ENCALHE

março 4, 2009

"Contra a guerra de Cuba", por Alexandre Hecker

VIA POLÍTICA
Nós, brasileiros em geral e a nossa imprensa, desde os menores até os grandes veículos de comunicação, repudiamos a atuação do Estado de Israel na guerra contra o Hamas, que martirizou a população de Gaza. Nada mais acertado. Entretanto, vivemos aqui, no Continente americano, uma outra guerra, igualmente reprochável e que deveria merecer o mesmo repúdio de outros conflitos. Refiro-me à guerra que os Estados Unidos da América do Norte deflagram cotidiana e obstinadamente contra Cuba, e que agora, com Obama, pode, talvez, conhecer amenização. É bem verdade que uma velha questão ideológica implícita na avaliação da ilha dos barbudos, e praticamente ausente no conflito do Oriente Médio, contribui decisivamente para embaralhar o entendimento dos papéis representados pelas personagens envolvidas e, assim, dificultar a tomada de posição em favor de Cuba. Há opinião generalizada contra o comunismo, que a ilha caribenha estampa como seu regime. Porém, hoje em dia, isto é apenas uma formalidade, vazia. Na verdade Cuba não é mais comunista, se é que foi em algum momento. Quer dizer, se entendemos comunismo como uma proposta humanitária do século XIX para constituir uma sociedade próspera e solidária, na qual uma perfeita integração entre os interesses individuais e coletivos se compusessem harmonicamente, é forçoso reconhecer que esta utopia permaneceu no “céu brumoso da vã filosofia”. Não apenas em Cuba, mas por todos os lugares onde invocaram seu nome. Por outro lado, se quisermos entender comunismo como um “socialismo realmente existente”, é possível afirmar que diversos tipos de regimes político-econômicos, entre si díspares e conflitantes, caberiam na identificação, tornando anódino o conceito. Portanto, por impropriedade do critério, temos que Cuba e comunismo não são de obrigatória sinonímia, como o senso comum avalia. Além disto, e de maneira dramática, um contato direto com as condições dos cidadãos cubanos, agora por ocasião da comemoração dos 50 anos de sua Revolução, joga por terra qualquer aproximação entre o conceito teórico de comunismo e a realidade vivenciada contemporaneamente naquele país.
Em definitivo, Cuba não é um “país terrorista” como a passada administração norte-americana quis qualificar. Não há razão para temer as declarações grandiloquentes de Fidel Castro ou outros líderes que se autodenominam comunistas, mas cuja preocupação fundamental – e justificável – é proteger o país, é patriótica. Tanto assim que está espalhado por toda a Havana o dístico “Patria o muerte. Venceremos!”
Havana hoje é uma cidade em escombros, flagelada pelo “bombardeio” econômico cerceador dos Estados Unidos. Seus cidadãos, orgulhosos de suas conquistas sociais nas áreas da educação e da saúde pública, e altaneiros pela história de glórias revolucionárias conquistadas, não são muito mais do que favelados e maltrapilhos, carentes das mais comezinhas necessidades de consumo: sabão, óleo de cozinha, leite, roupas etc. Uma simples caminhada por Havana revela a deterioração dos prédios, públicos ou privados, nos quais o revestimento desabou em parte e a instalação elétrica está danificada. As ruas, com calçamento em decomposição, têm a sujeira e a desorganização imperando. As habitações, verdadeiros cortiços, em boa parte, carecem de iluminação por efeito da campanha de economia de eletricidade necessária para impedir o colapso total do sistema. Carros de museu, quase sempre com motores desregulados, provocam tal poluição que, mesmo para um paulistano acostumado a parar em congestionamentos, resulta em tremendo desconforto. Pormenores da vida social podem dar a conhecer a situação de penúria social generalizada: na biblioteca central da Universidade de Havana os banheiros, em estado de pré-demolição, constantemente não dispõem de água; o acesso aos poucos e lentos computadores disponíveis depende de longas filas que os alunos devem enfrentar para aproveitá-los; universitários fazem cursos apenas teóricos de, por exemplo, fotografia, pois não há máquinas para praticar; comumente as pessoas na rua, trabalhadores – não os mendigos, que não os há em Cuba – abordam os estrangeiros para pedir-lhes que lhes comprem leite ou farinha; a mais conhecida sorveteria da cidade, La Coppellia, um dos poucos passeios possíveis para o habitante de Havana além de ir ao cinema, baratíssimo, e de dançar em algum clube precário, serve um sorvete medíocre que, no entanto, é elevado à categoria de iguaria. Claro que há uma Cuba para turistas absolutamente alheios à condição do país e que são muito bem-vindos, pois constituem mais da metade do aporte de dinheiro para a ilha. Estes estrangeiros localizam-se em Varadero, nos Cayos e em outros lugares paradisíacos. O cubano quase nem tem contato com eles, a não ser os taxistas, os garçons e as prostitutas. O rol de situações e ocasiões reveladoras da penúria social é interminável.
Convidado a ir à casa de uma colega, professora da Universidade, casada com um subdiretor da TV local, não apenas percebi que seria minha obrigação comprar o pão, o leite, o café, o queijo, a mortadela, enfim tudo o que fosse servido, como dela ouvi a solicitação – certamente muito constrangida, mas premida pela necessidade – de lhe comprar no mercado negro um litro de óleo. A sua libreta – uma caderneta onde se discriminam os produtos básicos distribuídos pelo Estado livremente a todos os cubanos – não havia sido suficiente para cobrir a alimentação do mês inteiro e o seu salário, aproximadamente duzentos reais, não oferecia “sobra” disponível. Não obstante a guerra, a sociedade cubana não apresenta altos índices de violência e, em relação ao nosso país, ostenta um padrão de saúde e educação invejáveis. Assim, o povo cubano é saudável, asseado, culto, criativo e sua música manifesta uma alegria atávica que cativa a todos. O Brasil do presidente Lula, e do ministro Celso Amorim, tem promovido avanços nas relações bilaterais com Cuba, mas ainda há muito por fazer. É possível negociar tecnologia na área petrolífera e para fabricação de lubrificantes, oferecer créditos para o fomento à venda de alimentos, tão necessários àquele país, ensinar-lhes a cultivar soja etc. São medidas não paternalistas que resultarão em benefícios mútuos e, certamente, contribuirão para que o Brasil não apenas consolide uma posição política de força na geopolítica latino-americana, mas contribua para solucionar uma injustiça internacional.
Enquanto a América Latina, apesar dos pesares, vive um período de paz e progresso, os cubanos padecem na carestia. O primeiro passo que se pode dar para superar esta situação é conhecer sem rodeios a condição suportada pelo país, submetido há 50 anos a um absurdo bloqueio econômico. Depois, consequentemente, contar com a adesão veemente dos brasileiros para a promoção de mudanças fundamentais em nosso continente.
27/2/2009
Fonte: ViaPolítica
O autor Frederico Alexandre Hecker, professor de história contemporânea da Unesp e do Mackenzie, é autor de Socialismo sociável: história da esquerda democrática em São Paulo – S. Paulo: Edunesp, 1998; Um socialismo possível: a trajetória de Antonio Piccarollo em São Paulo – S. Paulo: Queiroz Ed., 1989; e Revolução Russa: uma história em debate – S. Paulo: Expressão e Arte Ed., 2007.
Veja as fotos de Havana, por Frederico Alexandre Hecker, em ViaPolítica

