de vôos de helicópteros e ostenta a terceira frota do planeta. Os que podem preferem o ar a enfrentar 120 quilômetros diários de congestionamento nas ruas. É o caso do leiloeiro Luiz Fernando de Abreu Sodré Santoro, de 50 anos. Morador de Alphaville, condomínio a 20 quilômetros da capital, trabalha em Guarulhos, a 44 quilômetros dali. Investiu US$ 900 mil na compra de um Jet Ranger há quatro anos. Gasta 12 minutos no trajeto. De carro, levaria pelo menos uma hora. “Tenho de andar rápido, sou um prestador de serviços“, justifica.
Economizar tempo e fugir dos congestionamentos motivaram outros ricos e famosos a adotar o transporte aéreo. Com uma dose adicional de incentivo – evitar os seqüestros. Foi o que fez o empresário Abílio Diniz, dono da cadeia de supermercados Pão de Açúcar. Seqüestrado em 1989, costuma locomover-se pelo ar. O helicóptero, adquirido em nome da empresa, é utilizado também por parentes e amigos. Na semana passada, por exemplo, foi emprestado por João Paulo Diniz, filho de Abílio e dono de restaurantes, à top model Gisele Bündchen, sua ex-namorada. Ela o usou para evitar atrasos durante as concorridas aparições no MorumbiFashion, o maior evento de moda no país.
A geografia paulistana facilita os vôos dos aparelhos. A visão da cidade é ampla. A vantagem impulsiona o mercado. Cerca de 180 novas aeronaves somam-se à atual frota a cada 12 meses. O negócio é dominado por três empresas: a Helibrás, única montadora brasileira, a Audi Helicópteros, revendedora da americana Robinson, e a Líder Táxi Aéreo, representante da Bell. Da frota brasileira de 900 helicópteros, parte é composta do modelo Esquilo, montado pela Helibrás. Custa cerca de US$ 1,5 milhão. Um dos mais caros é o Dauphin, fabricado pelo consórcio franco-alemão Eurocopter. Nove deles sobrevoam os céus brasileiros. Valem, em média, US$ 6 milhões. Servem a uma casta dourada de empresários, como o investidor Jorge Paulo Lemann, o principal acionista do Garantia Partners, um banco de investimentos. O modelo mais sofisticado é o Sikorsky S76, avaliado em US$ 7 milhões. Há apenas três no Brasil, um deles em nome do banqueiro Júlio Bozano.
Espaço aéreo
O ranking das cidades com o maior número de aeronaves no mundo
Nova York: 2.000
Tóquio: 700
São Paulo: 450
Los Angeles: 250
Os altos valores em trânsito alimentam a oferta de trabalho no setor. Em 1999 foram cadastrados 230 novos pilotos privados e 90 comerciais no Departamento de Aviação Civil, órgão do Ministério da Aeronáutica responsável pela fiscalização do espaço aéreo. O aperfeiçoamento é atividade cansativa. São quatro meses de curso teórico, seguido de uma maratona de aulas práticas. Para tirar o brevê, o aviador privado precisa somar 35 horas no ar, e o comercial 100. Allan Totti Dias, de 23 anos, 120 horas de vôo, garante que o esforço de quase dois anos compensa: “Já tenho um bom salário”. O comandante Milton José Teixeira Rangel, proprietário da Tecplan, a maior escola de pilotos de helicópteros do Brasil, informa que o salário inicial vai de R$ 3.500, para os que controlam um Robinson R44, a R$ 12 mil, para os especialistas no Dauphin. Os números de pousos e decolagens de helicópteros confirmam o sucesso. Variam entre 350 e 400 por dia no Campo de Marte, em São Paulo. Em feriados prolongados, 120 aparelhos pousam no Rio de Janeiro. As ágeis aeronaves movimentam-se com preferência sobre os balneários de Angra dos Reis e Búzios. A socialite Vera Loyola não as dispensa depois que teve o pai e o filho seqüestrados. A apresentadora Xuxa Meneghel corta os céus para cumprir compromissos sociais e de trabalho. Usou uma delas para escapar do assédio da imprensa depois de submeter-se a uma plástica em São Paulo.Na capital paulista, empresários e banqueiros circulam nos ares entre a Avenida Paulista, as indústrias do ABC, o litoral e Campinas. Michel Klein, diretor e herdeiro das Casas Bahia, leva apenas nove minutos de casa, em Alphaville, a São Caetano do Sul, onde fica seu escritório. Helipontos não faltam. Há 81 na capital paulista. No país são 470. Pousos e decolagens tornaram-se parte da rotina do Rio e de São Paulo. Já não despertam a atenção nem levantam olhares curiosos para o céu.
Passageiros ilustres
Jogadores de futebol e políticos somam horas de vôo de helicóptero
Ronaldo
O atacante da Inter de Milão recupera-se, no Brasil, de uma cirurgia no joelho. Para evitar o assédio de fãs e garantir a privacidade, costuma voar
Romário
O jogador do Vasco recorre às aeronaves para ir aos treinos ou passar fins de semana na casa de veraneio em Angra dos Reis. Chegou a fazer um curso de pilotagem, mas não tirou o brevê
Fernando Henrique
O presidente da República costuma locomover-se nos aparelhos para cobrir trajetos curtos entre compromissos oficiais e viagens de descanso no sítio ou na praia

