Mensagem enviada a mim, por Jasson:
“Humberto: Em anexo, envio-lhe a Moção de Aplausos, apresentada pelo deputado Simão Pedro (PT) na Assembléia Legislativa de São Paulo. Se achar conveniente colocá-la no seu próximo texto sobre o livro, como introdução. Fica aí a sugestão. JASSON”
Gostei da sugestão e acatarei-a.
Antes de mais nada, a constatação reconfortante: ainda não estou à altura da obra! Até porque eu sou uma negação – entre outras coisas – em História do Brasil.
Mas vamos lá:
- O Golpe de 64 no Brasil teria a mão da CIA ou do embaixador americano Lincoln Gordon;
- Os EUA estavam empenhados em garantir que não aparecessem mais “Cubas” em sua área de influência;
- Talvez, até antes mesmo do anti-comunismo alegado e a suposta proteção à democracia e à liberdade, o que realmente movia os Estados Unidos para que combatessem a possível infiltração do império euroasiático, a URSS, na América Latina era a Doutrina Monroe.
- Para combater o inimigo, usou-se de todas as armas à disposição, exceto o confronto direto: espionagem, tortura, mortes, chantagens, golpes de Estado, financiamentos de grupos “pró” ou “contra”, propaganda, contra-propaganda.
Legal. Parece filme do James Bond.
—————————————–
MOÇÃO Nº , DE 2008
O Livro Golpe de 64 em São João da Boa Vista idealizado por Francisco de Assis Martins Bezerra- editor e por Jasson de Oliveira Andrade-autor relata momentos importantes da história política de São João da Boa Vista.
Embasado em pesquisas e fatos vivenciados, o autor Jasson de Oliveira Andrade, ex-preso político, relata os acontecimentos que precederam o Golpe militar de 1964 e os efeitos do mesmo sob o enfoque local, permitindo que a população de São João da Boa Vista conheça sua história e os principais protagonistas que refletiam as forças políticas da época e os interesses representados em seu município.
Esta brilhante e corajosa obra literária permite que conheçamos melhor a história deste importante município paulista, para que possamos entender a atualidade e assim, buscar maior desenvolvimento cultural, social e até mesmo econômico.
A ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE SÃO PAULO, aplaude os Senhores Jasson de Oliveira Andrade-autor e Francisco de Assis Martins Bezerra- editor pelo importante trabalho histórico-literário que resultou na publicação do livro Golpe de 64 em São João da Boa Vista que tornou acessível a todos, as circunstancias e fatos que envolveram este período sombrio da história de nosso país, sob um corajoso enfoque local que permite identificar as forças políticas e interesses da época, compará-los aos dias de hoje e estimular o surgimento de novas lideranças .
Por fim, requer sejam tomadas as providências necessárias para a expedição de ofício os Senhores Jasson de Oliveira Andrade e Francisco de Assis Martins Bezerra no endereço anexo, para dar ciência desta propositura
Sala das Sessões, em
Deputado Simão Pedro
SPL – Código de Originalidade: 802209 280508 1740
——————————————–
Como falei anteriormente, o grande mérito e atrativo da obra do Jasson, é – basicamente – trazer para o leitor o ambiente político de uma cidade interiorana ( de São Paulo, especificamente ), nos idos da década de 60 ( mas não só ), quando eclodiu o Golpe.
Pois este período geralmente nos é apresentado em seu aspecto MACRO, com a briga de EUA e URSS pelo domínio político-ideológico mundial, com seus respectivos satélites, cada qual polo tentando manter suas posições e ganhar outras. De forma bem simples, foi isso mesmo.
E em São João da Boa Vista, qual o cenário? Havia espiões da KGB na cidade? Como a CIA os combateu?
De certa maneira, Jasson conseguiu um recorde: tratou da Revolução de 64 e um certo anticomunismo sem, contudo, mencionar Fidel Castro, Che Guevara, Lênin, Trotsky, Stalin, Roosevelt. Não há longas digressões teóricas e ideológicas ( as potências nem parecem tão influentes, já que são, também, pouco lembradas ).
Claro, apresenta uma certa simpatia pelo que convencionou-se chamar “esquerda”; mas a grande parte das pessoas aqui se mostra mais definível como “nacionalista”; apesar disso, foram cassadas, presas, perseguidas. Não há aqui, inclusive, relatos de torturas, ao contrário: nega-se ter passado por alguma. Menos mal. Mas, ainda assim, a ruína financeira de alguns lhes deve ter saído pior que pau-de-arara.
“Este livro não tem objetivo histórico”, diz Jasson, à página 10 da INTRODUÇÃO. Não sei porquê dizer isso. Há entrevistas e depoimentos, documentos, citações, reprodução de noticiários regionais, referências. Mas eu entendo o que você quer dizer.
É certo que não se perde naquele rigor e formalidade acadêmicos, cujo preço é a distância e a invisibilidade perante o público. A quem, por sinal, trabalhos desta natureza deveriam ser dedicados.