"Contra a guerra de Cuba", por Alexandre Hecker

VIA POLÍTICA
Nós, brasileiros em geral e a nossa imprensa, desde os menores até os grandes veículos de comunicação, repudiamos a atuação do Estado de Israel na guerra contra o Hamas, que martirizou a população de Gaza. Nada mais acertado. Entretanto, vivemos aqui, no Continente americano, uma outra guerra, igualmente reprochável e que deveria merecer o mesmo repúdio de outros conflitos. Refiro-me à guerra que os Estados Unidos da América do Norte deflagram cotidiana e obstinadamente contra Cuba, e que agora, com Obama, pode, talvez, conhecer amenização. É bem verdade que uma velha questão ideológica implícita na avaliação da ilha dos barbudos, e praticamente ausente no conflito do Oriente Médio, contribui decisivamente para embaralhar o entendimento dos papéis representados pelas personagens envolvidas e, assim, dificultar a tomada de posição em favor de Cuba. Há opinião generalizada contra o comunismo, que a ilha caribenha estampa como seu regime. Porém, hoje em dia, isto é apenas uma formalidade, vazia. Na verdade Cuba não é mais comunista, se é que foi em algum momento. Quer dizer, se entendemos comunismo como uma proposta humanitária do século XIX para constituir uma sociedade próspera e solidária, na qual uma perfeita integração entre os interesses individuais e coletivos se compusessem harmonicamente, é forçoso reconhecer que esta utopia permaneceu no “céu brumoso da vã filosofia”. Não apenas em Cuba, mas por todos os lugares onde invocaram seu nome. Por outro lado, se quisermos entender comunismo como um “socialismo realmente existente”, é possível afirmar que diversos tipos de regimes político-econômicos, entre si díspares e conflitantes, caberiam na identificação, tornando anódino o conceito. Portanto, por impropriedade do critério, temos que Cuba e comunismo não são de obrigatória sinonímia, como o senso comum avalia. Além disto, e de maneira dramática, um contato direto com as condições dos cidadãos cubanos, agora por ocasião da comemoração dos 50 anos de sua Revolução, joga por terra qualquer aproximação entre o conceito teórico de comunismo e a realidade vivenciada contemporaneamente naquele país.
Em definitivo, Cuba não é um “país terrorista” como a passada administração norte-americana quis qualificar. Não há razão para temer as declarações grandiloquentes de Fidel Castro ou outros líderes que se autodenominam comunistas, mas cuja preocupação fundamental – e justificável – é proteger o país, é patriótica. Tanto assim que está espalhado por toda a Havana o dístico “Patria o muerte. Venceremos!”
Havana hoje é uma cidade em escombros, flagelada pelo “bombardeio” econômico cerceador dos Estados Unidos. Seus cidadãos, orgulhosos de suas conquistas sociais nas áreas da educação e da saúde pública, e altaneiros pela história de glórias revolucionárias conquistadas, não são muito mais do que favelados e maltrapilhos, carentes das mais comezinhas necessidades de consumo: sabão, óleo de cozinha, leite, roupas etc. Uma simples caminhada por Havana revela a deterioração dos prédios, públicos ou privados, nos quais o revestimento desabou em parte e a instalação elétrica está danificada. As ruas, com calçamento em decomposição, têm a sujeira e a desorganização imperando. As habitações, verdadeiros cortiços, em boa parte, carecem de iluminação por efeito da campanha de economia de eletricidade necessária para impedir o colapso total do sistema. Carros de museu, quase sempre com motores desregulados, provocam tal poluição que, mesmo para um paulistano acostumado a parar em congestionamentos, resulta em tremendo desconforto. Pormenores da vida social podem dar a conhecer a situação de penúria social generalizada: na biblioteca central da Universidade de Havana os banheiros, em estado de pré-demolição, constantemente não dispõem de água; o acesso aos poucos e lentos computadores disponíveis depende de longas filas que os alunos devem enfrentar para aproveitá-los; universitários fazem cursos apenas teóricos de, por exemplo, fotografia, pois não há máquinas para praticar; comumente as pessoas na rua, trabalhadores – não os mendigos, que não os há em Cuba – abordam os estrangeiros para pedir-lhes que lhes comprem leite ou farinha; a mais conhecida sorveteria da cidade, La Coppellia, um dos poucos passeios possíveis para o habitante de Havana além de ir ao cinema, baratíssimo, e de dançar em algum clube precário, serve um sorvete medíocre que, no entanto, é elevado à categoria de iguaria. Claro que há uma Cuba para turistas absolutamente alheios à condição do país e que são muito bem-vindos, pois constituem mais da metade do aporte de dinheiro para a ilha. Estes estrangeiros localizam-se em Varadero, nos Cayos e em outros lugares paradisíacos. O cubano quase nem tem contato com eles, a não ser os taxistas, os garçons e as prostitutas. O rol de situações e ocasiões reveladoras da penúria social é interminável.
Convidado a ir à casa de uma colega, professora da Universidade, casada com um subdiretor da TV local, não apenas percebi que seria minha obrigação comprar o pão, o leite, o café, o queijo, a mortadela, enfim tudo o que fosse servido, como dela ouvi a solicitação – certamente muito constrangida, mas premida pela necessidade – de lhe comprar no mercado negro um litro de óleo. A sua libreta – uma caderneta onde se discriminam os produtos básicos distribuídos pelo Estado livremente a todos os cubanos – não havia sido suficiente para cobrir a alimentação do mês inteiro e o seu salário, aproximadamente duzentos reais, não oferecia “sobra” disponível. Não obstante a guerra, a sociedade cubana não apresenta altos índices de violência e, em relação ao nosso país, ostenta um padrão de saúde e educação invejáveis. Assim, o povo cubano é saudável, asseado, culto, criativo e sua música manifesta uma alegria atávica que cativa a todos. O Brasil do presidente Lula, e do ministro Celso Amorim, tem promovido avanços nas relações bilaterais com Cuba, mas ainda há muito por fazer. É possível negociar tecnologia na área petrolífera e para fabricação de lubrificantes, oferecer créditos para o fomento à venda de alimentos, tão necessários àquele país, ensinar-lhes a cultivar soja etc. São medidas não paternalistas que resultarão em benefícios mútuos e, certamente, contribuirão para que o Brasil não apenas consolide uma posição política de força na geopolítica latino-americana, mas contribua para solucionar uma injustiça internacional.
Enquanto a América Latina, apesar dos pesares, vive um período de paz e progresso, os cubanos padecem na carestia. O primeiro passo que se pode dar para superar esta situação é conhecer sem rodeios a condição suportada pelo país, submetido há 50 anos a um absurdo bloqueio econômico. Depois, consequentemente, contar com a adesão veemente dos brasileiros para a promoção de mudanças fundamentais em nosso continente.
27/2/2009
Fonte: ViaPolítica
O autor Frederico Alexandre Hecker, professor de história contemporânea da Unesp e do Mackenzie, é autor de Socialismo sociável: história da esquerda democrática em São Paulo – S. Paulo: Edunesp, 1998; Um socialismo possível: a trajetória de Antonio Piccarollo em São Paulo – S. Paulo: Queiroz Ed., 1989; e Revolução Russa: uma história em debate – S. Paulo: Expressão e Arte Ed., 2007.
Veja as fotos de Havana, por Frederico Alexandre Hecker, em ViaPolítica