Brasil tem a quarta maior população prisional do mundo

Falta de política
Brasil tem a quarta maior população prisional do mundo
De acordo com dados apresentados pela socióloga e coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, Julita Lengruber, em dezembro de 2006, o Brasil registrava uma população prisional de 401.236 presos, 85,6 % dos quais alojados no sistema penitenciário e os demais, 15,4%, em delegacias. Os dados são do International Center for Prison Studies e colocam o Brasil em quarto lugar no ranking dos países com a maior população prisional. O Brasil só perde em termos de número de presos para os Estados Unidos, China e Rússia.
O estudo foi apresentado em palestra ministrada pela professora no terceiro dia de trabalho do XXIV Encontro Nacional dos Procuradores da República (ENPR), que terminou na sexta-feira (2/11) no Rio de Janeiro.
Julita Lengruber criticou a política de enfrentamento que vem sendo adotada por alguns governos estaduais, como o do Rio de Janeiro. Para ela, a questão da violência urbana é muito mais profunda e envolve a necessidade de mais políticas sociais e não somente repressão. “É uma ilusão pensar que apenas aumentar a taxa de encarceramento vai resolver a questão da violência”, advertiu a especialista, lembrando que, embora tenha uma grande população carcerária, o Brasil ainda apresenta índices muito elevados de violência urbana.
Sem, no entanto, descartar a importância das políticas repressivas, a socióloga apresentou outros dados que demonstram que o problema da violência urbana também passa pela falta de equipamentos e especialização das polícias para solucionar os crimes. Segundo os dados apresentados pela professora, no Brasil, a taxa de esclarecimento de homicídios, por exemplo, é inferior a 2%. “É evidente que esse tipo de coisa estimula o aumento da criminalidade”, afirmou.
Para o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, o aumento da violência urbana no Brasil, e em especial no Rio de Janeiro, é conseqüência de uma política de descaso e abandono de governos anteriores. “Há 10 ou 15 anos segurança pública não dava voto”, lembrou José Mariano Beltrame.
O secretário justificou a situação do Rio de Janeiro, tido como um dos estados mais violentos do país, destacando peculiaridades especialmente da capital que tem uma configuração geográfica muito diferente das de outras cidades do Brasil. “Nas demais capitais, a violência é periférica. No Rio, não”, justificou, lembrando que pelo fato de o Rio ser um pólo de turismo estrangeiro, os fatos que ocorrem na cidade ganham repercussão nacional e internacional.
Defendendo a política de segurança pública adotada pelo atual governo do estado, Beltrame explicou aos procuradores do encontro a necessidade de adoção de medidas de enfrentamento ao crime organizado no Rio. “A solução para o Rio de Janeiro não é boa. Não existe cirurgia com risco zero”, advertiu.
Mesmo admitindo que segurança pública não se resume a ações policiais, o secretário reafirmou a necessidade de aumento do efetivo policial como forma de garantir a paz em todo o estado. “Não é com passeatas e camisetas escrito “paz” que vamos obrigar os bandidos a entregar suas armas”, afirmou.
O subprocurador-geral Eugênio Aragão defendeu a adoção de políticas públicas com ações sociais voltadas principalmente aos jovens como forma de combate à violência urbana. Para ele, a exclusão social é o principal fato gerador de violência. “A revolta do jovem contra a exclusão é o desejo de ser incluído”, afirmou.
Para ele, os governos deveriam abandonar a política de enfrentamento armado e reagir à violência tentando incluir os jovens da periferia no seio da sociedade. “Segurança pública e conflito armado são conceitos diametralmente opostos.”
Revista Consultor Jurídico
3 de novembro de 2007

outubro 10, 2007

Agora é que eu não voto mais no LULA!!! CheeeGGAaa!!! Arrghhh!!!

É o fim do mundo mesmo, o fim da picada!
O seu Lula, por acaso, não percebeu que este blog é totalmente anti-classe-média?
Vou deixar as coisas mais claras: Eu TENHO VERGONHA DA CLASSE MÉDIA PAULISTANA!! Deu para entender?
Se algum lixo se sentir puto ( e acho que isso vai ocorrer ) e deixar algum recado, fatalmente será sob a condição do anonimato. Eu, ao contrário, escrevo e coloco meu nome. Antes mesmo do Cansei sair do cueiro, ou da mente de algum publicitário golpista e materializar-se no fracasso que todos nós vemos ( e do qual rimos à beça ) já declarei meus princípios e a linha ideológica que este blog segue. Sem perdão.
Mas, no Diário de São Paulo de Domingo agora ( 07/10 ), na página B3, é só olhar que tá lá: “PAÍS GANHA UMA NOVA CLASSE MÉDIA”.
Provavelmente, essa matéria deve ter saído mais completa no Globo, e o Diário publicou aqui, resumida. Bom, isso nem vem ao caso.
Tá dizendo que recente pesquisa do IBGE mostra que 6 milhões de pessoas tornaram-se consumidores e, para o Governo, são parte de um fenômeno – degenerativo da sociedade brasileira, completo eu – que denominou “nova classe média”.
Tem noção disso? Então são mais 6 milhões de golpistas mimados, que encherão o saco do verdadeiro cidadão de bem ( ou seja, o não-cabotino ), com suas ladainhas típicas: “Nós pagamos muito imposto”, “Chega de violência”, “A CET é indústria da multa”, “Não agüento mais trânsito de São Paulo”, “Mendigo é sujo. Tira ele daí.”, “Grevista é vagabundo. Eu é que trabalho.”, “Acorda, Brasil.” e essas merdas todas.
Sim, pois o sujeito que ingressa no círculo fechado e hermético da classe-média, de repente começa a passar por uma preocupante transformação, tornando-se mesquinho, mimado, reclamão, consumista, invejoso, ambicioso, egoísta, auto-iludido e outros designativos que me recuso a escrever aqui, pois ainda é um blog de família.
Continuando: o camarada atinge o Grau Médio da Ordem, e de lá não quer mais sair. De repente, todos à sua volta se tornam ameaçadores. Também pudera! Essa Sociedade Fechada e exclusiva estimula e induz seus membros a tornarem-se paranóicos e, depois de uma lavagem cerebral bem efetuada, em que não faltam nem os cânticos misteriosos ( como o secreto “No Mundum Globaelizateum dae ohjem ha kompetenciae eh molto himportaentae” e o “Tuddo tuddo akabba emm phizza noh Brahzzil” ) que devem ser repetidos até a língua fazer calo, e que resultam num estado hipnótico auto-induzido no qual o pobre diabo se torna um zumbi sem vontade e sem capacidade de reagir a esse estado de coisas. O mais dramático disso tudo, é que a vítima é acometida de delírios e tem a mais firme certeza de estar acordada e atenta, mais do que eu e você
Tristemente enganado, o coitado passa a importunar os outros com seus delírios e, pior, começa a procurar inimigos por toda a parte. E realmente encontra-os, só que em seus delírios febris.
A partir desse estágio, não tem mais volta: já convicto de que o inimigo existe e está espreitando ( ameaçador, armado de foices, martelos, talões de multa e zona azul, cola de sapateiro, guias de impostos, rodízios de automóveis, flanelas, cotas em Universidades, antiamericanismo, charutos cubanos e dólares na cueca, liberalidades e saliências, e sobrenomes populares, Bolsas-Família, etc ) e pronto para dar o bote e tomar tudo o que ele conseguiu e que deu tanto trabalho para chegar lá.
Convencido da ameaça, passa a querer doutrinar os outros, tentando concencê-los a juntar-se a ele num movimento cívico-cidadão, e se torna extremamente irritado quando não tem a força de persuasão necessária; na sequência, toma força em sua mente perturbada a idéia de que não deve insistir no convite à moral e ao civismo dos outros, pois ele pertence a outra estirpe, mais exclusiva, inteligente, educada, cidadã e bem-aventurada: A ELÍTE, que costuma reunir seus adeptos em chats da Internet, Fórums de discussão política e seções de cartas de leitores dos jornais, locais em que se sentem realmente seguros, e onde trocam lamúrias, horumelas, cânticos, mensagens, idéias excêntricas e polêmicas, lugares-comuns, impressões a respeito da sociedade a qual renunciaram, mas que sabem: os mundos frequentemente colidem;
Tanto segredo, tantas regras e tanta chatice terminam por afastar todos à sua volta, pois a chatice não é contagiosa, mas o vampirismo esgota a energia de quem dá ouvidos ao zumbi; mesmo evitando o mundo exterior, a Seita tem a missão de angariar adeptos, e estes só serão conquistados mediante contato inicial com “os externos”, comunicação com eles e posterior tentativa de cooptação, em que táticas de persuasão filosófica, sofismas, xingos e ameaças de perda da alma, àqueles que não tomarem rumo na vida e andarem na linha da democracia e da livre iniciativa fazem parte do arsenal utilizado para amedrontar e conquistar novos fiéis.
TSSS.
Infelizmente, o Código Eleitoral brasileiro não só permite, mas obriga um ser humano doente desses a votar.

