AEN/ PR
05/06/2009
O economista Carlos Lessa, ex-reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ex-presidente do BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, disse nesta sexta-feira (5), ao participar da terceira edição do seminário “Crise – Desafios e Estratégias”, no Canal da Música, em Curitiba, que a crise mundial está longe de acabar e que seus efeitos serão sentidos por muitos anos. “Eu diria que a crise, como foi previsto desde o seu início, será duradoura. Vai ser muito difícil superá-la. A nível mundial eu diria que a crise continua se desenvolvendo. Algumas das medidas que o Brasil assumiu, tiveram o efeito de mitigar consequências, porém nós não conseguimos ainda construir os anticorpos em relação aos efeitos da crise e a prova disso é o surgimento destes movimentos alucinados que a taxa de câmbio vem fazendo no País”, disse. Quanto ao fato de a taxa de desemprego nos Estados Unidos em maio ter aumentado menos que o previsto – a previsão era que mais de 500 mil postos de trabalho seriam fechados e ficou em 350 mil –, Lessa afirmou que “não existem pequenas saídas ou saídas mágicas para a crise”. “A crise tem seus altos e baixos. A cotação das ações em Wall Street somente recuperou os níveis pré 1929 em 1952. As empresas, principalmente as de grande porte, sofreram muito com esta crise e vão demorar muito para se recuperarem”, disse.
Em relação ao Brasil, Carlos Lessa destacou que o País adotou até agora medidas, muitas delas corretas, para diminuir o impacto da crise. “No entanto, não adotamos ainda nenhuma política para superar a crise e construir um projeto brasileiro de desenvolvimento. Isto não fizemos”, apontou. A grande preocupação do economista continua sendo as reservas cambiais, que segundo ele tiveram uma redução de cerca de 25% desde que foi deflagrada a crise mundial. “Fico preocupadíssimo com este movimento espasmódico da taxa de câmbio, que impedem qualquer planejamento adequado da atividade produtiva. De certa maneira é como se estivéssemos abertos às emanações da especulação financeira mundial. Já queimamos muito desta reserva. Ninguém sabe ao certo quanto foi gasto. Eu calculo em torno de 25%, mas as reservas brasileiras ainda são robustas”, disse. Lessa continua achando que o País deve aproveitar suas reservas cambiais para investir em obras de infraestrutura e assim gerar empregos: “Essas obras são fundamentais. É importante melhorar a matriz logística de transporte, que é o atual ponto fraco da economia brasileira. Temos uma matriz predominantemente rodoviária e o custo do transporte rodoviário é quatro a cinco vezes mais alto que o ferroviário e hidroviário. Isto vem tirando a produtividade da economia brasileira. Portanto, se nós remontássemos a nossa matriz de transportes poderíamos fazer uma verdadeira revolução de produtividade no País e melhorar e muito o padrão de vida da população”. Por último, Carlos Lessa fez questão de ressaltar que o Brasil deve enfrentar a presente crise de olho no futuro, preservando suas reservas cambiais e o petróleo da camada pré-sal. “A coisa mais importante para o Brasil é o seu futuro. É a questão do pré-sal e da economia do petróleo, que representam para o Brasil uma grande fronteira de expansão. Mas que também representam uma grande ameaça para a Nação. Seria terrível se o Brasil se tornasse exportador de petróleo. Agora, se o utilizarmos para desenvolver forças produtivas do Brasil, temos aí uma frente espetacular de expansão que pode levar o País rapidamente a ocupar um posto relevante a nível mundial e permitir a adoção de políticas sociais adequadas. Portanto, acho que o Brasil pode ser um dos primeiros países a superar a crise e encontrar uma trajetória própria de expansão”, finalizou.
Requião ressalta a importância de visão alternativa sobre crise
O governador Roberto Requião abriu nesta sexta-feira (5) o seminário “Crise – Desafios e Estratégias” com um balanço da crise do capitalismo financeiro e dos dois debates sobre o assunto realizados pelo Governo do Paraná desde dezembro de 2008.
“Esta é a terceira fase dos seminários de acompanhamento da crise que realizamos, sob a perspectiva de criar uma alternativa aos debates oficiais, em que teóricos do neoliberalismo deitam falação para tentar consertar o estrago que eles mesmos causaram”, disse, no Canal da Música, em Curitiba.
