ENCALHE

outubro 10, 2007

Serra ironiza protesto contra privatização

Governador diz que manifestação foi “ficção”; sindicatos se reúnem na quarta-feira em defesa das empresas públicas envolvidas no processo
São Paulo – Na próxima semana o governador José Serra anuncia a empresa vencedora do processo de licitação para avaliar os ativos das empresas estatais que estão no alvo do governo tucano para a privatização.Em uma reportagem publicada nesta terça-feira, dia 9, no jornal Folha de S.Paulo, o governador considera “ficção” a manifestação realizada na segunda, dia 8, pelos sindicatos das estatais ameaçadas, em frente à Secretaria Estadual da Fazenda. A reportagem mostra a pressa do governador em concluir suas obras, e para isso anunciou mais um instrumento para captação de recursos, para as obras de seu mandato.
> Veja fotos da manifestação
“O que parece ficção é o governador contradizer seu próprio documento, que afirma não só avaliar o valor as estatais, mas, também controlá-las até a execução de venda”, diz a diretora do Sindicato e funcionária da Nossa Caixa Raquel Kacelnikas.
Reunião – Nesta quarta-feira, dia 10, às 14h30, acontece uma reunião na Assembléia Legislativa com representantes das estatais e com a bancada do Partido dos Trabalhadores (PT). “A sociedade precisa ter acesso às informações dos deputados da oposição de Serra e também o que pensa a categoria de cada empresa ameaçada pelo governador”, diz Raquel. “O Sindicato estará presente na reunião para pensar em estratégias que proteja o último banco público de São Paulo e seu papel sócio-econômico dentro da sociedade”, completa a diretora.
Gisele Coutinho
Sindicato dos Bancários
09/10/2007
COMENTÁRIOS DO BLOG:
- pelo menos ele não mandou a polícia bater, da forma costumeira;
- e, se ironizou, é prova de bom humor, o que contradiz aquela carranca histórica. Há progressos, portanto.

setembro 14, 2007

Nova agência de fomento em São Paulo. E a Nossa Caixa?

Agência de fomento é aprovada em SP, foco em MPEs
PEGN
11/09/07
Com o objetivo de alavancar as atividades do empresariado paulista, o governo estadual lançou a agência paulista de fomento. Ela vai operar com ênfase no atendimento às pequenas e micro empresas (MPEs). Trata-se de uma instituição com capital ativo inicial de R$ 1 bilhão que fará captação de recursos no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e outros para disponibilizar aos empresários, noticiou o site InfoMoney.
Publicado no Diário Oficial da União no sábado (09), o decreto de criação da agência foi elaborado pela Secretaria do Desenvolvimento, passou pelo crivo de juristas da Casa Civil e foi assinado pelo governador José Serra.
MPEs em primeiro lugar
O foco de acão de agência são as micro e pquenas empresas. “Não pretendemos substituir o BNDES, que trabalha com grandes investimentos”, afirmou o vice-governador e secretário estadual de desenvolvimento, Alberto Goldman
Além disso, o vice-governador disse que é preciso solicitar ao Banco Central o início das atividades, processo que deve durar em torno de seis meses. “A agência deve entrar em operação somente no primeiro semestre do próximo ano”, disse.
Regras
A Agência de Fomento do Estado de São Paulo (Afesp) terá como missão promover o desenvolvimento econômico. Contudo, o documento proíbe operações de crédito ou mesmo de prestação de garantia ao Estado, a municípios ou a quaisquer entidades controladas direta ou indiretamente pela administração pública estadual ou municipal.
Outra regra impede repasses do Tesouro do Estado para cobertura de despesas de pessoal ou de custeio. Há também exigência de que o conselho de administração tenha participação obrigatória de representantes de secretarias estaduais. A diretoria, por sua vez, será formada por um diretor presidente e outros três com mandado de dois anos, podendo haver reeleição por mais dois anos.
Assuntos – de certa forma – relacionados
Considerações sobre a Privatização do Banespa e o Relatório do TCU
DIEESE
Nov/2000
Serra promete Agência de Fomento com seis anos de atraso
Tribuna da Imprensa
Abril/2007
Serra propõe agência para facilitar acesso a financiamentos
VALOR ECONÔMICO ( Clipping )
Setembro/2006
Alienação de ações do capital social do Banespa
“(…) O Banco [ Banespa ] passou a Conglomerado Financeiro em 1973, visto que o Banco do Estado de São Paulo S/A absorveu uma empresa de crédito, financiamento e investimento e uma Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários. Em dezembro de 1986 ampliou também a rede de dependências e assumiu o controle acionário do extinto BADESP – Banco de Desenvolvimento do Estado de São Paulo S/A, perfazendo igualmente as funções de Banco de Desenvolvimento (…)”.
Banco Central do Brasil
Outubro/ 2000

agosto 8, 2007

Craterolândia News urgente:

Criminalização da greve no Metrô é estratégia de ataque aos direitos trabalhistas
Mateus Alves
CORREIO DA CIDADANIA
07-Ago-2007

A greve dos metroviários em São Paulo, imediatamente criminalizada pela grande mídia devido aos reflexos imensos observados durante os dois dias em que os trens metropolitanos permaneceram parados na capital paulista, suscita novas questões sobre o direito de greve em setores essenciais e sobre a crise de infra-estrutura no Brasil.

Para expôr as causas e conseqüências da greve, o Correio conversa com Paulo Pasin, vice-presidente do Sindicato dos Metroviários de São Paulo. Além de esclarecer algumas dúvidas que estavam sendo mascaradas pela “criminalização” do movimento feita pela imprensa e pelo governo estadual, Pasin expõe outras mazelas do transporte paulistano e reafirma a necessidade da união de sindicatos no combate à retirada de direitos trabalhistas que vem acontecendo no país.

Correio da Cidadania: Quais foram os motivos para a paralisação do metrô de São Paulo?

Paulo Pasin: Tradicionalmente, a categoria metroviária recebe um montante anual pela participação nos resultados, com uma antecipação deste no primeiro semestre. Essa participação, também tradicionalmente, é igualitária – ou seja, há um valor que é dividido igualmente para todos os funcionários. Por exemplo, pegava-se o valor total de uma folha de pagamento e dividia-se o valor entre todos os funcionários da companhia.
Este ano, o Metrô inovou e propôs um mecanismo de participação nos resultados que privilegia aqueles que têm um alto salário. Chefes, coordenadores, passariam a receber algo em torno de 8 mil reais anualmente, enquanto condutores, o pessoal da manutenção – aqueles trabalhadores que carregam nas costas o Metrô dia após dia – receberiam, no máximo, 2 mil reais.
CC: Como tal proporção foi calculada?
PP: O cálculo foi feito da seguinte forma: pegou-se a folha de pagamento do Metrô, separaram a parte destinada aos engenheiros ( que possuem um sindicato à parte ), que corresponde a R$ 4 milhões de um total de R$ 24 milhões. Os outros R$ 20 milhões que sobram são destinados a todos os outros funcionários, sendo a divisão feita como uma parcela fixa de mil reais e 60% proporcional aos salários que recebem.
Se somarmos a parte fixa e a parte proporcional ao salário, temos esse montante que, em média, é de 8 mil reais para os que têm salários altos e 2 mil para outros funcionários. A antecipação seria de 800 reais.
CC: Qual a contra-proposta que o sindicato dos metroviários apresentou?
PP: Queremos que o valor total de participação seja o correspondente a uma folha e meia de pagamento, sem separação da parte destinada aos engenheiros e dividida igualmente para todos. Isso daria algo em torno de 5 mil reais anuais para cada funcionário, com uma antecipação de R$ 2.500.
CC: Quais resultados obtiveram após a realização da greve?
PP: Como houve o julgamento da greve, onde o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) considerou-a abusiva e decidiu pelo retorno imediato ao trabalho, a categoria optou por retornar à normalidade sem nenhuma negociação. Do ponto de vista econômico, saímos sem nenhum resultado, mas do ponto de vista da categoria, reforçamos a nossa indignação com o governo, com o secretário de transporte e com a mídia, que procurou jogar a população de maneira ostensiva contra a gente.
Fizemos dois dias de greve, obtendo a adesão total dos operadores de trem e dos funcionários das estações. O metrô só funcionou de maneira precária pois foi instituído um esquema de colocar pessoas não-habilitadas, que há muitos anos atrás foram operadores de trem, para manejar as composições da linha 1 e da linha 2 – colocando em risco os usuários, inclusive.
CC: Quais são suas percepções sobre a “criminalização” do movimento que tem sido feita pela mídia e pelo governo?
PP: Sistematicamente, desde o movimento que fizemos em abril, o governo Serra tem feito uma campanha intensa contra qualquer possibilidade de greve dos metroviários, com o objetivo claro de acabar com qualquer direito de greve. Inclusive, isso que criaram agora, que é colocar operadores desabilitados para controlar os trens, é uma forma de inviabilizar greves em serviços essenciais. Na verdade, isso é muito parecido com o que o governo federal está propondo; há essa hipótese de que, no meio da greve, o ideal é contratar funcionários temporários para reestabelecer os serviços. O que aconteceu agora não foi exatamente isso, mas dividir funções de funcionários que não eram mais condutores serviu como tal.
CC: O governador José Serra declarou que haverá demissões no Metrô. Que tipo de retaliações o sindicato espera?
PP: Embora tenhamos cumprido a decisão do tribunal de retorno imediato – e quando isso acontece, não se pode demitir grevistas -, é de se esperar retaliações e demissões, conhecemos o governo Serra. Trabalhamos sempre com a hipótese de demissões de funcionários ligados à direção da categoria. Inclusive temos informações de demissões que poderão acontecer durante a semana. Trata-se de um governo extremamente autoritário quanto ao fim do direito de greve, e uma retaliação seria simbólica para os projetos que tem. ( N. do Ed. No dia 06/08, o governo estadual de São Paulo anunciou a demissão de 61 funcionários do Metrô ).
CC: Há declarações do governador de que, assim como a paralisação de abril, esta nova greve teve um caráter apenas político. Qual a sua opinião sobre isso?
PP: É claro que toda greve possui um conteúdo político à medida que reivindica direitos; no nosso caso, além de brigarmos por nossos direitos, procuramos denunciar à população o sucateamento do transporte na capital paulista. O que acontece na realidade é que o próprio Serra está adotando uma posição essencialmente política, para acabar com nosso direito de greve.
Hoje é muito importante que os movimentos sindicais, independentemente das Centrais, se unam em torno do combate a essas políticas, que constituem um ataque muito grave aos nossos direitos e à liberdade de expressão.
CC: Qual é o reflexo da crise de infra-estrutura que o Brasil vivencia em relação ao transporte metropolitano? Qual a posição do sindicato dos metroviários em relação a isso?
PP: Ultimamente, todo o debate sobre a crise nos sistemas de transporte do país se concentra no setor aéreo. No entanto, a imensa maioria da população também sofre uma crise nos transportes coletivos, não só o urbano como também o intermunicipal.
O sindicato dos metroviários possui um entendimento de que é necessário investimentos para a ampliação da malha metroviária, que consideramos como a grande solução para os problemas do transporte metropolitano em São Paulo. No entanto, isso é um papel que deveria ser cumprido pelo Estado. Com a ampliação da malha metroviária se cria uma economia monstruosa na cidade de São Paulo pois, além da questão do transporte individual, resulta na diminuição da poluição, gasta-se menos combustível, etc. Mesmo dentro da ótica do governo, acaba-se criando uma movimentação na economia. O próprio Metrô e a Secretaria de Transportes possuem dados muito interessantes dizendo que privilegiando não apenas o balanço econômico mas também o balanço social do sistema de transporte, cria-se condições de atender perfeitamente a população; quando levam o Metrô para uma região de São Paulo, tudo por lá começa a ser ativado – não é por acaso que constroem shopping centers ao lado de estações.
Um de nossos principais projetos é fazer com que o governo, tanto o estadual como o federal, amplie suas aplicações em transportes, para ampliar a malha e reduzir a tarifa que, hoje, é muito alta para os padrões brasileiros.O governo alega que não tem dinheiro para investir, mas na linha 4 está cobrindo 85% dos gastos da obra para repassa-la à iniciativa privada, que irá operar o trecho por 30 anos com tarifas mínimas garantidas que irão integralmente para seus cofreS. Percebe-se aí a falácia.

LEIA MAIS:

O ACIDENTE DA LINHA 4 E A ENGENHARIA NACIONAL – IBRACON

julho 26, 2007

Nem só de "apagão aéreo" vive o transporte brasileiro: há a questão dos pedágios.

Filed under: pedágios, Privatização, PSDB/ DEM — Humberto @ 4:22 pm
Mobilização contra os pedágios no Sul do País
Com a mediação do presidente do SETCERGS, Sérgio Neto, a palestra “Cenário econômico: riscos e oportunidades para empresas brasileiras”, atraiu representantes dos governos do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, no sábado, dia 21, no Centro de Eventos da FIERGS. O secretário de Planejamento e Gestão do Rio Grande do Sul, Ariosto Culau, representou o governo gaúcho, enquanto os estados paranaenses e catarinenses, participaram com os titulares das pastas de Transportes e Infra-Estrutura, Rogério Wallbach Tizzot e Romualdo Teophanes Júnior, respectivamente.
Na abertura dos trabalhos, Sérgio Neto agradeceu a participação dos três secretários de estados. Também destacou a presença do ex-ministro dos Transportes, Cloraldino Severo; dos presidentes Paulo Vicente Caleffi ( FETRANSUL ), Pedro Lopes( FETRANCESC ), Mariano Costa ( FECAVERGS ) e Aldo Fernando Klein ( SETCEPAR ), da diretoria da Assurcon/RS, entre outros, para debaterem um tema bastante latente e preocupante para a categoria do TRC e os usuários das rodovias: o pedágio.
Descrevendo a experiência no Paraná, o secretário Tizzot agradeceu em nome do governo Roberto Requião o convite para participar dos debates. “A CIDE é o melhor pedágio” defendeu o secretário, lembrando que esse tributo oriundo dos combustíveis até 2006 já havia arrecadado mais de R$ 40 bilhões. Disse que no Paraná os contratos são de 25 anos e que as concessionárias arrecadam em torno de R$ 750 milhões. Também que a construção das praças consome mais de 20% do que é arrecadado pelas concessionárias.”O usuário está pagando duas vezes, com a CIDE e o pedágio, e as concessionárias estão lucrando com esse negócio”, reclamou Tizzot.
Ariosto Culau, pelo governo gaúcho, foi técnico sobre o tema. Mostrou uma pesquisa sobre a competitividade do Estado. “O Rio Grande do Sul hoje está em quarto lugar em termos de competitividade no Brasil, perdendo apenas para São Paulo, Rio de Janeiro e o Distrito Federal”, argumentou. Mas, quando a questão passa a ser a infra-estrutura rodoviária, admitiu as deficiências do território gaúcho. Citou alguns investimentos para resolver o problema, como a duplicação das rodovias estaduais; a conclusão da RS- 471; a construção dos acessos municipais; a ampliação da pista do aeroporto Salgado Filho e os investimentos no Porto do Rio Grande.
Já o secretário estadual de Infra-Estrutura de Santa Catarina, Romualdo Teophanes Júnior, enfatizou que no seu Estado não se aceita a justificativa de escassez de recursos públicos para a implantação de praças de pedágios. “Isso não justifica a privatização”, declarou Romualdo Teophanes Júnior. Segundo ele, Santa Catarina não aceitará o modelo de concessões de rodovias aplicado no Paraná e Rio Grande do Sul. “Para tratarmos desses assuntos, convidaremos sempre a FETRANCESC, que é uma entidade ativa e participativa nas soluções para o transporte em Santa Catarina. Queremos manter nossa malha rodoviária se possível sem cobrar nenhuma taxação”, comentou o secretário. Esse fato foi confirmado pelo presidente da Federação, Pedro Lopes, lembrando que já ocorreram quatro reuniões na sede da entidade que congrega as empresas de transporte de cargas.
Alerta à governadora gaúcha
O secretario Ariosto Culau, durante os debates, foi escolhido para ser o porta-voz sobre a queixa dos transportadores com relação aos pedágios. “O governo parece defender um modelo que está sendo rejeitado pela sociedade gaúcha”, argumentou Sérgio Neto. “Os maiores pagadores de pedágio são os transportadores” ressaltou o presidente do SETCERGS.
O ex-ministro dos Transportes, Cloraldino Severo, também, dirigiu-se ao representante do governo gaúcho. “Nós temos soluções para esse problema, mas não encontramos as portas abertas para levarmos nossas experiências e fazer o contraditório” assinalou. “Enquanto o governo de Santa Catarina chama os transportadores para debaterem o melhor modelo, aqui os convocados são os empreiteiros”, protestou o ex-ministro.
Sérgio Neto declarou encerrado o painel, com um alerta à governadora Yeda Crusius ( PSDB ). “A sociedade gaúcha está sempre disposta a fazer um pacto com o governo. Continuar pagando o pedágio, por mais seis anos, quando termina o prazo do atual contrato de concessão. Depois, o governo deveria assumir as praças dos pólos rodoviários, o que reduziria as tarifas em 50 %. Aplicando a arrecadação na conservação, manutenção e duplicação dessas rodovias, ainda vai sobrar dinheiro para investimentos em outros setores”.
Fonte: SETCERGS
23/7/2007
Em 10 anos, pedágio saltou de R$ 4,40 para R$ 15,40
O pedágio do Sistema Anchieta-Imigrantes é o mais caro do Estado de São Paulo. No início da concessão da Ecovias, em 1998, o valor cobrado nas praças do Riacho Grande ( via Anchieta ) e Piratininga ( Rodovia dos Imigrantes ) era de R$ 4,40. Hoje, passados dez anos, a tarifa é de R$ 15,40.
Pelo contrato de concessão assinado entre o governo do Estado e a iniciativa privada, o preço do pedágio é reajustado anualmente. O percentual é baseado no IGP-M ( Índice Geral de Preços – Mercado ), calculado pela Fundação Getúlio Vargas, acumulado entre junho do ano anterior e maio vigente.
A variação do índice de inflação é aplicada sobre a tarifa quilométrica, que leva em consideração o tipo de pista pedagiada e sua extensão. Para facilitar o troco, o resultado é arredondado a partir da segunda casa decimal. Entre R$ 0,05 e R$ 0,09, para cima; entre R$ 0,01 e R$ 0,04, para baixo.
Economistas criticam o modelo, que usa como base o IGP-M. De 1998 a 2007, o acumulado da inflação medida pelo índice foi de 149%. No mesmo período, o IPCA ( Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo ), medido pelo IBGE ( Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ), foi de 88,61%.
Fonte: Diário do Grande ABC
23/7/2007
TCU quer retorno menor para rodovia
O governo deverá receber hoje o aval do Tribunal de Contas da União ( TCU ) para publicar o novo edital do leilão de concessão de sete trechos de rodovias federais à iniciativa privada. Mas deverá recomendar mudanças que podem reduzir ainda mais o interesse dos investidores. A principal mudança diz respeito à diminuição da taxa de retorno prevista para os investidores que assumirem as rodovias.
Na nova versão dos estudos de viabilidade do edital, em análise no TCU, o governo já havido reduzido a taxa de retorno de 12,88% para 8,95%. As recomendações que deverão ser apresentadas no voto do ministro Augusto Nardes, relator do caso no TCU, poderão reduzir ainda mais a chamada Taxa Interna de Retorno ( TIR ).
O Estado teve acesso a uma cópia do relatório dos técnicos do TCU que analisaram o novo edital. O documento orienta a Agência Nacional dos Transportes Terrestres ( ANTT ) a mudar as referências utilizadas para calcular a TIR.
A recomendação é para que o cálculo da TIR leve em conta uma taxa de risco Brasil mais atualizada, de 2% ( 200 pontos ) e spread ( diferença entre a taxa paga para captar o dinheiro e a cobrada no empréstimo ) total do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social ( BNDES ), que financiará os investimentos das concessionários, de 2,5%.
Técnicos do TCU dizem, no relatório, que o próprio banco já havia se comprometido a trabalhar com esse spread nos financiamentos. “Ressalte-se que não há razão para utilizar spread superior a 2,5%, com o qual o BNDES já se comprometeu”, diz o relatório. Segundo técnicos do TCU, a versão dos estudos apresentada pela ANTT, que já havia reduzido a TIR para 8,95%, levava em conta uma taxa de risco Brasil de 3,91% e um spread de 3%.
Cálculos do setor privado estimam que, se o plenário do TCU aprovar as recomendações de mudanças nessas duas referências, a taxa de retorno cai de 8,95% para em torno de 7,2%. Sendo assim, os preços dos pedágios ficarão cerca de 14% mais baixos.
IDAS E VINDAS
Além disso, com as mudanças haverá uma redução de até 22,5% nas tarifas que já eram previstas pelo governo na nova versão do edital. Essa eventual redução adicional da TIR e dos pedágios, alertam os investidores, pode reduzir ainda mais o interesse das empresas no leilão.
“Se, de fato, a remuneração for reduzida, a concorrência ficará mais estreita e o leilão ficará aberto a empresas aventureiras”, disse uma fonte do setor privado.
O processo de concessão dessas sete rodovias – entre as quais a Fernão Dias e a Régis Bittencourt – acumula um histórico de idas e vindas. Depois de anos tentando destravar essas concessões, em janeiro o governo surpreendeu o mercado ao suspender o processo para revisar o edital.
A intenção do governo era reduzir as taxas de pedágios previstas para futuras concessões. Em maio, o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, anunciou a retomada do processo. As alterações no edital, disse Nascimento à época, proporcionariam a redução de até 22,5% nos preços dos pedágios.
NÚMEROS
12,88% – foi a taxa de retorno das empresas concessionárias prevista no edital original enviado pelo governo ao Tribunal de Contas da União
8,95% – foi a taxa recalculada pelo governo e em análise no TCU
7,2% – é a taxa de retorno estimada pelas empresas privadas caso sejam acatadas as novas recomendações do Tribunal.
Fonte: O Estado de São Paulo
25/7/2007

julho 6, 2007

Conhecedor dos golpísmos que aqui campeiam, Governador Requião afirma que crise aérea é tentativa de privatizar Infraero

Filed under: Aeronáutica, apagão aéreo, Privatização, Roberto Requião — Humberto @ 2:45 am
O governador Roberto Requião disse nesta quinta-feira (5), ao receber em audiência o major-brigadeiro-do-ar Raul José Ferreira Dias, comandante do V Comando Aéreo Regional, que a crise que afeta o setor aéreo brasileiro é “uma clara tentativa de privatização da Infraero e de retirada do Ministério da Aeronáutica do comando da segurança do espaço aéreo”. “Deixei bem clara ao major-brigadeiro a opinião do Governo do Paraná e o que se espera da Aeronáutica é firmeza daqui para frente. Não é truculência, mas firmeza. Tenho certeza que, num curto espaço de tempo, todo o sistema estará restabelecido, com as mudanças necessárias”, disse o governador. Para Requião, o sistema aéreo brasileiro “não pode ficar apenas ao sabor das conveniências das empresas comerciais aéreas. A segurança do espaço aéreo brasileiro está acima de tudo e cabe somente a Aeronáutica brasileira”, concluiu. Já o major-brigadeiro Raul José Ferreira Dias saiu da audiência, no Palácio das Araucárias, satisfeito com as declarações de apoio do governador. “É muito importante para nós, no momento atual, recebermos apoios políticos do peso do governador do Paraná. Como representante do comando da Aeronáutica na região Sul, foi uma satisfação termos a palavra do governador da maneira como foi colocada”. Esforço – Responsável pelo comando da segurança do espaço aéreo de uma área de cerca de 2 milhões de quilômetros quadrados e que envolve os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, parte de São Paulo e Mato Grosso do Sul, o major-brigadeiro garantiu que o ministro da Aeronáutica, tenente-brigadeiro-do-ar Juniti Saito, tem feito todo esforço possível para acabar com a crise do setor aéreo “naquilo que cabe à Aeronáutica. Mas sempre dentro da legalidade, do marco legal que se estabeleceu dentro do controle do espaço aéreo”. Segundo ele, a população precisa entender que existem três áreas bem distintas atuando no controle do espaço aéreo. “Cabe a Aeronáutica a segurança do espaço aéreo, enquanto que a Infraero fica com a parte de infraestrutura dos aeroportos e a Agência Nacional de Aviação Civil cuida, entre outras coisas, das concessões para os vôos. Posso garantir que a parte da Aeronáutica está sendo realmente bem conduzida, pelo nosso comandante e encontramos em Curitiba, na pessoa do governador Roberto Requião, o perfeito entendimento de que não poderemos fazer absolutamente sem este apoio político”.Quanto à retirada do controle da segurança do espaço aéreo da Aeronáutica, o comandante do 5.º Comar, com sede em Canoas (RS), afirmou que não cabe à própria Aeronáutica decidir a respeito. “Estamos preocupados sim em cumprir bem a nossa missão e é o que estamos tentando fazer. Existem problemas de toda ordem, mas no que tange aos aeroportos não é problema da Aeronáutica e sim da Infraero. São coisas distintas e acredito que o povo já está entendendo isso”.

junho 27, 2007

Assautovias

Filed under: pedágios, Privatização, rodovias — Humberto @ 3:42 pm

BRASIL TERÁ 400 PONTOS DE COBRANÇA DE PEDÁGIO
Já existem em operação no Brasil 331 pontos de cobrança de pedágio nas rodovias brasileiras. Com a concessão de 7 novos trechos de rodovias federais serão 393.
O levantamento foi feito pelo http://www.estradas.com.br, que deverá lançar em janeiro, estudo comparativo sobre a concessão de rodovias no Brasil e exterior.
A iniciativa do portal foi motivada pelas pesquisas realizadas on line com usuários de rodovias. A mais recente, depois de 5.000 votos, apurou que 92% dos usuários acham o valor do pedágio caro, 6% justo e apenas 2% barato.
Um usuário de automóvel que viajar passando por todos os pontos de cobrança de pedágio no Brasil, gastará numa viagem R$ 1.737,00 e caso fosse um caminhão ou ônibus de quatro eixos pagará R$ 6.184,90.
Outra pesquisa do www.estradas.com.br com 10.000 internautas, questionados sobre se a concessão de rodovias seria a solução para a melhoria das condições das estradas 61% responderam que sim, contra 39% que optaram pelo não. A fiscalização das concessionárias de rodovias também deixa a desejar. Para 84% dos que responderam a pesquisa o poder concedente não fiscaliza com rigor as empresas. Apenas 16% acham que a concessionárias têm sido bem fiscalizadas.
“Fica evidente que os usuários são favoráveis à concessão, mas não concordam com valor dos pedágios e com a forma como as concessionárias têm sido fiscalizadas”, esclarece Rodolfo Alberto Rizzzotto, editor do www.estradas.com.br .
Atualmente, são quase 10.000 km de rodovias concedidas, sendo 3.500 km em São Paulo, 2.495 km no Paraná, 2.494 km no Rio Grande do Sul e 666 km no Rio de Janeiro. Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, possuem pequenos trechos concedidos.
Ranking dos pontos de cobrança de pedágio:
- São Paulo – 159
- R. G. do Sul – 73
- Paraná – 56
- Rio de Janeiro – 29
- Espírito Santo – 4
- Bahia – 4
- Minas Gerais – 2
- Ceará – 2
- M. G. do Sul – 2

Na opinião do editor do www.estradas.com.br falta transparência nas concessões. É o caso do Estado de São Paulo, onde foram concedidos 3.500 km de rodovias em que o relatório com a fiscalização das concessionárias não aparece no www.artesp.sp.gov.br , da agência responsável pela fiscalização. Diferente da ANTT, que fiscaliza concessões rodoviárias, mas disponibiliza os relatórios das concessões, ainda que o último seja apenas de 2004.