Mas transpira honestidade e leveza. E apresenta a visão de alguém que foi, ao mesmo tempo, observador e protagonista de eventos como aqueles que aconteceram aos milhares neste país, não apenas em cidades grandes de São Paulo e Guanabara. Eventos de interesse histórico que permanecem, de modo geral, esquecidos e/ ou ignorados pela maioria da população.
Não obstante tenham sido produzidas a respeito de alguns deles mini-séries de televisão, revistas com reportagens especiais e comemorativas, cadernos especiais de jornais de Domingo, filmes para cinema, sem esquecer, claro, de livros especializados, para consumo de minorias encasteladas e esclarecidas. Mas focavam o MACRO, o país, o geral ( sem demérito, claro ).
Pois quando se fala em Golpe de 64, geralmente lembramos de Lacerda, JK, Brizola, Jango, CIA, passeata por Deus e a Família ( sei lá se foi isso ), mas pouco sabemos sobre a discussão de lideranças políticas opostas e seus simpatizantes no armazém ou na farmácia situada no Largo da Matriz duma cidade interiorana qualquer. Em São João, a política e os destinos da cidade e do país eram discutidos no interior da farmácia Nossa Senhora Aparecida, de propriedade de Zé Lopes e Zé Traffani [este último, um ex-integralista foi depois acusado de comunismo e de ter causado incêndios criminosos ].
Pelo livro de Jasson, ficaremos sabendo de casos em que pessoas, mesmo não tendo quaisquer atividades políticas, acabaram sofrendo na carne os efeitos da paranóia anticomunista. Um exemplo: Orlando Maciel , o Escurinho, foi preso por engano, no lugar de seu irmão, Oswaldo, este filiado ao PTB e partidário do ex-prefeito Miguel Jorge Nicolau que, segundo consta, era amigo próximo de Jango. Também importante, é que Jasson nos conduz ( mesmo que passageiramente ) pela briga política regional anterior ao golpe ( “Antecedentes da ‘briga’ política em São João”, pág. 42 a 45 ), traçando uma linha que se origina no primeiro governo de Vargas, e desaguando no golpe propriamente dito.
Em São João da Boa Vista, o grupo considerado “esquerdista”, seria aquele vinculado ao PTB, partido de Getúlio Vargas e Jango.
O político petebista Miguel Jorge Nicolau recebe bastante destaque no livro ( talvez mais destaque do que qualquer outro ) e sua biografia é bem radiografada. Foi um dos principais alvos dos “revolucionários”. Em 1955 venceu a eleição municipal ( a primeira vencida por trabalhistas ali ), desligando-se posteriormente do cargo, para concorrer a deputado estadual ( foi eleito ). Reeleito em 1962, em 64 perdeu o mandato e os direitos políticos por 10 anos. Foi anistiado em 1979 ( sim, deu mais de 10 anos, já que o AI-5, de 1968 prolongou o Inverno! ), e lutou para tentar fazer ressurgir o PTB, junto a Ivete Vargas. Morreu em Maio de 1980.
Quando prefeito, contemporâneo à campanha “O Petróleo é Nosso”, instalou na praça denominada Joaquim José, uma simbólica reprodução de uma torre de petróleo. Deixou o cargo, no meio do mandato, para candidatar-se a deputado estadual. Assumiu o vice e este, do mesmo partido, DERRUBOU a torre. Nicolau, de acordo com Jasson, graças à sua amizade com JK e Jango, conseguiu, como prefeito e deputado trazer serviços à cidade como o SAMDU, e construiu obras como a Rodoviária, a Escola de Comércio e o Prédio do Mercado Municipal ( pag. 17 ).
“Para a UDN, todos eram comunistas…”
Fausto Ratol
Trechos de depoimento de um dos acusados que respondeu a um Inquérito Policial Militar, o jornalista e radialista Ito Amorim, traz elementos de comicidade que comprovam a paranóia ( págs. 157-8 ) :
” ( … )
MAJOR – Você acha que o Brasil deve reatar relações comerciais com a União Soviética?
ITO – Acho que sim (… ) Os Estados Unidos compram nosso café por 4.000 cruzeiros a saca e vende para a Rússia por 15.000. Se eles não têm medo do comunismo e estão ganhando, porque nós não vendemos diretamente para os russos e ganhamos mais divisas para o nosso Brasil? (…)
MAJOR – Como jornalista, há muito tempo em São João, pode me precisar o número de comunistas na cidade?
ITO – Posso. Nenhum ( … ) Agora, o que existe aqui, é uma “fábrica de fazer comunista”.
MAJOR – Explique essa fábrica.
( … )”
Vou pular e deixar para o final, que é muito boa, dado o quadro.