setembro 26, 2007

Corrupção: mesmos números, diferentes abordagens

( OBS: Ideal é que o post anterior seja lido antes deste, para melhor compreensão )
Corrupção: Brasil melhora nota e recebe 3,5
Acessepiauí/Últimas Notícias
26/09/2007
No ranking geral, o Brasil caiu da 70ª para 72ª posição, mas esta mudança reflete a entrada de novos países na pesquisa.
Foi a primeira vez que a nota subiu no governo Lula, embora a pesquisa tenha sido feita antes de episódios como a decisão de processar os acusados pelo mensalão e a absolvição do senador Renan Calheiros (PMDB-AL) no Congresso Nacional.
Além disso, o porta-voz da Transparência Internacional no Brasil, Bruno Speck, ressaltou que a mudança é apenas um “passo para o lado” na percepção pública do combate à corrupção, já que se situa dentro da margem de erro da pesquisa – 0,2 ponto percentual para cima ou para baixo.
Os patamares da atual administração ficam abaixo do registrado no final do governo Fernando Henrique Cardoso, que foi melhorando do início para o fim, alcançando 4,1 em 1999 apesar das denúncias de compra de voto no Congresso Nacional para aprovação da emenda que permite a reeleição do Presidente da República.
“A tendência no governo FHC e Lula é inversa”, reconhece Speck, “mas ambos passaram por altos e baixos”. “Não dá para dizer que o Brasil mudou significativamente para melhor ou para pior. E isso confirma a percepção de quem vive no país e vivencia fatos que apontam em direções opostas.” Dois recentes exemplos contraditórios, disse ele, são a decisão do Supremo Tribunal Federal de processar os acusados no caso mensalão – um “sinal positivo” – e a absolvição do senador Renan Calheiros no processo de cassação.
Sobre o mensalão, Speck afirmou: “jamais o Judiciário tocou nos altos escalões da política de uma forma tão contundente como está fazendo agora. Embora não tenha julgado o caso, aceitou a denúncia”. “No entanto, duas semanas depois, há a absolvição do (senador) Renan Calheiros, que foi um sinal para o outro lado”.
“Existe uma percepção de que algumas coisas estão trazendo esperança de melhora, e outras que destacam o Brasil como o país da impunidade”. Para o analista, o Brasil pode melhorar seu desempenho atacando “demandas específicas em cada Poder”.
“O Poder Judiciário tem de se tornar mais transparente e mais ágil. A questão da transparência tem melhorado com a criação de conselhos externos. Mas não há acesso a dados básicos, como quantos processos de corrupção ativa e passiva existem no Brasil”. “No Poder Executivo, é preciso facilitar o acesso do cidadão ao Estado, e reduzir os intermediários na prestação de serviços públicos. Projetos como o Poupatempo, em São Paulo, e outros semelhantes, são positivos neste sentido”.
No ranking geral, o Brasil caiu da 70ª para 72ª posição – são 180 países – mas essa queda se explica pela entrada de 17 novos países no ranking deste ano, em relação ao ano passado. Para a Transparência Internacional, o “divisor de águas” é a nota 5, abaixo da qual estão países com problemas mais sérios de corrupção.
Na América do Sul, apenas o Chile (7,0) e o Uruguai (6,7) estão no grupo dos países com melhor desempenho. Dinamarca, Finlândia e Nova Zelândia (nota 9,4) dividem o topo do ranking. Somália e Mianmar (1,4), Iraque (1,5) e Haiti (1,6) – que muitos qualificam como “Estado-falidos” – estão no espectro oposto.
“A corrupção ( nos países com pior desempenho ) continua sendo um enorme ralo de recursos tão necessários para a educação, a saúde e a infra-estrutura”, disse em um comunicado de imprensa a presidente da Transparência Internacional, Huguette Labelle. “Governos de países divididos por conflitos pagam um preço alto em sua capacidade de governar”.
Fonte: BBC Brasil
COMENTÁRIOS
1 – No artigo do G1, o melhor colocado da América do Sul é o Chile ( nota 7,0), mas é curioso não mencionarem o segundo colocado ( Uruguay ) , já que sua nota é pouco menor em relação àquele ( 6,7 ) ;
2 – Difícil, sem saber quais os critérios utilizados pela pequisa, concluir algo. A polêmica absolvição de Renan poderia ser melhor trabalhada e apresentada, de modo a não parecer uma tragédia, aos olhos do povo, que um julgamento possa terminar com tal resultado.
A denúncia acolhida e processo contra os acusados de “mensaleiros” não deverão ser tratados da mesmo forma como vem sendo o caso Renan, sob o perigo de se promover um linchamento público e pré-julgamentos ainda durante a duração de todos os processos e, caso os réus sejam inocentados, resultar numa frustração coletiva ilegítima, a partir de uma ilusão fomentada pelo imprensalão – que, aliás, vem poupando Serra e Azeredo em seus noticiários direcionados. Que as acusações contra quem forem sejam, isso sim, melhor assentadas e provadas e dependam menos da cobertura midiática e dos holofotes políticos, para que a inocência conseguida nos tribunais não passe a ser motivo de surpresa ou alvo de novas suspeitas.
E não ter telhado de vidro também ajuda a ganhar credibilidade junto à opinião pública.