AS MELHORES RODOVIAS FORAM ENTREGUES PARA A INICIATIVA PRIVADA
Apesar das concessões rodoviárias no Brasil representarem menos de 7% do total das rodovias pavimentadas, correspondem a aproximadamente 50% do total do tráfego e 60% do total das rodovias pavimentadas de pista dupla, nos estados com rodovias concedidas. Os novos lotes previstos para rodovias federais e paulistas entregará mais de 90% das rodovias de pista dupla para a iniciativa privada. O que indica que o poder público concede o filé mignon e fica com o osso.
A tendência fica clara ao analisar os próximos lotes de concessão das rodovias federais e estaduais de São Paulo. No caso das rodovias federais está prevista a concessão de sete rodovias, num total de 2.610 km, sendo que a Fernão Dias ( BR-381 ), que liga São Paulo a Belo Horizonte e, a São Paulo – Curitiba ( BR 116 ) juntas somam quase 1.000 km de rodovias com pista dupla, cujos investimentos foram realizados pelo governo federal e cairão nas mãos da iniciativa privada, a quem caberá, num primeiro momento, a tarefa de construir as praças de pedágio. As rodovias que serão concedidas na próxima etapa estão na região Sudeste e Sul. Não há trechos das precárias rodovias do Nordeste no rol das que serão concedidas.
No Estado de São Paulo, o próximo passo do Governo do Estado é entregar o chamado Sistema Trabalhadores ( Ayrton Senna – Carvalho Pinto e D. Pedro I ), num total de 262 km das mais modernas e seguras rodovias do país. São Paulo já entregou praticamente 70% das rodovias de pista dupla para a iniciativa privada e deverá entregar o restante nos próximos cinco anos.
Apesar das vantagens alardeadas da concessão, o programa paulista gerou a construção de apenas 110 km nos primeiros cinco anos de novas estradas. E praticamente não há mais nenhum quilômetro de novas rodovias para serem construídos nos próximos 15 anos de concessão no Estado de São Paulo. Vão ser apenas duplicações de alguns trechos e melhorias em outros.
Apesar de reclamarem com frequência as concessionárias de rodovias sabem que concessão é um bom negócio. Somente em 2004, as 36 concessionárias filiadas a ABCR – Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias arrecadaram R$ 4,43 bilhões, fruto, principalmente, do pedágio pago por 603 milhões de veículos. O número de veículos nas praças de pedágio aumentou 9% mas a receita cresceu 24% em comparação a 2003.em relação ao ano anterior.
O grupo CCR que controla as concessionárias: NovaDutra, Autoban, Rodonorte, Ponte S.A. , Via Lagos, Via Oeste, já prepara vôos mais altos, correndo atrás de concessões nos EUA e México. Esse crescimento será sem perder de vista o Brasil, que possui a maior malha rodoviária concedida do mundo.

Estradas.com.br

junho 20, 2007

CTEEP será revendida mais barato

Filed under: Colômbia, CTEEP, ISA, ISAGEN, Privatização — Humberto @ 8:17 pm
Comemoraram cedo demais: quando a ISA venceu o leilão da CTEEP, houve quem perguntasse – tentando ser irônico – aos contrários ( dinossauros nacionalistas ) o que eles tinham a dizer, já que foi uma estatal colombiana que açambaracara a empresa paulista. Tipo: “Aí, ó… Cês são contra a iniciativa privada estrangeira falando que ela quer mamata, só comprar estatal barato e tudo o mais… E agora, vão dizer o quê? Foi uma estatal que comprou outra. Tomem, jacobinos!!!”
Pegaram o espírito da coisa?
Pois bem. Acontece que saiu uma notinha da AFP na Gazeta Mercantil ( acho que na 6ª. feira passada ) dizendo que o governo da Colômbia irá se desfazer ( desde quando será que eles decidiram isso? ) de suas ações da ISA ( cerca de 56%, segundo a nota ) e seus 25% de participação na geradora e comercializadora ISAGEN.
Controladoria Pede Não Privatizar Companhias Elétricas – Colômbia ( essa eu não conferi a data )
O governo colombiano anunciou ( … )
Como sabemos, os governos que abraçam certas propostas costumam vender seus ativos “baratinha, freguesa”; talvez os que vierem a adquirir a parte do governo na ISA, pagarão com amplas facilidades e abaixo de um preço justo; portanto, é razoável concluir que, no final dessas operações e transferências das empresas, a CTEEP mudará de mãos ( de estatal para privada ? ) por um pagamento inferior ao que foi dispendido no leilão.
É só um chute.
Já estamos acostumados a levar chutes.
Lembrando que a COPEL paranaense foi impedida de participar dos lances.

maio 3, 2007

Editora Abril reconhece: Estradas não-privatizadas de Requião poderiam ser vendidas na Tapeçaria Chic!!!

Filed under: Editora Abril, Paraná, Privatização — Humberto @ 12:43 am

99% das estradas do Paraná estão boas, aponta “Guia Quatro Rodas”

O Paraná tem apenas 1% das suas rodovias em situação precária. A constatação é do Guia Quatro Rodas Rodoviário 2007, a ser lançado nos próximos dias pela Editora Abril. Dos 15.119 mil quilômetros de rodovias paranaenses percorridos pela equipe do Guia, somente 158 quilômetros foram classificados como precários. Entre eles, estão trechos das rodovias federais BR-153 e BR-116.
Segundo o secretário dos Transportes, Rogério Wallbach Tizzot, a boa situação das estradas paranaenses é resultado de um amplo programa estadual de obras que vem sendo executado desde o início de 2003. De lá para cá, o Governo do Paraná aplicou mais de R$ 1 bilhão para recuperar, duplicar e construir 5,1 mil quilômetros de estradas e para garantir 800 quilômetros de vias rurais.
“Estabelecemos um programa de obras tecnicamente bem elaborado e financeiramente viável. Isso possibilitou atuarmos em todas as regiões e reverter a situação precária em que se encontravam nossas rodovias”, afirma ao ressaltar que todos os recursos aplicados vieram do Tesouro do Estado.
“Provamos que é possível cuidar das estradas aplicando com seriedade o que a população paga em impostos. Temos a Cide (imposto sobre os combustíveis), os recursos do Detran e o próprio Tesouro Estadual. Não há necessidade de pedágios”, completa.
A melhoria das condições das estradas do Paraná vem sendo apontada pelo Guia Quatro Rodas desde 2004. Naquele ano, o Estado possuía 832 quilômetros mapeados como trechos ruins. No ano seguinte, o número foi reduzido para 701 quilômetros. “E, agora em 2007, chegamos em apenas 158 quilômetros”, salienta Tizzot.
Exame – A boa situação das rodovias paranaenses foi recentemente destaque em outra publicação nacional. O anuário da revista Exame 2006-2007 – lançado em novembro do ano passado e também publicado pela Editora Abril – apontou o Paraná como o segundo Estado com o melhor índice de conservação de rodovias.
De acordo com o levantamento do Anuário, 59% das estradas paranaenses estão em condições ótimas ou boas. O diagnóstico colocou o Paraná atrás apenas de São Paulo entre todos os Estados do país.
Metas – O secretário dos Transportes ainda destacou que os investimentos no setor rodoviário vão ser mantidos nos próximos anos. A manutenção e a recuperação das estradas continuarão entre as prioridades, juntamente com a execução do programa Estradas da Liberdade. “Serão grandes corredores de transporte que vão possibilitar viagens em percursos economicamente estratégicos sem o pagamento de pedágio”, destaca.

Do HoraH News

abril 27, 2007

Mais um pouco da Homenagem a Aloysio Biondi. Leiam e entendam, antes que o Serra dê a Nossa Caixa ou a CESP!!!

Filed under: Aloysio Biondi, FHC, neoliberalismo, Privatização — Humberto @ 3:39 am
Aloysio Biondi morreu em 21 de julho de 2000, há dois anos. Foi com emoção que recebi o convite de Paulo Donizetti, editor da RdB, para reconstruir essa entrevista com ele.
Mais emocionado fui ficando quando, ao me embrenhar nos seus textos, percebi que o meu maior problema seria a edição, pois quase tudo que Biondi escreveu e disse ainda é muito atual.Infelizmente, muito não pôde ser publicado, por um motivo óbvio, falta de espaço.
Algo que Biondi sempre reclamava. A ponto de ter me confidenciado, poucos antes de sua morte, que recusara um convite para voltar a assinar uma coluna no jornal Folha de S. Paulo, porque queriam publicá-lo apenas uma vez por semana.
Preferiu permanecer no Diário de São Paulo, à época Diário Popular, mesmo sendo este um jornal de repercussão regional.Pra finalizar, é importante registrar que poucas frases de ligação e uma ou outra fírula foram inventadas.
Só me permiti isso para a matéria não ficar burocrática – ele entenderia. Todo o resto é Biondi. Na pesquisa, foram consultados e utilizados só os artigos e entrevistas dos últimos anos. As reportagens produzidas por ele para a RdB foram a base, mas o seu livro O Brasil Privatizado (Perseu Abramo) e matérias publicadas na Folha de S.Paulo, Diário de São Paulo, Correio Brasiliense, Fenae Notícias, revista Bundas, Caros Amigos, jornal da Adunicamp entre outros veículos, também foram fundamentais.
(RR).Renato Rovai – A crise que abate a Argentina e vem se encaminhando de forma rápida para o Brasil é resultado do quê?
Aloysio Biondi – Não há saída, a menos que se rompa com o FMI. A Argentina, antes mesmo do Brasil, iniciou as privatizações, apresentadas como “uma reforma para reduzir a dívida do governo e eliminar o rombo”. A Argentina vendeu tudo: ferrovias, empresas de energia, telefônicas, portos, e até sua Petrobrás (a YPF) e seus equivalentes do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. Vendeu tudo, tudo. Agora está de calças na mão, nas mãos do FMI, sem patrimônio e sem o lucro das estatais, que ajudavam a reduzir o déficit. A privatização não reduziu nem a divida nem o déficit da Argentina. Exatamente como no Brasil. Em contrapartida, o mundo está assistindo a taxas de crescimento econômico fantásticas nos países que desafiaram o FMI, os países ricos e as imposições neoliberais de abertura de mercado às multinacionais e suas importações e à livre circulação dos capitais especulativos. A Malásia, que estabeleceu controles sobre os capitais, cresceu. A Coréia do Sul, que reduziu rapidamente as taxas de juros após a crise de 1997, cresceu e a China continua a crescer no ritmo de 8% ao ano.
Renato Rovai – Então você considera que a herança do governo Fernando Henrique Cardoso para o país é ruim?
Biondi – São duas as principais heranças do governo Fernando Henrique. A primeira, a destruição da alma nacional, porque ele conseguiu destruir o país, destruir a solidariedade e conseguiu jogar um segmento da população contra outro. A segunda, o nosso retorno à década de 50, porque passamos a ter uma dependência total do exterior.
Renato Rovai – Mas esse governo tinha outro caminho?
Biondi – Claro, afinal a febre da privatização e o impulso ao chamado neoliberalismo teve seu ponto de partida na Inglaterra, com a primeira-ministra Margaret Thatcher, mas mesmo ela fez tudo diferente do governo Fernando Henrique Cardoso. A privatização inglesa não representou a doação de empresas estatais, a preços baixos e a poucos grupos empresariais. Ao contrário: seu objetivo foi exatamente a pulverização das ações, isto é, transformar o maior número possível de cidadãos ingleses em donos de ações, acionistas das empresas privatizadas. Não foi só blábláblá, não. O governo inglês criou prêmios, incentivos para qualquer cidadão comprar ações. Quem não as vendesse antes de certo prazo tinha o direito de ganhar determinadas quantias, em datas já marcadas no momento da compra. Isso na Inglaterra de Thatcher. Isso nos anos 80. Poderia dar outros exemplos, mais recentes, como o da Itália ou da França, mas acho que são dispensáveis, se até a Thatcher fez diferente…
Renato Rovai – A sociedade foi passiva durante este governo, ela se acomodou? E qual a responsabilidade da mídia nesse aspecto?
Biondi – A sociedade brasileira perdeu completamente a noção – se é que a tinha – de que as estatais, por exemplo, não são empresas de propriedade do governo, que pode dispor delas a seu bel-prazer. Esqueceu-se de que o Estado é mero gerente dos bens, do patrimônio da sociedade, isto é, que as estatais sempre pertenceram a cada cidadão, portanto a todos, e não ao governo federal ou estadual. Essa falta de consciência coletiva, reforçada pelos meios de comunicação, explica a indiferença com que a opinião pública viu o governo doar por 10 o que valia 1000. Negócios da China que, em sua vida particular, nenhum trabalhador, empresário, nenhuma família de classe média ou do povão, aceitariam. Qual seria a reação de qualquer brasileiro, por exemplo, se um vizinho rico quisesse comprar sua casa, que valesse 50 mil ou 100 mil, por 5 mil ou 10 mil? Reagiria violentamente. No entanto, centenas e centenas de bilhões de reais de patrimônio público, isto é, de propriedade dos milhões de brasileiros, foram vendidos dessa forma, sem grandes protestos, a não ser nas áreas sindicais ou oposicionistas – que, por isso mesmo, tiveram seu espaço nos meios de comunicação devidamente cortado.
Renato Rovai – O Banco do Brasil, a CEF e a Petrobrás seriam a bola da vez num futuro governo tucano?
Biondi – Vamos começar pelo BB. A desmoralização do Banco do Brasil perante a opinião pública foi uma das operações de manipulação mais maquiavelicamente montadas pelo governo FHC. Eles anunciaram prejuízos recordes para o Banco do Brasil, mas na verdade tudo isso foi fabricado. A equipe econômica lançou como dinheiro perdido no balanço do BB todo e qualquer empréstimo em atraso, mesmo que este atraso fosse de apenas um dia. Qual a manobra? Pelas regras do Banco Central, somente devem ser considerados créditos de liquidação duvidosa os empréstimos já vencidos e não pagos há mais de dois meses… A equipe econômica, repita-se, lançou como prejuízos empréstimos com até um dia de atraso. Além disso, o governo federal deve alguns bilhões ao BB, relativos a compra de títulos da dívida externa, mas não inclui nas contas. É um absurdo com intuito de desmoralizar o Banco.
Renato Rovai – E a CEF?
Biondi – Tanto quanto o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal também foi utilizada, ao longo dos anos, para resolver problemas que eventualmente afetassem a economia. Uma utilização muitas vezes de interesse da sociedade mas que, inevitavelmente, reduzia a lucratividade da instituição. No governo FHC, no entanto, a CEF tem sido utilizada para aumentar os lucros dos bancos privados, vergonhosamente obrigada a engolir bilhões e bilhões de prejuízos que, na prática, seriam dos banqueiros. Como? Tem gente que já esqueceu disso ou prefere não lembrar, mas na quebra do Banco Econômico, por exemplo, a CEF “comprou” a carteira imobiliária, isto é, os contratos de financiamento da casa própria que o Econômico havia concedido. Valor: 1,7 bilhão de reais. Na quebra do Bamerindus, a mesma coisa. A Caixa comprou os “negócios” com alto nível de inadimplência para beneficiar os futuros compradores. Mas o pior é que essa operação virou norma: a Caixa Econômica Federal passou a comprar permanentemente esses ativos, inclusive dos grandes bancos aumentando os lucros deles e ficando com os prejuízos… Mas, você não vai me perguntar do Banespa?
Renato Rovai – Claro, mas é que eu queria falar do futuro, do que ainda pode vir a ser privatizado.Biondi – É que de repente você acha que o assunto já é velho. A gente costuma esquecer as coisas…
Renato Rovai – Então tá, mas seja breve…(risos)
Biondi – Eu sei que já falei muito a respeito do Banespa, mas é bom lembrar algumas coisas. Antes do BB ele já havia sido vítima de manobras para considerá-lo quebrado. Poucos dias antes da posse do ex-governador Mário Covas, em seu primeiro mandato, no final de 1994, o Banco Central decretou a intervenção no banco paulista, alegando que o estado havia deixado de pagar uma parcela de um acordo de refinanciamento da dívida, firmado com o governo federal. No entanto, segundo a defesa de um ex-governador paulista, em juízo, o atraso era inferior a dez dias – e as regras do acordo de financiamento previam que qualquer punição somente poderia ser adotada após 30 dias de atraso. No caso do Banespa, ainda, houve um aspecto nunca explicado suficientemente à opinião pública. Afirmava-se que o banco tinha um rombo, que estava quebrado, insinuando-se que seria uma situação igual à do Nacional, do Econômico e de outros bancos particulares que quebraram. Na verdade, no caso desses bancos privados, as dívidas eram superiores aos créditos que tinham – inclusive a receber. Havia um rombo, sim. No caso do Banespa, a situação era outra: o dinheiro do banco não havia evaporado, sumido, deixando um rombo. Havia, o que não foi satisfatoriamente explicado, um grande devedor, que não estava pagando suas dívidas: o governo do Estado. O Banespa nunca quebrou. Quem estava “quebrado” era o governo do estado. Os créditos a receber existiam. O dinheiro existia. Mas a equipe de FHC construiu uma imagem de “quebra” para o Banespa, para abrir caminho para a privatização.
Renato Rovai – Será que você não está muito ácido em relação ao governo do FHC?
Biondi – Será pra menos? Eles estimularam o envio de dólares para o exterior, elevaram os juros para cobrir os rombos criados, quebraram a União, os estados, os municípios. Destruíram a indústria e a agricultura. Esses clones malditos dos intelectuais de ontem destruíram em menos de uma década o que havia sido construído ao longo de várias. Destruíram o sonho, a Alma Nacional. O que somos hoje? Um quintal dos países ricos? Não. Somos um curral. Bovinos ruminando babosamente, enquanto o vizinho do lado, o trabalhador, o funcionário público, o aposentado, o agricultor, o empresário, todos, um a um, são arrastados para o grande matadouro em que o país se transformou, com suas mil formas de abate como o desemprego, os cortes na aposentadoria, as falsas reformas do funcionalismo, a falência, as importações. Bovinos ruminando no curral, enquanto empresas de todos os portes são engolidas por grupos estrangeiros e até o petróleo, ou os campos mais fabulosos de petróleo do mundo, com poços capazes de produzir 10 mil barris por dia, cada um, são entregues a preço simbólico às multinacionais.
Renato Rovai – Sabe os que as pessoas me perguntam sempre, por que esses dados que o Biondi cita aparecem tão pouco na imprensa?
Biondi – Honestamente, acho que o jornalismo nunca enfrentou uma fase tão ruim no Brasil. Quanto ao jornalismo econômico ele é como o jornalismo policial, fragmentado. Dá o momento de recorde e o momento de grande crise. Depois não fala mais nada e todo mundo fica pensando que só tem crise. Que é o fim do mundo. A gente já passou por várias crises em que as pessoas pensavam que o mundo ia acabar. A crise do petróleo, a crise da dívida externa nos anos 80, tudo parecia indicar que o mundo ia acabar. Com a ajuda da imprensa, aí, sim, ideológica. Porque, quando estourou o negócio do preço do petróleo, os Estados Unidos queriam invadir o Oriente Médio. Então, as revistas, a televisão, mostravam sempre os xeques com aquele bando de mulheres em Londres, Paris, fazendo compras. Ficava todo mundo com aquela idéia de que só existiam eles. Os árabes tinham indústria petroquímica e incríveis planos de investimentos, mas parecia que eram tudo Ali Babá. Que pegavam petrodólar e botavam na caverna e diziam “aqui ninguém entra”. E não era isso. Os relatórios do Banco Mundial e do FMI repetiam isso, que a economia mundial ia acabar. Não se dizia que eles tinham planos de investimentos incríveis, o Brasil fez barganhas para construir ferrovias, usinas etc., em troca do petróleo.
Renato Rovai – Vou mudar um pouco o rumo da conversa, alguns temas vão estar na pauta desta eleição presidencial, a primeira é a reforma tributária…
Biondi – O Brasil é um país tão incrível, que você tinha imposto realmente progressivo, 30, 35, 40 por cento de Imposto de Renda, eles, esse governo, reduziram para duas alíquotas, 10 e 27,5 por cento. E a imprensa, que antigamente, antigamente que eu digo é há oito anos, gritaria contra isso, não falou nada. E a classe média não tem a menor noção de que, de repente, o mais rico, o milionário, não paga mais do que ela. A Folha de S. Paulo chegou a publicar matéria mostrando as alíquotas máximas em outros países, mas é como sempre, discretamente, lá dentro, no caderno de economia. Antigamente sairia: “Aumento de imposto do Brasil não tem paralelo no mundo”. Nada disso é editado para as pessoas verem.
Renato Rovai – A Previdência realmente está quebrada, os números que apresentam são verdadeiros?
Biondi – As estatísticas do próprio Ministério da Previdência Social revelam a capacidade do governo FHC e sua equipe de mentir e manipular dados. É mito sobre mito. Em todo momento governo e (de)formadores de opinião repetem que a população brasileira está envelhecendo e por isso o número de aposentados vem explodindo, chegando hoje a 15 ou 16 milhões. Lérias. Quando se fala nesse número de beneficiários da Previdência trata-se, na verdade, de pedidos de todo tipo: aposentadorias, auxílio-doença (que sobem num mês e caem no outro), pensões etc. E as aposentadorias, elas são em torno de 10 milhões. Essa é uma das mentiras que vem sendo repetidas. Há pelo menos uma dezena de mentiras como está. Elas são ditas pelo governo e pelos (de)formadores de opinião para abrir caminhos para a previdência privada.
Renato Rovai – Aliás, falando em setor privado, o empresariado nacional ganhou ou perdeu com a política econômica do atual governo?
Biondi – Como diz a mestra Maria da Conceição Tavares, os Estados Unidos forçaram a abertura dos outros mercados para compensar o déficit com o Japão, que não conseguiam compensar nunca. E o empresariado nacional, se a gente relembrar a euforia inicial de globalização, da entrada de dólares, achou que ia ter um banquete. E não percebeu que era o prato principal (risos). Eu queria explicitar, aqui, nada me provocou mais indignação do que a quebra da Metal Leve. Por quê? Porque o Mindlin foi sempre o empresário que mais se preocupou com tecnologia no Brasil. Tanto que em 1968 fiz uma matéria sobre a enxurrada de importações e citava um exemplo tirado do noticiário: a FAB importou pistão para motor de avião dos Estados Unidos e, quando os caras abriram a caixa, estava lá que era fabricado pela Metal Leve. Porque ela exportava para a NASA. A Romi, por exemplo, naquela época, em 1968, fazia as máquinas de controle numérico, as precursoras do computador, e fazia tomos para exportar para os Estados Unidos. Isso desmente a imagem de que não temos tecnologia, que o empresário é acomodado etc. Então, para criar renda, criar um mercado interno, você tem uma política de criar emprego. Na época da ditadura, a esquerda… esquerda não, na verdade esses caras que estão no governo, debatiam isso o tempo todo. O Bacha, no livro Encargos Sociais e Mão-de-Obra no Brasil, em 1972, propunha que a previdência fosse cobrada como nos outros países, sobre o faturamento e não sobre a folha de salário. Porque, para pagar menos à previdência, a empresa automatizava. No governo Geisel, que fez coisas sérias, o BNDES criou uma linha de financiamento para a indústria de base porque importávamos máquinas maciçamente, apoiando a Villares, Romi, Bardella etc. Mas tinha mais duas linhas, inclusive um dado que foi muito usado para dizer que o governo tinha até fábrica de sutiã, nessa onda da lavagem cerebral. Por que o governo tinha até fábrica de sutiã? Por uma política econômica sábia. Porque o BNDES apoiou os setores de base, onde era importante a tecnologia, mas apoiou também os setores que usavam muita mão-de-obra, como o setor têxtil.
Renato Rovai – O BNDES cumpriu o papel destinado a ele no governo FHC?
Biondi – A sigla BNDES neste governo significou Banco Nacional do Desmantelamento Econômico e Social. Ele se transformou em instrumento de destruição de empregos, desmantelamento de empresas, retrocesso tecnológico. Passou a financiar a desnacionalização, a maior dependência e, ironicamente, atua até como instrumento para aumentar o rombo de dólares do país. Isto é, passou a ser uma alavanca para a crise cambial na qual o Brasil está se atolando cada vez mais. Mas, você não acha que está na hora de acabar a entrevista, depois você vai ter problema para editar, não diz que eu não te avisei…
Renato Rovai – Só mais uma, depois disso tudo fico me perguntando, e tem solução?
Biondi – Acredito que estejamos vivendo o fim de um ciclo, o problema agora será dos Estados Unidos, e nós, infelizmente, vamos passar pelo purgatório que outros países já passaram. Espero que essa virada tenha ensinado alguma coisa para as pessoas, e que talvez os meios de comunicação percebam que eles ajudaram a afundar o país. Tenho os jornais guardados. Tem até o Fernando Henrique dizendo, em outubro de 1995, “quando alguém me fala de recessão, eu tenho vontade de dar uma gargalhada”. (risos)
Renato Rovai – Acho que acabamos.
Biondi – Ninguém vai agüentar ler isso. Nem a família. A gente vai ficando velho e a audiência vai diminuindo. Os parentes já não agüentam mais ler as mesmas coisas. (Risos)
Renato Rovai – Vamos tomar uma cerveja?
Biondi – Não, vou ter de pegar a Bia (sua filha) na escola e depois vou pra casa. Marquei com os meninos (seus filhos Pedro e Antônio). Vou fazer um jantar pra eles. Mas me diz uma coisa, você me enrolou, né? Falou que precisava desta entrevista para hoje e de qualquer jeito e agora me chama para tomar cerveja… Eu sempre caindo na sua e você me enrolando com os prazos. Fala a verdade, essa é a primeira matéria desta edição que você está fechando, não é?