“Já na primeira edição do seminário, dizíamos não querer uma solução lampedusiana, aquele em que muda-se alguma coisa para se deixar tudo como está”, disse o governador a uma plateia de 250 pessoas. Participam do evento os economistas Carlos Lessa, Reinaldo Gonçalves e César Benjamin, e o presidente da Associação Paranaense de Supermercados (Apras), Joanir Zonta.
“Nos seminários anteriores, ouvimos a proposta de reduzir os juros, ainda muito altos no Brasil – no Japão, hoje a taxa de juros é zero. Ouvimos que é preciso fomentar o financiamento à economia, aumentar a geração de empregos e de salários, com investimentos. O Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) sinaliza isso, mas ainda é uma medida modesta”, afirmou Requião. “Aprendemos que é preciso desvincular nosso comércio das moedas fortes, do dólar, da libra, do euro, e criar a moeda sul-americana. O governo federal já sinalizou nesse sentido, criando moeda gráfica com a Argentina”, disse.
“A grande imprensa já não fala mais na crise. Mas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, admitiu que País vive recessão técnica, pois nossa economia registrou decréscimo da produção por três meses consecutivos”, alertou o governador.
“A crise atual nasce em Bretton Woods, na conferência pós-Segunda Guerra, que tornou o dólar a moeda padrão da economia mundial. Em seguida, extinguiu-se a vinculação dólar-ouro, ao mesmo tempo em que os EUA se apropriaram do conhecimento científico e tecnológico mundial, consolidado em patentes, fazendo com que suas empresas crescessem de forma extraordinária”, lembrou Requião.
“Com isso, o dólar sem lastro passou a comprar empresas, bancos e investimentos em todo o mundo. Os EUA acumulam capitais fantásticos, mas sem aumentar igualmente os salários dos seus trabalhadores. Assim, criaram-se empecilhos ao funcionamento da economia – sem consumo, a produção não avança. Assim, surgem os empréstimos aos trabalhadores, que dão origem ao subprime, com juros altos e prazos longos”, explicou.
“E a economia seguiu a girar, até que trabalhador viu que não teria mais como pagar os empréstimos que tomou. Essa inadimplência provocou o desabamento de um castelo de cartas. Se pudéssemos calcular hoje o que circula em dólares sem lastros e em títulos derivativos no mundo, veríamos 30 ou 40 vezes mais dinheiro que o PIB de todo o planeta”, disse o governador.
Economista da UFRJ diz que Brasil necessita de políticas estruturantes para enfrentar crise
Economista da UFRJ diz que Brasil necessita de políticas estruturantes para enfrentar crise
O Brasil não tem políticas estruturantes para enfrentar a crise, ao contrário do resto do mundo, disse o professor de Economia Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-doutor em Economia pela University of Reading (Inglaterra) Reinaldo Gonçalves. Ele participou nesta sexta-feira (5) do seminário “Crise – Desafios e Estratégias”, promovido pelo Governo do Paraná no Canal da Música, em Curitiba. Para Gonçalves, o governo federal tem adotado o que ele chama de “linha de menor resistência”, com políticas de afrouxamento de liquidez e políticas fiscais expansionistas. “Isso é o mais simples e o que todo o mundo está fazendo. O problema é que, quando o governo federal acerta, o faz em doses modestas, insuficientes. E as medidas (de apoio) são dirigidas aos setores dominantes: o agronegócio, as empreiteiras e os bancos. Nada tem sido feito para a garantia de emprego e renda do trabalhador, por exemplo”, criticou. Segundo Gonçalves, o Brasil possui uma economia desregulamentada, marcada pelos processos de privatização e pela flexibilização do mercado, que caracterizam o que ele chama de “modelo neoliberal periférico, de terceira categoria”, deixando o País cada vez mais vulnerável. “Essa liberalização na esfera comercial, produtiva, tecnológica, monetária e financeira vem desde os anos 1990, agravada no governo de Fernando Henrique e aprofundada pelo governo Lula”, afirmou. “Não há nada para parar a liberalização, a desregulamentação e a privatização. Há ausência de diretrizes e estratégias do país. Não se pensa o país para frente”, disse. Gonçalves acredita que o Projeto de Aceleração do Crescimento (PAC) tem reflexos insignificantes no enfrentamento da crise e não irá impedir a desaceleração do crescimento.
“Os investimentos do PAC equivalem a 1,1% do PIB brasileiro, e foram projetados sob um crescimento nacional esperado em 5,5%. Teremos, no período do PAC, 2,9% de crescimento. Ao invés de termos aceleração, teremos uma desaceleração de crescimento”, disse.