Corrupção: mesmo com sonegação, Azeredoduto, CDHU, Nossa Caixa, Rodoanel e calha do Tietê sabotando os esforços, Brasil obtém nota melhor que 2006

É isso mesmo!!
Quem ler as manchetes de hoje, vai saber do resultado de um estudo promovido pela Transparência Internacional em que, se basearmo-nos por estas manchetes do imprensalão, o Brasil terá sofrido uma queda de 2 posições em relação a 2006: caímos de 70º. para 72º., ou seja, teríamos nos tornado MAIS corruptos do que fomos no ano anterior.
Pagando propina para não ser autuado por pagar propina
Ruim para o país?
Não de todo. A manchete fala que pioramos em relação a outros países neste ranking mas não deixa dúvidas quanto ao fato de nossa nota ter MELHORADO em relação à última nota que recebemos, de 3,3 para 3,5. Ou seja: melhoramos, apesar de nós mesmos. Desconheço quais os critérios utilizados pela pesquisa, para chegar aos resultados divulgados. Nota-se, no artigo abaixo, que entre os melhores colocados aparecem os países nórdicos e Baixos, lugares onde – diz-se – a carga tributária não é das menores e que, portanto, havendo mais impostos maior a sonegação ( segundo o raciocínio de certos “inconfidentes” que ouvimos por aí ), o que deveria piorar sua colocação. A menos que, por lá, o sujeito não dispense tantos esforços para burlar a tributação, lançando mão de hábeis expedientes de engenharia contábil, comuns aqui na terrinha, basta ler a Caras para conhecer a fauna. Os Estados Unidos, modelo de civilização e totem a ser endeusado – talvez menos pelos méritos existentes – para muitos cidadãos de bem brasileiros, aparecem em um modesto 20º., o que diz muita coisa quando notamos que, entre os países mais corruptos desta lista, encontramos Iraque e Afeganistão, felizes donatários da humanitária democracia ali estabelecida pelos norteamericanos.
Vamos à matéria do portal G1:
Brasil piora em ranking de corrupção
G1
26/09/07
O Brasil piorou no ranking anual sobre corrupção elaborado pela organização não-governamental Transparência Internacional.
O país passou da 70ª para a 72ª posição de 2006 para 2007. No ranking, quanto pior a posição, mais corrupto é o país. Em 2005, o país ocupava a 62ª posição.
O Brasil teve nota 3,5 em uma classificação que vai de 10 (para países menos corruptos) até zero (países mais corruptos). Mesmo tendo caído no ranking, a nota do país melhorou em relação a 2006, quando o Brasil havia recebido 3,3.
De acordo com a Transparência Internacional, a corrupção afeta principalmente os países devastados pela violência, incluindo Iraque e Somália, que se uniram a Mianmar na relação dos mais afetados por este mal, segundo o relatório divulgado nesta quarta-feira (26) em Londres.
Os países “limpos”, encabeçados por Dinamarca, Finlândia e Nova Zelândia – todos com nota 9,4 -, também deveriam fazer mais esforços para evitar que suas empresas tentem corromper os políticos de outros estados ou não fazer mais vista grossa para a procedência de fundos suspeitos depositados em suas instituições financeiras, segundo a ONG.
A lista dos dez países mais transparentes se completa com Cingapura, Suécia, Islândia, Holanda, Suíça, Canadá e Noruega. Os Estados Unidos aparecem na 20ª posição com a nota 7,2.
Além de Iraque (1,5), Somália e Mianmar (1,4 cada), os três últimos países da lista de 180 países, a relação das nações mais corruptas inclui Haiti, Uzbequistão, Tonga, Sudão, Chade e Afeganistão.
“Os países do final da classificação devem levar a sério estes resultados e agir já para fortalecer a responsabilidade de suas instituições públicas”, destacou Huguette Labelle, presidente da TI.
“Porém, as ações dos países bem classificados também são importantes, sobretudo para combater a corrupção no setor privado”, acrescentou.
Quase 40% dos países com índice abaixo de três – onde se considera que a corrupção afeta todos os setores – são classificados como “pobres” pelo Banco Mundial.
O país sul-americano mais bem colocado é o Chile (7,0), com a 22ª posição. A Argentina, com 2,9, aparece como o número 105 na relação.

setembro 21, 2007

Da série "Tenho vergonha da classe-média paulistana"

A picanha da classe média
ADITAL – 17/9/2007
Carlos Azevedo *

Recentemente, tenho lido com freqüência manifestações indignadas segundo as quais, enquanto a classe média (elite) dá um duro danado para construir o Brasil, trabalha, paga impostos etc., o povo fica só de “chupim”, vivendo do Bolsa Família. A Veja acaba de publicar uma pesquisa que, de acordo com a interpretação da revista, demonstra ser a elite o que há de melhor no país, e que todo o nosso atraso se deve à ignorância do povo.
Fiquei impactado com essas revelações luminosas, mas não perdi a fome (afinal, ninguém é de ferro, nem a elite e muito menos o povo). Fui a um restaurante e pedi uma picanha. Ela veio no ponto, rosadinha e macia. Agradeci à classe média por essa maravilha. Quantos dias de trabalho deve ter custado a essas senhoras e senhores respeitáveis, cidadãos cumpridores de seus deveres, fazer uma picanha como essa? Tem que cuidar da vaca, do bezerrinho dela, dando ração todo dia, curando suas doenças até virar novilho, tudo isso pisando em bosta de boi, sem esquecer aquele cheiro de curral. Depois, matar o boi etc. etc., até extrair a maravilhosa picanha. Enquanto isso, o povo, ó! Só no Bolsa Família!
Aí, peguei meu carro para ir para casa. E agradeci de novo à classe média laboriosa pelo petróleo que ela produz generosamente. ( Não, não são os petroleiros, você precisa ler mais a Veja. ) E pelo seu ingente trabalho de plantar cana, fazer álcool, para misturar na gasolina. Agradeci pelo carro também, porque quem senão ela faz o carro? E assim fui pensando em tudo de bom que a classe média produz, meus sapatos, as roupas, meu chapéu (eu uso chapéu quando faz frio!); em tudo que ela constrói, os prédios, as ruas, as estradas. E tudo o mais: telefone celular, televisão, computador, Internet… Percebo que Adam Smith, Ricardo e Karl Marx enganaram-se redondamente em dizer que o valor vem do trabalho. Ele vem é da classe média!
E acabei pasmo, pensando em como é difícil para a classe média (elite) ter de carregar nas costas esses milhões de operários, técnicos, cientistas, trabalhadores na agricultura, bóias-frias, camponeses sem terra, índios, esses vagabundos! Ainda bem que ela consegue se distrair nos shopping centers, cinemas, na televisão a cabo, no Orkut (que ela fez), matar a saudade da Disney comendo sanduíche do Mcdonalds (que a classe média americana fez). Oh, meu Deus, que peso! Não é de estranhar que esteja tão cansada! Por que o governo não cria também uma Bolsa Classe Média?
“Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados”. (Provérbios 31.8)
* Jornalista