Renato Rovai

Jornalista, é editor da revista Fórum e da Editora Publisher Brasil, e colunista da Novae

abril 23, 2007

Feirantes deveriam aprender com o governo do PSDB: consegue-se vender o que quiser, no maior silêncio, quase na surdina. Até o que não lhe pertence!!!

Ações da Cesp sobem quase 30% na semana e têm maior alta do Ibovespa em 2006
Cemar S.A.
21/ 01/ 2006
Fato Relevante
Cesp – 27/ 07/ 2006
Governo estuda privatizar a Cesp
Integrantes da equipe econômica avaliam valor em mais de R$ 3 bilhões
Catia Seabra
Da agência Folhapress
O governo de São Paulo estuda a venda das ações da Cesp (Companhia Energética de São Paulo). A cargo de sua equipe técnica, a proposta deverá ser submetida ao governador José Serra (PSDB) ainda neste ano. Só após receber o estudo, Serra tomará sua decisão política. Segundo integrantes do governo… Leia ( somente assinantes ) mais…
Jornal do Commercio
Edição: 29/03/2007
Editoria: São Paulo


Serra: não há decisão sobre privatização da Cesp
Diário do Nordeste/ Ag. Estado
19/04/2007

Privatização da Cesp entra na pauta do governo Serra
19/04/2007
( Clipping/ Sistema Nacional de Debêntures )
Serra nega que haja decisão sobre privatização da CESP
FinanceOne/ Tribuna da Imprensa
20/ 04/ 2007
Debate sobre privatização da Cesp é retomado em SP
Serra nega, no entanto, que já exista decisão do governo paulista sobre o assunto
Wellington Bahnemann e Elizabeth Lopes
Da agência estado
A eventual privatização da Companhia Energética de São Paulo (Cesp) voltou à tona com a publicação na quarta-feira, no Diário Oficial do Estado, da retomada do Programa Estadual de Desestatização (PED), iniciado na gestão do ex-governador Mário Covas (PSDB), em meados dos anos 90. A companhia está… (somente assinantes )
Jornal do Commercio
Edição: 20/04/2007
Editoria: Economia

Governo estuda venda de empresas
Fazenda vai instituir grupos de trabalho e contratar auditorias
Wellington Bahnemann
Da agência estado
O governo do Estado de São Paulo publicou na quarta-feira, no Diário Oficial, o decreto 51.760, que repassa à Secretaria da Fazenda a atribuição de “proceder a coordenação dos estudos técnicos relativos ao levantamento, avaliação, modelagem e execução de venda de participações societárias detidas pelo Estado”. Segundo o documento, essa nova incumbência também se aplica “às empresas incluídas no…
Leia ( somente assinantes ) mais…
Jornal do Commercio
Edição: 20/04/2007
Editoria: São Paulo
ESTADÃO.COM.BR
02 de março de 2005 – 13:01
Alckmin descarta privatização da Cesp e CTEEP
nuca.ie / ufrj / Acompanhamento
( Untitled Doct. )
Nota do Blog: Particularmente interessante aqui, a informação que dá conta de que, uma das causas de prejuízos da CESP, foi seu endividamento em dólares, que explodiu por volta de 98/99. Se for simples assim, o Serra vai vender ( hoje ) a CESP por causa de uma cagada que os gênios econômicos do partido dele fizeram ( há quase dez anos ) , “achando” que o Real valia o mesmo que a moeda norte-americana.


Jornal do Engenheiro OnLine
edicão 157 – 16 a 30/ 11/ 2000 Novo modelo tem conseqüências desastrosas
edição 157 – 16 a 30/ 11/ 2000 Privatização da Cesp: golpe fatal contra os Paulistas

Privatizações ocorridas – Site da Eletrobrás

fevereiro 21, 2007

Perigo: Não ultrapasse a Linha Amarela. ( Breve histórico cronológico das obras da Linha 4 do Metrô )

Filed under: BID, BNDES, Greves, Iniciativa Privada, Metrô, PPPs, Privatização — Humberto @ 4:23 pm
Vamos recordar:
Greve do metrô provoca congestionamento e rodízio é suspenso em São Paulo
PB - 15/08/2006
SÃO PAULO – Os metroviários de São Paulo estão em greve desde às 0h desta terça-feira, dia 15 de agosto. Em razão disso, o rodízio municipal foi suspenso e a Secretaria de Transportes colocou mais ônibus nas ruas para atender os mais de 3 milhões de passageiros que utilizam o sistema diariamente.
De acordo com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), às 9 horas, o índice de congestionamento registrado foi de 188 km. O maior do ano. A média é de 70 km no horário.
A greve é um protesto contra a privatização do metrô. O Estado quer entregar a linha 4-amarela, ainda em construção, para a iniciativa privada.
A linha 4 vai ligar, na primeira etapa, a região da Luz (centro de São Paulo) à da Vila Sônia (zona oeste de São Paulo). O controle ficaria nas mãos da empresa – que seria responsável por fornecer trens e outros complementos para a operação do sistema – por um período de 30 anos.
Estação de Higienópolis tem obras iniciadas
PB – 22/12/2005
Hoje pela manhã, os parlamentares das Comissões de Transportes e Comunicação e de Serviços e Obras, da Assembléia Legislativa, farão uma fiscalização nas obras da Linha 4 – Amarela do metrô, com o objetivo de atestar as condições em que os trabalhadores estão desempenhando suas funções.
Tal iniciativa foi estimulada pela ocorrência de graves acidentes nestas obras, colocando em risco a vida de cidadãos e dos trabalhadores. O Sindicato dos Metroviários de São Paulo estará presente nesta fiscalização para contribuir com a defesa da saúde e segurança dos trabalhadores.
Para o sindicato, ao contrário do que o governo do estado e a direção da Companhia do Metropolitano anunciam, muitos prejuízos poderão afetar tanto os trabalhadores do metrô como os cidadãos paulistanos, conforme comprovado com os ( “OS” acidentes? ) acidentes da Linha Amarela.
Metrô inicia demolição da casa mais atingida pelo desabamento
PB - 08/12/2005
A casa que afundou por causa após o desmoronamento do teto do túnel da Linha 4 do Metrô começou a ser demolida nesta terça-feira. O acidente aconteceu na madrugada de sábado, na Rua Amaro Cavalheiro, no bairro de Pinheiros, e não deixou nenhum ferido.
O motivo do acidente ainda não tem versão oficial. O laudo do Consórcio Via Amarela — formado pelas empresas Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão e Allstom —, responsável pela construção da Linha 4, tinha previsão de ser divulgado ontem, mas acabou sendo adiado devido à necessidade do consórcio de buscar a opinião de um especialista. A hipótese mais provável remete a dois fatores, em conjunto, as causas do acidente, o solo instável e o excesso de chuva.
Após o acidente, o Metrô interditou outros seis imóveis por questões de segurança. Segundo Marco Antônio Buoncompagno, gerente de construção da Linha 4 do Metrô, até a semana que vem as famílias dos imóveis menos atingidos já poderão retornar às suas casas.
Metrô constrói pátio de trens da Linha Amarela na Vila Sônia
PB – 10/03/2005
Em uma área de 111 mil metros quadrados, na Vila Sônia (zona oeste), equivalente a 27 campos oficiais de futebol, o Metrô está construindo o pátio de estacionamento e oficinas de trens que vai abrigar os 174 carros previstos na operação da Linha 4-Amarela. A nova linha metroviária, com 12,8 quilômetros de extensão subterrânea, está sendo implantada entre a Estação Luz, no centro, e a Vila Sônia, próxima aos bairros do Morumbi e Butantã.
Na área do pátio, os trabalhos de terraplenagem já movimentaram 200 mil metros cúbicos de terra, total suficiente para encher 20.000 caminhões basculantes. Trabalham no local 100 operários, que operam no momento 35 caminhões, 4 escavadeiras, 1 retroescavadeira, 2 tratores, 1 motoniveladora e 2 rolos compactadores. A conclusão das obras do pátio está prevista para o segundo semestre de 2007.
No pátio Vila Sônia, além de 10 quilômetros de linhas férreas para manobrar e estacionar os trens, serão construídos um prédio de oficinas para a manutenção da frota da Linha 4, uma torre de controle das manobras dos trens, a infra-estrutura para a instalação de equipamento de lavagem das composições, dois reservatórios de retenção de águas pluviais e outras edificações e estruturas.
Pátio terá dois piscinões
Serão construídos no pátio Vila Sônia dois reservatórios de retenção de águas pluviais, os chamados ‘piscinões’, com capacidade para armazenar 783 mil litros, volume correspondente ao de uma hora de chuva intensa. Esses reservatórios irão captar a chuva das áreas impermeabilizadas e controlar a sua liberação na rede pública coletora do entorno do pátio. Posteriormente, o que tiver sido recolhido será canalizado para o córrego Pirajussara.
A construção dos reservatórios é uma exigência da Lei Municipal nº 13.276, de 04 de janeiro de 2002. Por conta desta lei, obras com área impermeabilizada superior a 500 metros quadrados, como a do pátio Vila Sônia, devem possuir estruturas coletoras de águas pluviais.
Os reservatórios estarão localizados próximos às Avenidas Eliseu de Almeida (reservatório nº 1) e Professor Francisco Morato (reservatório nº 2). O reservatório nº 1 terá capacidade para 621 mil litros de água e o outro, 162 mil litros.
Seis estações
A construção da primeira fase da Linha 4-Amarela do Metrô engloba o pátio Vila Sônia, os 12,8 quilômetros de extensão total de vias da nova linha e as seis estações prioritárias, por sua localização e pelas interligações que realizarão: Butantã, Pinheiros, Faria Lima, Paulista, República e Luz. Na estação Butantã, haverá integração com ônibus intermunicipais da região Sudoeste da metrópole (Osasco, Taboão da Serra, Itapecerica da Serra, Embu e Cotia) e os da Cidade Universitária.
Obras incluem a construção de dois piscinões para evitar enchentes na região do Pirajussara
Acontece hoje 1ª detonação controlada na Linha Amarela
PB – 11/01/2005
Hoje, às 9h, o Consórcio Via Amarela, responsável pela construção das vias e estações da Linha 4, Amarela, do Metrô, realiza, com acompanhamento da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a primeira detonação controlada para desmonte de rocha no poço de serviço Valdemar Ferreira, no bairro do Butantã.
Para garantir a segurança da população que estará nas imediações desta detonação, a CET fará o fechamento do trânsito de veículos e de pedestres nas áreas próximas. A recomendação dos técnicos é de que nenhuma pessoa transite nas áreas isoladas num raio de 100 metros. Além disso, janelas e portas de vidro de casas nesta área deverão ser mantidas abertas.
São Paulo tem aval de comissão para contrair empréstimo externo
PB – 07/07/2004
A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) aprovou ontem autorização para o governo de São Paulo contratar operação de crédito externo, com garantia da União, no valor de US$ 20 milhões, com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para financiamento do Programa de Fortalecimento da Gestão Fiscal do Estado.
O estado obteve também da CAE uma segunda autorização para contratar empréstimo, este no valor de US$ 209 milhões, que serão liberados por um consórcio de bancos privados japoneses, liderados pelo Sumitomo Mitsui Banking Corporation, para financiar projetos da quarta Linha do Metrô (Amarela), incluídos no Programa Integrado de Transportes Urbanos.
Essa operação será realizada com garantia do Japan Bank For International Cooperation (JBIC) e do governo brasileiro. O relator, senador Valdir Raupp (PMDB-RR), destacou a relevância do programa para o estado, cujo total de recursos atinge quase US$ 2 bilhões. O empréstimo de US$ 20 milhões teve como relator o senador Sérgio Guerra (PSDB-PE).
As duas operações foram encaminhadas ao Plenário com solicitação para votação em regime de urgência. Advertência Durante o exame das propostas, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) ressaltou “o espírito de colaboração com o governo de Geraldo Alckmin” para que as proposições sejam autorizadas.
O senador Aloizio Mercadante (PT-SP) também considerou meritório o primeiro acordo, pois, vai ajudar a aprimorar a gestão tributária do estado, reduzindo a evasão fiscal. Ele lembrou, entretanto, que a dívida consolidada de São Paulo está muito próxima do limite autorizado pelo Senado Federal, que é de R$ 98,9 bilhões.
“O estado está muito próximo do limite fixado pelo próprio Senado e dificilmente poderá ter outros empréstimos sem que melhore a relação dívida pública–receita líquida. Essa é advertência que faço, porque a dívida cresceu R$ 8,5 bilhões somente este ano”, disse Mercadante. O senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) protestou.
Para ele, o período pré-recesso é indevido para a votação. Cerca de US$ 209 milhões serão usados na construção da Linha Amarela do Metrô
Comissão analisa empréstimo para a Linha Amarela do Metrô
PB – 06/07/2004
A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado vai analisar hoje cerca de 26 itens da sua pauta, entre as propostas destacam-se duas mensagens presidenciais que autorizam o governo de São Paulo a contratar empréstimo externo no total de US$ 229 milhões.
A maior parte da verba, US$ 209 milhões, será usada no projeto da quarta linha do Metrô da capital paulista, a chamada Linha Amarela. O restante — US$ 20 milhões — vai para o financiamento parcial do programa de fortalecimento da gestão fiscal do estado.
O crédito de U$ 20 milhões será feito em acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o de US$ 209 milhões a partir de um consórcio de bancos privados japoneses com a garantia do Japan Bank for International Cooperation (Jbic).
A CAE, presidida pelo senador Ramez Tebet (PMDB-MS), deve apreciar ainda mais duas mensagens do Executivo, ambas indicando nomes para preencher cargos no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Para a presidência da instituição foi indicada Elizabeth Maria Mercier Farina, e para o cargo de conselheiro Ricardo Villas Bôas Cueva. Se aprovados, os nomes ainda serão submetidos ao exame do Plenário do Senado.
Consta da pauta ainda a apreciação, em caráter terminativo, do projeto de autoria do senador Luiz Otávio (PMDB-PA), que permite o ingresso de pessoas físicas no Programa de Recuperação Fiscal (Refis). Atualmente, somente as empresas podem parcelar dívidas oriundas do não-pagamento de débitos fiscais junto ao governo.
Os membros da CAE devem apreciar ainda, também em decisão terminativa, projeto do então senador Carlos Wilson que permite a dedução integral no imposto de renda das pessoas físicas de todas as despesas com educação, incluindo pré-escola, 1º, 2º e 3º graus, cursos de especialização ou profissionalizantes. O senador Pedro Simon (PMDB-RS) deu parecer pela aprovação do projeto.
Obras da linha 4 do Metrô já atraem empresas
PB – 30/07/2003
As obras da linha 4-Amarela do Metrô paulista podem se transformar em um negócio extremamente rentável. As concessionárias do empreendimento podem vir a ter, além da renda das bilheterias, o direito de usar o espaço publicitário.
Para viabilizar o negócio, foi criada uma Câmara Paulista de Logística (N do Blog: Onde anda ?? ) — parceria da Secretaria do Estado dos Transportes com a Fiesp — que irá pressionar o governo federal.