Em relação ao BNDES, o economista afirmou que os grandes projetos estão focados em commodities, reforçando a vulnerabilidade externa brasileira, o modelo periférico e a reprimarização das exportações. “No mercado de commodities, quando o ciclo econômico sobe, este mercado sobe, mas quando cai, ele despenca. Então, quando os preços mundiais de manufaturados caírem 1%, os de commodities cairão 27%. Sendo assim, os projetos são cancelados. É isso o que está acontecendo no Brasil, formando uma logística ineficiente.”
Além disso, o preço das commodities está caindo 28% e reflete nos estados dependentes da exportação destes produtos, como os do Norte e Nordeste brasileiros, conforme destacou Gonçalves. “Sendo assim, cai a renda, a produção e o consumo. O mercado interno também é dependente do que acontece lá fora”.
Para Gonçalves, as reservas brasileiras monetárias de US$ 180 bilhões são uma “blindagem de papel crepon”. Segundo ele, o último dado do Banco Central do Brasil mostra que o País tem um passivo externo de US$ 1,6 trilhão, sendo que um terço é de investimento externo direto, um terço de investimento externo indireto e o restante são dívidas. “Isso significa que, se olharmos só a curto prazo, o ativo dá mais de US$ 500 bilhões. Portanto, reserva não segura nada. Isso pode ser comprovado pelo fato de que o Brasil foi o país que teve a a maior desvalorização cambial do mundo, de 1,54 para 2,58, e uma das maiores volatilidades do câmbio”, avaliou.
PROJEÇÃO – Gonçalves acredita que “o Brasil tem desempenho medíocre desde os anos 1980”. “Enquanto a economia mundial registra crescimento entre 2003 e 2007, a brasileira subiu menos. E, quando a economia mundial encolhe, a brasileira cai ainda mais”, disse. O economista lembrou que, no primeiro mandato de Lula, a taxa de crescimento médio anual ficou em 3,9% – nos países em desenvolvimento, foi de 6,6%. No segundo mandato, a taxa de crescimento médio anual do PIB será de 2,9%, “abaixo da média de crescimento da economia brasileira desde 1989, que é de 4,4%”.
Ainda de acordo com dados apresentados pelo economista, o FMI prevê crescimento do negativo para o Brasil em 2009 – 1,3% negativo, sendo que os países em desenvolvimento devem crescer 1,6%. Em 2010, a previsão é que o Brasil cresça 2% e os países emergentes, 4%. “Ficaremos piores do que eles. Esta é uma previsão otimista e, mesmo assim, os resultados são medíocres”, disse. Diante deste cenário, Gonlçalves apontou algumas das ideias defendidas quando a crise começou e que caíram por terra. “Se falava que o Brasil dependia menos dos EUA e, portanto, quando a locomotiva descarrilasse, estaríamos protegidos. O argumento é que nossas exportações para os EUA representavam 22% da receita de exportação, e agora são 15%. Erro absoluto, porque ficamos menos dependentes deles, mas mais da China”, disse.
Para Gonçalves, depender da China é pior que depender dos EUA, pois os asiáticos compram basicamente commodities brasileiras, enquanto os norte-americanos importam manufaturados e semi-manufaturados, intensivos em mão de obra e capital. Outro ponto é referente ao mercado interno brasileiro. Ele afirma que o alto grau de internacionalização das empresas representa um grave problema, porque faz parte de uma cadeia de distribuição de produção, com empresas filiais de empresas internacionais. “Quando há problemas na matriz, ela reconfigura suas estratégias globais e isso certamente traz impacto para as subsidiárias. Portanto, há impacto na renda, no emprego e no consumo. O argumento da robustez do mercado interno independente da conjuntura internacional não se sustenta em função dessa vulnerabilidade da economia brasileira”, afirmou.
Reinaldo Gonçalves participou da mesa “Impactos da Crise no Brasil”, no seminário \”Crise – Desafios e Estratégias”, promovido pelo Governo do Paraná, no Canal da Música, em Curitiba. Gonçalves é professor titular de Economia Internacional do Instituto de Economia da UFRJ desde 1993. É livre docente em Economia Internacional também pela UFRJ (1991), tem mestrado em Economia pela Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV, 1976), e em Engenharia da Produção pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação (1974), da UFRJ, além de ser bacharel em Economia pela UFRJ (1973).

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