novembro 23, 2007
Chávez e o Império.
novembro 16, 2007
Campanha "América Latina não se cala" defende a soberania da região
16/11/07
( Gravura surrupiada – por uma boa causa, acho – em Machupiccu.com.br )
Para os signatários do primeiro comunicado da Campanha, mais do que o fato de Chávez ter se referido ao ex-presidente espanhol como fascista, o que irrita ao rei da Espanha e aos demais “representantes de uma mentalidade colonial” é o discurso do líder venezuelano que reivindica a recuperação dos recursos naturais e dos serviços básicos pelos países da América Latina, iniciado por governos – além do venezuelano, o boliviano, o equatoriano, entre outros – emergidos em processos de refundação nacional.
“Não nos enganemos, são os interesses mesquinhos dos banqueiros e acionistas que representam e não a honra dos espanhóis, os que conduzem o líder de um partido ‘socialista e trabalhista’ e a um monarca não eleito a compartilhar a defesa do criminoso de guerra José María Aznar”, disse o comunicado divulgado ontem (15), em todo o mundo.
A Cúpula, segundo os intelectuais, pretendia argumentar que a pobreza, a exclusão e a marginalidade, nas quais está afundada a maioria do continente não são responsabilidades das antigas metrópoles coloniais, nem da continuidade dessa dominação pelas transnacionais européias e norte-americanas.
“É hora de que entendam para sempre, os que pretendem frear as mudanças imprescindíveis na América Latina, que proclamamos nossa solidariedade àqueles que as promovem e as defendem”, disse o comunicado.
A Campanha teve início para mostrar que a América Latina vive “um outro tempo” e, agora, as vozes dos índios, dos oprimidos, dos esquecidos entraram definitiva e crescentemente no cenário político ibero-americano. Vozes essas, que não serão caladas “nem por monarcas, nem por neoliberais disfarçados de esquerdistas”.
O episódio
No último sábado (10), o presidente venezuelano chamou Aznar de “um verdadeiro fascista” e criticou o presidente da companhia elétrica espanhola União Fenosa, que em abril de 2002 apoiou o golpe de estado na Venezuela, contra Hugo Chávez, promovido pelos empresários do país e pelos grandes meios de comunicação.
Quando o atual líder espanhol fez a defesa de seu antecessor, Chávez ratificou sua posição, o que provocou a fala do rei Juan Carlos.
novembro 14, 2007
"Olha que eu mando o Pizarro* aí, hein, OPS…Por quê não se cala?"
Mauro Santayana
Em 2002, em Madri, Aznar atreveu-se a dar ordens ao presidente Eduardo Duhalde, da Argentina, para que aceitasse e cumprisse as exigências do FMI. Reincidiu na grosseria, ao telefonar a Buenos Aires, logo depois, como um dono de fazenda telefona para seu capataz, a fim de determinar-lhe a assinatura imediata do acordo com o órgão.
Conforme disse o próprio ministro de Relações Exteriores da Espanha, Miguel Angel Moratinos, Aznar deu ordens ao embaixador da Espanha em Caracas para que apoiasse o golpe contra Chávez em 2002. Com o presidente eleito preso pelos golpistas, o embaixador foi o primeiro a cumprimentar o empresário Pedro Carmona, que, também com o entusiasmado aplauso do representante dos Estados Unidos, tomava posse do governo, para ser desalojado do Palácio de Miraflores horas depois.
Não se pode pedir a Chávez que trate bem o ex-primeiro ministro espanhol, embora talvez lhe tivesse sido melhor ignorá-lo no encontro de Santiago. Mas, como comentou, na edição de ontem de El País, o jornalista Peru Egurdide, há um crescente mal-estar na América Latina com a presença econômica espanhola, identificada como “segunda conquista”. A Espanha opera hoje serviços como os bancários, de água, energia, telefonia e estradas, que não satisfazem os usuários. Ainda na noite de sexta-feira, em reunião fechada, Lula e Bachelet trataram do assunto com Zapatero, de forma veemente – longe dos jornalistas.
Mas se Chávez, mestiço venezuelano, homem do povo, fugiu à linguagem diplomática, o rei Juan Carlos foi imperial e grosseiro, ao dizer-lhe que se calasse. O rei, criado por Franco, tem deixado a majestade de lado para intervir cada vez mais na política espanhola – conforme o El País critica em seu editorial de ontem. Em razão disso, as reivindicações federalistas dos povos espanhóis (sobretudo dos catalães e dos bascos) se exacerbam e indicam uma tendência para a forma republicana de governo. Pequenos episódios revelam o conflito latente entre os espanhóis e seu rei. Já em 1981, quando do frustrado golpe contra o Parlamento Espanhol, o comportamento de sua majestade deixou dúvidas. Ele levou algumas horas antes de se definir pela legalidade democrática. Para muitos, o golpe chefiado por Millan del Bosch pretendia que todos os poderes fossem conferidos a Juan Carlos, em um franquismo coroado.
Os dirigentes latino-americanos tentarão, diplomaticamente, amenizar a repercussão do estrago, mas o “cala a boca” de Juan Carlos doeu em todos os homens honrados do continente. O rei atuou com intolerável arrogância, como se fossem os tempos de Carlos V ou Filipe II. A linguagem de Zapatero foi de outra natureza: pediu a Chávez que moderasse a linguagem. Como súdito em um regime monárquico, não pôde exigir de Juan Carlos o mesmo comportamento – o que seria lógico no incidente.
Durante os últimos anos de Franco, a oposição republicana espanhola se referia ao príncipe com certo desdém, considerando-o pouco inteligente. Na realidade, ele nada tinha de bobo, mas, sim, de astuto, vencendo outros pretendentes ao trono e assumindo a chefia do Estado. Agora, no entanto, merece que a América Latina lhe devolva, e com razão, a ofensa: é melhor que se cale.”
Jornal do Brasil

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