setembro 13, 2007

Democracia e o vírus do brasilianismo

Wanderley Guilherme dos Santos
Dói na alma, mas nem sempre a educação é um bem sem contra-indicação. As pesquisas reiteram a cada rodada que as classes subalternas têm respondido com apoio e votos às políticas sociais do governo.
Onde o governo está mais presente é ali onde, proporcionalmente, tem crescido seu eleitorado. Desmentindo o argumento de que o governo falha em suas promessas de campanha. As oposições e os descontentes da esquerda também o acusam de trair sua base popular de origem.
Alternativamente, conservadores e progressistas descobrem motivo de congraçamento entre si na crítica ao suposto paternalismo governamental, que seria a razão da aquiescência das massas antes que da promoção de sua consciência cívica e autonomia política. Como é natural, não se há de responder com imperfeições terrenas às exigências do mundo platônico das idéias.
Equivalente ideal de pureza orienta os murmúrios de insatisfação quanto ao funcionamento das instituições legislativas, maculadas que estariam por operadores corruptos, por vícios simultâneos de origem e decrepitude, além de repetidas manifestações do insultuoso hábito de legislar em causa própria.
Do Executivo, o defeito mínimo que se lhe atribui é o da incompetência gerencial. Mencionam-se ademais, aqui e ali, alheamento, preguiça e incapacidade de decisão. Pela esquerda histórica, do mesmo modo insatisfeita, se assegura que o Executivo se encontra manietado por escandalosos acordos com o conservadorismo. Ou seja, o Executivo, a bem dizer, nada faz e, quando faz, faz mal ou em má companhia, descaracterizando o bem-feito.
E assim marcharia o país entre corrupção e inércia, de cambulhada com alguns outros países, poucos, igualmente cretinos, à margem do benéfico período de progresso material aproveitado pelo resto do mundo. Nem as migalhas, nós estaríamos saboreando desta vez.
Trata-se, é claro, de um diagnóstico brasilianista. Tão grave quanto o bócio e a elefantíase, o brasilianismo é a enfermidade típica do atraso, mas com patológica distribuição sociologicamente distinta.
Ela contamina preferencialmente pessoas de elevada classe de renda, habitantes de áreas urbanas, sobretudo no Sudeste do país, com diplomas universitários concentrados nas áreas de ciências sociais, economia e comunicação.
Em geral, o brasilianismo não provoca estados febris nem suores inoportunos, apresentando como principais sintomas uma enorme confusão de raciocínio, miopia conceitual e daltonismo partidário, estimulando surtos de verborragia, descontrole de adjetivos e relaxamento das vias gramaticais. Eventualmente, uma diarréia substantiva.
Dotados de imbatível lógica esquizofrênica, os contaminados costumam passar por professores, cheios de comendas, donos de escritórios de consultoria, fartos de encomendas, colunistas bem remunerados, intrigantes de notinhas jornalísticas e assessores de grupos de interesse.
Honestíssimos, em sua maioria, acreditam no que dizem, com grande pompa e muita circunstância. Causa dissabor vê-los. Ao contrário dos portadores de bócio e de elefantíase, cônscios estes da enfermidade que os atormenta, os brasilianistas desfilam orgulhosamente a própria miséria como portariam um estandarte de cruzados. Em certo sentido, são mesmo monocromáticos. Felizmente, o brasilianismo não é sexualmente transmissível. Segundo alguns clínicos, porque não é sexualmente ativo. Polêmicas médicas.
Embora bem-educados, os brasilianistas têm horror à leitura, particularmente de matérias sobre o Brasil, à exceção, obviamente, dos artigos que escrevem uns para os outros. Ignoram as estatísticas, têm vaga noção do que significa o coeficiente de Gini e não fazem a menor idéia do que foi a história da América do Sul nem do percurso secular do grande mito que são os Estados Unidos. Da Europa, conhecem os vinhos, os queijos e o carnaval de Veneza, em pacote turístico de sete dias. Constituem a mais acachapante evidência do fracasso da universidade brasileira.
Jamais um brasilianista aceitará a tese de que os pobres votam por uma razão idêntica à sua, isto é, por interesse. E, conseqüentemente, também rejeitarão a hipótese de que os carentes sejam tão racionais quanto eles, os poucos abundantes. Negarão que pertençam ao mesmo gênero de distribuição de privilégios os subsídios à exportação, a remuneração dos títulos da dívida pública e os empréstimos pré-consignados. São favoráveis ao controle da natalidade da população de salário mínimo e à pena de morte, em certos casos, que é uma forma substitutiva, ou complementar, de controle da mortalidade. Consideram-se liberais de boa cepa, pois têm entre seus melhores amigos, segundo testemunho voluntário, um negro, um judeu e um gay. A discriminação dos melhores amigos é a confissão inconsciente da lista de preconceitos que cultuam.
Não obstante os brasilianistas, ou melhor, inclusive com parcela do trabalho deles, vai se livrando das algemas do arcaísmo um país em que os conservadores parecem ter, finalmente, abandonado a estratégia de rondar os quartéis sempre que contrariados pela política. A integração material da sociedade avança pela via do mercado, a despeito dos revolucionários e dos adoradores dos monopólios, e no qual a Constituição de 1988 conseguiu evitar a institucionalização de práticas discriminatórias.
O custo de combater preconceitos e discriminações é baixo, no Brasil, porque não são protegidos por lei. Aspecto crucial, cuja relevância é perfeitamente reconhecida pelos negros da África do Sul e dos Estados Unidos e pelos antigos judeus imigrantes argentinos, por exemplo.
A sociedade precisa dos brasilianistas na exata medida em que as deficiências materiais são ainda tamanhas e a tentação para a autocomplacência é enorme. Mas estão sobre-representados na produção e controle da informação pública, comprometendo com sua vesguice melhor avaliação do que vai pelo mundo e pelo Brasil.
O formigamento social é extenso, a vida comunitária se enriquece municípios afora, mas de nada disso a maioria da população toma conhecimento, monopolizado que está o mecanismo de produzir idéias e imagens. Há evidente descompasso entre o processo de democratização em curso na vida política e social e o processo de concentração oligopolista no sistema de captação e difusão das novidades.
A unanimidade brasilianista que absorveu as fontes de informação prejudica a democracia, constitui ameaça aos direitos do cidadão de estar servido de fontes alternativas de opinião, nega, na prática, o pluralismo ideológico, enquanto busca a massificação bovina de leitores e telespectadores. Nunca o Brasil moderno, período ditatorial à parte, enfrentou inimigo tão poderoso: aquele que, tal como um partido subversivo, usufrui da liberdade para asfixiá-la.
O Brasil real é complexo, pleno de deficiências e de linhas de força, não está representado na rede para-ideológica de informação, tomada de assalto pelo brasilianismo.
O brasilianismo é a doença infantil da ditadura da opinião. De onde se segue a divergência entre o que ocorre no país e o que pensam sobre ele aqueles que se imaginam educados. Para estes, a educação não vale coisa alguma.
Wanderley Guilherme dos Santos é membro da Academia Brasileira de Ciências
Publicado originalmente no jornal Valor Econômico
Site do PT

agosto 30, 2007

Nós entendemos a cabeça do brasileiro!!!