"Contra a guerra de Cuba", por Alexandre Hecker

VIA POLÍTICA
Nós, brasileiros em geral e a nossa imprensa, desde os menores até os grandes veículos de comunicação, repudiamos a atuação do Estado de Israel na guerra contra o Hamas, que martirizou a população de Gaza. Nada mais acertado. Entretanto, vivemos aqui, no Continente americano, uma outra guerra, igualmente reprochável e que deveria merecer o mesmo repúdio de outros conflitos. Refiro-me à guerra que os Estados Unidos da América do Norte deflagram cotidiana e obstinadamente contra Cuba, e que agora, com Obama, pode, talvez, conhecer amenização. É bem verdade que uma velha questão ideológica implícita na avaliação da ilha dos barbudos, e praticamente ausente no conflito do Oriente Médio, contribui decisivamente para embaralhar o entendimento dos papéis representados pelas personagens envolvidas e, assim, dificultar a tomada de posição em favor de Cuba. Há opinião generalizada contra o comunismo, que a ilha caribenha estampa como seu regime. Porém, hoje em dia, isto é apenas uma formalidade, vazia. Na verdade Cuba não é mais comunista, se é que foi em algum momento. Quer dizer, se entendemos comunismo como uma proposta humanitária do século XIX para constituir uma sociedade próspera e solidária, na qual uma perfeita integração entre os interesses individuais e coletivos se compusessem harmonicamente, é forçoso reconhecer que esta utopia permaneceu no “céu brumoso da vã filosofia”. Não apenas em Cuba, mas por todos os lugares onde invocaram seu nome. Por outro lado, se quisermos entender comunismo como um “socialismo realmente existente”, é possível afirmar que diversos tipos de regimes político-econômicos, entre si díspares e conflitantes, caberiam na identificação, tornando anódino o conceito. Portanto, por impropriedade do critério, temos que Cuba e comunismo não são de obrigatória sinonímia, como o senso comum avalia. Além disto, e de maneira dramática, um contato direto com as condições dos cidadãos cubanos, agora por ocasião da comemoração dos 50 anos de sua Revolução, joga por terra qualquer aproximação entre o conceito teórico de comunismo e a realidade vivenciada contemporaneamente naquele país.
Em definitivo, Cuba não é um “país terrorista” como a passada administração norte-americana quis qualificar. Não há razão para temer as declarações grandiloquentes de Fidel Castro ou outros líderes que se autodenominam comunistas, mas cuja preocupação fundamental – e justificável – é proteger o país, é patriótica. Tanto assim que está espalhado por toda a Havana o dístico “Patria o muerte. Venceremos!”
Havana hoje é uma cidade em escombros, flagelada pelo “bombardeio” econômico cerceador dos Estados Unidos. Seus cidadãos, orgulhosos de suas conquistas sociais nas áreas da educação e da saúde pública, e altaneiros pela história de glórias revolucionárias conquistadas, não são muito mais do que favelados e maltrapilhos, carentes das mais comezinhas necessidades de consumo: sabão, óleo de cozinha, leite, roupas etc. Uma simples caminhada por Havana revela a deterioração dos prédios, públicos ou privados, nos quais o revestimento desabou em parte e a instalação elétrica está danificada. As ruas, com calçamento em decomposição, têm a sujeira e a desorganização imperando. As habitações, verdadeiros cortiços, em boa parte, carecem de iluminação por efeito da campanha de economia de eletricidade necessária para impedir o colapso total do sistema. Carros de museu, quase sempre com motores desregulados, provocam tal poluição que, mesmo para um paulistano acostumado a parar em congestionamentos, resulta em tremendo desconforto. Pormenores da vida social podem dar a conhecer a situação de penúria social generalizada: na biblioteca central da Universidade de Havana os banheiros, em estado de pré-demolição, constantemente não dispõem de água; o acesso aos poucos e lentos computadores disponíveis depende de longas filas que os alunos devem enfrentar para aproveitá-los; universitários fazem cursos apenas teóricos de, por exemplo, fotografia, pois não há máquinas para praticar; comumente as pessoas na rua, trabalhadores – não os mendigos, que não os há em Cuba – abordam os estrangeiros para pedir-lhes que lhes comprem leite ou farinha; a mais conhecida sorveteria da cidade, La Coppellia, um dos poucos passeios possíveis para o habitante de Havana além de ir ao cinema, baratíssimo, e de dançar em algum clube precário, serve um sorvete medíocre que, no entanto, é elevado à categoria de iguaria. Claro que há uma Cuba para turistas absolutamente alheios à condição do país e que são muito bem-vindos, pois constituem mais da metade do aporte de dinheiro para a ilha. Estes estrangeiros localizam-se em Varadero, nos Cayos e em outros lugares paradisíacos. O cubano quase nem tem contato com eles, a não ser os taxistas, os garçons e as prostitutas. O rol de situações e ocasiões reveladoras da penúria social é interminável.
Convidado a ir à casa de uma colega, professora da Universidade, casada com um subdiretor da TV local, não apenas percebi que seria minha obrigação comprar o pão, o leite, o café, o queijo, a mortadela, enfim tudo o que fosse servido, como dela ouvi a solicitação – certamente muito constrangida, mas premida pela necessidade – de lhe comprar no mercado negro um litro de óleo. A sua libreta – uma caderneta onde se discriminam os produtos básicos distribuídos pelo Estado livremente a todos os cubanos – não havia sido suficiente para cobrir a alimentação do mês inteiro e o seu salário, aproximadamente duzentos reais, não oferecia “sobra” disponível. Não obstante a guerra, a sociedade cubana não apresenta altos índices de violência e, em relação ao nosso país, ostenta um padrão de saúde e educação invejáveis. Assim, o povo cubano é saudável, asseado, culto, criativo e sua música manifesta uma alegria atávica que cativa a todos. O Brasil do presidente Lula, e do ministro Celso Amorim, tem promovido avanços nas relações bilaterais com Cuba, mas ainda há muito por fazer. É possível negociar tecnologia na área petrolífera e para fabricação de lubrificantes, oferecer créditos para o fomento à venda de alimentos, tão necessários àquele país, ensinar-lhes a cultivar soja etc. São medidas não paternalistas que resultarão em benefícios mútuos e, certamente, contribuirão para que o Brasil não apenas consolide uma posição política de força na geopolítica latino-americana, mas contribua para solucionar uma injustiça internacional.
Enquanto a América Latina, apesar dos pesares, vive um período de paz e progresso, os cubanos padecem na carestia. O primeiro passo que se pode dar para superar esta situação é conhecer sem rodeios a condição suportada pelo país, submetido há 50 anos a um absurdo bloqueio econômico. Depois, consequentemente, contar com a adesão veemente dos brasileiros para a promoção de mudanças fundamentais em nosso continente.
27/2/2009
Fonte: ViaPolítica
O autor Frederico Alexandre Hecker, professor de história contemporânea da Unesp e do Mackenzie, é autor de Socialismo sociável: história da esquerda democrática em São Paulo – S. Paulo: Edunesp, 1998; Um socialismo possível: a trajetória de Antonio Piccarollo em São Paulo – S. Paulo: Queiroz Ed., 1989; e Revolução Russa: uma história em debate – S. Paulo: Expressão e Arte Ed., 2007.
Veja as fotos de Havana, por Frederico Alexandre Hecker, em ViaPolítica