Governo busca meios para atrair novas concessionárias
Panorama Brasil - 30/07/2003
Uma parceria entre as secretarias do Estado dos Transportes e dos Transportes Metropolitanos com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) pretende mudar o atual quadro dos transportes de cargas e de massas no Estado.
Denominado de Câmara Paulista de Logística, a iniciativa quer fazer a ponte entre empresários e técnicos do setor público para acabar com o chamado ‘gargalo logístico’ existente em São Paulo.
A primeira medida da Câmara é pressionar o governo Federal para que seja alterado o texto da lei de concessões, para beneficiar as empresas que forem contratadas para fazer as próximas obras do Metrô e da Companhia de Trens Metropolitanos.
“O sistema atual afasta o empresariado. Em uma parceria no sistema de transporte de massas, a receita da bilhetagem não cobre o custo operacional. Temos que procurar mecanismos de compensação”, explicou o Diretor do Departamento de Infra-Estrutura Industrial da Fiesp, Massimo Giavina-Bianch.
Segundo ele, os mecanismos compensatórios incluem, por exemplo, o direito dessas empresas explorarem não só as bilheterias por um período de 20 anos, mas também os espaços publicitários.
“Temos de lembrar que o governo estadual não tem condições orçamentárias. A capacidade de investimentos do governo nesse tipo de obra é de 18%”, disse.
A segunda fase da linha-4 Amarela do Metrô de São Paulo, por exemplo, será construída por meio de concessões. Caso o modelo da Câmara seja aceito, os empresários poderão utilizar a publicidade como alternativa de arrecadação.
Por enquanto, o atual texto impede essa ação. Para o Secretário dos Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes, a Câmara irá pressionar a União, para obter parte dos recursos para implantar projetos como o Ferrroanel, o Expresso Aeroporto e o trem ligando Campinas a São Paulo.
Jurandir disse que a idéia é trazer a iniciativa privada na execução dos projetos que estão em pauta e devem ter início em breve, como a criação do Agroporto e a ampliação de aeroportos estratégicos por todo o Estado de São Paulo.
Quanto ao transporte de massa, Bianchi disse que a parceria pretende encontrar uma saída para reverter o atual quadro, em que 93% da produção do Estado é transportada por caminhões.
Secretário teme crise financeira no Metrô
PB – 16/07/2003
A decisão do Tribunal Superior do Trabalho de manter o reajuste salarial de 18,13% aos funcionários da Companhia do Metroviário de São Paulo poderá gerar a pior crise financeira da empresa em 35 anos, segundo os cálculos do Secretário de Estado dos Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes. Ele diz que a empresa poderá fechar 2003 com um déficit contábil em torno de R$ 45 milhões.
“Tínhamos previsto um fechamento positivo em R$ 13 milhões, mas o quadro foi completamente inesperado”, explicou Jurandir.
Dessa forma, o Metrô —uma das empresas estatais com os melhores índices de aprovação perante a população, cerca de 90%— deverá adotar medidas de contenção de gastos em suas estações e avaliar renegociações (atrasos) no pagamento de seus fornecedores —situação também inédita para a companhia. Os serviços de limpeza e segurança, ambos terceirizados em algumas estações, estão sendo os primeiros a terem seus pagamentos postergados.
“Já estamos com um saldo de R$ 20 milhões em atraso com esses prestadores de serviços. Isso porque precisamos criar um caixa para pagarmos o reajuste retroativo dos meses de maio e junho. Nossa opção era a renegociação ou uma nova greve, já que não teríamos dinheiro para pagarmos os salários. Agora, vamos propor um pagamento escalonado dessa conta”, explicou o secretário.
A primeira conseqüência do pagamento dos reajustes, principalmente dos retroativos, foi o parcelamento no pagamento dos funcionários. O Metrô deveria ter depositado ontem a primeira parcela dos salários, mas somente aqueles que ganham até R$ 3,2 mil receberam. Os demais só receberão na próxima sexta-feira.
“Espero que eles entendam a situação e não façam uma nova greve. Em um dia de paralisação perdemos cerca de R$ 3 milhões: isso não pode acontecer mais”.
Linha Amarela
Outro ponto que ainda será debatido dentro da empresa será um possível atraso na principal obra do Estado neste ano; a Linha 4–amarela. Segundo Jurandir, o Metrô não tem como tirar de seu caixa o custo do reajuste, já que a demanda de usuários, neste ano, caiu 3%.
“Tínhamos uma expectativa de arrecadarmos, por meio das catracas, R$ 696,8 milhões; com essa queda no número de usuários, nossa expectativa caiu para R$673,6 milhões. Além disso, nesse primeiro semestre esperávamos um fechamento com R$ 334,6 milhões, mas no final das contas ficamos com R$ 321,6 milhões. Assim, não há como o próprio Metrô, pelo menos agora, pagar essa conta”, disse Fernandes.
De acordo com o secretário, o atraso poderá ser motivado pela utilização de uma parte dos R$ 94 milhões, que estão disponíveis para o projeto no orçamento do Estado, para pagar os funcionários.
“Pelas minhas contas, atrasando o início das desapropriações para outubro poderemos gastar R$ 64 milhões, tendo um alivio para pagar o reajuste. Mas, o Banco Mundial e JBIC também atrasariam a parte deles, já que nossa contrapartida não estaria sendo dada”, explicou Jurandir.
Alckmin agora ameaça adiar Linha Amarela
PB - 15/07/2003
As obras da Linha 4– Amarela do Metrô de São Paulo poderão estar entre as “vítimas” do reajuste de 18% concedido pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST), aos funcionários do Metrô. De acordo com o próprio governador, Geraldo Alckmin (PSDB), o reajuste será superior ao valor anunciado, já que os benefícios indiretos que foram colocados também passarão por alterações. “O custo consumirá 80% da arrecadação do metroviário. Teremos que analisar diversas alternativas para podermos pagar essa conta”, disse o governador.
De acordo com o secretário de Estado dos Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes, o projeto da Linha – 4 não estará entre os primeiros a serem revistos. Antes disso, a secretaria deverá optar pelo atraso nos pagamentos a fornecedores e empresas terceirizadas que atuam nas estações, como os serviços de limpeza, vigilância e manutenção das estações.
Pelos cálculos da Companhia do Metroviário, os reajustes retroativos ligados aos meses de maio e junho de 12,13% estipulados pelo TST, somados aos meses que ainda serão pagos, levarão a empresa para uma situação nunca enfrentada até o momento: um déficit em seu caixa de R$ 29,7 milhões. Antes da decisão do tribunal, a previsão era que a empresa fechasse o ano de 2003 com um saldo positivo de R$ 13 milhões.
Além das obras, as desapropriações previstas no projeto da Linha 4 – Amarela poderão ser paralisadas. A ação está estimada em R$ 94 milhões, valor que, com os novos custos que não estavam previstos, não deverá estar disponível no caixa da empresa.
A atual situação foi motivada após a decisão do TST em manter o reajuste de 18% aos metroviários, pela decisão do tribunal, a empresa teve que conceder 12,3% este ano, mais 3% nos meses de janeiro e março de 2004. O Metrô terá que desembolsar mais R$ 45 milhões até o final deste ano com o pagamento dos salários e benefícios aos seus funcionários.
Linha 4 – Amarela
Caso ocorra o atraso nas obra da Linha 4– Amarela, o projeto estará se confirmando como um dos mais complicados da atual administração. A obra que custará US$ US$ 934 milhões, com 12,8 quilômetros de extensão, interligando cinco estações — Butantã, Pinheiros, Paulista, República e Luz —, além de um pátio de manobras e estacionamento de trens na Vila Sônia, já acumula um pequeno histórico de complicações desde o anúncio de suas execução.
Entre os problemas enfrentados estão ações judiciais impetradas no Ministério Público e um pedido para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembléia Legislativa do Estado.
Também foram enfrentadas uma série de liminares impetradas por consórcios que estavam concorrendo para execução da obra.
Na época, a secretaria do Estado dos Transportes decidiu continuar com o processo e correu o risco de um dos grupos que concorria com uma liminar fosse o vencedor do processo. Isso não aconteceu e o projeto seguiu adiante. Agora, o problema é a falta de recursos.
Iniciativa privada será responsável por nova linha do metrô paulista
Panorama Brasil - 02/07/2003
Na primeira vez em que uma linha do metrô de São Paulo é concedida à iniciativa privada, um dos maiores desafios jurídicos será equacionar o modelo de cobrança pelo uso, segundo o advogado Rubens Serra, do escritório Demarest e Almeida Advogados.
O Demarest, o Unibanco e a Logit Consultoria formam o consórcio que venceu a concorrência para contratação de estudos de viabilidade financeira para a concessão da Linha 4, a chamada Amarela — que ligará o bairro da Luz, no centro da cidade, ao Butantã, na zona oeste.
“Faremos uma análise jurídica da estrutura do projeto de concessão do processo de licitação, identificando possíveis problemas de regulamentação jurídica local ou internacional e proporemos alternativas aos problemas encontrados. Além disso, vamos preparar os documentos para a licitação”, explica Serra.
O advogado afirma que, como a linha será a única privada entre as existentes, é preciso fazer um estudo para definir como o serviço será tarifado. Segundo ele, não deve haver aumento da tarifa, mas a empresa vencedora, nacional ou estrangeira, só terá interesse no negócio se tiver retorno. “Não sabemos como será a cobrança. Uma das alternativas é o registro da entrada e saída dos passageiros, para que seja possível saber quantos quilômetros ele andou nas linhas públicas e quanto na privada”, sugere.
A demanda total prevista para a Linha 4 é de um milhão de usuários por dia. Qualquer empresa operadora de transporte, nacional ou estrangeira, poderá participar da licitação para a construção da linha. Serra afirma que, por enquanto, a única condição estabelecida é que a escolhida invista U$ 251 milhões nos próximos quatro anos (primeira fase do projeto), e U$ 277 milhões na segunda fase (três anos). Segundo ele, o poder público entrará com U$ 700 milhões. O contrato do consórcio com o metrô deve ser assinado em duas semanas.
“Por enquanto, ganhamos a licitação e começamos os estudos necessários”, diz. Segundo o advogado, a primeira análise envolverá a legislação que abrange o sistema metroviário paulista. “Precisamos saber há algum tipo de autuação constante e se há algo que precise mudar”, diz. Outras questões que precisam ser apreciadas são a ambiental e a do zoneamento da cidade. Segundo Serra, ainda não é possível saber se serão necessárias desocupações ou até mudanças no trajeto previsto para a linha.
O advogado comenta que, atualmente, o suporte jurídico, como o que será realizado pelo Demarest e Almeida, tem grande importância nos processos de privatização. “No início, só era dada importância aos bancos de investimentos. Hoje, por causa de erros cometidos, já se sabe que o acompanhamento legal é essencial”, afirma.
Linha Amarela do Metrô classifica brasileiros
PB – 30/06/2003
Após a abertura dos envelopes com as propostas financeiras e os projetos técnicos, na terça-feira, dois consórcios foram classificados para as obras da linha 4 – Amarela do Metrô. O Consórcio Via Amarela — formado pelas empresas CBPO, OAS, Queiroz Galvão e Alstom — ofereceu a melhor proposta para executar as obras dos lotes 1 e 2 da Linha 4. O valor ofertado foi de R$ 868 milhões (lote 1) e R$ 730 milhões (lote 2).
O grupo formado pela Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Siemens ofereceu a melhor proposta pelo lote 3 e o valor foi de R$ 219 milhões.
Os consórcios acima ainda não são os escolhidos — apesar de o principal passo já ter sido dado para que isso ocorra — e suas propostas técnicas serão avaliadas em um prazo de 20 a 25 dias pelos técnicos do Metrô.
Caso tudo esteja dentro do exigido pelo edital de concorrência, seus nomes serão confirmados. Nenhum dos grupos que estavam concorrendo por meio de liminares foi classificado.
Essa possibilidade era uma preocupação da diretoria do Metropolitano, já que a seleção de um consórcio que estivesse com uma liminar faria com que as empresas recorressem da decisão, o que iria atrapalhar o cronograma de obras. Mas, antes do início da sessão, três empresas que concorriam por liminares haviam desistido da licitação.
Licitação da Linha 4 pode ser investigada
O processo de concorrência para Linha 4 – Amarela tem enfrentando críticas e ações judiciais impetradas no Ministério Público e um pedido para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembléia Legislativa do Estado.
O pedido de CPI é do Deputado Estadual Cândido Vaccarezza (PT), que há dois anos pede a abertura da comissão.
Resultado da licitação será respeitado
O secretário de Estado dos Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes, avaliou o processo de classificação para a Linha 4 – Amarela como um sucesso. Para ele, é pouco provável que um grupo desclassificado ingresse com recurso impedindo a continuação do processo.
“As empresas que estavam na licitação por causa de liminares não têm nada para reclamar. Ficaram as que ofereceram o menor valor. Não há nada para ser contestado”, disse Jurandir.
Resultado será respeitado pelos desclassificados, diz secretário
PB – 25/06/2003
O secretário de Estado dos Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes, avaliou o processo de classificação para a Linha 4 – Amarela como um sucesso. Para ele, é pouco provável que um grupo desclassificado ingresse com recurso impedindo a continuação do processo.
“As empresas que estavam na licitação por causa de liminares não têm nada para reclamar. Ficaram as que ofereceram o menor valor. Não há nada para ser contestado”, disse Jurandir. Segundo o secretário, apenas uma desclassificação por falhas na proposta técnica poderá mudar o resultado.
“Como foram selecionadas empresas de grande porte, elas devem ter feito tudo de forma correta. Assim, acredito que as propostas técnicas estão respeitando todas as exigências de nosso edital”, comentou.
De acordo com Fernandes, o governo estadual trabalhou com um “preço bem achatado” para a execução do edital da obra. “Pesquisamos todos os itens que serão necessários, tudo será feito de forma racional e mantendo a qualidade do sistema metroviário”, explicou o secretário.
Brasileiros oferecem o menor preço
PB – 25/06/03
Após a abertura dos envelopes com as propostas financeiras e os projetos técnicos, o Consórcio Via Amarela — formado pelas empresas CBPO, OAS, Queiroz Galvão e Alstom — ofereceu a melhor proposta para executar as obras dos lotes 1 e 2 da Linha 4– Amarela do metrô paulistano. O valor ofertado foi de R$ 868 milhões (lote 1) e R$ 730 milhões (lote 2).
O grupo formado pela Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Siemens ofereceu a melhor proposta pelo lote 3 e o valor foi de R$ 219 milhões. Os consórcios acima ainda não são os escolhidos — apesar de o principal passo já ter sido dado para que isso ocorra — e suas propostas técnicas serão avaliadas em um prazo de 20 a 25 dias pelos técnicos do Metrô. Caso tudo esteja dentro do exigido pelo edital de concorrência, seus nomes serão confirmados. Nenhum dos grupos que estavam concorrendo por meio de limares foi classificado. Essa possibilidade era uma preocupação da diretoria do Metropolitano, já que a seleção de um consórcio que estivesse com uma liminar faria com que as empresas recorressem da decisão, o que iria atrapalhar o cronograma de obras.
No entanto, mesmo antes do início da sessão, três empresas que estavam na concorrência dessa forma (por meio de liminares) haviam desistido da licitação.
Se os consórcios selecionados forem os aprovados, o Consórcio Via Amarela ficará responsável pela construção de cinco estações e o outro grupo construirá o terminal de operações da Vila Sônia. As obras devem ser entregues em 42 meses.
Somando-se os três lotes, o valor do projeto ficou em R$ 1,8 bilhão.
Limpeza
O Metrô não aceitou o recurso administrativo da empresa Alvalux, que questionava a concorrência para prestação de serviços de limpeza nas estações.
No recurso, a empresa lembrava que a Brasanitas, vencedora e única concorrente para um dos lotes da licitação, está com suas obrigações financeiras em atraso.
O Metrô alegou que a situação da Brasanitas ainda não foi julgada em definitivo e, mesmo inadimplente, a firma está apta a assumir o serviço.
Licitação da linha amarela do Metrô prossegue hoje
PB – 24/06/2003
A secretaria de Estado dos Transportes Metropolitanos decidiu prosseguir a licitação da Linha Amarela (4) do Metrô paulistano apesar dos problemas com o grande número de liminares impetradas por consórcios desqualificados. Metade dos 14 grupos que estão na disputa participa com liminares. Hoje serão abertos os envelopes com as propostas e conhecidos os valores de cada consórcio.
Deputado quer investigação
PB – 24/06/2003
O processo de concorrência para Linha 4 – Amarela também vem enfrentando críticas e ações judiciais impetradas no Ministério Público e um pedido para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembléia Legislativa do Estado. O pedido de CPI vem do Deputado Estadual Cândido Vaccarezza (PT).
Vaccarezza disse que há dois anos pede as abertura da comissão, mas nunca conseguiu a entrada de suas ação na pauta da casa. Segundo o parlamentar, sua ação tem como base o pedido de aditamento de valores feito pelo governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB), quando foram reavaliados os custos do projeto da Linha 4 – Amarela, que, para ele, fere a lei de licitações.
“Os valores de aditamento ultrapassam os 30% permitidos pela legislação das licitações, a Lei 8666″, explicou Vaccarezza.
Já o deputado Vicente Cândido (PT) acredita que as empresas espanholas que concorrem no edital foram beneficiadas, o que teria prejudicado os grupos nacionais. O parlamentar diz que é contra a abertura dos envelopes sem que sejam resolvidas as pendências judiciais. Para ele, a solução seria reiniciar toda a licitação em seis meses.
“A melhor atitude do governo é cancelar a licitação ou eliminar as pendências”, disse Cândido.
Metrô continua licitação apesar de liminares Licitação da linha amarela do Metrô prossegue hoje
PB 24/06/2003
A Secretaria de Estado dos Transportes Metropolitanos decidiu dar seguimento ao processo de licitação para a Linha 4– Amarela do metrô paulista. O processo vinha enfrentando problemas, devido ao excesso de liminares impetradas por consórcios desqualificados.
Dos 14 grupos que estão disputando a execução da obra, sete só continuam por causa de liminares. Dois outros grupos concorrem pré-qualificados, mas também estão com liminares: um deles entrou com a ação depois de ser qualificado para primeira fase, mas está fora das duas seguintes; o outro está habilitado, mas quer a exclusão de uma das empresas que fazem parte de seu grupo. Seis outros consórcios concorrem sem nenhum tipo de ação judicial.
Segundo a assessoria de imprensa da secretaria, a continuação do processo mesmo com as liminares foi decidida após uma consulta ao Tribunal de Contas do Estado de São Paulo.
O próprio Tribunal havia orientado a secretaria para que todas as pendências fossem resolvidas antes de se dar andamento na licitação. Assim, todos os processos foram levados ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, que decidiu enviar tudo para o TJ de Brasília.
No entanto, em vez de dar uma solução para o caso, o TJ de Brasília resolveu que os processos deveriam voltar a São Paulo, já que não tinham instrumentos para interferir no caso.
Como o quadro indicava uma possível paralisação do edital, devido à indecisão da Justiça, a secretaria decidiu consultar o TCE de São Paulo e, com a aprovação dos conselheiros, irá abrir os envelopes com as propostas de preço nessa manhã.
Essa decisão poderá trazer problemas para o projeto do governo paulista. Caso a empresa que ofereça o menor preço para execução de um dos lotes, ou até mesmo dos três, estiver na concorrência devido a uma liminar, a secretaria deverá enfrentar novos problemas judiciais. Isso porque as demais concorrentes, principalmente as pré-qualificadas sem problemas, deverão recorrer da decisão.
Os próprios assessores da Secretaria de Estado dos Transportes Metropolitanos disseram que deverão “torcer” para que a empresa vencedora não esteja na concorrência por causa de uma liminar. Assim, a obra que custará US$ US$ 934 milhões, com 12,8 quilômetros de extensão, interligando cinco estações — Butantã, Pinheiros, Paulista, República e Luz —, além de um pátio de manobras e estacionamento de trens na Vila Sônia, poderá não ter seu início no prazo previsto, que é no final do próximo semestre.
Em relação ao financiamento, a secretaria garante que, mesmo com os problemas judiciais, o Banco Mundial e o Japan Bank for International Cooperation, continuarão como parceiros do projeto. O Banco Mundial garantiu sua permanência nas ações.
Quanto ao JBIC, o Estado ainda negocia as condições do empréstimo (US$ 209 milhões) como o Banco. A secretaria de Estado dos Transportes Metropolitanos decidiu prosseguir a licitação da Linha Amarela (4) do Metrô paulistano apesar dos problemas com o grande número de liminares impetradas por consórcios desqualificados.
Metade dos 14 grupos que estão na disputa participa com liminares. Hoje serão abertos os envelopes com as propostas e conhecidos os valores de cada consórcio.
Metrô reabre licitação da linha 4 sem resolver as pendências jurídicas
PB – 12/06/03
O processo de licitação para a construção da linha 4 (amarela) do Metrô de São Paulo, que está suspenso desde o dia 11 de abril, será reaberto no próximo dia 24.
Segundo o secretário estadual dos Transportes, Jurandir Fernandes, o processo foi suspenso porque o Tribunal de Contas do Estado concedeu liminar a uma empresa participante, que alegou não poder entregar o envelope contendo a proposta no dia marcado, que era 14 de abril. Além disso, o TCE solicitou que a secretaria eliminasse todas as pendências jurídicas — liminares de outras empresas —, para que o processo fosse reaberto, o que não aconteceu. “Fizemos todo o possível para cumprir o pedido do TCE, mas não foi possível”, disse Fernandes, salientando que o Tribunal insistiu para que fossem a instâncias superiores tentar cassar as liminares.
“O Tribunal de Justiça indeferiu o nosso pedido e o TCE se dobrou”, completou.
O deputado Vicente Candido (PT) é contra a reabertura do processo licitatório.
“É uma loucura reabrir sem resolver as pendências judiciais. É o pior caminho”, avaliou.
Segundo ele, a solução seria reiniciar toda a licitação em seis meses.
“A melhor atitude do governo é cancelar a licitação ou eliminar as pendências.”
O governador de São Paulo, está desde segunda-feira nos Estados Unidos captando empréstimos para a obra, mas na avaliação de Candido, a viagem também tem outro objetivo. “O governo está com medo de perder o financiamento do Banco Mundial (Bird), que até onde eu sei não patrocina obras com pendências judiciais. Eu acho que o governador foi lá para mostrar uma posição mais ofensiva e tentar manter esse financiamento.”
Fernandes reconhece que a quantidade de liminares impressiona o Bird, mas garante que não interferem nas negociações.
“Eles entendem o esforço do estado, a seriedade do governo. As liminares não são por erros nossos”, disse o secretário.
O valor total da obra é de US$ 1,26 bilhão, sendo que US$ 733,6 milhões são provenientes do setor público e US$ 527,9 milhões do setor privado.
Tribunal aprova licitação do metrô paulista
PB – 17/05/03
O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE) julgou que o edital referente à concorrência da linha 4 – Amarela do Metrô de São Paulo é legal.
Segundo o TCE, um edital de licitação internacional pode admitir a recomposição e reestruturação de consórcios após a fase de qualificação e antes da formulação das propostas. Isso significa que, terminada a fase de pré-qualificação, integrantes de grupos concorrentes podem migrar de um consórcio para outro.
O TCE entendeu que, como a contratação é financiada por agente estrangeiro, a cláusula advinda de guidelines (linhas mestras) do Banco Mundial seria aplicável com base no permissivo do artigo 42, parágrafo quinto, da Lei nº 8.666/93, que rege as normas de licitações.
Para o advogado Fábio Barbalho Leite, a questão é polêmica, já que enseja a possibilidade de composição entre integrantes de consórcios concorrentes.
“Pela decisão, por exemplo, um integrante de um consórcio pode desfazer um consórcio e migrar para outro, após a fase de pré-qualificação.”
O advogado lembra que a decisão não foi unânime. Em voto vencido o conselheiro Antônio Roque Citadini sustentou que a Lei de Licitação não permite estas alterações. (litteraexpress)
Tribunal dá 30 dias para Metrô sanar pendências
PB – 30/04/2003
A Secretaria de Transportes Metropolitanos tem 30 dias para resolver as pendências judiciais que podem trazer problemas para o andamento da licitação da linha 4–amarela do Metrô. O prazo foi estipulado pelos conselheiros do Tribunal de Contas do Estado. O titular da pasta, Jurandir Fernandes, explicou ao DCI os motivos que levaram a empresa Cobra a entrar com uma liminar contra a licitação da linha 4.
Iniciativa privada paulista poderá explorar Metrô
PB – 27/01/2003
SÃO PAULO – Governo estadual pretende aumentar ritmo da expansão das linhas por meio de concessões. O governo de São Paulo estuda a possibilidade de a iniciativa privada explorar linhas do Metrô por meio de contratos de concessão – processo semelhante ao da privatização das rodovias que cortam o estado. O objetivo é aumentar o ritmo de ampliação das linhas, que atualmente é lento e insuficiente para atender a demanda de uma população estimada em 10,2 milhões de pessoas.
De acordo com informações da Secretaria Estadual de Transportes Metropolitanos, as quatro linhas do Metrô hoje existentes têm 58,6 quilômetros de extensão. Juntas, transportam cerca de 2,6 milhões de pessoas diariamente.
Em quase 30 anos de operação, isso significa a construção de apenas 2 quilômetros por ano. O secretário de Estado dos Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes, diz que a intenção do governo é mudar essa situação acelerando ao máximo a expansão da malha metroviária de São Paulo.
“A meta é tentar construir entre oito e dez quilômetros de linha por ano”, o que representa um ganho social não apenas em cifras, mas principalmente em qualidade de vida para todos os cidadãos, sejam eles usuários ou não do Metrô.”
De acordo com Fernandez, para concretizar o que vem sendo objeto de muitos estudos e planejamento será necessário recorrer à iniciativa privada por meio de contratos de concessões. O governo adianta que o primeiro desses contratos poderá ser o da linha 4-Amarela, que vai ligar o bairro de Vila Sônia (na zona oeste) ao bairro da Luz, na região central da cidade.
As obras foram divididas em duas etapas. A primeira fase terá início no primeiro semestre de 2003, com previsão de conclusão em 2006, contando com um investimento da ordem de US$1,161 milhão. O presidente do Metrô, Miguel Kozma, explica que a idéia é que, ao entrar em operação, esse trecho obedeça ao padrão operacional hoje em vigor nas linhas norte-sul e leste-oeste, nas quais, nos horários de pico, o intervalo entre um trem e outro é de seis segundos. Isso, segundo ele, exige altos investimentos em tecnologia, “mas é necessário, pois assegura o perfeito funcionamento do serviço, sem acidentes.”
Transporte inteligente
As concessões ocorrerão somente para novas linhas, o que, segundo o secretário, viabilizará a expansão do sistema, tendo em vista a limitada capacidade de investimentos do governo. Os trechos existentes continuarão a ser operados pelo Metrô.
As obras de infra-estrutura, que compreendem a construção da linha férrea e das estações, serão de responsabilidade da Secretaria de Estado dos Transportes Metropolitanos. À iniciativa privada caberá a incumbência de cuidar do material rodante, isto é, aquisição, manutenção e circulação dos trens, com toda a tecnologia que isso implica.
O secretário acredita que esse tipo de parceria está em sintonia com a proposta de sua administração de manter o foco no transporte público inteligente. Para ele, há necessidade de expandir o sistema de Metrô, modernizar a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e também criar corredores de ônibus com vias exclusivas e terminais de transferência de um meio de transporte para outro.
Esses são alguns trabalhos que devem garantir mais eficiência ao transporte público em São Paulo.
Presidente promete ajuda ao Metrô paulista
PB – 11/04/2002
O presidente Fernando Henrique Cardoso se comprometeu ontem, durante encontro com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), a encaminhar ao Senado Federal o pedido de liberação de empréstimo do Banco Mundial para a construção da linha 4 do Metrô da capital paulista.
Segundo Alckmin, a chamada linha amarela custará US$ 900 milhões, terá a extensão de 13 quilômetros e transportará 900 mil pessoas por dia, com a integração de vários trechos do metrô paulista. A parcela do BID será de US$ 580 milhões e o restante é de responsabilidade do governo estadual.
O governador de São Paulo e o presidente também conversaram sobre as obras de implantação do projeto “Estação Luz da Nossa Língua”, que deve transformar a antiga Estação da Luz na região central de São Paulo num centro de valorização da língua portuguesa.
No próximo domingo, o presidente vai participar da inauguração da Asa Oeste do Rodoanel, que irá interligar as rodovias Raposo Tavares e Régis Bittencourt, em 7 km de extensão.
O trecho será o segundo a ser entregue pelo governo do estado e faz parte da asa oeste do Rodoanel, que tem 32 km de extensão. Quando concluído, a asa interligará as rodovias Bandeirantes, Anhaguera, Castelo Branco, Raposo Tavares e Régis Bittencourt. O custo total da obra é de R$ 800 milhões, financiados pelo governo federal e estadual.
CPMF
Alckmin defendeu a prorrogação da CPMF e lembrou que a contribuição é necessária para trazer o equilíbrio fiscal ao País e gerar emprego e renda. Em conseqüência do equilíbrio nas contas públicas, o governador argumentou, será possível reduzir a taxa de juros, ato fundamental para o crescimento da economia.
“O que todo mundo quer é que a política não atrapalhe a economia”, comentou o governador. Geraldo Alckmin também comentou ainda que as recentes pesquisas de intenção de voto divulgadas pela imprensa não têm impacto significativo no resultado das eleições de outubro.
“As pesquisas têm valor matemático e não político”, disse.
Questionado sobre a ascensão do pré-candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, nas intenções de voto para o segundo turno, Alckmin avaliou que a subida é conseqüência da propaganda do partido que começou a ser exibida nesta semana.
“O PSDB não é bom de pesquisa, mas de urna”, ironizou.
Sobre a escolha do vice na chapa de Serra, o governador não quis fazer comentários.
Acirrada a disputa por US$ 934 mi do Metrô
PB - 06/03/2002
Entre os 17 consórcios de empreiteiras que querem participar das licitações para as obras da linha 4 (amarela) do Metrô de São Paulo figuram várias empresas alemãs, francesas, espanholas e até argentinas e portuguesas. A primeira etapa da obra, dividida em três lotes, custará US$ 934 milhões e será concluída no final de 2006. As desapropriações, em sua maioria na Vila Sônia e Butantã, custarão cerca de US$ 100 milhões.
Metrô lança edital de licitação para a Linha 4 – Amarela em dezembro
PB - 28/11/2001
SÃO PAULO – A Companhia do Metropolitano de São Paulo, Metrô, anunciou nesta quarta-feira (28), durante audiência pública da Linha 4 – Amarela, que vai ligar o bairro da luz a Vila Sônia, na zona oeste de São Paulo, que o edital de licitação para a linha, se inicia em dezembro.
As condições para participar do processo, segundo o gerente de contratações e compras do projeto, Sérgio Correâ Brasil, é que a empresa seja um a construtora ou fornecedora de serviços e que comprove experiências bem sucedidas em outras licitações. Após essa exigência, o Metrô solicita na segunda etapa do processo, que as empresas pré-qualificadas pelo Metrô apresentem uma proposta técnica para o projeto. Após isso, é exigido que a empresa apresente um contrato “Turn Key” de construção e fornecimento e tenha um regime de preços global. O prazo para a execução do projeto deve ser definido em quatro anos.
A data para a divulgação dos editais é de 10/12 a 19/12. A disponibilidade do edital para retirada acontece no dia 20/12.
A Apresentação para a documentação de pré-qualificação ocorre no dia 7/2 de 2002. O resultado da pré-qualificação acontece no dia 19/3 do ano que vem, assim como a divulgação da concorrência, que ocorre no mesmo mês, no dia 21. A data estimada para a adjudicação é em julho de 2002.
Segundo o Diretor de Planejamento e Expansão dos Transportes Metropolitanos, Arnaldo Luís, esta será a primeira linha de metrô a ser construída com a participação da iniciativa privada. “Com o sistema de concessão denominado BOT – Build, Operate and Transfer, o modelo prevê que o estado assuma os custos de infra-estrutura básica e o concessionário será responsável pela parte de acabamento, sistema e material rodante. Como retorno, irá explorar a operação da linha por 34 anos. Depois deste período, o empreendimento voltará para o Estado”, explica o diretor.
O custo total do projeto está orçado em US$ 1,262 bilhão, dos quais neste montante serão destinados US$ 934 milhões na primeira fase e US$ 328 milhões na segunda. O governo vai investir US$ 740 milhões.
Desse valor, US$ 418 milhões serão financiados pelo Banco mundial (Bird) e pelo Japan Bank Internacional Corporation, JBIC e o restante, US$ 322 milhões, serão recursos diretor do Tesouro do Estado.
A iniciativa privada arcará com US$ 194 milhões que completam o custo da primeira etapa e com os US$ 328 milhões para a execução da segunda fase.