Filed under: ENQUETE, O Cata-Milho, sociedade brasileira — Humberto @ 11:11 pm
A nossa enquete cívico-moral-educativa era para estar bombando!!! Mas apenas 20 abnegados se dispuseram a participar!!!
Vocês levarão este blog à falência: nós contratamos, a peso de ouro, duas das maiores, honestas e mais bem conceituadas empresas de análise de mercado e opinião, a COICE-POINT e a PROcoINSULT, e elas não cobram barato não. São extremamente profissionais, principalmente na hora de cobrar por seus préstimos.
É com base nos resultados que nos forem apresentados pelas empresas auditoras, que vamos continuar melhorando o CATA-MILHO, sempre otimizando o conteúdo e dinamizando a relação blog-cliente.
Vamos lá.
Vamos participar!!!

agosto 28, 2007

A cabeça do meu ( CENSURADO ), lazarento !!!!!

O agressivo título do post é apenas um recurso que usei para chamar a atenção.
Lendo ( bem de passagem) a Carta Capital desta semana, fiquei sabendo que um livro revela o verdadeiro caráter moral e ético do Brasil subterrâneo e oculto, porque feio e bronco.
Aquele, que usa Havaianas sem rubis e vive às voltas com o “apagão do busão”, o Apagão Educacional Continuado, o apagão da segurança para quem ocupa terras griladas e latifúndios improdutivos e para quem dorme na rua Tabatingüera, mora em favelas e bairros de subúrbio. Aquele que, ou fala um português rústico e limitado, ou fala um português rústico, limitado e cheio de gírias. Aquele Brasil que não pode, não sabe ou não consegue sonegar impostos ou promover uma engenharia contábil e tributária de qualidade, sempre objetivando optimizar os recursos, reduzir custos e gestar o orçamento. Ninguém é perfeito.
O que impede o Brasil de se tornar um horrível, desigual, violento, dantesco, ignorante, doente, pré-histórico, sujo e malvestido pedaço do Inferno, é a nossa, digamos assim, elite. Agradeçamos a eles pelo paíz que temos.
Quem é a elite brasileira? O que faz? Trabalha? Estuda? Usa cocaína? Joga contra o patrimônio?
É aquela parcela de cerca de cinco mil famílias que enche a burra com títulos federais? É a Hebe? Lê o Estadão e a Veja?
Apoiou o Golpe de 64? Fez Getúlio se matar? Não queria que o petróleo fosse nosso? Contrata uma empregada simplesinha e gostosinha para, entre as tarefas da casa, iniciar os filhos adolescentes na arte do amor? E para seus filhos espancarem-na na rua?
(…) Segundo o economista da Unicamp Marcio Pochmann, organizador do livro Atlas da exclusão social: os ricos no Brasil, há 1,2 milhão de brasileiros com renda mensal superior a R$ 11 mil, o suficiente para que sejam considerados ricos. “Dois terços deles moram no Estado de São Paulo”, afirma. Pelo menos 20 mil famílias vivem no País com mais de R$ 45 mil por mês, valor 130 vezes maior do que o salário mínimo. Esse grupo fez surgir um mercado específico: seis milhões de trabalhadores que dependem diretamente dos hábitos dos ricos. “São os profissionais do luxo e prestadores de serviços. O Brasil tem hoje, por exemplo, 1,5 milhão de seguranças privados”, enumera Pochmann. (…) ” .
Pois é. Tem um blog que se apresenta assim: “Nós somos a Elíte”. Com acento no “i”.
Então. A elite, segundo a matéria na Carta Capital e no blog do Eduardo Guimarães reza num sistema granítico de valores, um conjunto de regras morais e cívicas que os torna melhores do que o povão, aos olhos de Deus. Ela nos guiou até nos tornarmos o que somos hoje. Ou guiou a si mesma, tornando-se o que é hoje?
Moderna, iluminista, globalizada e elegante, além de obviamente muito mais inteligente que o restão da sociedade, nossa elite é apresentada de forma meritoriamente positiva pelo mais novo desmoralizador da Sociologia no paíz, o senhor Alberto Carlos Almeida, autor do livro ” A Cabeça do Brasileiro (Record; 280 páginas; 42 reais ) .
Que foi, recentemente, entrevistado no Roda Viva da TV Cultura de São Paulo. E que, até onde sei, teve seu livro resenhado pela Veja. Será um sucesso de vendas, se depender da classe-média ignara, público consumidor e razão de ser da revista da Abril.
Não faço idéia do que este cara fala, e nem sei se as avaliações que usei como referência conferem mesmo. Nunca li Gilberto Freyre ou Raimundo Faoro, nem Darci Ribeiro ou Sérgio Buarque de Hollanda. Conseqüentemente, jamais lerei o livro desse figura aí. Se acaso um dia eu quiser saber sobre o povo brasileiro ( sou um misantropo, já falei ) , os quatro que falei terão a preferência obrigatória. O Alberto eu deixo para o leitor da Veja.
Mas lembrei dum belo e contagiante artigo [ que reproduzo abaixo ] do professor ( na verdade, bem mais de um sobre o tema ) Carlos Lessa, em que ele louva as qualidades do povo brasileiro e propõe caminhos para saírmos da crise humana que assola a terrinha desde as caravelas. Não me parece que o ex-presidente do BNDES ( devidamente defenestrado por Lula, um pouco por causa da pressão exercida pela, digamos, elíte do paíz e seus ghost writers aboletados nas redações do imprensalão ) tenha a mesma simpatia pelos 0,01% da população, a quem chamamos de “elíte”. Lessa adora o povão. Como se pode notar, em seu discurso de despedida do BNDES, publicado no Bafafá On Line. E convence até um misantropo.
O Brasil tem Saída
Por Carlos Lessa,
janeiro de 2005
Todo o brasileiro deve ter acesso à felicidade de uma vida digna. O Brasil não pode escorregar para o medo do presente, nem para o futuro sem esperança. O brasileiro tem direito à dignidade e à segurança para si e seus filhos. A busca destes direitos é individual, porém cabe à sociedade estar organizada e aos governantes criar e velar pelas condições, de maneira que a busca não se frustre.
O emprego, a atividade e a renda adequados são pré-condições para a realização individual. A disponibilidade e o acesso aos bens e serviços básicos, a dignidade nos locais de trabalho e de moradia são essenciais a cada indivíduo para o exercício de vida produtiva e gratificante.
O Brasil, tendo como pano de fundo uma história multi-secular de exclusão social e de complacência de sucessivas gerações de elite de poder e de dinheiro, com gigantescas distâncias sociais, vive nos últimos vinte anos um crescimento rastejante e assiste à crise social mais grave de sua história. Para milhões e milhões de brasileiros foi dissolvida a esperança e instalou-se o medo na vida social. A nossa juventude, sem utopias e sem perspectivas, corre o risco de perder o ânimo. Os pais de família dormem intranqüilos quanto ao futuro. A matriz desta crise é o alto desemprego e o subemprego em níveis sem precedentes, acompanhado de marginalização social e índices crescentes de criminalidade e violência.
Frente a este quadro, as elites do dinheiro e do poder pretendem sua unificação cósmica com os seus pares internacionais, pelo consumo, pelo patrimônio e pelos padrões contratuais. Na sua visão global de Brasil, o reduzem a um mercado. Desconhecem e mesmo repudiam a brasilidade. Sustentam um processo político que adota a negativa explícita de encarar a crise como um desafio nacional, a ser superado pelo esforço combinado e coordenado dos próprios brasileiros. Assumem a crise social como inexorável subproduto da globalização e supõem sua superação num horizonte temporal indefinido, a partir do investidor estrangeiro.
O discurso recorrente dos governantes, no último decênio, tem sido que o Estado Brasileiro quebrou, portanto não pode formular, liderar e executar a parte central de um processo de desenvolvimento econômico e social. Este discurso apóia-se na idéia de que, na era da globalização, cabe ao capital internacionalizado resgatar o Brasil do subdesenvolvimento. O principal papel que se atribui ao Estado é criar as condições globais e parciais favoráveis à atração do investimento estrangeiro. Ao colocá-lo neste papel decisivo, do exterior surgem as regras de conduta que seus parceiros internos implantam. Declinam da formulação de um projeto nacional. Há neste discurso um misto de ingenuidade e má-fé.
Abrir mão da idéia de Nação é reconhecer-se a incapacidade de enfrentar a crise social. O atual espaço-mundo é aberto aos movimentos de mercadorias, capitais, empresas, tecnologias, informações, de gente rica. Veda a livre movimentação da força de trabalho. E as nações prósperas cada vez constroem barreiras mais cerradas às correntes migratórias. Isto estabelece como axioma que a questão social somente é superável com o fortalecimento da Nação. O refrão ideológico de que a crise social será resolvida pelo mercado supõe que o investimento externo é comprometido com o desenvolvimento nacional. Esta é uma suprema ingenuidade.