"Contra a guerra de Cuba", por Alexandre Hecker

VIA POLÍTICA
Nós, brasileiros em geral e a nossa imprensa, desde os menores até os grandes veículos de comunicação, repudiamos a atuação do Estado de Israel na guerra contra o Hamas, que martirizou a população de Gaza. Nada mais acertado. Entretanto, vivemos aqui, no Continente americano, uma outra guerra, igualmente reprochável e que deveria merecer o mesmo repúdio de outros conflitos. Refiro-me à guerra que os Estados Unidos da América do Norte deflagram cotidiana e obstinadamente contra Cuba, e que agora, com Obama, pode, talvez, conhecer amenização. É bem verdade que uma velha questão ideológica implícita na avaliação da ilha dos barbudos, e praticamente ausente no conflito do Oriente Médio, contribui decisivamente para embaralhar o entendimento dos papéis representados pelas personagens envolvidas e, assim, dificultar a tomada de posição em favor de Cuba. Há opinião generalizada contra o comunismo, que a ilha caribenha estampa como seu regime. Porém, hoje em dia, isto é apenas uma formalidade, vazia. Na verdade Cuba não é mais comunista, se é que foi em algum momento. Quer dizer, se entendemos comunismo como uma proposta humanitária do século XIX para constituir uma sociedade próspera e solidária, na qual uma perfeita integração entre os interesses individuais e coletivos se compusessem harmonicamente, é forçoso reconhecer que esta utopia permaneceu no “céu brumoso da vã filosofia”. Não apenas em Cuba, mas por todos os lugares onde invocaram seu nome. Por outro lado, se quisermos entender comunismo como um “socialismo realmente existente”, é possível afirmar que diversos tipos de regimes político-econômicos, entre si díspares e conflitantes, caberiam na identificação, tornando anódino o conceito. Portanto, por impropriedade do critério, temos que Cuba e comunismo não são de obrigatória sinonímia, como o senso comum avalia. Além disto, e de maneira dramática, um contato direto com as condições dos cidadãos cubanos, agora por ocasião da comemoração dos 50 anos de sua Revolução, joga por terra qualquer aproximação entre o conceito teórico de comunismo e a realidade vivenciada contemporaneamente naquele país.
Em definitivo, Cuba não é um “país terrorista” como a passada administração norte-americana quis qualificar. Não há razão para temer as declarações grandiloquentes de Fidel Castro ou outros líderes que se autodenominam comunistas, mas cuja preocupação fundamental – e justificável – é proteger o país, é patriótica. Tanto assim que está espalhado por toda a Havana o dístico “Patria o muerte. Venceremos!”
Havana hoje é uma cidade em escombros, flagelada pelo “bombardeio” econômico cerceador dos Estados Unidos. Seus cidadãos, orgulhosos de suas conquistas sociais nas áreas da educação e da saúde pública, e altaneiros pela história de glórias revolucionárias conquistadas, não são muito mais do que favelados e maltrapilhos, carentes das mais comezinhas necessidades de consumo: sabão, óleo de cozinha, leite, roupas etc. Uma simples caminhada por Havana revela a deterioração dos prédios, públicos ou privados, nos quais o revestimento desabou em parte e a instalação elétrica está danificada. As ruas, com calçamento em decomposição, têm a sujeira e a desorganização imperando. As habitações, verdadeiros cortiços, em boa parte, carecem de iluminação por efeito da campanha de economia de eletricidade necessária para impedir o colapso total do sistema. Carros de museu, quase sempre com motores desregulados, provocam tal poluição que, mesmo para um paulistano acostumado a parar em congestionamentos, resulta em tremendo desconforto. Pormenores da vida social podem dar a conhecer a situação de penúria social generalizada: na biblioteca central da Universidade de Havana os banheiros, em estado de pré-demolição, constantemente não dispõem de água; o acesso aos poucos e lentos computadores disponíveis depende de longas filas que os alunos devem enfrentar para aproveitá-los; universitários fazem cursos apenas teóricos de, por exemplo, fotografia, pois não há máquinas para praticar; comumente as pessoas na rua, trabalhadores – não os mendigos, que não os há em Cuba – abordam os estrangeiros para pedir-lhes que lhes comprem leite ou farinha; a mais conhecida sorveteria da cidade, La Coppellia, um dos poucos passeios possíveis para o habitante de Havana além de ir ao cinema, baratíssimo, e de dançar em algum clube precário, serve um sorvete medíocre que, no entanto, é elevado à categoria de iguaria. Claro que há uma Cuba para turistas absolutamente alheios à condição do país e que são muito bem-vindos, pois constituem mais da metade do aporte de dinheiro para a ilha. Estes estrangeiros localizam-se em Varadero, nos Cayos e em outros lugares paradisíacos. O cubano quase nem tem contato com eles, a não ser os taxistas, os garçons e as prostitutas. O rol de situações e ocasiões reveladoras da penúria social é interminável.
Convidado a ir à casa de uma colega, professora da Universidade, casada com um subdiretor da TV local, não apenas percebi que seria minha obrigação comprar o pão, o leite, o café, o queijo, a mortadela, enfim tudo o que fosse servido, como dela ouvi a solicitação – certamente muito constrangida, mas premida pela necessidade – de lhe comprar no mercado negro um litro de óleo. A sua libreta – uma caderneta onde se discriminam os produtos básicos distribuídos pelo Estado livremente a todos os cubanos – não havia sido suficiente para cobrir a alimentação do mês inteiro e o seu salário, aproximadamente duzentos reais, não oferecia “sobra” disponível. Não obstante a guerra, a sociedade cubana não apresenta altos índices de violência e, em relação ao nosso país, ostenta um padrão de saúde e educação invejáveis. Assim, o povo cubano é saudável, asseado, culto, criativo e sua música manifesta uma alegria atávica que cativa a todos. O Brasil do presidente Lula, e do ministro Celso Amorim, tem promovido avanços nas relações bilaterais com Cuba, mas ainda há muito por fazer. É possível negociar tecnologia na área petrolífera e para fabricação de lubrificantes, oferecer créditos para o fomento à venda de alimentos, tão necessários àquele país, ensinar-lhes a cultivar soja etc. São medidas não paternalistas que resultarão em benefícios mútuos e, certamente, contribuirão para que o Brasil não apenas consolide uma posição política de força na geopolítica latino-americana, mas contribua para solucionar uma injustiça internacional.
Enquanto a América Latina, apesar dos pesares, vive um período de paz e progresso, os cubanos padecem na carestia. O primeiro passo que se pode dar para superar esta situação é conhecer sem rodeios a condição suportada pelo país, submetido há 50 anos a um absurdo bloqueio econômico. Depois, consequentemente, contar com a adesão veemente dos brasileiros para a promoção de mudanças fundamentais em nosso continente.
27/2/2009
Fonte: ViaPolítica
O autor Frederico Alexandre Hecker, professor de história contemporânea da Unesp e do Mackenzie, é autor de Socialismo sociável: história da esquerda democrática em São Paulo – S. Paulo: Edunesp, 1998; Um socialismo possível: a trajetória de Antonio Piccarollo em São Paulo – S. Paulo: Queiroz Ed., 1989; e Revolução Russa: uma história em debate – S. Paulo: Expressão e Arte Ed., 2007.
Veja as fotos de Havana, por Frederico Alexandre Hecker, em ViaPolítica