Bom, eu devo estar esquecendo um monte de coisas. Então aí vai um “brainstorming”:
- as elites locais organizaram milícias armadas; civis, por várias vezes tomaram o lugar de autoridades militares, prendendo “comunistas”; estes civis tinham recebido armas de militares para usar em suas rondas e prisões; há o depoimento ( o único, por sinal ), de um fazendeiro, Aécio Amaral, dado ao jornal Gazeta de São João, em setembro de 81, e reproduzido no livro, que mostra isso. Disse que os fazendeiros “ouviam boatos”. Um deles, era sobre o “Grupo dos Onze”: os comunistas estariam organizados em grupos de onze pessoas, dispostas a, se o lado vermelho ganhasse a parada, acabar com os fazendeiros; cada grupo teria uma lista de fazendeiros a despachar. Isso teria levado os fazendeiros a reagir, e formar os grupos de “Vigilantes”. Compraram armas, inclusive, de um traficante de armas;
- mais humor involuntário: no mesmo depoimento do fazendeiro, o temor de que os subversivos envenenassem a caixa d’água municipal, mesmo com as próprias famílias dos subversivos tendo que consumir esta água…;
- o humor involuntário não pára: um dos presos, acusados de vermelhismo, tinha medo de que os comunistas vencessem. Ele era fazendeiro, chamado José Bitar, ou Zé Turco ( pág. 19 ): “Vejam minha situação: se os comunistas vencessem eu iria para o paredão porque sou fazendeiro; como venceram aqueles ligados aos fazendeiros, fui preso como comunista (…)”;
- as prisões e processos, além de demissões ( Jasson ficou preso por 36 dias e, posteriormente demitido do SAMDU ) levaram os acusados à ruína moral e financeira. Acabaram com famílias e relações sociais. Lendo sobre os casos, em que são dados nomes e rostos aos personagens, torna mais fácil compreender a questão das indenizações, em voga hoje em dia, para horror dos neoudenistas;
- a prisão era o porão de um velho prédio do ginásio na frente da estação rodoviária;
- os inquéritos ( IPMs ) concluiram pela absolvição ou inocência dos acusados.
Devo ter esquecido um monte, e deve estar bem confuso mas tá ficando longo e eu só consigo pensar em sugerir e insistir para que leiam o livro.
Mas agora vou retomar o causo que ficou em aberto: no depoimento acima, o entrevistado Amorim Ito fala que havia em São João uma “fábrica de fazer comunista”.
Como a História se repete, etc, a cidade se viu aterrorizada por misteriosos incêndios terroristas. A culpa recairia sobre, claro, os comunistas. Mas teriam os comunistas feito isso? Ito, explique essa fábrica:
“Pois não, Humberto.”
Brincadeira. Agora, sim.
” ( … )
ITO – Essa fábrica funcionava da seguinte maneira: há aqui o sr. L.B.A [ Nota do Blog: Eu já conto... ] agente da Cia. Paulista de Seguros, correspondente do jornal O Estado de São Paulo, amigo particular dos Mesquitas e do dep. Herbert Levy e inimigo de morte de Miguel Jorge Nicolau. Então, todos os incêndios daquela época, que eram muitos e quase todos segurados naquela companhia eram debitados aos que ele chamava de comunistas, mandando notícias para o jornal de tanto prestígio de São Paulo. Lembro-me de um fato que caracteriza bem o funcionamento dessa fábrica de comunistas. Passava eu por volta de 22:30hs (…) Estavam reunidos no interior da sede [ do Rosário ] homens que tratavam da formação de sindicatos. Ali apareceram pessoas estranhas e adversárias, querendo interromper a reunião, gerando um início de tumulto. Serenados os ânimos, fui para casa. Qual não foi minha surpresa quando, no outro dia, li no Estadão, em manchete de sete colunas: ‘Nova agitação dos vermelhos em São João da Boa Vista’. É uma fábrica de comunistas, ou não? (…)”.
Noutra parte do livro, mais informações:
” ( … ) Não satisfeito com as prisões, L.B.A., em carta ao militares, pediu um IPM, alegando que ‘os comunistas’ haviam incendiado prédios em São João. No decorrer do inquérito ( … ) ficou provado que nenhum dos acusados era responsável pelos incêndios. Se havia alguém interessado neles, seria ele, LUIZ BANHO DE ANDRADE, agente de seguros, o qual no final, foi indiciado ( … )”.
Luiz Banho de Andrade, udenista, agente de seguros, piromaníaco. Tio-avô do próprio autor do livro, Jasson de Oliveira Andrade. Incendiava prédios, fazia negócios e acusava os “comunistas” de tê-los os causado.
Quem quiser adquirir o livro, que custa apenas R$ 10,00, de acordo com o informado por Jasson, pode conseguir aqui:
PAPYRUS LIVRARIA
R. Getúlio Vargas, 307 – Centro
São João da Boa Vista – SP
CEP 13870-000
Fone/ Fax: ( 0xx19 ) 3623.4203
Enfim espero que este comentário sobre o livro de Jasson ( ouviu, Jasson? ) tenha ficado apresentável, apesar de saber que partes importantes devem ter ficado de fora. Mas, para conhecer mais, vocês terão que ler o livro.