Metrô realiza audiência pública da Linha 4 – Amarela

Panorama Brasil – 28/11/2001
SÃO PAULO – A Companhia do Metropolitano de São Paulo, Metrô, realizou nesta quarta-feira (28), audiência pública destinada a esclarecer a população e às empresa interessadas em participar do processo de licitação, sobre a implantação da Linha 4 Amarela, que vai ligar o bairro da Luz à Vila Sônia, na zona oeste da cidade.
A linha terá 12,8 quilômetros de extensão, passando pela região da Consolação, Avenida Paulista e Pinheiros e abrigará as estações Morumbi (com pátio de estacionamento em Vila Sônia), Três Poderes, Butantã, Pinheiros, Faria Lima, Fradique Coutinho, Oscar Freire, Paulista, Higenópolis, República e Luz, que serão implantadas em duas fases.
De acordo com o Secretário de Estado dos Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes, a primeira fase que prevê a construção do trecho inteiro e de cinco estações, (Butantã, Pinheiros, Paulista, República e Luz), será entregue em 2006. Na segunda fase serão implantadas as estações restantes, e terá previsão de término em três anos.
“Há mais de 50 anos o Metrô vem planejando a construção da obra, mas só agora isso será possível”, ressalta.
Segundo ele, não dá mais para esperar para a realização da obra, que começará no segundo semestre de 2002. O custo total do projeto está orçado em US$ 1,262 bilhão, dos quais neste montante serão destinados US$ 934 milhões na primeira fase e US$ 328 milhões na segunda. Cerca de 60% do projeto será financiado pelo Governo do Estado e o restante pela iniciativa privada.
De acordo com o secretário, o governo esteve reunido na semana passada em Washington, nos Estados Unidos com integrantes do Banco Mundial (Bird) para captar recursos para o projeto. O Japan Bank for International Cooperation (JB e C) também participará da concessão do crédito para o projeto.
“O governador Geraldo Alckmin quer o máximo de empenho para o levantamento de recursos”, explica o secretário ao ser perguntado sobre como o governo irá proceder para controlar da melhor forma os recursos para a obra.
EMBARQUES
Segundo o Diretor de Planejamento e Expansão dos Transportes Metropolitanos, Arnaldo Luís, na primeira fase serão instalados 16 trens e na segunda 8.
“Na primeira etapa esperamos uma demanda de embarques na linha de 964.970 pessoas por dia útil e um volume máximo no pico da manhã de 42.615 passageiros. Já na segunda etapa esperamos que a demanda seja de 868.220 passageiros e um volume máximo de 42.249 pessoas”, ressalta o Diretor.
Segundo ele, cerca de 1,7 milhões de pessoas serão beneficiadas no total. DESAPROPRIAÇÕES
Cerca de 318 imóveis serão desapropriados para a realização das obras da Linha 4 Amarela do Metrô, segundo o Diretor de Planejamento e Expansão dos Transportes Metropolitanos. Segundo ele, a ocupação destes imóveis está dividida em: 96 residências, 212 industriais e comerciais e 10 imóveis de uso misto.
A Companhia do Metropolitano de São Paulo avalia que 307 moradores e 174 empresas serão afetadas com a desapropriação.
“O volume é considerado pequeno para o Metrô, se comparado com outros empreendimentos. Vamos analisar cada caso com muito cuidado”, ressalta Arnaldo Luis.
De acordo com o Secretário de Estados dos Transportes, serão destinados R$ 45 milhões para as desapropriações. Segundo ele, a população e os usuários do Metrô podem contar com um telefone de informações gerais sobre a futura Linha 4 – Amarela.
Pelo número 3285-0785 é possível obter esclarecimentos sobre o projeto e as desapropiações. O Metrô também está buscando parceria com a Nossa Caixa Nosso Banco, Caixa Econômica Federal e Creci, com o objetivo de fornecer apoio as pessoas desapropriadas na obtenção de financiamento para compra de novos imóveis.
MEIO AMBIENTE
Questões relativas ao meio ambiente também será a preocupação do Metrô. Segundo Arnaldo Luís, a Companhia do Metropolitano de São Paulo terá que obedecer três licenças para a instalação da Linha 4.
“Nossa principal preocupação é com o controle da poluição atmosférica, tráfego de caminhões de serviços, reduzir problemas de circulação e agir juntamente com operadores de transito e transporte”, explica.
Audiência para linha 4 do Metrô será aberta a empreiteiros e fornecedores
Panorama Brasil - 27/11/2001
SÃO PAULO – Empreiteiras e fornecedores, além do público em geral, podem participar, nesta quarta-feira (28/11), às 9h, da primeira audiência pública da linha 4 do Metrô (Luz-Vila Sônia), em que serão apresentadas as características gerais, plano de apoio às famílias desapropriadas e impactos ambientais da obra. Também serão apresentadas as fases de implantação e os dados técnicos do projeto civil e instalação de sistemas.
Após as palestras, os técnicos do Metrô estarão à disposição do público para responder questões sobre esses assuntos. No local do evento, Centro de Convenção das Américas, na Rua Augusta, 973, haverá uma sala para o fornecimento de informações sobre os imóveis que serão desapropriados para a construção da Linha 4.
Esses esclarecimentos também podem ser obtidos pelo telefone 3285-0785, de segunda a sexta-feira, em horário comercial.
A Linha 4 terá 12,8 quilômetros de extensão, 11 estações e será implantada em duas fases, ligando o bairro da Luz ao bairro de Vila Sônia (zona Oeste). A primeira fase prevê a construção do trecho inteiro e de cinco estações. As outras serão implantadas na segunda fase.
O custo para implantação da primeira etapa é de US$ 934 milhões, provenientes do Governo do Estado e da iniciativa privada, por meio de um modelo de concessão denominado BOT – Build, Operate and Transfer, inédito no Brasil.
Após a realização da audiência pública, o passo seguinte é o lançamento do edital de pré-qualificação das empresas, previsto para o próximo mês.
O Metrô, empresa vinculada à Secretaria dos Transportes Metropolitanos do Governo do Estado de São Paulo, acredita que a escolha da empresa ou consórcio vencedor aconteça até o final do primeiro semestre de 2002, com o início das obras de construção da Linha 4 no semestre seguinte.

junho 20, 2006

O Consenso de Washington, por Paulo Nogueira Batista, 1994

O CONSENSO DE WASHINGTON
A visão neoliberal dos problemas latino-americanos
Paulo Nogueira Batista
1994

Apresentação
Este foi o último trabalho de fôlego do meu pai, escrito poucos meses antes da sua morte recente. Como se pressentisse, nele colocou uma espécie de balanço de quase todos os grandes temas que o preocuparam e o ocuparam durante sua vida profissional, e o essencial do seu pensamento político e econômico sobre a evolução (ou involução) recente da América Latina, em especial do Brasil.
O resultado é um texto que constitui uma das melhores análises críticas da onda “neoliberal” que assola a América Latina desde os anos 80.
Ao começar a escrevê-lo, ele disse a minha mãe: “Estou chegando ao fim da minha carreira; acho que chegou a hora de botar a boca no trombone”. Abandonou então a discrição habitual de diplomata de carreira e servidor público e produziu uma crítica ácida, em tom amargo, da postura dos governantes, da sua pusilanimidade e da sua crônica incapacidade de fazer valer os interesses fundamentais do País no plano internacional.
Paulo Nogueira Batista Jr.
São Paulo, setembro de 1994

Nota Biográfica
Paulo Nogueira Batista nasceu em Recife, no dia 4 de outubro de 1929. Formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro. Ingressou na carreira diplomática em 1952. Casou-se com Elmira Helena Pinheiro Nogueira Batista com quem teve quatro filhos.
Foi presidente da Comissão Coordenadora da “Aliança para o Progresso”, no Ministério do Planejamento, em 1962-63; Subsecretário de Planejamento Político do Ministério das Relações Exteriores, em 1967-69; e Subsecretário de Assuntos Econômicos do Ministério das Relações Exteriores, em 1973-75.
Em 1975, foi negociador do Acordo de Cooperação Nuclear para Fins Pacíficos entre a República Federal Alemã e o Brasil. No mesmo ano, foi nomeado presidente das Empresas Nucleares Brasileiras (Nuclebrás), cargo que exerceu até 1982.
Em 1983, assumiu a embaixada do Brasil junto ao GATT em Genebra, tendo representado o Brasil na Reunião Ministerial em Punta del Este para lançamento da “Rodada Uruguai”, em 1986. Designado embaixador do Brasil junto à ONU, ocupou nesse cargo a presidência do Conselho de Segurança em 1988-89. Na condição de presidente desse Conselho, foi mediador entre os EUA e o Irã, na controvérsia sobre a derrubada de um avião de passageiros iraniano pela marinha norte-americana, e mediador entre o Irã e o Iraque na negociação do fim das hostilidades entre os dois países. O comando da embaixada do Brasil junto à Associação Latino-americana de Integração – ALADI, em Montevidéu, em 1993-94, foi sua última função como diplomata de carreira.
Morreu em São Paulo, em 31 de julho de 1994.

1 – Sumário
Do que se trata?;
O pano de fundo;
O fim da guerra fria e a restauração liberal;
Rumo à dependência;
Crise do Estado e da nação?;
A visão economicista do problema político;
A visão economicista dos problemas sociais
2 – A inadequação do diagnóstico do Consenso de Washington: a verdadeira origem da crise econômica latino-americana
O endividamento latino-americano;
A ruptura da ordem econômica no pós-guerra;
A crise da dívida externa;
A “Estratégia da Dívida” de 1982;
Antecedentes esquecidos;
A estratégia que não pegou: o Plano Baker;
Condicionado e tardio: o Plano Brady;
O Plano Brady em ação
3 – Insuficiências e contradições na receita do Consenso de Washington – a distancia entre o discurso e a prática neoliberal
A soberania absoluta do mercado;
A tese do Estado mínimo: redução ou liquidação?;
Regressividade e minimalismo tributário;
Privatizar ou desnacionalizar?;
A abertura pela abertura;
Comércio e desenvolvimento;
Investimentos estrangeiros: igualdade ou privilégio?;
Propriedade intelectual: proteção ou monopólio?;
Regime cambial e política monetária
4 – O Consenso de Washington em resumo
5 – O Brasil e o Consenso de Washington

A retomada do desenvolvimento e a inserção do Brasil no mundo;
Por um consenso nacional;
Referências bibliográficas

O Consenso de Washington: a visão neoliberal dos problemas latino-americanos
Paulo Nogueira Batista
“Não devemos superestimar a importância da economia, ou sacrificar às suas supostas necessidades outras coisas de maior e mais permanente significação. Seria ótimo se os economistas pudessem fazer de si mesmo uma idéia mais humilde, como pessoas tão competentes como os dentistas”
J.M. Keynes em “Economic Possibilities for Our Grandchilden”, Londres, 1930

“A independência econômica anda de mãos dadas com a independência política. Ao desejar a independência, não somos diferentes de outros povos, como os EUA. Alguns podem chamar isso de nacionalismo e é o que realmente é: respeito, lealdade e entusiasmo pelo próprio país, além de legítimo otimismo e confiança em relação a seu futuro”
Walter Gordon, ex-Ministro das Finanças canadense, em “A Choice for Canada Independence or Colonial Status”, Toronto, 1966