Se a Nação for um mercado em expansão, o investimento externo será por ele atraído. Porém, jamais será espontaneamente o criador deste mercado para o Brasil. O investimento externo foge e desconhece a pobreza. Não tem qualquer compromisso com a inclusão social. Se houver um projeto nacional, nítido e bem sucedido, será bem vinda a cooperação co-adjuvante do investimento estrangeiro, que aporte tecnologia e recursos. Confiar na sua iniciativa e liderança é permanecer passivo ante o drama social ampliado.
Há uma componente de equívoco político no que tange ao diagnóstico da crise e à proposta de sua superação. Fortes interesses, beneficiados pela política econômica, apoiam-se neste diagnóstico. O Brasil é vítima de uma relação de poder pela qual o aparelho do Estado, em sua instância de formulação e execução de política econômica, foi capturado pelas elites financeiras internacionalizadas que estabelecem o formato conveniente para seu próprio enriquecimento e hegemonia. A economia política brasileira transformou-se em uma máquina poderosa e eficiente de transferência de renda dos pobres para os ricos, logo de cristalização da exclusão social.
O grande capital financeiro, aqui reproduzido, estabeleceu as regras de sua própria internacionalização. Por força dos mecanismos de dolarização criados a seu favor pela elite do dinheiro dominante, a crise social é amplificada pela retração do setor produtivo e do trabalho, em relação às formas especulativas. Tal internacionalização financeira, com taxas básicas de juros reais nos níveis mais extravagantes do mundo, e com uma política fiscal contracionista e sufocante, agrava recorrentemente a crise social.
Fortalecer a Nação, robustecer o Estado Nacional e confiar nas próprias forças é ampliar o exercício de soberania, premissa básica de qualquer projeto para o Brasil. Cada estado é uma entidade política definida, inserida no espaço-mundo, do qual depende sob variados aspectos.
Soberania não é autarquia. As relações internacionais, multi e bi-laterais, são os veículos necessários desta soberania. Cabe exercitá-las com visão estratégica. O Continente sul-americano é ocupado por mais de dez países em situação equivalente ao Brasil. As linhas de força da geopolítica mundial empurram o Continente sul-americano e a África sub-sahariana para a periferia. Nestes espaços cresce a consciência de uma progressiva fragilidade. O Brasil tem que exercitar sua multi-lateralidade com as nações sul-americanas e africanas. Despojado de qualquer veleidade dominatória. Esta integração é co-constitutiva e alavanca um projeto nacional brasileiro. Devemos, simultaneamente, fortalecer todos os fóruns internacionais.
A crise brasileira à qual as práticas neoliberais nos levaram só será superada mediante a intervenção forte do Estado Nacional, à frente de um projeto centrado na questão social. Impõe o abandono do atual formato monetário-fiscal. A premissa é o reconhecimento de que o Estado democrático de direito é a instituição de construção do futuro. A cidadania política, pelo exercício do direito do voto, informado pela natureza da crise, pode implantar outro formato. Pode legitimamente acionar a seu favor o poder de regulação da ordem econômica, que é inerente ao Estado.
Não se propõe uma ruptura com o capitalismo. Mas se propõe, sim, uma ruptura com o neoliberalismo. Aqui não há contemporização possível, nada podemos esperar de bom das políticas neoliberais. O projeto para o Brasil tem que ser entendido como prioridade aos assuntos sociais, à inclusão de todos os cidadãos na plena cidadania civil, política e social e na regulação ética do uso de recursos e poderes públicos. Nacionalismo, sem vestígio de xenofobia, é a prevalência dos interesses nacionais na construção das decisões públicas.
No caso brasileiro é fundamental a homogeneidade lingüística e cultural da Nação. Em simultâneo, deve ser propiciado o acesso da população nacional às culturas do mundo. É chave do projeto nacional aperfeiçoar todos os estágios do sistema educacional.
Fortalecer a organização produtiva exige novos protagonistas econômicos. Os diversos agentes que compõem a chamada economia solidária devem ser incentivados. Em simultâneo, cabe principalizar as micro, pequena e média empresas, estimulando formas de cooperação que permitam a constituição de agregados produtivos equivalentes à grande empresa. Tais agregados, denominados arranjos produtivos locais, têm o mérito de uma aderência indissolúvel com a Nação. Seu controle não é transferível para o exterior, nem pretendem sua multi-nacionalização. Finalmente, é prioritário o desenvolvimento científico-tecnológico como dimensão crítica de pertencer e participar no espaço-mundo atual.
É premissa maior do projeto nacional a certeza de que o Brasil pode ser palco de uma civilização do bem-estar. A partir do estágio de desenvolvimento de forças produtivas já alcançado, da disponibilidade de recursos a incorporar e da competência acumulada por nossa gente, poderemos atingir em tempo relativamente rápido padrões dignos de uma nação civilizada.
Repudiamos o uso recorrente do alto desemprego como instrumento de estabilização de preços. É uma afronta ao próprio corpo político da Nação que grande parte dos brasileiros estejam afetados, direta ou indiretamente, pelo desemprego e o subemprego. A estabilidade deve ser matéria de construção de acordos e pactos entre os atores da vida brasileira. A política econômica a que estamos submetidos sufoca qualquer perspectiva de retomada sustentável do crescimento da economia. Este horizonte é particularmente sombrio para a juventude brasileira, na qual se concentra a maior proporção de desocupados. Cerca de 60% dos jovens de 14 a 25 anos não trabalham nem estudam e estão ativamente procurando emprego.
Está em nossas mãos, a partir de uma virada na política econômica a favor da maioria brasileira, implantar no Brasil o estado do bem-estar social, onde a cidadania goza e exerce direitos básicos de saúde, de educação, habitação, saneamento e lazer. Estes direitos sociais têm que ser garantidos para todos os brasileiros, inclusive para os que não têm herança ou são portadores de deficiências.
Todo aquele que assim o desejar deve ter direito ao trabalho remunerado e exercer uma atividade produtiva e gratificante. Disto emana uma diretiva forte para os planos de longo prazo. Têm que ser priorizados os serviços públicos essenciais, bem como todas as atividades ligadas às cadeias produtivas de bens e serviços da canastra popular. Embora a felicidade seja um conceito subjetivo, a ausência de condições materiais mínimas inviabiliza a realização pessoal de muitos compatriotas.
Tem o Brasil um povo tornado admirável. Objeto de desatenção crônica foi capaz de, no exercício de uma sobrevivência difícil, desenvolver traços generosos. É um povo sem arrogância. Não afronta ninguém com a exaltação de suas qualidades e diferenças. Pelo contrário, está sempre aberto à recepção do que lhe chega e de quem chega. É propenso a trocas sincréticas com as demais culturas e visitantes. Para sobreviver, assimila e é extremamente criativo. Sendo precária sua inserção no mundo do trabalho, valoriza o lugar de moradia. Faz do lugar o espaço de uma permanente socialização e desenvolve mecanismos de solidariedade. Não basta emprego e renda para superar a pobreza. Para a qualidade de vida é necessária a conviabilidade.
Esta é uma qualidade adquirida e consolidada na alma do povo brasileiro. A propensão à festa gigantesca, multiduniária, aberta a todos e sem violência, é a evidência inequívoca de que esta é uma qualidade praticada pelo popular brasileiro. Temos um povo que, tendo reduzidos preconceitos étnicos e religiosos, é capaz de construir uma civilização que renegue a violência.
É fundamental que o brasileiro, por uma pedagogia política, amplie tudo o que sabe e que pratica no lugar, para o âmbito da Nação. Sua fidelidade ao lugar será o fundamento de sua adesão ao primado do interesse nacional e à necessidade da robustez do Estado soberano.
O pior legado do neoliberalismo não é, sequer, a atual tragédia social. É o rebaixamento de nossa auto-estima, fazendo com que muitos do povo acreditem não poder aspirar a uma melhoria de vida. O maior crime do neoliberalismo é matar a esperança dos brasileiros no Brasil como um todo.

