ENCALHE

março 18, 2008

UMA COMPARAÇÃO LEVIANA, por Rui Martins

Direto da Redação
13/03/08
Berna (Suiça) – Desta vez, o que me chamou a atenção foi um texto distribuído pela Internet para emigrantes brasileiros na Suíça e Alemanha. Um texto do respeitável e competente Elio Gáspari, cujos livros da série Ditadura, adquiri nas minhas últimas viagens ao Brasil. O texto publicado na Folha de SP, comparando o que uma vítima do atentado de 20 de março de 1968 contra a embaixada americana em São Paulo, recebe do INSS, quando perdeu uma perna, com a aposentadoria paga a um dos autores do atentado pela Anistia. Elio Gaspari, jornalista e escritor, faz uma comparação, fora do contexto da época, e leva os leitores a um julgamento fácil e rápido, de culpado e inocente. Com esse mesmo tipo de argumentação se poderia condenar os resistentes ao nazismo na França ocupada. Os culpados pelos massacres de inocentes cometidos pelos nazistas em represália a atentados contra os ocupantes teriam sido os resistentes.
Fazer uma comparação entre indenizações decididas, 40 anos depois, omitindo o clima reinante na época da ditadura militar e aproveitando para colocar em questão o que animava a extrema esquerda contra a ditadura, não é nada correto. Conhecedor da situação como poucos, Gaspari optou por uma argumentação minimalista e, por isso leviana, que ignora o complexo quadro daqueles anos de chumbo.
Logo no começo da invasão americana ao Iraque, declarei, nas rádios em que falava e onde escrevia, que sempre chamaria os iraquianos de resistentes aos invasores e nunca de terroristas. Durante a ditadura militar, onde muita gente boa se enrustiu, não havia terroristas (essa era a designação dada pela governo e imprensa golpistas) mas resistentes. Idealistas, sonhadores, iludidos, irresponsáveis, tudo isso pode se discutir, mas, no caminho certo ou errado, eram movidos pelo desejo de resistir a uma situação ilegal, criada depois da deposição de um presidente e por instigação americana.
E pagaram caro por isso. Uma parte morreu, outros foram torturados e sofrem sequelas até hoje. Outros que não aderiram à luta armada mas que contestavam o regime tiveram de fugir e perderam carreira, vivendo e sofrendo o exílio. Diógenes, citado como um malvado premiado, sofreu torturas e, no exílo na África, apanhou malária, outro tipo de tortura permanente.
É dentro desse mesmo raciocínio que defendo a concessão da condição de refugiado ao italiano Cesari Battisti, ativista de uma facção de luta armada italiana, preso no Brasil e sob ameaça de extradição. Na verdade, existe hoje no Brasil, por parte da grande imprensa, a quase totalidade daquela que aderiu aos militares, uma campanha para desestablizar o governo, que apesar de numerosos erros, vem favorecendo o grande segmento da população pobre antes esquecido. E, pelo jeito, surge uma tendência negacionista, movida por uma lamentável vontade de reescrever a história. Isso faz parte da democracia, o debate franco ou desleal, porém, não se pode esquecer que no Brasil não existe imprensa de esquerda, que poderia defender o outro ângulo. Existem apenas alguns sites, jornais e revistas mantidos no benevolato, enquanto a direita dispõe de televisões, rádios e jornais de grande tiragem numa espécie esdrúxula de ditadura democrática da informação.

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