1. Introdução
Do que se trata?
Em novembro de 1989, reuniram-se na capital dos Estados Unidos funcionários do governo norte-americano e dos organismos financeiros internacionais ali sediados – FMI, Banco Mundial e BID – especializados em assuntos latino-americanos. O objetivo do encontro, convocado pelo Institute for International Economics, sob o título “Latin American Adjustment: How Much Has Happened?”, era proceder a uma avaliação das reformas econômicas empreendidas nos países da região. Para relatara experiência de seus países também estiveram presentes diversos economistas latino-americanos. Às conclusões dessa reunião é que se daria, subseqüentemente, a denominação informal de “Consenso de Washington”.
Embora com formato acadêmico e sem caráter deliberativo, o encontro propiciaria oportunidade para coordenar ações por parte de entidades com importante papel nessas reformas. Por isso mesmo, não obstante sua natureza informal, acabaria por se revestir de significação simbólica, maior que a de muitas reuniões oficiais no âmbito dos foros multilaterais regionais.
Nessa avaliação, a primeira feita em conjunto por funcionários das diversas entidades norte-americanas ou internacionais envolvidos com a América Latina, registrou-se amplo consenso sobre a excelência das reformas iniciadas ou realizadas na região, exceção feita, até aquele momento, ao Brasil e Peru. Ratificou-se, portanto, a proposta neoliberal que o governo norte-americano vinha insistentemente recomendando, por meio das referidas entidades, como condição para conceder cooperação financeira externa, bilateral ou multilateral.
O valor do Consenso de Washington está em que reúne, num conjunto integrado, elementos antes esparsos e oriundos de fontes diversas, às vezes diretamente do governo norte-americano, outras vezes de suas agências, do FMI ou do Banco Mundial. O ideário neoliberal já havia sido contudo, apresentado de forma global pela entidade patrocinadora da reunião de Washington – o Institute for International Economics – numa publicação intitulada Towards Economic Growth in Latin America, de cuja elaboração participou, entre outros, Mário Henrique Simonsen.
Não se tratou, no Consenso de Washington, de formulações novas mas simplesmente de registrar, com aprovação, o grau de efetivação das políticas já recomendadas, em diferentes momentos, por diferentes agências. Um consenso que se estendeu, naturalmente, à conveniência de se prosseguir, sem esmorecimento, no caminho aberto.
O pano de fundo
A mensagem neoliberal que o Consenso de Washington registraria vinha sendo transmitida, vigorosamente, a partir do começo da Administração Reagan nos Estados Unidos, com muita competência e fartos recursos, humanos e financeiros, por meio de agências internacionais e do governo norte-americano. Acabaria cabalmente absolvida por substancial parcela das elites políticas, empresariais e intelectuais da região, como sinônimo de modernidade, passando seu receituário a fazer parte do discurso e da ação dessas elites, como se de sua iniciativa e de seu interesse fosse.
Exemplo desse processo de cooptação intelectual é o documento publicado em agosto de 1990 pela Fiesp, sob o título “Livre para crescer – Proposta para um Brasil moderno”, hoje na sua 5ª edição, no qual a entidade sugere a adoção de agenda de reformas virtualmente idêntica à consolidada em Washington.
A proposta da Fiesp inclui, entretanto, algo que o Consenso de Washington não explicita mas que está claro em documento do Banco Mundial de 1989, intitulado “Trade Policy in Brazil: the Case for Reform”. Aí se recomendava que a inserção internacional de nosso país fosse feita pela revalorização da agricultura de exportação. Vale dizer, o órgão máximo da indústria paulista endossa, sem ressalvas, uma sugestão de volta ao passado, de inversão do processo nacional de industrialização, como se a vocação do Brasil, às vésperas do século XXI, pudesse voltar a ser a de exportador de produtos primários, como o foi até 1950. Uma área em que os preços são cadentes – são hoje, em termos reais, 40% em média inferiores aos de 1970 – em virtude do notável volume de subsídios concedidos a seus produtores agrícolas pelos países desenvolvidos, da ordem de US$ 150 bilhões de dólares por ano, e da revolução no setor de materiais que vem reduzindo substancialmente o uso de matérias-primas naturais por unidade de produto obtido.
As reformas comerciais liberalizantes recomendadas pelo Banco Mundial e avalizadas pela Fiesp seriam, de resto, fielmente encampadas pelo governo Collor até mesmo no que se refere à postura a se assumir na Rodada Uruguai, de alinhamento às posições norte-americanas na questão agrícola e nos novos temas normativos de serviços e propriedade intelectual.
Tudo se passaria, portanto, como se as classes dirigentes latino-americanas se houvessem dado conta, espontaneamente, de que a gravíssima crise econômica que enfrentavam não tinha raízes externas – a alta dos preços do petróleo, a alta das taxas internacionais de juros, a deterioração dos termos de intercâmbio – e se devia apenas a fatores internos, às equivocadas políticas nacionalistas que adotavam e às formas autoritárias de governo que praticavam. Assim, a solução residiria em reformas neoliberais apresentadas como propostas modernizadoras, contra o anacronismo de nossas estruturas econômicas e políticas.
Contribuiria para a pronta aceitação do diagnóstico e da proposta neoliberal – dessa visão economicista dos problemas latino-americanos – a existência de um grande número de economistas e cientistas políticos formados em universidades norte-americanas, de Chicago e Harvard, onde passara a pontificar uma visão clássica e monetarista dos problemas econômicos. Alguns desses economistas seriam chamados a ocupar posições de comando em seus países de origem, do que são exemplos Salinas de Gortari no México e Domingo Cavallo na Argentina.
Também contribui para a ressurreição das velhas idéias liberais a ação promocional de fundações estrangeiras e de organismos internacionais, muito ativos no financiamento e organização de publicações e seminários que monopolizariam o debate acadêmico no continente e que acabariam por influir fortemente na orientação das atividades extracurriculares das universidades latino-americanas, afogadas, junto com o Estado, em dificuldades financeiras.
Fator decisivo terão sido as vantagens imediatas que setores empresariais esperariam retirar das sugestões específicas da proposta neoliberal na área da reforma tributária.
A imprensa, por meio de editoriais ou de articulistas entusiastas do novo velho credo, alguns de passado esquerdista, colocaria na defensiva todos os que não se dispusessem a aderir à autodenominada “modernização pelo mercado”, qualificando-os automaticamente como retrógrados ou “dinossauros”. Mas essa mesma imprensa registraria, com respeito e sem quaisquer reparos, declarações do presidente da General Motors Mundial quando veio ao Brasil defender a necessidade de se conter o ímpeto da abertura comercial, com o natural receio de não poder a GM norte-americana competir no mercado brasileiro com os veículos de origem japonesa ou coreana, caso aquele processo prosseguisse. Caberia, assim, aos investidores americanos e europeus, e não aos empresários nacionais, assumir a defesa da indústria instalada no país através da política de substituição de importações condenada pela onda neoliberal.
O fim da guerra fria e a restauração liberal
A disputa ideológica Leste-Oeste, maniqueistamente travada entre modelos estereotipados do capitalismo à la Ronald Reagan e o comunismo stalinista, inviabilizaria a discussão racional e mais serena de alternativas importantes, em particular de outras modalidades de economia de mercado, como as praticadas na Europa ocidental e no Japão. O colapso do comunismo na Europa central e a desintegração da União Soviética, somados à adesão do socialismo espanhol e francês ao discurso neoliberal, facilitaria a disseminação das propostas do Consenso de Washington e a campanha de desmoralização do modelo de desenvolvimento, inspirado pela Cepal, que se havia montado na América Latina sobre a base de capitais privados nacionais e estrangeiros e de uma participação ativa do Estado, como regulador e até empresário.
Com a queda do Muro de Berlim, fez-se leitura simplificada do significado do fim da guerra fria, constatando-se precipitadamente a emergência de nova ordem internacional, uma definitiva Pax Americana, à qual seria inevitável ajustar-se. Aceita-se a proclamação do fim da História, com a vitória da economia de mercado e da democracia. Cria-se um clima de tal conformismo que um intelectual do porte de Vargas Llosa, com pretensões de governar o seu país, ousaria tomar, sem pejo e até com entusiasmo, a imensa liberdade de sugerir, em artigo assinado, que Porto Rico, como Estado associado dos Estados Unidos, passasse a constituir o modelo, por excelência, para a América Latina. Proposta esdrúxula e vexaminosa, que passou indene, sem comentários, de forma que indica o grau de anestesiamento da consciência nacional na região.
Os latino-americanos parecem comportar-se como países derrotados. Reagem defensivamente, com complexo de culpa, como se estivessem saindo de uma longa noite de totalitarismo político e econômico, como se houvessem sido eles, juntamente com os países da Europa oriental, vencidos também na guerra fria. Resignados e acomodados, sem nenhuma vontade perceptível de se afirmar como verdadeiras nações.
Rumo à dependência
De um não-alinhamento automático, seja por um antiamericanismo infantil ou ideológico, seja por uma percepção realmente diferenciada do interesse nacional, passar-se-ia a uma relação de ostensiva aceitação da dependência aos Estados Unidos. A deslumbrada reação latino-americana à Iniciativa Bush – de eventual criação de uma Área Hemisférica de Livre Comércio mediante acordos bilaterais – ilustra bem a nova postura externa das elites da América Latina. Sem nenhuma hesitação, sem maior estudo, as elites latino-americanas antecipariam sua anuência a uma integração inevitavelmente desequilibrada para nossas débeis economias, sobretudo se levada a efeito caso a caso, por via bilateral.
Curiosamente, numa inversão total da atitude assumida um século antes, em 1890 – quando, talvez, por influência inglesa, talvez por terem mais fresca a memória das lutas da independência política – os países da região recusaram proposta norte-americana de formação de “União Aduaneira das Américas”. Recusa que limitou as conclusões do que seria a I Conferência Panamericana à criação de um Escritório Comercial das Repúblicas Americanas, embrião da União Panamericana e de sua sucessora, a atual Organização dos Estados Americanos.
A adesão do México ao Nafta, apesar de consumada em circunstâncias geopolíticas e geoeconômicas especialíssimas que não existem entre os Estados Unidos e os demais latino-americanos, desencadearia, contudo, uma frenética e prematura corrida para inscrição de candidatos e acordos de livre comércio com o Nafta ou com os Estados Unidos, bilateralmente. Tais acordos, se materializados constituirão uma série ameaça às exportações brasileiras de manufaturas para a América do Sul, nosso principal mercado de produtos industriais, onde passaríamos a enfrentar, nas mesmas condições de competição, a concorrência norte-americana. Por não confiar na exeqüibilidade da integração hemisférica e/ou para não dar impressão de isolamento em relação às tendências latino-americanas, as autoridades brasileiras se limitaram a não endossar a Iniciativa Bush.
O marketing das idéias neoliberais foi tão bem feito que, além de sua identificação com a modernidade, permitiria incluir no Consenso de Washington com toda naturalidade, a afirmativa de que as reformas realizadas na América Latina se devem apenas à visão, à iniciativa e à coragem dos seus novos líderes. O que vinha de fora emerge transmutado em algo que teriam resolvido fazer por decisão própria, no interesse de seus próprios países e sem pedir reciprocidade, compensação ou ajuda. Com o que perdiam, pour cause, o direito a pleitear uma ou outra coisa.
Crise do Estado e da nação?
Tão eficaz foi a mensagem, e ao mesmo tempo tão desmoralizadora da auto-estima nacional latino-americana, que se tornou possível a pública discussão, até nos meios de comunicação, sem resquício de pudor, de soluções visivelmente comprometedoras da capacidade nacional de decisão.
Passou-se a admitir abertamente e sem nuances a tese da falência do Estado, visto como incapaz de formular política macroeconômica, e à conveniência de se transferir essa grave responsabilidade a organismos internacionais, tidos por definição como agentes independentes e desinteressados aos quais tínhamos o direito de recorrer como sócios. Não se discutia mais apenas, por conseguinte, se o Estado devia ou podia ser empresário. Se podia, ou devia, monopolizar atividades estratégicas. Passou-se simplesmente a admitir como premissa que o Estado não estaria mais em condições de exercer um atributo essencial da soberania, o de fazer política monetária e fiscal.
Começou a se pôr em dúvida se teria o Estado competência até para administrar responsavelmente recursos naturais em seu território, sempre que, como no caso da Amazônia, viessem a ser considerados em nome do equilíbrio ecológico mundial, um “patrimônio da humanidade”. Caso em que esses recursos naturais estariam sujeitos, em princípio, a no mínimo um regime de co-gestão com participação de organismos multilaterais e de organizações não governamentais dos países desenvolvidos.
Nesse espírito, Collor concordaria que o Banco Mundial realizasse por solicitação do Grupo dos 7, em sua reunião de Houston de 1990, um estudo sobre a forma de preservar os recursos florestais da Amazônia. Projeto de co-gestão internacional que só não se implementou em virtude da pouca disposição dos integrantes do Grupo dos 7 de fornecer os recursos financeiros que o estudo do Banco Mundial estimou necessários. No mesmo espírito, o ex-presidente se disporia a demarcar, em regiões de fronteira, imensas reservas, muito além das necessidades de preservação das culturas indígenas.
No debate sobre a inflação – obsessivamente considerada o único mal a se combater, a qualquer preço, ou seja, à custa do emprego, do salário, do desenvolvimento – contemplam-se todas as sortes de renúncia à autonomia nacional. Admite-se desde a vinculação formal da moeda nacional ao dólar, já em vigor na Argentina, até a pura substituição da moeda nacional pela moeda norte-americana, como acaba de sugerir de público o presidente do Banco Central do Uruguai.
Assim, já não se guarda mais nem sequer a retórica da independência, como se esta se houvesse transformado em incômodo obstáculo à estabilidade monetária, valor absoluto e requisito essencial da modernidade. Passa-se, no caso brasileiro, pelo exame, sem constrangimento, de fórmulas indiretas ou disfarçadas de vinculação do novo padrão monetário brasileiro à moeda norte-americana.
Isso é feito, porém, a todo risco, sem que o governo do país emissor da moeda de referência se comprometa, diferentemente da Inglaterra nos tempos do “padrão-ouro”, a atuar como “emprestador do último recurso” e/ou a submeter sua própria moeda a um mínimo de disciplina internacional. Sob a invocação de slogans charmosos – globalização, transnacionalização – assume-se na América Latina, no discurso e na ação, postura da dependência externa virtualmente total.
Na discussão sobre a forma de combater inflações agudas, chega-se, no Brasil, a tratar como se fora produto do engenho e arte de economistas locais, esquema de corte notoriamente colonialista, os currency boards adotados pelas colônias inglesas no século passado. A sugestão fora na realidade objeto da “Conference on Currency Substitution and Currency Boards” realizada em Washington em fevereiro de 1992 sob o patrocínio do Banco Mundial. Naquela ocasião promotores estrangeiros da esdrúxula sugestão não se acanhariam, na presença de economistas brasileiros e latino-americanos, de lembrar que os referidos Conselhos, para serem realmente eficazes, deveriam ser administrados por representantes de organismos financeiros internacionais. Algo que se faz pensar na famosa Comissão Administradora da Dívida Otomana, pela qual, no final do século XIX, representantes dos bancos credores internacionais passaram a administrar as finanças do Império Turco em liquidação.
Sem dúvida, uma estranha proposta sobretudo quando apresentada em nome da modernização, algo que deveria ter sido objeto de repulsa imediata pelo que significa de agravo ao amor-próprio nacional. O entusiasmo pelo retorno a soluções anacrônicas em nome da “modernidade” foi, no entanto, de tal ordem que surgiriam propostas de reformas tributárias com base num único imposto, que muito se assemelham às levantadas na França do século XVIII, como forma de restaurar as finanças do Antigo Regime, cuja profunda crise acabaria levando à Revolução Francesa.
Diante da passividade latino-americana, não hesitariam os participantes do Consenso de Washington em chegar ao extremo de assemelhar a América Latina à Europa oriental, como se as ditaduras locais pudessem ser realmente equiparadas ao totalitarismo do Leste europeu e como se o afinal modesto grau de estatização a que se chegou neste nosso lado do mundo autorizasse identificar o modelo de organização econômica que praticamos com o de planejamento, regulação e gerenciamento central da economia então existente nos países comunistas europeus! A premissa subjacente a essa visão neoliberal exaltada é a dogmática afirmação da existência, por um lado, de uma incompatibilidade intrínseca entre nacionalismo e livre mercado e, por outro, de uma correlação necessária entre liberalismo econômico e político.
A visão economicista do problema político
Embora se reconheça no Consenso de Washington a democracia e a economia de mercado como objetivos que se complementam – e se reforçam, nele mal se esconde a clara preferência do segundo sobre o primeiro objetivo. Ou seja, revela-se implicitamente a inclinação a subordinar, se necessário, o político ao econômico. Para não tornar muito explícita essa tendência, passa-se, na avaliação dos resultados, por cima do fato notório de que dois dos mais celebrados exemplos de reforma neoliberal na área, Chile e México, se realizaram mediante regimes fortes e que, neste último caso, mal se iniciou a transição para um regime político efetivamente mais aberto.
O pleno funcionamento das instituições democráticas parece até mesmo ser visto como um “excesso de democracia”, algo capaz de se converter em empecilho às reformas liberalizantes da economia, na medida em que enseje a emergência, tanto no Executivo quanto no Legislativo, de lideranças não comprometidas com as propostas neoliberais. A modernização da América Latina deve se fazer assim, prioritariamente, por um processo de reformas econômicas. As de ordem política, de aprofundamento e consolidação da democracia na região não seriam, nessa visão, indesejáveis; mas certamente não constituem, como por vezes o discurso poderia fazer supor, pré-condição para obtenção de cooperação internacional para o apregoado modelo de modernização. A democracia não seria, pois, um meio para se chegar ao desenvolvimento econômico e social mais um subproduto do neoliberalismo econômico. Para o Consenso de Washington, a seqüência preferível pareceria ser, em última análise, capitalismo liberal primeiro, democracia depois.
A visão economicista dos problemas sociais
O Consenso de Washington não tratou tampouco de questões sociais como educação, saúde, distribuição da renda, eliminação da pobreza. Não porque as veja como questões a serem objeto de ação numa segunda etapa. As reforma sociais, tal qual as políticas seriam vistas como decorrência natural da liberalização econômica. Isto é, deverão emergir exclusivamente do livre jogo das forças da oferta e da procura num mercado inteiramente auto-regulável, sem qualquer rigidez tanto no que se refere a bens quanto ao trabalho. Um mercado, enfim, cuja plena instituição constituiria o objetivo único das reformas.
Em resumo, uma proposta saudosista, tentada sem sucesso e com conseqüências negativas na Europa da década de 20, de retorno ao laissez-faire do final do século XIX e princípio do século atual, da ordem liberal comandada pelo “padrão ouro”, que a I Guerra Mundial destruiria. Como advertia André Tardieu, então primeiro ministro da França:
“As doutrinas de ontem, os senhores as conhecem. A primeira, é a velha e nobre doutrina liberal do laissez-faire e do laissez-passer. Pelo que suscitou de iniciativas felizes, prestemo-lhes as homenagens que merece. Reconheçamos, porém, que em face da concentração do capital, da dimensão das empresas, da internacionalização dos negócios, ela não é mais suficiente.”
Ressuscitar a proposta neoliberal sessenta anos depois só pode ser visto como revolucionário apenas no sentido astronômico da palavra, na medida em que significa uma volta completa de 360 graus aos velhos usos. Tudo muito de acordo com a visão cada vez menos aceitável – e o desafio ecológico aí está para comprová-lo – de que os valores econômicos são os fundamentais da sociedade, aos quais se devem subordinar quaisquer outros, cultural ou religioso, um ponto no qual convergem o neoliberalismo e o economicismo marxista, adversários figadais em tantas outras questões.
A concepção neoliberal teria impacto muito além do campo conservador. Tanto assim que, na percepção de conhecido intelectual da esquerda brasileira, Francisco Weffort, a área social omitida no Consenso de Washington seria, na realidade, o único espaço remanescente para formulação, na América Latina, de políticas públicas. Tudo mais estaria ocupado, irremissivelmente, pela avassaladora onda neoliberal do “mínimo de governo e máximo de iniciativa”.
É difícil, porém, por mais convicto que se esteja quanto às virtudes da absoluta liberdade de iniciativa, ignorar o alastramento da miséria na América Latina economicamente liberalizada. Para não perder o controle do processo de reformas na região, a burocracia internacional sediada em Washington – no FMI, no Banco Mundial e no BID – já começa a se mexer e a considerar conveniente incorporar novos elementos, de natureza política e social, aos de ordem puramente econômica, com que iniciara seu proselitismo.
É o que leva o Banco Mundial a dedicar o seu World Economic Report de 1990 exclusivamente ao tema da miséria no Terceiro Mundo e a sugerir, para reduzi-la, que a concessão de ajuda seja vinculada a compromissos nacionais de medidas de combate à pobreza. No BID, por seu lado, já se criou uma task force em que se consideram propostas como a de Louis Emmerij, denominada “Towards an Integrated Framework for Socio-Economic Reform in Latin America”.
Nas palavras do autor da referida proposta, ex-diretor em Paris do Centro para o Desenvolvimento da OCDE e atual assessor da Presidência do BID, para levar a cabo as reformas sociais de que necessita a América Latina não se voltaria, porém, a confiar no Estado. Muito pelo contrário. Tratar-se-ia de descentralizar ao máximo o setor público, pela municipalização dos recursos oficiai e pela mobilização das organizações não-governamentais, sabidamente estrangeiras em sua maioria. Sustenta Emmerij que, para garantir a governabilidade e as reformas liberais, seria necessário, nada menos nada mais, que “desagregar o Estado”. Esta seria, na sua opinião, a única maneira de superar as burocracias nacionais, entendidas como obstáculo por excelência à modernidade. Por isso, também sugere explicitamente que o BID assuma a liderança intelectual na definição de uma nova estratégia, cuja finalidade seria conformar um “Consenso Hemisférico” a respeito de um conjunto equilibrado de objetivos econômicos e sociais. Com muita franqueza, sem tergiversação, concita o BID a promover esse novo e mais amplo consenso pelo uso dos mecanismos de financiamento do Banco.
Dado o desarmamento intelectual do establishment latino-americano é de se temer que prosperem esses novos e ainda mais abrangentes “consensos”. E que os dirigentes latino-americanos, por não saberem exatamente se querem – e como podem – combater a miséria, acabem mais uma vez caudatários de soluções concebidas no exterior. É o risco de quem pede ajuda sem saber como utilizá-la.

2. A inadequação do diagnóstico do Consenso de Washington: a verdadeira origem da crise econômica latino-americana
Mesmo sem discutir o valor das premissas neoliberais, é correto esquecer a responsabilidade dos fatores externos na profunda crise que passou a varrer a América Latina a partir dos anos 80? Como foi possível às lideranças regionais assumir, sozinhas, o ônus político pela crise? E necessário chegar a esse ponto de submissão intelectual para obter a módica cooperação externa que nos tem sido efetivamente concedida? Em que medida não acabamos por legitimar com essa atitude inutilmente servil um processo em que, numa transfusão de sangue às avessas, acabamos ajudando mais os países ricos do que estes a nós, seja financeira seja comercialmente?
O endividamento latino-americano
Marginalizada nos programas de ajuda externa do tempo da guerra fria – salvo o breve interregno da “Aliança para o Progresso” – e sem grandes perspectivas de expansão de suas exportações em virtude do crescente protecionismo dos países desenvolvidos e da persistência de termos perversos de intercâmbio – sem aid nem trade, para usar o jargão da época, a América Latina se veria compelida a financiar os seus desequilíbrios comerciais e o próprio esforço de desenvolvimento através de apelo, a partir dos anos 70, ao mercado privado de capitais, seja sob a forma de operações de euromoney ou de eurobonds.
A existência de uma grande liquidez internacional, reforçada pelo aparecimento dos “petrodólares”, levaria a um nível pouco prudente de endividamento em virtude de prazos de amortização inferiores aos de maturação dos projetos de investimento financiados. Contudo, a principal vulnerabilidade do esquema residia no fato de os empréstimos serem contraídos a taxas flutuantes de juros.
Como os demais países da região, o Brasil apostou, sem maior reflexão, na solidez da ordem econômica internacional prevalecente, baseada na estabilidade do dólar e das taxas de juros e, para os importadores do produto, no suprimento garantido de petróleo a baixo custo, através das multinacionais que operavam no Oriente Médio sob a proteção política e militar dos Estados Unidos. Apesar das perdas de reservas internacionais resultantes da desvalorização da moeda norte-americana e do choque traumático dos novos preços do petróleo sobre nossa balança comercial, a América Latina perseverou na crença de que o sistema econômico internacional em que se achava inserida continuava a oferecer segurança e previsibilidade.
A ruptura da ordem econômica no pós-guerra
O cálculo era temerário. Antes mesmo da primeira crise do petróleo, a abrupta decisão norte-americana de desvincular o dólar do ouro e de deixar flutuar sua moeda já denotava a tendência da superpotência responsável pela estabilidade da ordem econômica vigente a tomar decisões unilateralmente, sem levar em conta o impacto internacional de medidas de grande envergadura. Ao derrubar, sem maior cerimônia, uma das colunas básicas do sistema monetário construído em Bretton Woods, os Estados Unidos afirmavam, sem rebuços, a prevalência dos interesses nacionais sobre as responsabilidades mundiais do país. Tendência que se evidenciaria, de modo dramático para a América Latina, com a decisão do Federal Reserve System de elevar espetacularmente as taxas de juros sobre o dólar para combater a inflação nos Estados Unidos. Coincidindo com uma política fiscal frouxa do governo norte-americano, a decisão do FED teve efeito especialmente perverso sobre as taxas internacionais de juros e pegaria desprevenida a América Latina, imprudentemente endividada a taxas de juros flutuantes.
A crise da dívida externa
De um golpe, com a súbita elevação das taxas de juros – que mais do que duplicaram em termos reais – os países latino-americanos se veriam na impossibilidade de honrar o serviço de suas dívidas externas, serviço que passou a requerer, em média, a utilização de mais de 80% de suas receitas de exportação.
A insolvência dos devedores ameaçava diretamente a dos bancos privados internacionais, aos quais havia sido confiada sem supervisão pelos respectivos governos a missão de reciclar os petrodólares. Os países desenvolvidos emprestadores se haviam deixado levar pela crença no poder de auto-regulação do mercado internacional de moedas, que operava com volumes muito superiores aos fluxos oficiais de crédito, governamentais e multilaterais. O resultado foi um excessivo comprometimento internacional do sistema privado de financiamento, em particular dos bancos norte-americanos, com os países em desenvolvimento. Os grandes money centers dos Estados Unidos chegariam a emprestar, em média, mais de 60% do respectivo capital ao Brasil, não obstante a existência de teto legal naquele país, para cada banco, de 15% por país tomador.
Da extrema tolerância com as imprudentes políticas de empréstimo de seus bancos compatível, porém, com a postura de laissez-faíre em relação ao vertiginoso crescimento do mercado de euroomoney e de eurobonds, as autoridades de supervisão bancária dos Estados Unidos passariam, com a crise da dívida latino-americana, a uma atitude de inflexível cobrança do respeito às normas de regulação da atividade bancária a fim de restabelecer antes de tudo a solvência do sistema. Ainda que isso significasse, como significou, severo ônus para os países devedores.
A “Estratégia da Dívida” de 1982
Função em grande parte dessa rígida postura governamental norte-americana, a estratégia inicial de tratamento da dívida cogitou, fundamentalmente, de reescalonar o principal pelos mesmos prazos, sempre com juros flutuantes mas com spreads mais elevados. Como “dinheiro novo”, unicamente “empréstimos-ponte” necessários para impedir a insolvência dos bancos credores. O pagamento integral dos juros seria viabilizado pela contração das importações dos devedores, mediante a redução de demanda inerente aos programas de ajuste recessivo recomendados e supervisionados pelo FMI e de medidas diretas de controle das importações.
Não se considerou, como seria mais conveniente para os próprios credores uma estratégia de aumento das exportações dos devedores, mediante acordos de estabilização dos preços de produtos primários e/ou uma maior abertura dos mercados dos credores às manufaturas dos devedores. Ou, no campo financeiro, uma consolidação da dívida que incorporasse reduções do estoque e amortização em prazos muito mais longos, com grandes períodos de carência e juros fixos.
Ao ser instrumentada sob a supervisão do FMI, a estratégia da dívida desejada pelos credores permitiria que o organismo encontrasse uma nova missão, recuperando uma parcela do prestígio que havia perdido, primeiro, em conseqüência da modéstia de seus recursos em face do crescimento do comércio internacional e do surgimento do mercado de euromoeda; em seguida, principalmente, pelo colapso do regime de paridades fixas de câmbio.
Dessa estratégia inicial, resultaria um sensível fechamento dos mercados latino-americanos, fazendo, no caso brasileiro, que juntamente com o aumento da produção nacional de petróleo, o grau de abertura da economia brasileira passasse de 10% a 5% do PIB. Tal fechamento seria, mais tarde, estranhamente atribuído, de forma crítica, a propósitos autárquicos e de estatização da economia brasileira, como se aquele fechamento não fosse produto dos esquemas de reescalonamento de uma dívida contraída em função da inserção internacional que o país havia aceito. Crítica que, além disso, não levava em conta que o grau de abertura de uma economia se deve calcular também em função da importância do investimento direto estrangeiro, o qual atinge no Brasil 8,9% do PIB. Essa proporção é muito superior aos 5,2% verificados na Coréia do Sul e aos 2,3% em Taiwan, países constantemente louvados, no entanto, por sua abertura ao exterior.
Dentro dessa estratégia de refinanciamento da dívida, os países latino-americanos, Brasil inclusive, perderiam considerável parcela de sua autonomia de decisão na formulação e execução da política macroeconômica. Esta passaria a ser concebida a partir da disponibilidade de recursos proporcionados pela renegociação dos débitos externos e não o inverso, como seria o correto. Repetir-se-ia, assim, a dramática experiência do início dos anos 20, quando a cobrança das dívidas interaliadas e das reparações de guerra se tornou inviável por não levar em conta, como propusera avisadamente Keynes, a “capacidade de pagamento” dos devedores.
Antecedentes esquecidos
Na verdade, não precisava ter sido assim. No passado, quando as dívidas às vezes ainda eram cobradas manu militari, credores tanto públicos quanto privados haviam assumido atitudes bastante mais flexíveis. O Brasil, por exemplo, obteve de seus bancos credores, em 1898, um funding loan com 63 anos para amortização e 13 anos de carência. Na década de 20, os Estados Unidos e a Inglaterra, embora com algum atraso, acabariam consolidando as dívidas de guerra interaliadas nos mesmos prazos do referido funding brasileiro e com taxas de juros fortemente subsidiadas. Ambos os governos se mostrariam adicionalmente muito flexíveis ao outorgarem reduções drásticas do principal, as quais atingiriam, em alguns casos, a 80% do estoque da dívida (Itália) e nunca foram menores que 35% (Iugoslávia).
Os termos e condições desses antecedentes históricos estranhamente nunca seriam lembrados pelos economistas que se dedicaram ao estudo da dívida latino-americana ou registrados nos documentos produzidos a esse respeito por organismos internacionais ou por institutos especializados em pesquisa econômica. Para não citar outros autores que trataram do problema em termos gerais, é particularmente curioso que especialistas como Eliana Cardoso e Rudiger Dornbusch, num estudo específico sobre a história do endividamento externo brasileiro, se refiram ao já citado funding de 1898 apenas para chamar a atenção para o fato de que suas “condicionalidades” teriam sido tão duras quanto as modernamente impostas pelo FMI.
Os princípios aplicados nos anos 20 à dívida interaliada seriam estendidos pelos europeus às próprias reparações de guerra devidas pela Alemanha. Em decorrência, o sacrifício exigido daquele país foi, escandalosamente, bem menor que o imposto aos países latino-americanos nos anos 80. Enquanto o serviço da dívida renegociada desses países chegou a alcançar mais de 45% da receita de exportação de bens e serviços, a Alemanha nunca pagou, a título de reparações, mais de 18% do valor de suas exportações. Enquanto a América Latina se transformaria, na década de 80, em exportadora líquida de recursos à média anual de 5% do PIB, a Alemanha, graças a empréstimos e investimentos norte-americanos, passaria a contar, na última metade da década de 20, com fluxo positivo nas suas transações financeiras externas. Como assinalaria, com mordacidade, título de recente livro de Stephen Schuker sobre a matéria, tudo se teria passado, na prática, como se os Estados Unidos houvessem pago “reparações de guerra” à Alemanha.
Em 1946, os Estados Unidos reagiriam ainda mais prontamente que ao final da I Guerra Mundial. Das dívidas contraídas pela Inglaterra e pela União Soviética sob o Programa “Lend-lease” cobrariam apenas 5% e 10% do seu valor, ou seja, perdoariam US$ 20,5 bilhões no primeiro caso e US$ 10 bilhões no segundo. Somadas, tais cifras equivaliam a cerca de 15% do PIB norte-americano na ocasião, ou seja, corresponderiam, em valores atuais, à impressionante cifra de US$ 750 bilhões.
Em 1953, os Estados Unidos acabariam mais uma vez por não reivindicar reparações da Alemanha novamente derrotada. Interessados na recuperação da República Federal, no contexto da guerra fria, Washington reduziria em 2/3 a dívida alemã de pré-guerra e concederia mais 35 anos de prazo para amortização, a juros favorecidos, do saldo remanescente de 1/3. Isso não obstante tratar-se de dívida que havia sido objeto de moratória unilateral, ao ter a Alemanha suspendido seu pagamento vinte anos antes.
Ao se ignorar essa noção básica no caso latino-americano, seriam mais uma vez desconsiderados tanto o “problema orçamentário”, isto é, como pode o governo do país devedor obter recursos em moeda nacional necessários ao serviço da dívida externa, sem desequilibrar as contas públicas, quanto o chamado “problema da transferência”, ou seja, o da conversão dos recursos internos dessa forma obtidos em moeda estrangeira.
Novamente decidiriam os credores, com graves conseqüências inflacionárias para os devedores latino-americanos, que cabia a estes últimos resolverem sozinhos o “problema orçamentário”, reduzindo arbitrariamente as despesas do Estado ou elevando os respectivos tributos. A resposta ao “problema da transferência” seria entendida também como uma responsabilidade exclusiva dos devedores, a quem incumbiria gerar saldos de comércio para pagamento do serviço da dívida, mais pela contração das importações do que pela expansão das exportações. Vale dizer, pela repressão da demanda interna ou por medidas diretas de controle das importações.
Nos anos 80, a “estratégia da dívida”, tal como concebida pelos credores com o aval do FMI, refletiria assim essencialmente as necessidades de recebimento dos bancos credores. Não levaria em conta a capacidade de pagamento dos devedores e, conseqüentemente, as respectivas necessidades de desenvolvimento. Sem debt-relief, ver-se-iam os devedores compelidos a apelar para recursos domésticos de origem inflacionária. Sem acesso a new money, tiveram que contrair fortemente suas importações a fim de liberar divisas para servir à dívida externa.
Como resultado da estratégia inicial dos credores e do FMI, converter-se-iam os latino-americanos, irônica e inapelavelmente, em importantes exportadores líquidos de capital. Transfeririam para o exterior, entre 1982 e 1991, US$ 195 bilhões de dólares, quase o dobro, em valores atualizados, do que os Estados Unidos concederam, como doação, à Europa ocidental entre 1948 e 1952, sob o Plano Marshall.
A estagnação, quando não a recessão, foi o alto preço pago pelos latino-americanos para reescalonar suas dívidas, com a agravante de uma distribuição particularmente iníqua do ônus decorrente do ajuste, seja pela redução do salário real, seja pelo aumento do desemprego, que aprofundaria ainda mais a miséria. No Brasil, por exemplo, a participação dos salários numa Renda Nacional estagnada se reduziria à metade do que fora no início da crise da dívida externa.
A fim de adquirir as divisas necessárias ao serviço da dívida externa, o governo, impossibilitado de aumentara receita tributária num clima de recessão, foi buscar recursos por processos inflacionários, diretamente pela emissão de moeda ou indiretamente por endividamento interno a curto prazo e taxas de juros altas. As conseqüências foram, mais uma vez, especialmente onerosas para as camadas menos favorecidas da população. Tais opções tornariam difícil equilibrar as contas públicas uma vez que o serviço da dívida externa consome substancial parcela da receita tributária do país.
A estratégia que não pegou: o Plano Baker
A seriedade da situação criada na América Latina pela debt strategy inicial – recessão com inflação – levaria a uma primeira revisão, ao que se chamou de “Plano Baker”. Com o patrocínio do então secretário do Tesouro norte-americano, introduziu-se em 1985 a noção da necessidade de novos empréstimos para projetos de desenvolvimento, a serem concedidos pelos bancos privados no quadro de programas de financiamento do Banco Mundial para ajuste estrutural. Previa-se, igualmente, a idéia da conversão de débitos em ações de empresas dos países devedores.
O Plano Baker não chegaria a decolar. Entretanto, resultou na introdução do Banco Mundial como co-gestor, com o FMI, dos esquemas de administração da dívida latino-americana. Com isto se gerariam, pela própria natureza dos empréstimos da instituição e pelos seus critérios de operação, oportunidades ainda maiores de interferência nos assuntos internos dos países devedores. As “condicionalidades” se verificariam agora na área de políticas setoriais em questões, por exemplo, de comércio exterior ou de definição de prioridades orçamentárias. O Banco Mundial com suas novas responsabilidades, buscaria se transformar, gradualmente, em núcleo de uma espécie de “international civil service” para os seus clientes no Terceiro Mundo, em cujos quadros depauperados iria, inclusive, recrutar especialistas.
Condicionado e tardio: o Plano Brady
O insucesso do Plano Baker se evidenciaria no agravamento ainda maior da situação econômica na América Latina e na deterioração adicional do seu perfil de endividamento externo. A relação deste com a receita de bens e serviços exportados se elevaria, entre 1985 e 1989, de 185% para 278%. A situação apontava o esgotamento da estratégia inicial, de muddling through, ou seja, de “empurrar com a barriga”. Em fins de 1988, surge o chamado Plano Brady, nome do novo secretário do Tesouro dos Estados Unidos que o lançaria. A nova estratégia substituiria o reescalonamento nas mesmas condições da contratação original pela noção de consolidação da dívida antiga, mediante sua substituição por uma nova, a longo prazo e também reduzida, em até 35%. Essa redução se daria através de taxas fixas de juros inferiores às da dívida antiga ou por descontos no processo de sua novação, de forma voluntária para os bancos credores.
O Plano Brady representou, sem dúvida, avanço conceitual. Chegou, porém, com atraso de seis anos e se mostrou bem modesto em termos quantitativos, sobretudo quando se tem em conta que as reduções que efetivamente resultaram de sua aplicação terminariam por situar-se sempre em níveis inferiores a 20% do estoque da dívida com os bancos comerciais, abaixo portanto dos 35% inicialmente acenados. O Plano Brady claramente não resiste à comparação com os antecedentes do funding brasileiro de 1898 e sobretudo com a consolidação das dívidas interaliadas na segunda metade da década de 20.
O Plano Brady em ação
O Plano Brady representa, de qualquer modo, guinada para melhor na estratégia de renegociação da dívida latino-americana. Certamente não pode a América Latina alimentar a ilusão de ser política e economicamente tão importante para os Estados Unidos como a velha Europa; nem contar, por isso mesmo, com cancelamento ou redução drástica de suas dívidas ou com programas de ajuda em termos concessionais como o Plano Marshall, cujo valor atual corresponderia a US$ 100 bilhões. Com o mesmo realismo, porém, a região não tem o direito de se enganar com as verdadeiras dimensões e implicações do que lhe é efetivamente oferecido em termos apenas financeiros e transitórios mas em troca de concessões permanentes comprometedoras do seu futuro.
A adoção do Plano Brady somente se dá no momento em que os bancos norte-americanos, principais credores da região, já haviam reconstituído suas reservas e diminuído sua “exposição” em relação aos mesmos. Isso permitiria que o governo norte-americano pudesse voltar a levar em conta os interesses de seus setores exportadores, inevitavelmente negligenciados na estratégia anterior. Tal consideração se expressaria pelo endosso à orientação, adotada pelo Banco Mundial, de condicionar seus empréstimos aos países latino-americanos à prévia adoção por estes de políticas unilaterais de abertura comercial.
A nova estratégia da dívida seria mais uma vez aplicada inicialmente ao México, país de singular significação geopolítica e econômica para os Estados Unidos. Para se qualificar a mais uma renegociação de seus débitos, agora na forma do Plano Brady, não bastou o compromisso de equilíbrio das contas públicas; tornar-se-ia necessário a prévia abertura unilateral da economia mexicana. Em troca, consolidar-se-ia sua dívida a longo prazo e a juros fixos mas com uma redução efetiva do principal que se limitará a cerca de 20%, muito menos, portanto, que os 35% inicialmente acenados.
Em contrapartida à consolidação da dívida latino-americana a prazo mais longo e com um pequeno desconto, os Estados Unidos obteriam a reabertura dos mercados dos países da região, com o que lograriam espetacular inversão nos fluxos do intercâmbio. Entre 1989 e 1992, os Estados Unidos evoluiriam, no seu comércio de mercadorias com os países sul-americanos e o México, de um déficit de US$ 11,2 bilhões para um saldo da mesma ordem de grandeza, resultado conseguido, praticamente, dentro de um mesmo nível de intercâmbio global. O Brasil é um dos poucos a manter saldo positivo, embora apreciavelmente reduzido de US$ 3,6 bilhões para US$ 1,5 bilhão; o México passaria de um superávit de US$ 2,2 bilhões para um saldo negativo de US$ 11,6 bilhões.