"Contra a guerra de Cuba", por Alexandre Hecker

VIA POLÍTICA
Nós, brasileiros em geral e a nossa imprensa, desde os menores até os grandes veículos de comunicação, repudiamos a atuação do Estado de Israel na guerra contra o Hamas, que martirizou a população de Gaza. Nada mais acertado. Entretanto, vivemos aqui, no Continente americano, uma outra guerra, igualmente reprochável e que deveria merecer o mesmo repúdio de outros conflitos. Refiro-me à guerra que os Estados Unidos da América do Norte deflagram cotidiana e obstinadamente contra Cuba, e que agora, com Obama, pode, talvez, conhecer amenização. É bem verdade que uma velha questão ideológica implícita na avaliação da ilha dos barbudos, e praticamente ausente no conflito do Oriente Médio, contribui decisivamente para embaralhar o entendimento dos papéis representados pelas personagens envolvidas e, assim, dificultar a tomada de posição em favor de Cuba. Há opinião generalizada contra o comunismo, que a ilha caribenha estampa como seu regime. Porém, hoje em dia, isto é apenas uma formalidade, vazia. Na verdade Cuba não é mais comunista, se é que foi em algum momento. Quer dizer, se entendemos comunismo como uma proposta humanitária do século XIX para constituir uma sociedade próspera e solidária, na qual uma perfeita integração entre os interesses individuais e coletivos se compusessem harmonicamente, é forçoso reconhecer que esta utopia permaneceu no “céu brumoso da vã filosofia”. Não apenas em Cuba, mas por todos os lugares onde invocaram seu nome. Por outro lado, se quisermos entender comunismo como um “socialismo realmente existente”, é possível afirmar que diversos tipos de regimes político-econômicos, entre si díspares e conflitantes, caberiam na identificação, tornando anódino o conceito. Portanto, por impropriedade do critério, temos que Cuba e comunismo não são de obrigatória sinonímia, como o senso comum avalia. Além disto, e de maneira dramática, um contato direto com as condições dos cidadãos cubanos, agora por ocasião da comemoração dos 50 anos de sua Revolução, joga por terra qualquer aproximação entre o conceito teórico de comunismo e a realidade vivenciada contemporaneamente naquele país.
Em definitivo, Cuba não é um “país terrorista” como a passada administração norte-americana quis qualificar. Não há razão para temer as declarações grandiloquentes de Fidel Castro ou outros líderes que se autodenominam comunistas, mas cuja preocupação fundamental – e justificável – é proteger o país, é patriótica. Tanto assim que está espalhado por toda a Havana o dístico “Patria o muerte. Venceremos!”
Havana hoje é uma cidade em escombros, flagelada pelo “bombardeio” econômico cerceador dos Estados Unidos. Seus cidadãos, orgulhosos de suas conquistas sociais nas áreas da educação e da saúde pública, e altaneiros pela história de glórias revolucionárias conquistadas, não são muito mais do que favelados e maltrapilhos, carentes das mais comezinhas necessidades de consumo: sabão, óleo de cozinha, leite, roupas etc. Uma simples caminhada por Havana revela a deterioração dos prédios, públicos ou privados, nos quais o revestimento desabou em parte e a instalação elétrica está danificada. As ruas, com calçamento em decomposição, têm a sujeira e a desorganização imperando. As habitações, verdadeiros cortiços, em boa parte, carecem de iluminação por efeito da campanha de economia de eletricidade necessária para impedir o colapso total do sistema. Carros de museu, quase sempre com motores desregulados, provocam tal poluição que, mesmo para um paulistano acostumado a parar em congestionamentos, resulta em tremendo desconforto. Pormenores da vida social podem dar a conhecer a situação de penúria social generalizada: na biblioteca central da Universidade de Havana os banheiros, em estado de pré-demolição, constantemente não dispõem de água; o acesso aos poucos e lentos computadores disponíveis depende de longas filas que os alunos devem enfrentar para aproveitá-los; universitários fazem cursos apenas teóricos de, por exemplo, fotografia, pois não há máquinas para praticar; comumente as pessoas na rua, trabalhadores – não os mendigos, que não os há em Cuba – abordam os estrangeiros para pedir-lhes que lhes comprem leite ou farinha; a mais conhecida sorveteria da cidade, La Coppellia, um dos poucos passeios possíveis para o habitante de Havana além de ir ao cinema, baratíssimo, e de dançar em algum clube precário, serve um sorvete medíocre que, no entanto, é elevado à categoria de iguaria. Claro que há uma Cuba para turistas absolutamente alheios à condição do país e que são muito bem-vindos, pois constituem mais da metade do aporte de dinheiro para a ilha. Estes estrangeiros localizam-se em Varadero, nos Cayos e em outros lugares paradisíacos. O cubano quase nem tem contato com eles, a não ser os taxistas, os garçons e as prostitutas. O rol de situações e ocasiões reveladoras da penúria social é interminável.
Convidado a ir à casa de uma colega, professora da Universidade, casada com um subdiretor da TV local, não apenas percebi que seria minha obrigação comprar o pão, o leite, o café, o queijo, a mortadela, enfim tudo o que fosse servido, como dela ouvi a solicitação – certamente muito constrangida, mas premida pela necessidade – de lhe comprar no mercado negro um litro de óleo. A sua libreta – uma caderneta onde se discriminam os produtos básicos distribuídos pelo Estado livremente a todos os cubanos – não havia sido suficiente para cobrir a alimentação do mês inteiro e o seu salário, aproximadamente duzentos reais, não oferecia “sobra” disponível. Não obstante a guerra, a sociedade cubana não apresenta altos índices de violência e, em relação ao nosso país, ostenta um padrão de saúde e educação invejáveis. Assim, o povo cubano é saudável, asseado, culto, criativo e sua música manifesta uma alegria atávica que cativa a todos. O Brasil do presidente Lula, e do ministro Celso Amorim, tem promovido avanços nas relações bilaterais com Cuba, mas ainda há muito por fazer. É possível negociar tecnologia na área petrolífera e para fabricação de lubrificantes, oferecer créditos para o fomento à venda de alimentos, tão necessários àquele país, ensinar-lhes a cultivar soja etc. São medidas não paternalistas que resultarão em benefícios mútuos e, certamente, contribuirão para que o Brasil não apenas consolide uma posição política de força na geopolítica latino-americana, mas contribua para solucionar uma injustiça internacional.
Enquanto a América Latina, apesar dos pesares, vive um período de paz e progresso, os cubanos padecem na carestia. O primeiro passo que se pode dar para superar esta situação é conhecer sem rodeios a condição suportada pelo país, submetido há 50 anos a um absurdo bloqueio econômico. Depois, consequentemente, contar com a adesão veemente dos brasileiros para a promoção de mudanças fundamentais em nosso continente.
27/2/2009
Fonte: ViaPolítica
O autor Frederico Alexandre Hecker, professor de história contemporânea da Unesp e do Mackenzie, é autor de Socialismo sociável: história da esquerda democrática em São Paulo – S. Paulo: Edunesp, 1998; Um socialismo possível: a trajetória de Antonio Piccarollo em São Paulo – S. Paulo: Queiroz Ed., 1989; e Revolução Russa: uma história em debate – S. Paulo: Expressão e Arte Ed., 2007.
Veja as fotos de Havana, por Frederico Alexandre Hecker, em ViaPolítica

janeiro 13, 2009

CUBA: "Meio século de uma revolução bem-sucedida", por GABRIEL DE SALLES, editor da Gazeta Mercantil