“É cancelada a aspiração de uma melhoria de vida em conjunto com os demais. Esta possibilidade é reduzida a uma selvagem competição com seu irmão e com a rejeição da solidariedade.”
O massacre ideológico da auto-estima só favorece a reprodução de privilégios injustos, para e pelas elites dominantes. Esta situação é apresentada como uma fatalidade pétrea. É cancelada a aspiração de uma melhoria de vida em conjunto com os demais. Esta possibilidade é reduzida a uma selvagem competição com seu irmão e com a rejeição da solidariedade.
A saída da crise não será formulada, apoiada ou implementada pelas elites dominantes. Exige a mobilização das instâncias e contra-elites próximas do próprio povo. Este será um ano decisivo, porque precede a sucessão presidencial. Será um desastre histórico insistirmos em um novo ciclo neoliberal. Por isso mesmo, o presidente Lula deve reavaliar suas alianças e visitar seu diagnóstico político-econômico. Eleito para mudar, ou ele muda ou perde sua base social.
Temos confiança em que o povo irá em frente, em busca do um novo projeto nacional para o Brasil, independentemente do Presidente Lula. Um povo que, a partir de uma prolongada ditadura, constituiu a democracia política sem derramamento de sangue certamente será capaz de utilizar as liberdades políticas conquistadas para constituir pacificamente a inclusão social no Brasil.
Os signatários deste manifesto conclamam o povo a acreditar, em primeiro lugar, na sua capacidade de intervir politicamente. Reiteram sua fidelidade ao ordenamento democrático como instrumento básico de aperfeiçoamento soberano e arbitragem de conflitos. Estão convencidos da potencialidade do Brasil e da qualidade de nosso povo. Os signatários saúdam iniciativas do tipo da Aliança Nacional Pelo Pleno Emprego e a correspondente Frente Parlamentar, que visam a mobilização da sociedade para uma nova política econômica.

Sobre o texto
Este texto é o esboço de um manifesto em favor do desenvolvimento sustentado brasileiro, alternativo ao modelo vigente. Ele é resultado de uma conversa realizada na casa de Roberto Requião, governador do Paraná, em Curitiba, e que reuniu Carlos Lessa, Darc da Costa, o Brigadeiro Ferolla, Bautista Vidal e o jornalista Benedito Pires Trindade.
Lessa reduziu a termos a conversa e produziu este texto, para que o leitor comente-o, critique-o, enriqueça-o.
Mande seu comentário: consciencia@consciencia.net
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