3. Insuficiências e contradições na receita do Consenso de Washington – a distância entre o discurso e a prática neoliberal
A avaliação objeto do Consenso de Washington abrangeu 10 áreas: 1. disciplina fiscal; 2. priorização dos gastos públicos; 3. reforma tributária; 4. liberalização financeira; 5. regime cambial; 6. liberalização comercial; 7. investimento direto estrangeiro; 8. privatização; 9. desregulação; e 10. propriedade intelectual.
A listagem, apesar de cobrir os elementos básicos da proposta neoliberal, não é completa. Como mero registro do que se havia feito, não poderia, de fato, abarcar elementos novos que se desenvolveriam em paralelo ou subseqüentemente. Não inclui, assim, a tese mais recente da vinculação das moedas nacionais latino-americanas ao dólar, concebida não só como esquema transitório para combater formas agudas de inflação mas agora também como solução mais permanente para garantir, de forma duradoura, a estabilidade monetária. Nem o apoio a esquema regionais ou sub-regionais de integração econômica dita aberta através dos quais a liberalização unilateral dos países latino-americanos se converte em compromisso internacional, como já ocorreu na negociação do acesso do México ao Nafta e ocorrerá com a transformação do Mercosul em união aduaneira.
As propostas do Consenso de Washington nas 10 áreas a que se dedicou convergem para dois objetivos básicos: por um lado, a drástica redução do Estado e a corrosão do conceito de Nação; por outro, o máximo de abertura à importação de bens e serviços e à entrada de capitais de risco. Tudo em nome de um grande princípio: o da soberania absoluta do mercado autoregulável nas relações econômicas tanto internas quanto externas.
A soberania absoluta do mercado
Apresentado como fórmula de modernização, o modelo de economia de mercado preconizado no Consenso de Washington constitui, na realidade, uma receita de regressão a um padrão econômico pré-industrial caracterizado por empresas de pequeno porte e fornecedoras de produtos mais ou menos homogêneos. O modelo é o proposto por Adam Smith e referendado com ligeiros retoques por David Ricardo faz dois séculos. Algo que a Inglaterra, pioneira da Revolução Industrial, pregaria para uso das demais nações mas que ela mesma não seguiria à risca. No Consenso de Washington prega-se também uma economia de mercado que os próprios Estados Unidos tampouco praticaram ou praticam, além de ignorar completamente versões mais sofisticadas de capitalismo desenvolvidas na Europa continental e no Japão.
O modelo ortodoxo de laissez-faire, de redução do Estado à função estrita de manutenção da “lei e da ordem” – da santidade dos contratos e da propriedade privada dos meios de produção – poderia ser válido no mundo de Adam Smith e David Ricardo, em mercados atomizados de pequenas e médias empresas gerenciadas por seus proprietários e operando em condições de competição mais ou menos perfeitas; universo em que a mão-de-obra era vista como uma mercadoria, a ser engajada e remunerada exclusivamente segundo as forças da oferta e da demanda; uma receita, portanto, de há muito superada e que pouco tem a ver com os modelos modernos de livre empresa que se praticam, ainda que de formas bem diferenciadas, no Primeiro Mundo.
Nesses países de capitalismo moderno se destacam as grandes corporações, dirigidas por executivos e não mais por seus proprietários, empresas virtualmente “socializadas” e funcionando em mercados oligopolísticos, de competição imperfeita, de preços e salários em sua maior parte administrados, a salvo praticamente das incertezas da oferta e da procura. Vale dizer, de fato, “economias mistas de mercado” onde o Estado, quando não atua diretamente como empresário, exerce plenamente suas funções de regulador da atividade econômica e adota o pleno emprego como objetivo prioritário de política. Economias de mercado lastreadas, tanto em considerações sociais quanto de escala, fundadas na distribuição mais eqüitativa da renda que viabiliza o consumo de massa. Mercados onde se faz sentir, de fato, tanto a mão visível do Estado” quanto a “mão invisível” da oferta e da procura.
No Primeiro Mundo, o crescimento econômico mostra-se ao longo de toda a história da Revolução Industrial, perfeitamente compatível com o aumento da presença do Estado, como regulador, planejador e empresário. Essa intervenção tornou-se mesmo indispensável para fazer frente à grande depressão dos anos 30. Nesses países, citados como exemplo de liberalização, as estatísticas claramente indicam que as despesas do setor público cresceram de maneira sistemática. Nos EUA, por exemplo, passaram de menos de 10% no início deste século para 37% em 1980. Nos últimos 20 anos, nos países industrializados de economia de mercado em seu conjunto, esses gastos se elevariam de 31% para 40%, atingindo na Europa ocidental a média de 45%, mais do dobro da que se registra na América Latina. Cresceriam na Inglaterra de mrs. Thatcher e nos EUA de Ronald Reagan, os paladinos da redução do tamanho do Estado. Muitos mantêm, como é o caso da Alemanha, não só o monopólio estatal em setores tradicionais como ferrovias mas também em área de ponta corno telecomunicações. E promovem ativamente, em associação, projetos privados como o da construção de aviões, o já conhecido “Air Bus”, não obstante as pressões em contrário dos Estados Unidos.
A tese do Estado mínimo: redução ou liquidação?
A contradição entre a prática e o discurso se revela indiscutível na área da política fiscal. Para justificar o encolhimento do Estado, invocam-se os excessos de regulamentação, asfixiantes das forças produtivas. sua ineficiência como empresário e sua irresponsabilidade fiscal, foco principal de inflações crônicas. Os Estados Unidos convivem há anos com um déficit orçamentário de vultosas proporções, que oscila entre 3% e 5% do respectivo PIB, financiado por uma dívida interna que já alcança 60% do mesmo. Nenhum dos países da recém-criada União Européia se acha, por outro lado, em condições de aceder ao projeto de união monetária do Tratado de Maastricht na medida em que excedem todos os parâmetros ali previstos que estipulam déficit orçamentário não maior de 3% e endividamento público não superior a 60% do PIB.
A proposta neoliberal identifica corretamente o equilíbrio das finanças públicas como indispensável ao combate à inflação. A âncora fiscal é sem dúvida, fundamental para restabelecer a confiança na capacidade governamental de gerir a moeda. No entanto, na proposta neoliberal, por razões talvez mais ideológicas do que econômicas, não se faz a necessária distinção entre despesas correntes e de investimentos. Estas, pela sua própria natureza, podem e devem ser financiadas por empréstimos, de preferência internos a externos. De acordo com a boa doutrina, o equilíbrio que se exige é entre dispêndios correntes e receitas tributárias. O que não se deve é, em nome de um falso conceito de responsabilidade fiscal, buscar equilíbrio em nível tão baixo de receitas e despesas que inviabilize o desempenho pelo Estado de funções essenciais de incentivador do desenvolvimento, de promotor do pleno emprego e da justiça social.
Fala-se em emagrecer o Estado para torná-lo mais eficiente. Mas o que parece se pretender, na verdade, é reduzi-lo a níveis tão ínfimos que desorganizariam a máquina estatal e podem comprometer até a sua missão clássica de provedor de segurança contra ameaças internas à ordem pública ou externas à integridade territorial. A sugestão acolhida em estudos dos organismos internacionais do FMI à ONU de condicionar a cooperação externa à redução de gastos militares e à redefinição das forças armadas pode ter mérito em alguns casos extremos mas configura uma nova e grave incursão na soberania nacional, campo tão vital e sensível como o da formulação de política macroeconômica.
Acolhidas tais idéias, poder-se-ia até chegar na América Latina, pelo menos nos países menores, à dispensa do próprio Estado mínimo, da concepção do Estado-gendarme, passando a manutenção da ordem pública interna a depender, quem sabe, de forças multinacionais, da ONU ou da OEA, em “operações de paz” aplicadas cada vez mais a conflitos internos do que a conflitos internacionais. São tantas as limitações que se desejam impor ao Estado, que este pareceria estar sendo objeto de uma estratégia de solapamento da própria idéia de nação, da qual o Estado nada mais é do que a sua forma jurídica organizada.
Regressividade e minimalismo tributário
A proposta da “burocracia washingtoniana” é declaradamente conservadora no terreno tributário. Posiciona-se contra a utilização da política tributária como instrumento de política econômica ou social e se opõe à elevação da carga tributária como forma de equilibrar as contas públicas. Sem se preocupar com o fenômeno da evasão, recomenda que a carga tributária seja distribuída sobre uma base mais ampla e que, para isso, seja menos progressivo o imposto de renda e maior a contribuição dos impostos indiretos. A função do imposto se circunscreve a cobrir as despesas mínimas de um Estado reduzido a sua expressão mais simples.
Trata-se de proposta que acentua ainda mais o grande peso que já tinham na América Latina os impostos indiretos e que tende a contribuir para o agravamento da perversa estrutura da distribuição da renda na região. Mas, sem dúvida, atraente para os setores empresariais, concorrendo para a popularidade das reformas neoliberais entre as elites latino-americanas.
Privatizar ou desnacionalizar?
Muito defendida em nome da eficiência da gestão privada dos negócios, a privatização é também promovida em função de objetivos fiscais de curto prazo. A saber, a necessidade de assegurar aos Tesouros depauperados recursos não inflacionários e não tributários necessários ao equilíbrio das contas governamentais, sem necessidade, portanto, de aumentar impostos ou cobrá-los com mais rigor. Com a vantagem adicional de proporcionar, ao mesmo tempo, bons negócios ao setor privado. Na realidade, do ponto de vista da retomada do desenvolvimento, mais válido seria canalizar os recursos do setor privado para os novos investimentos.
A privatização se presta diretamente ao propósito de enfraquecimento do Estado, quando se aplica aos monopólios em áreas estratégicas da economia, através dos quais o governo não apenas assegura o suprimento de insumos básicos como energia e telecomunicações mas também faz política industrial, por intermédio das compras governamentais. A crítica à pouca eficiência dos monopólios estatais não leva em consideração que a gestão dessas empresas foi sacrificada, em grande parte, pela contenção dos preços públicos em função de um equivocado combate à inflação que se acabou refletindo no desequilíbrio do próprio orçamento do governo. É bem possível que na luta contra as grandes empresas estatais que atuam na área de monopólio possa também estarem jogo, na múltipla motivação neoliberal um propósito de desarticulação da máquina estatal na área da administração indireta, ainda preservada da desmontagem que já se operou na administração pública direta.
No terreno da privatização também se evidenciam incoerências entre o discurso e a ação. Em alguns casos, notórios porém pouco comentados, não ocorre propriamente privatização mas apenas desnacionalização. A Aerolineas Argentinas, por exemplo, passa da propriedade do governo argentino para a da Ibéria, empresa controlada pelo Estado espanhol. Em apoio à tese da privatização citam-se com abundância, embora sem maiores detalhes, a experiência do Primeiro Mundo, em especial a da Inglaterra. Fala-se pouco ou quase nada, entretanto, do maior, mais rápido e mais intenso processo de privatização efetuado no mundo, o que está ocorrendo na ex-Alemanha Oriental.
Naquele caso, adotaram-se critérios muito interessantes que talvez pudessem ter valia na América Latina. Merece referência, em particular a exigência de que o comprador se comprometesse a (1) fazer investimentos na melhoria das instalações e equipamentos e (2) manter o nível de emprego. Vale dizer que a busca do aumento de produtividade não se deve dar unicamente pela redução da mão-de-obra, como tem ocorrido nas privatizações na América Latina, provocando aumento de desemprego que se torna inevitável em clima recessivo.
A abertura pela abertura
Em favor da abertura a importações de mercadorias, invoca-se a ineficiência do protecionismo como alocador de recursos, como obstáculo aos interesses do consumidor nacional e como fator comprometedor das chances de uma inserção competitiva na economia mundial, vista como única forma de promover o desenvolvimento.
Não se leva em conta nessa argumentação o caráter oligopolista do comércio internacional dominado por grandes empresas nem o fato de que substancial parcela desse comércio já se faz intrafirmas, entre matrizes e subsidiárias, o que torna ainda mais difícil o controle das práticas restritivas de negócios. Nem se toma em consideração como a má estrutura da distribuição da renda pode afetar a propensão a importar. Nesse raciocínio, desconsidera-se também o risco da desindustrialização e do desemprego, o que aliás, inevitavelmente reduziria o número dos consumidores cuja defesa se invoca.
Ao apresentar suas propostas de “abertura pela abertura” como um fim em si mesmo, o Consenso de Washington não menciona o que de fato se pratica no Primeiro Mundo que nos aponta como modelo. Não esclarece que, ali, a abertura dos mercados se fez com a observância de três princípios básicos: 1. obtenção de contrapartidas equivalentes dos parceiros comerciais; 2. admissão de cláusulas de salvaguarda contra a concorrência desleal ou capaz de desorganizar mercados; e 3. gradualidade na redução das barreiras tarifárias, processo que se estendeu por quatro décadas de sucessivas rodadas multilaterais de negociação no âmbito do GATT, das quais a que acaba de se encerrar em Marrakesh é a oitava.
O que sugere à América Latina é a inserção não negociada, pela abertura unilateral e rápida de nossos mercados. Isto sem levar na devida conta que as trocas comerciais entre as nações são cada vez mais reguladas pelas práticas comerciais restritivas das multinacionais. Como apontou, em 1948, o Departamento de Estado no seu relatório ao Congresso americano a respeito do que terminaria sendo uma primeira tentativa frustada de se fundar, com a “Carta de Havana”, uma Organização Internacional de Comércio: “Seria fútil remover as discriminações e reduzir ou eliminar barreiras ao comércio impostas pelos governos se a Carta da OIC deixasse às empresas liberdade para criá-las”.
Menos ainda se discute a insuficiência do argumento das vantagens comparativas quando visto, na concepção neoliberal, como sendo intrinsecamente de natureza estática, isto é, em termos de utilização apenas dos fatores existentes de produção. Por essa concepção, o capital e a tecnologia só se transfeririam entre nações para a exploração de recursos naturais ou para serviços cuja prestação exigem presença no local onde são fornecidos.
A presunção do Consenso de Washington pareceria ser a de que os países latino-americanos teriam condições de competir na exportação de produtos primários para os quais possuíssem uma vocação natural e/ou em produtos manufaturados sobre a base de mão-de-obra não qualificada de baixos salários. Como se fosse possível ou desejável perpetuar vantagens comparativas baseadas numa situação socialmente injusta e economicamente retrógrada e, ao mesmo tempo, enfrentar as visíveis nuvens negras do protecionismo que começam a se esboçar no horizonte dos mercados dos países desenvolvidos, em nome do que já classificam de “dumping social”.
Comércio e desenvolvimento
É também falaz a noção de que o crescimento econômico seria em toda a América Latina essencialmente dependente do comércio exterior, como se propõe a todos os países da região. A receita pode ser ainda mais indigesta se se considera que o modelo recomendado pode ser mais de import-led growth – de importar mais para crescer – do que propriamente de export-led growth, isto é, crescer pela via de exportação.
Tampouco é correto dizer-se que a América Latina fechou-se ao mundo por influência de idéias autarquizantes da Cepal. Esta organização, sob a liderança de Raul Prebisch, foi o motor da criação da Unctad, a Conferência da ONU para Comércio e Desenvolvimento, exatamente porque sustentava a importância desse vínculo para os países da região, em sua maioria com escala insuficiente para crescer de forma menos dependente do comércio internacional. Por isso mesmo pregava Prebisch ser o acesso aos respectivos mercados a melhor ajuda que os países desenvolvidos podiam dar aos em desenvolvimento.
A verdade é que, nos países com grandes mercados internos, com economias de escala, não existiria uma necessária correlação entre crescimento econômico e comércio exterior. Vale a respeito a experiência histórica dos Estados Unidos. Naquele país, maior economia e maior mercado importador do mundo, as importações até as vésperas da II Guerra Mundial se situavam em 3% do PIB e só recentemente se aproximaram do nível atual de 9%. Nem é tampouco a experiência do Japão, sem dúvida o melhor exemplo de êxito econômico nesta segunda metade do século. Não obstante ser hoje a segunda potência econômica do planeta e ser inegável seu sucesso como exportador, o comércio exterior japonês representa apenas 17% do PIB, percentual praticamente igual ao verificado no Brasil. Ambos os países, por diferentes razões, registram saldos comerciais equivalentes a 3% dos respectivos PIBs.
Não haveria, portanto, por que nos resignarmos todos na América Latina a uma política de export-led growth, de desenvolvimento típico de países menores como os do Sudeste asiático, nos quais as exportações funcionam como o motor do crescimento econômico. O Brasil, por exemplo, é, com muito maior probabilidade, um caso de growth-led exports, ou seja, modelo em que o crescimento econômico interno puxa o crescimento das exportações.
A tese da plena liberalização tampouco se compatibiliza com a experiência, apontada como exemplo de sucesso, dos newly industrialized countries da Ásia. O êxito econômico desses países, indiscutivelmente lastreados na iniciativa privada, não é porém, atribuível a políticas de abstenção do Estado, como os liberais caboclos tentaram alardear. Pelo contrário, um modelo de crescimento comandado pelas exportações, como praticado pela Coréia do Sul e por Taiwan, pode muito bem exigir um forte apoio promocional do Estado. Os “tigres asiáticos” lançaram-se ao mercado externo mediante fortes subsídios oficiais e graças principalmente ao apoio governamental à criação de grandes empresas privadas nacionais. O modelo de crescimento puxado pelas exportações adotado pela Coréia do Sul e Taiwan não se baseou tampouco numa abertura unilateral dos respectivos mercados. Um crescimento outward-oriented pode, portanto, muito bem se realizar sem liberalização comercial, sem abertura de mercado, mesmo negociada.
Os países asiáticos, ainda quando endividados, souberam resistir à pressão dos credores ocidentais, seguindo um projeto próprio de desenvolvimento que está longe de poder ser considerado neoliberal e que deixa perplexo o Banco Mundial. Essa perplexidade é visível no debate que já se trava em Washington, no seio da tecnocracia internacional ali sediada, e do qual nos dá notícia, entre outros, Michael Hirsch em artigo sob o título “The State Strikes Back”.
Investimentos estrangeiros: igualdade ou privilégio?
Em matéria de inversões estrangeiras, a questão se coloca de forma particularmente inadequada e contraditória. Parte-se, no Consenso de Washington, da premissa equivocada que a América Latina era hostil ao investimento direto estrangeiro e por isso dera preferência, com graves conseqüências, ao capital de empréstimo. A América Latina, e o Brasil em especial, sempre foram muito abertos ao investimento estrangeiro de risco, salvo em poucas áreas, como o petróleo, em que o capital estrangeiro nem sempre teve interesse em efetivamente explorar, sobretudo após as grandes descobertas no Oriente Médio.
A preferência latino-americana pelo capital de empréstimos na década de 70 se deveu aos elevados montantes necessários à pronta cobertura dos súbitos e vultosos déficits comerciais, insuscetíveis de serem atendidos mediante capitais de risco. As conseqüências adversas desse tipo de endividamento não decorreram – como pretende o Consenso de Washington – de características intrínsecas dessas operações mas do fato excepcional de que foram concedidos a taxas flutuantes de juros. A taxas fixas, os empréstimos – desde que não sujeitos a condicionalidades políticas ou vinculados à importação de mercadorias – serão sempre mais vantajosos do que os investimentos diretos, pelo menos do ponto de vista de balanço de pagamentos.
A proposta neoliberal, mais claramente explicitada nas negociações multilaterais da Rodada Uruguai do que no Consenso de Washington, implica a obrigação de aceitar o capital estrangeiro sempre que este desejar investir na prestação de serviços que exijam presença local ou a exploração de recursos naturais in situ; baseia-se, também, em restrições ao direito dos países importadores de capitais a conceder incentivos destinados a atraí-los para produzir manufaturas, especialmente se destinadas à exportação, sob o argumento de que tais incentivos têm ou podem ter efeitos distorsivos sobre o comércio internacional. Sustenta-se, por outro lado, o direito desses capitais a ter um tratamento no mínimo igual ao capital nacional, eufemismo através do qual buscam um tratamento superior sob a forma, por exemplo, de garantias jurídicas extraterritoriais de que não gozam os investidores nacionais.
Defende-se o investimento direto estrangeiro como importante instrumento não só de complementação da poupança nacional mas também de transferência de tecnologia. Não se esclarece, porém, que a insistente reivindicação dos países credores de proteção adicional a patentes de seus nacionais têm tal amplitude que podem criar situações de monopólio desestimuladoras, para dizer o mínimo, tanto de investimentos que transfiram poupança e tecnologia quanto de transferência per se de tecnologia, mediante licenciamento de terceiros. Não se esclarece, na realidade, que os países desenvolvidos preferem exportar bens e não tecnologia ou capitais que proporcionem a outros países a capacidade de produzi-los, ainda que apenas para consumo interno. Querem, contudo, que lhes reconheça o direito de investir sem restrições para oferecer serviços que não podem ser exportados.
No proselitismo em favor do investimento estrangeiro, não se mencionam, além disso, as restrições às quais o mesmo está sujeito nos países de origem. Nos Estados Unidos, por exemplo, além de áreas reservadas exclusivamente a nacionais – radiodifusão, televisão, transporte aeronáutico e marítimo etc. – considera-se necessário o controle do investimento direto estrangeiro na medida em que o mesmo é visto como uma forma de endividamento inferior à tomada de empréstimos. Entre outras razões, porque consideram que os investimentos diretos representam uma liability, por prazo indefinido, sobre o balanço de pagamentos, seja pela remessa de dividendos seja pelo impacto que costumam ter as importações que fazem os investidores estrangeiros do seu país de origem ou ainda pela preferência que possam dar à matriz ou a outras subsidiárias em fornecimentos a terceiros mercados. Reconhece acertadamente o governo norte-americano que investimentos estrangeiros diretos envolvem transferência para o exterior de decisões empresariais que podem ter reflexos importantes para a economia e para os interesses estratégicos dos Estados Unidos.
O comportamento das autoridades americanas não constitui exceção entre os países desenvolvidos. Por essa razão, a OECD – Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento, que congrega aqueles países – aprovou em 1979 uma “Declaração sobre Investimento Internacional e Empresas Multinacionais” com vistas a tornar mais transparentes as discriminações existentes contra o investimento estrangeiro e, sendo possível, reduzi-las.
Como lembrou o secretário de Estado Foster Dulles, na gestão do presidente Eisenhower: “Há duas maneiras de conquistar um país estrangeiro: uma é ganhar o controle de seu povo pela força das armas; outra é ganhar o controle de sua economia por meios financeiros”.
Por isso mesmo, os Estados Unidos controlam, aliás, não apenas o investimento estrangeiro que se faça em seu território; controlam, igualmente, o investimento norte-americano no exterior. Quando conveniente, estabelecem restrições de ordem econômica ou política, quando obrigam, por exemplo, suas multinacionais a aumentar suas remessas de dividendos para os Estados Unidos ou proíbem que as mesmas exportem para países sob sanções econômicas norte-americanas.
Em 1963, por exemplo, quando o governo daquele país, para defender o seu balanço de pagamento, introduziu um “imposto de equalização das taxas de juros”, emitindo, em seguida, “guidelines” sobre as operações das subsidiárias de empresas norte-americanas no exterior. Por meio dessas diretrizes, restringiria a captação de recursos nos Estados Unidos por aquelas empresas, e as compeliria a exportar mais, a trazer mais dividendos e a repatriar capitais.
Ao anunciar tais diretrizes, o então secretário do Tesouro, Henry Fowler, recordaria que as multinacionais norte-americanas operando no exterior “não apenas têm importância comercial mas também um papel político altamente significativo na política externa dos Estados Unidos”. E é com base, aliás, nesta linha de raciocínio, que os Estados Unidos, seja por ato do governo ou do Congresso, não hesitam em aplicar extraterritorialmente os controles que acham por bem exercer sobre as suas multinacionais.
Propriedade intelectual: proteção ou monopólio?
A distância entre o discurso e ação dos neoliberais torna-se flagrante quando se leva em conta, entre outras, a exigência pelos países plenamente industrializados de um nível de proteção à propriedade industrial tão elevado que significa a instituição em favor dos patenteados de um verdadeiro monopólio, sem dúvida inibidor de inversões no exterior e de transferência transfronteiras de tecnologia. Com tudo isso, configura-se tentativa de restringir o intercâmbio internacional – pelo menos no sentido Norte-Sul – ao comércio de bens. Parecem desejar principalmente a liberdade de acesso a nosso mercado interno a fim de dele participar inclusive de forma especulativa, sem necessariamente contribuir para a expansão econômica e para a geração de empregos. Preservando, o mais possível, o respectivo nível de emprego.
A questão do aumento da proteção à propriedade intelectual é particularmente fértil em contradições. No plano bilateral, vêm os Estados Unidos pressionando os países latino-americanos a adotar com vigência imediata, por via de reforma da legislação interna desses países, o que denominam de padrões de “classe internacional”. Relutam, entretanto, em aceitar a aplicação pelos referidos países dos padrões aprovados na Rodada Uruguai, em negociação multilateral efetuada por insistente proposta e com plena participação dos Estados Unidos, sob a alegação de esses padrões não seriam suficientes, além de oferecer aos países em desenvolvimento prazo de dez anos para colocá-los em vigor.
O episódio revela a vantagem, para os países menos poderosos, da negociação multilateral sobre a bilateral.
Regime cambial e política monetária
Na área da política de câmbio, as recomendações do Consenso de Washington se inclinavam na direção correta de taxas realista, capazes de estimular exportações e desestimular importações. Admitiam, porém, no curso de programas de estabilização, a vinculação provisória da moeda nacional a uma “âncora externa”, mesmo ao risco de uma sobrevalorização.
O que era exceção no Consenso de Washington tornar-se-ia, subseqüentemente, regra. A adoção de uma âncora externa parece tender a se transformar numa medida de caráter permanente, como uma garantia da durabilidade dos programas de estabilização monetária, independentemente do que isso possa significar em termos de perda de soberania monetária e também da competitividade.
Os efeitos negativos de uma taxa de câmbio sobrevalorizada sobre a competitividade das exportações aumentam significativamente no quadro restritivo das políticas fiscais neoliberais, que excluem a concessão de quaisquer incentivos à exportação. Este é um problema particularmente grave para os países latino-americanos dependentes da exportação de produtos agrícolas temperados, fortemente subsidiada que é e continuará a ser por largo tempo, por parte dos Estados Unidos e da União Européia, a despeito das conclusões da Rodada Uruguai.