Esse aqui eu não podia deixar passar: um artigo claro, simples, informativo e – para mim, pelo menos – equilibrado, longe do teor apocalíptico-paranóico que acostumamos a ler no imprensalão, e isento da paixão dos que defendem ardorosamente ( não questiono se estão ou não com a razão ) a revolução cubana. Aliás, este texto é claramente simpático aos resultados que viriam a seguir, com a tomada do poder por Fidel e seus companheiros. Só que sem proselitismos. Gostei muito.
Meio século de uma revolução bem-sucedida
Gabriel de Salles
Editor da Gazeta Mercantil
9 de Janeiro de 2009 - Convalescentes de graves traumatismos causados por “investimentos exóticos”, ainda chocados com alguns “circuit brakers”, tentando se equilibrar em meio a sufocos provocados por “ativos tóxicos”, idólatras do liberalismo econômico – os mesmos que renegam o Estado, mas veneram os cofres públicos – não perderam de todo a pose e se dedicaram neste fim de ano a criticar Cuba, aproveitando-se das comemorações dos 50 anos da vitoriosa revolução liderada por Fidel Castro.
Com poucas exceções, nos meios de comunicação, repetiu-se argumentação velha e enfadonha sobre as mazelas do socialismo, o sofrimento de um povo sem liberdade, falta de perspectivas dos jovens, e por aí afora. “Um país em frangalhos”, alguém escreveu. Foram poucos os comentários isentos, mostrando, por exemplo, aspectos positivos do dia-a-dia dos cubanos e suas conquistas neste meio século. Não se repetiu, na maioria das análises, a extrema dedicação de seus autores quando se trata de louvar práticas como as que levaram à crise do subprime. E até que não seria necessário muito esforço. Bastaria uma consulta a sites de organismos isentos como a Unesco, Organização Mundial da Saúde e a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), entre outros.
Num relatório preliminar sobre o desempenho das economias da América Latina e Caribe, divulgado pouco antes do Natal, a Cepal situa Cuba com um crescimento econômico de 4,3% em 2008, modesto se comparado com os líderes Uruguai, Peru e Panamá, cujo crescimento previsto é de 11,5%, 9,4% e 9,2%, respectivamente, mas superior, por exemplo, ao México, que crescerá apenas 1,8%. Assolada impiedosamente pelos furacões Gustav e Ike, Cuba arcou com perdas superiores a US$ 10 bilhões, em 2008, o que comprometeu os resultados da economia do país, que não repetiu os bons desempenhos de 2006, quando liderou o crescimento entre os latinos com 12,1%, e de 2007, ano em que, mesmo sem liderar, apresentou o bom índice de 7,3%. Apesar das catástrofes climáticas, o índice preliminar de 4,3% também está acima de países como o Chile (3,8%) e Colômbia (3,0%).
Nas projeções para 2009, quando os países da América Latina poderão ser fortemente atingidos pela retração das economias desenvolvidas, a Cepal anuncia índices bem mais modestos que em 2008, colocando o Peru como o líder, com 5%. Cuba volta a ocupar posição de destaque, com crescimento previsto de 4,0%, dividindo o terceiro lugar com o Uruguai e um pouco abaixo do Panamá, que é o segundo colocado com 4,5%. O Brasil, classificado com 5,3% em 2008, ficará com modestos 2,1%, sempre segundo a Cepal, que novamente não poupa o México, relegando-o à ultima colocação com 0,5%. O país que há pouco tempo era usado como exemplo das vantagens de se aderir ao Nafta, o bloco comercial comandado pelos Estados Unidos, deverá crescer menos que o Haiti (1,5%) e El Salvador (1%).
O pessimismo reinante nos países de economia “aberta”, como é o caso brasileiro, a julgar pelo que prevê a Cepal, não se aplica a Cuba. Ao completar meio século de processo revolucionário, a ilha caribenha registra o segundo mais baixo índice de mortalidade infantil das Américas, com 5,3 mortes por mil nascidos vivos, atrás apenas do Canadá. No plano econômico, o governo cubano anuncia uma política de estímulo a pequenos e médios empreendedores rurais, enquanto continua diversificando a pauta de exportações, que deixou de depender dos derivados da cana-de-açúcar. Abrange agora, além de matérias-primas como o níquel, produtos de ponta, onde se destacam os medicamentos, insumos e serviços de saúde. Os profissionais cubanos dessa área distribuem-se hoje por cerca de 40 países.
