ENCALHE

janeiro 30, 2007

Tragédia do Metrô: Buraco do Serra?

Filed under: Carta Capital, Consórcio, Metrô, Serra — Humberto @ 12:30 pm
Jasson de Oliveira Andrade

2007 começaram mal para o governo Serra. O ano iniciou com o desmoronamento das obras do metrô, com sete vítimas, que se tornou conhecido como “buraco do Serra”. A jornalista Bárbara Gancia, em sua coluna na Folha, em nota sob o título “Nome aos bois”, discorda dessa designaçăo. Ela diz: “Năo entendi até agora por que andam chamando a cratera aberta no bairro de Pinheiros, onde ocorreu o desmoronamento das obras do metrô, de “buraco do Serra”.

Peraí, mas o Serra năo acabou de tomar posse? Năo seria mais apropriado chamar o orifício de “buraco do Alckmin”? Ou, entăo, ser mais preciso ainda e chamá-lo de “buraco da Odebrecht, da OAS, da Andrade Gutierrez, da Queiroz Galvăo e da Camargo Corrêa”? Sei que dá mais trabalho, mas falar em “Consórcio Via Amarela” năo é atenuar a responsabilidade de quem, de fato, está tocando a maldita obra?”
Um jornalista da regiăo, em sua coluna “Metralhadora”, estranhou esse consórcio: “É intrigante o fato das maiores construtoras do país estarem unidas, quando poderiam estar concorrendo entre si, proporcionando reduçăo de custos para a populaçăo, já que a Companhia do Metropolitano (METRÔ) é do Governo do Estado de Săo Paulo”. O mesmo jornalista constatou: “A obra, tida como o troféu do governo tucano [Alckmin], agora se transformou na pedra do sapato do governador José Serra”.

Na excelente reportagem da revista CartaCapital, “Autofagia à paulista”, publicou-se uma foto de Alckmin visitando a obra do metrô com essa legenda: PROPAGANDA: Na campanha presidencial, Alckmin exibiu a obra. Agora, preferiu silenciar”. Na citada reportagem, a revista diz: “A licitaçăo da Linha 4, feita sob a égide das Parcerias Público-Privado (PPPs), foi saudada pelo ex-governador e entăo candidato à Presidência Geraldo Alckmin como exemplo dos 12 anos de “boa gestăo” tucana no estado. Após a tragédia, Alckmin optou pelo silêncio. Deixou o pepino no colo do sucessor, o correligionário José Serra”.

Criticado pelo silêncio, Alckmin resolveu falar, dias depois, sobre a tragédia. E se saiu mal. Declarou à Folha que o modelo [turn key”] foi adotado por “exigência do Banco Mundial”. Mais tarde, informa o jornal, disse năo saber se fora exigência ou recomendaçăo do banco. Nem uma coisa, nem outra. Na Folha de 27 de janeiro, na matéria “Bird desmente Alckmin sobre o Metrô”, veio a explicaçăo: “O diretor do Bird (Banco Mundial) para o projeto do metrô de Săo Paulo, Jorge Rebelo, negou ontem [26/1] que o banco tenha “exigido” ou “sugerido” ao governo paulista a contrataçăo das obras da linha 4 por meio do modelo “turn key” (preço fechado)”. A escolha foi, entăo, de Alckmin. Sem comentários. Ou melhor, reveja o comentário do jornalista da regiăo, em sua coluna Metralhadora, sobre o consórcio. Penso da mesma maneira!

Voltando à matéria da CartaCapital (a VEJA preferiu colocar na capa um cachorro e năo a cratera), a revista tratou desse jogo de empurra, publicado antes da declaraçăo de Alckmin e do Banco Mundial: “O jogo de empurra quando se trata de apontar responsabilidades está diretamente ligado ao atual modelo de gestăo da cidade. Cada vez mais, săo os interesses privados que direcionam as decisơes publicas. O arquiteto Nabil Bonduki, professor da USP e ex-vereador, questiona, por exemplo, a opçăo por um metrô subterrâneo, às margens do Rio Pinheiros. “Sabe-se que aquele é um solo de difícil estabilizaçăo. As outras linhas de Metrô da cidade, ao atravessar os fundos de vale, viram áreas”, diz Bonduki. “No caso de Pinheiros, o Metrô fez uma opçăo de alto risco. E por que? A meu ver, porque, ao contrário de outras regiơes em que há linhas aéreas, a Faria Lima é uma regiăo de expansăo do mercado imobiliário. É mais um exemplo da segregaçăo da cidade. O que se temia é que a linha aérea desvalorizasse aquele pedaço”, aposta Bonduki. É importante anotar que o metrô aéreo implica em mais desapropriaçơes. Ou seja, tende a aumentar os custos das obras” Fica mais barato e se protege o setor imobiliário, mas năo se evitou a tragédia. Benedito Lima Toledo, professor de História da Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da FAU-USP, declarou à CartaCapital: “Essa tragédia representa um grande prejuízo para o País. O conceito da engenharia brasileira caiu para índices que eu năo sei avaliar. Aquilo năo foi imprevisto da natureza, mas um grave evento que macula a imagem da engenharia brasileira. Esse consórcio năo obedeceu às normas da boa técnica e, além disso, ignorou as rachaduras das casas próximas, năo se preocupando com os moradores. (…) Isso é fruto de um incrível descaso com a populaçăo”.Se José Serra năo tem culpa pela tragédia, o mesmo năo se pode dizer do governo tucano que administrou Săo Paulo por 12 anos. É um “buraco tucano”!

Jasson de Oliveira Andrade é jornalista em Mogi Guaçu
Postado por Redaçăo Portal Mogi

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