Avaliações recentes de autoridades do setor de turismo minimizam os efeitos da crise global, mantendo a projeção de novamente bater o recorde de turistas estrangeiros na ilha, que deverá se aproximar dos três milhões de pessoas, oriundas principalmente do Canadá e União Européia.
São números renegados pelos neoliberais, mas que testemunham que nem tudo é tragédia entre os cubanos.

setembro 19, 2008

Raúl Castro se reúne com vice-presidente russo de visita em Cuba

O presidente cubano Raúl Castro reuniu-se na segunda-feira (15) com o vice-presidente da Federação Russa, Igor Ivânovich Séchin, que esteve em Cuba para uma brevísima visita de trabalho, encabeçando uma delegação de ministros e empresários russos.
A reunião teve lugar em uma atmosfera fraterna e amigável e ambos os líderes políticos manifestaram a sua vontade de continuar a aumentar a cooperação bilateral.
Raúl Castro agradeceu o visitante em nome do povo cubano a ajuda humanitária enviada pela Rússia para ajudar a nação caribenha, na seqüência da devastação causada pelos furacões Gustav e Ike. Recordemos que a Rússia foi o primeiro país em mandar quatro aviões com artigos de primeira necessidade para os danificados.
Também estiveram presentes na reunião o VP cubano Carlos Lage Dávila e o ministro de governo Ricardo Cabrisas, assim como o ministro da energia russo, Serguei Ivanovich Shmatko, e o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros Serguéi Ryabkov.
Agência Cubana de Notícias
17.09.08

Raúl Castro se reúne com vice-presidente russo de visita em Cuba

O presidente cubano Raúl Castro reuniu-se na segunda-feira (15) com o vice-presidente da Federação Russa, Igor Ivânovich Séchin, que esteve em Cuba para uma brevísima visita de trabalho, encabeçando uma delegação de ministros e empresários russos.
A reunião teve lugar em uma atmosfera fraterna e amigável e ambos os líderes políticos manifestaram a sua vontade de continuar a aumentar a cooperação bilateral.
Raúl Castro agradeceu o visitante em nome do povo cubano a ajuda humanitária enviada pela Rússia para ajudar a nação caribenha, na seqüência da devastação causada pelos furacões Gustav e Ike. Recordemos que a Rússia foi o primeiro país em mandar quatro aviões com artigos de primeira necessidade para os danificados.
Também estiveram presentes na reunião o VP cubano Carlos Lage Dávila e o ministro de governo Ricardo Cabrisas, assim como o ministro da energia russo, Serguei Ivanovich Shmatko, e o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros Serguéi Ryabkov.
Agência Cubana de Notícias
17.09.08

Raúl Castro se reúne com vice-presidente russo de visita em Cuba

O presidente cubano Raúl Castro reuniu-se na segunda-feira (15) com o vice-presidente da Federação Russa, Igor Ivânovich Séchin, que esteve em Cuba para uma brevísima visita de trabalho, encabeçando uma delegação de ministros e empresários russos.
A reunião teve lugar em uma atmosfera fraterna e amigável e ambos os líderes políticos manifestaram a sua vontade de continuar a aumentar a cooperação bilateral.
Raúl Castro agradeceu o visitante em nome do povo cubano a ajuda humanitária enviada pela Rússia para ajudar a nação caribenha, na seqüência da devastação causada pelos furacões Gustav e Ike. Recordemos que a Rússia foi o primeiro país em mandar quatro aviões com artigos de primeira necessidade para os danificados.
Também estiveram presentes na reunião o VP cubano Carlos Lage Dávila e o ministro de governo Ricardo Cabrisas, assim como o ministro da energia russo, Serguei Ivanovich Shmatko, e o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros Serguéi Ryabkov.
Agência Cubana de Notícias
17.09.08

Raúl Castro se reúne com vice-presidente russo de visita em Cuba

O presidente cubano Raúl Castro reuniu-se na segunda-feira (15) com o vice-presidente da Federação Russa, Igor Ivânovich Séchin, que esteve em Cuba para uma brevísima visita de trabalho, encabeçando uma delegação de ministros e empresários russos.
A reunião teve lugar em uma atmosfera fraterna e amigável e ambos os líderes políticos manifestaram a sua vontade de continuar a aumentar a cooperação bilateral.
Raúl Castro agradeceu o visitante em nome do povo cubano a ajuda humanitária enviada pela Rússia para ajudar a nação caribenha, na seqüência da devastação causada pelos furacões Gustav e Ike. Recordemos que a Rússia foi o primeiro país em mandar quatro aviões com artigos de primeira necessidade para os danificados.
Também estiveram presentes na reunião o VP cubano Carlos Lage Dávila e o ministro de governo Ricardo Cabrisas, assim como o ministro da energia russo, Serguei Ivanovich Shmatko, e o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros Serguéi Ryabkov.
Agência Cubana de Notícias
17.09.08

junho 1, 2008

Comunidade cubano-americana rompe com idéias de extremistas gusanos, e querem que tropas dos EUA deixem o Iraque

Muda o perfil da comunidade cubana nos EUA
Newton Carlos , especial para a Folha
27/05/2008
Os votos hispânicos podem somar 11% do eleitorado nas eleições presidenciais de novembro nos EUA, bem mais do que os 6% de 2000.
Os cubano-americanos compõem um segmento expressivo não só numericamente. Têm poder político na Flórida, um grande Estado, e estão envolvidos com um dos itens mais tumultuados da política externa americana. Razões pelas quais Barack Obama falou sobre América Latina à sombra da Fundação Nacional Cubano-Americana, em Miami, na última sexta, ao que parece sem levar em conta fatores e novidades importantes.
Essa fundação, de início embalada pelo assessor de segurança nacional do governo Reagan (1981-89) Richard Allen, virou um lobby anti-Castros intolerante e truculento, com peso em Washington. Seu criador, Jorge Más Canosa, após longo reinado como um construtor da agenda cubana do Departamento de Estado, morreu decadente não faz muito.
Mas muda o perfil da comunidade cubana nos EUA, em tom dissonante com a velha guarda de exilados. Aumentaram de 40% para 65%, desde 1991, os cubano-americanos favoráveis ao diálogo com o regime comunista, segundo a Universidade Internacional da Flórida. Supõe-se que o percentual favorável a uma “acomodação” continue a crescer.
Um especialista em pesquisas do partido Democrata, Sergio Bendixon, convenceu-se de que exilados jovens dão importância secundária a Cuba. Estão mais preocupados com educação, cobertura médica e imigração.
São transformações que botam roupagem nova num segmento importante do eleitorado. Mais surpreendente foi o que constataram pesquisadores democratas num distrito de Miami repleto de cubanos: acabar com o regime comunista figura em sexto lugar entre as preocupações levantadas. Sair do Iraque está em primeiro.
Em discurso em outubro sobre Cuba, Bush ignorou as transformações e usou a retórica repetitiva de chamar Cuba de “gulag tropical”.
“Se alguma coisa é capaz de reviver Fidel Castro, essa coisa seria a fala de Bush”, disse Michael Shifter, do Inter-American Dialogue, de Washington. São realimentados confrontos desgastados. A comunidade se volta mais para questões internas.
O advogado cubano-americano Otto de Córdoba, 51, votou duas vezes em Bush e se disse frustrado com sua incompetência na Guerra do Iraque e no furacão Katrina.
Bush também calcula mal o apoio de dissidentes na ilha. Oswaldo Payá, um dos que têm maior potencial de liderança, tem buscado deixar claro que a oposição interna não aceita interferência na transição. Antes do discurso de Bush, Payá disse que é tempo de os governos em Cuba e nos EUA ouvirem o que quer o povo cubano.
O jornalista NEWTON CARLOS é analista de questões internacionais.

maio 24, 2008

Cuba considerou "ridículo" discurso de Bush sobre celular

Cuba classificou na última quinta-feira (22), como um “show decadente” um discurso do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, em que ele autorizou residentes americanos a enviar telefones celulares a seus parentes em Cuba.
A medida adotada pelo presidente norte-americano serviria como uma pequena fissura no embargo comercial ( aplicado pelos EUA há mais de 45 anos contra Cuba ) e ainda como uma forma de pressionar a aceleração das reformas na ilha socialista.
“Foi um discurso ridículo, irrelevante e cínico, um ato de propaganda de mau gosto”, afirmou o chanceler Felipe Pérez Roque em entrevista à imprensa, em Havana.
O presidente Raúl Castro, que assumiu a Presidência em fevereiro, no lugar de seu irmão Fidel, que está doente, autorizou em abril a venda de telefones celulares aos cubanos, para ( sic ) melhorar a qualidade de vida deles*. Em discurso, durante a comemoração do recém-criado “Dia da Solidariedade com o Povo Cubano”, Bush afirmou que a política sobre Cuba não vai mudar a não ser que Castro conceda mais liberdades, solte os presos políticos e faça reformas econômicas, mas que não acredita que essa seja a intenção do regime daquele país.
Roque disse que o americano é um “líder exausto”, que está “fazendo suas malas para ir para seu rancho no Texas desacreditado e rejeitado em seu próprio país.”
Além disso, o ministro cubano pediu uma explicação americana para o comportamento de seu alto diplomata na ilha Michael Parmly, acusado por Cuba, nesta semana, de enviar dinheiro americano de um exílio anti Castro nos Estados Unidos para dissidentes na ilha.
Desde que fez a acusação na segunda-feira, o governo mostrou vídeos e e-mails das conversas da dissidente Martha Beatriz Roque, que teria recebido dinheiro de um grupo fundado em Miami pelo empresário Santiago Alvarez.
Roque declarou acreditar que os Estados Unidos vão tomar medidas para corrigir a conduta de seus diplomatas em Cuba.
Portal Imprensa, com informações da Reuters
- Estados Unidos liberam que cidadãos enviem celulares para Cuba
*Essa é boa! Qual é a relação? “Melhorar a qualidade de vida” de um país que costuma apresentar altos níveis em Saúde e Educação, maiores que os de ( quse ) todos os países do Ocidente!?! ( Talvez Bush queira tirar um troco para ajudar a economia de seu país em crise. Vender, vender, vender, qualquer porto numa tempestade. )
Na verdade, o mais provável é que o país – Cuba – comece, isso sim, a decair, já que está mais do que provada a relação ( aí sim ) entre telefones celulares e retardo mental agudo. Basta andar num transporte público em São Paulo, que os sinais de autismo saltam agressivamente aos nossos olhos e ouvidos. E pensar que o Metrô investirá para permitir que os celulares funcionem nos trens. Acabou o sossego.

Tema: Silver is the New Black. Blog no WordPress.com.

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