4. O Consenso de Washington em resumo
O Consenso de Washington documenta o escancaramento das economias latino-americanas, mediante processo em que acabou se usando muito mais a persuasão do que a pressão econômica direta, embora esta constituísse todo o tempo o pano de fundo do competentíssimo trabalho de convencimento. Certamente, uma versão mais sofisticada e sutil das antigas políticas colonialistas de open-door nas quais se apelava, sem maiores constrangimentos, à força das canhoneiras para “abrir os portos de países amigos”. Por serem menos ostensivas, as pressões atuais são mais difíceis de combater.
O Consenso de Washington, além de contraditório com as práticas dos Estados Unidos e dos países desenvolvidos em geral, contém, como pudemos apreciar, várias incoerências nos seus próprios termos. Revela-se em especial inadequado quando se tem em conta que sua avaliação e prescrições se aplicam de maneira uniforme a todos os países da região, independentemente das diferenças de tamanho, de estágio de desenvolvimento ou dos problemas que estejam concretamente enfrentando. O diagnóstico e a terapêutica são virtualmente idênticos tanto para um imenso Brasil já substancialmente industrializado quanto para um pequeno Uruguai ou Bolívia ainda na fase pré-industrial. Não diferem muito por incrível que pareça, do que o FMI e o Banco Mundial estão recomendando à Europa oriental na sua transição para economias de mercado.
Os resultados do neoliberalismo na América Latina, apesar dos esforços dos meios de comunicação em só mostrar os aspectos considerados positivos, não podem deixar de ser vistos como modestos, limitados que estão à estabilização monetária e ao equilíbrio fiscal. Miséria crescente, altas taxas de desemprego, tensão social e graves problemas que deixam perplexa a burocracia internacional baseada em Washington e angustiados seus seguidores latino-americanos.
De fato, como explicar que o México e a Argentina, para não citar outros que se alinharam ao modelo neoliberal, estejam sofrendo tensões de balanço de pagamentos, tão fortes que os fazem correr o risco de um colapso cambial e de suas políticas de estabilidade monetária? Como assegurar, num mercado internacional de taxas de juros em alta, por conveniências da economia norte-americana, o financiamento de déficits cavalares (sem qualquer duplo sentido), equivalentes a vários pontos percentuais dos respectivos PIBs, mais de 6% no caso argentino e mais de 8% no caso mexicano?
Como explicar, realmente, que o “Terceiro Mundo” que está dando certo seja aquele que não seguiu as prescrições neoliberais do FMI e do Banco Mundial? Talvez os tecnocratas de Washington não ficassem tão desagradavelmente surpreendidos se fossem mais humildes na sua atitude, como sugere Keynes que devam se comportar os economistas, e levassem em conta a complexidade e as especificidades latino-americanas.
Fica-se, de tudo isso, com a impressão amarga de que a América Latina possa haver se convertido, com a anuência das suas elites, em um laboratório onde a burocracia internacional baseada em Washington – integrada por economistas descompromissados com a realidade política, econômica e social da região – busca pôr em prática, em nome de uma pretensa modernidade, teorias e doutrinas temerárias para as quais não há eco nos próprios países desenvolvidos onde alegadamente procura inspiração.

5. O Brasil e o Consenso de Washington
Os princípios neoliberais consolidados no Consenso de Washington batem de frente com alguns dos pressupostos do modelo de desenvolvimento brasileiro e da política econômica externa que lhe dava apoio. Em particular com a liberdade de ação que o Brasil desejava manter para prosseguir em seu processo de industrialização, mediante reserva de mercado para indústrias de capital nacional no campo da informática assim como pela exclusão do patenteamento na área químico-farmacêutica. O Brasil tampouco se dispunha a aceitar restrições ao pleno desenvolvimento tecnológico no setor nuclear e aeroespacial.
Golpeado pela crise da dívida externa e pela forma como esta foi tratada, o Brasil, graças a sua base industrial e ao esforço feito pela Petrobrás para aumentar substancialmente a produção nacional de petróleo, conseguiria acumular substanciais saldos de balanço comercial, criando condições para honrar o serviço daquela dívida. Em conseqüência, só lograria fazê-lo à custa do equilíbrio das contas públicas. Sucessivas cartas de intenção ao FMI foram assinadas sem que o país pudesse cumprir as metas acordadas em matéria fiscal e monetária. Para dominar a inflação resultante desse descontrole, gerado em sua maior parte pelo serviço da dívida externa e interna, sucessivos planos, heterodoxos e ortodoxos, foram tentados sem êxito, produzindo um sentimento generalizado de frustração que abalaria a confiança na ação do Estado.
A despeito da vulnerabilidade resultante do endividamento externo e dos percalços na luta contra a inflação, o Brasil não parou. Teria, por isso mesmo, condições para resistir às pressões do governo americano e dos organismos multilaterais de crédito. Resistiria, inclusive, às pretensões americanas no GATT, em matéria de serviços e de propriedade intelectual, posição que só começaria a ser erodida ao final do governo Sarney.
Com Collor é que se produziria a adesão do Brasil aos postulados neoliberais recém-consolidados no Consenso de Washington. Comprometido na campanha e no discurso de posse com uma plataforma essencialmente neoliberal e de alinhamento aos Estados Unidos, o ex-presidente se disporia a negociar bilateralmente com aquele país uma revisão, a fundo, da legislação brasileira tanto sobre informática quanto sobre propriedade industrial, enviando subseqüentemente ao Congresso projeto de lei que encampava as principais reivindicações americanas. Com base em recomendações do Banco Mundial, procederia a uma profunda liberalização do regime de importações, dando execução por atos administrativos a um programa de abertura unilateral do mercado brasileiro. Concluiria, ainda, negociações com a Argentina a respeito de um mecanismo de salvaguardas das respectivas instalações nucleares, mediante o qual nosso país, sem aderir ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear, aceitaria de fato o regime de salvaguardas abrangentes que nele se prevê.
No seu primeiro ano de gestão, Collor tentaria, no entanto, agir com autonomia na definição de sua política macroeconômica e no tocante à dívida externa, vista corretamente como o maior fator de constrangimento na formulação de política macroeconômica. Através de medidas de choque, de violenta intervenção no mercado, o ex-presidente pretendeu liquidar “o tigre da inflação” com um único e certeiro tiro. Com isso esperava também adquirir condições para renegociar a dívida externa a partir da efetiva capacidade de pagamento do país, em bases, portanto, mais favoráveis do que as previstas no Plano Brady.
O Plano Collor, pelo seu caráter heterodoxo e pela forma autônoma com que havia sido decidido, foi recebido com frieza pela comunidade financeira internacional. O colapso de sua política macroeconômica obrigaria, contudo, o ex-presidente a se ajustar, rapidamente, à debt strategy dos credores e do FMI.
Com a nomeação de Marcílio Marques Moreira, homem da confiança da comunidade financeira internacional, Collor finalmente renunciaria à pretensão de ser seu próprio ministro da Economia e passaria a subscrever, sem reservas, o Consenso de Washington como forma de se credenciar a uma renegociação da dívida externa agora nos termos do Plano Brady. Ou seja, passaria a admitir que a política macroeconômica teria de ser definida a partir das condições estabelecidas pelos credores. O mesmo tipo de renegociação que acabaria sendo concluída na gestão de Fernando Henrique Cardoso, no Ministério da Fazenda, conseguida, aliás, sem a aprovação formal do FMI à política fiscal brasileira, e, portanto, sem o seu financiamento e do Banco Mundial para a aquisição dos bônus a serem dados em garantia aos bancos credores.
O temperamento de Collor daria ao seu alinhamento ao Consenso de Washington algumas características que disfarçariam a origem externa do programa governamental. O ex-presidente, por exemplo, imprimiria à abertura unilateral do mercado brasileiro um ritmo muito mais veloz do que a do México, iniciada por Miguel de la Madrid mas só completada com Salinas de Gortari. De um só golpe, Collor eliminou todos os obstáculos não-tarifários e iniciou um processo de redução acelerada das barreiras tarifárias. Tudo isso em plena recessão e sem a preocupação de buscar contrapartidas para os produtos brasileiros nos mercados externos nem de dotar o país de um mecanismo de salvaguardas contra práticas desleais de comércio de nossos competidores.
Em paralelo, mas em sintonia com a abertura urbi et orbi, Collor se dispôs a levar adiante um plano extremamente ambicioso de integração sub-regional. Comprometeu-se a realizar em apenas três anos um projeto de integração econômica com seus parceiros no Cone Sul. Com a ajuda de Menem, a Área de Livre Comércio Brasil-Argentina – que Sarney e Alfonsín haviam se comprometido a realizar em dez anos, até o final do século – se converte, subitamente, num Mercado Comum a ser concluído até 31 de dezembro de 1994, incluindo também o Paraguai e o Uruguai.
O ex-presidente Collor, com os objetivos e os prazos estabelecidos para a constituição do Mercosul, desconsideraria as necessidades normais de ajustamento de importantes setores da economia nacional a novas condições de competição e, o que é ainda mais grave, se comprometeria com um grau profundo de integração – União Aduaneira ou Mercado Comum – pelo qual o país terá de abrir mão da liberdade de ação comercial e industrial. Assim entendido, o Mercosul representaria um mecanismo pelo qual Collor buscaria consolidar por acordo internacional o processo de liberalização comercial que havia iniciado por via unilateral. Dada a modéstia dos mercados de nossos parceiros e o profundo compromisso dos mesmos com uma abertura e desregulamentação ainda mais intensa de suas economias, não podem ser outras as conseqüências do Mercosul. Será por isso, provavelmente, que receberia um claro endosso dos Estados Unidos e dos organismos multilaterais baseados na capital norte-americana.
O colapso do governo Collor frustraria o alinhamento total do Brasil ao Consenso de Washington. É difícil, senão inconveniente, voltar atrás no muito que já se caminhou naquela direção. Será possível e conveniente, entretanto, reexaminar o que ainda não foi concluído, como, por exemplo, a legislação nova sobre patentes e a forma que deverá assumir o Mercosul, cuja conversão à União Aduaneira ainda não está inteiramente definida.
A verdade é que as linhas mestras do pensamento neoliberal da era Collor sobreviveriam ao seu impeachment e continuam a contar com forte apoio externo. Persiste com bastante ímpeto a ideologia do desarmamento comercial unilateral – a autodenominada inserção competitiva no mundo a partir de uma integração aberta no Mercosul, em que se empenhou o presidente afastado. O neoliberalismo continua a influir fortemente no cenário político, havendo conquistado o favor da grande imprensa e margem de aceitação considerável no âmbito do Congresso. Instalou-se solidamente no seio do atual governo e conforma o próprio quadro da sucessão presidencial. Dois candidatos se propõem, declaradamente a levar adiante as propostas neoliberais. Como nenhum dos candidatos, mesmo os que não se acham comprometidos com a plataforma neoliberal, dispõem de condições para governar sem alianças pós-eleitorais, não são desprezíveis as chances de que o programa do Consenso de Washington venha a ganhar ainda mais terreno no país.
O Brasil vive, por conseguinte, momento delicado. As classes dirigentes se acham minadas pela visão neoliberal, e já conformadas com um status menor para o país no cenário mundial. Em amplos setores da elite, intelectual e econômica de direita, de centro e até de esquerda -, já se admite, pelo menos implicitamente, que o país deve abrir mão de seu destino natural de nação política e economicamente independente. Dá-se de barato a conveniência de formas profundas de integração econômica com países vizinhos sem preocupação com o seu impacto sobre processo ainda não concluído de integração econômica nacional. Toleram-se nos meios de comunicação, propostas espúrias de desagregação territorial. Fala-se com desprezo da base industrial – “o carro nacional é uma carroça”, proclamava Collor não sem satisfação – como se fosse possível deixar cair um patrimônio que mal ou bem nos coloca, em termos absolutos, entre as primeiras dez economias do mundo.
Está prestes a entrar em vigor reforma monetária ortodoxa pela qual a nova moeda – o real – deverá ser vinculada ao dólar, por tempo indeterminado, com conseqüências imprevisíveis sobre a competitividade internacional do nosso parque industrial e sobre a nossa autonomia de decisão macroeconômica.
Criou-se tal clima que um pequeno grupo de economistas paulistas, entre os quais um ex-secretário de Planejamento do Estado, se anima a sustentar que São Paulo deva ter uma política própria de comércio exterior, com vistas a um relacionamento direto com os principais blocos regionais, em especial com o Nafta. Sugerem assim a criação pelo governo de São Paulo de uma “Secretaria Estadual de Comércio Exterior”. Uma proposta de graves implicações políticas e institucionais e, além disso, de fundamento econômico duvidoso posto que não beneficiaria necessariamente São Paulo, o Estado que mais ganhou, a partir de 1930, com a unificação econômica do país e que mais tem a ganhar com a preservação da integridade do mercado nacional.
A retomada do desenvolvimento e a inserção do Brasil no mundo
O argumento constantemente invocado, dentro e fora do governo brasileiro, até em partidos de oposição, é o de que não existe alternativa à proposta neoliberal, fiel expressão do pensamento econômico predominante no mundo. A única capaz de modernizar o país, de permitir a retomada do desenvolvimento, a inserção na economia internacional e o acesso ao Primeiro Mundo. Ou seja, a proposta que evitaria que perdêssemos “o bonde da História”, que nos levaria a uma “inserção aberta e competitiva” numa presumida “nova ordem internacional”.
Cabe, porém, leitura mais atenta e atualizada do que se diz e do que se faz no mundo para termos uma idéia mais objetiva a respeito dos verdadeiros rumos que a História estaria realmente tomando, a fim de não nos enganarmos de caminho, tomando um atalho ou retrocedendo. Teremos mais claro, enfim, se estamos, como pretendem equivocadamente os neoliberais, na “contra-mão da História”, ou se, como parece mais provável, estamos na “mão da História” ainda que com velocidade insuficiente. Ou ainda, quem sabe não nos encontramos num mundo mais em desordem do que em ordem, no qual estaríamos em dificuldade para avançar num “tráfego muito confuso” em que viaturas de grande porte não estariam observando as “regras do tráfego” ou querendo mudá-las arbitrariamente?
Não basta, entretanto, termos claro que os países desenvolvidos não praticam o modelo neoliberal que nos receitam tão dogmaticamente, ou que pelo menos não o fazem com o mesmo rigor que nos recomendam. Vale a pena ter em conta que o próprio pensamento econômico nos Estados Unidos, a fonte de inspiração do Consenso de Washington, dá nítidos sinais de mudança, abandonando a ortodoxia neoliberal dos tempos de Reagan e Bush. Uma tendência que começa a refletir, com algum atraso é verdade mas talvez com mais realismo, os problemas e os interesses norte-americanos no mundo pós-guerra fria.
Vitoriosos na competição ideológica com a ex-União Soviética, não podem mais os Estados Unidos descurar da competição econômica e tecnológica com as grandes potências comerciais, Japão e Alemanha, onde se pratica uma economia de mercado bastante diferente do modelo anglo-saxão e onde não só se admitem graus substanciais de interferência estatal na regulação e até na gestão dos negócios mas também se tem uma visão mais comunitária do que individualista da organização econômica e social.
Isso já está presente em círculos acadêmicos respeitáveis, em livros como The Age of Diminished Expectations, em que Paul Krugman, do MIT, sustenta que “o protecionismo não causa depressão e que a débâcle das instituições de poupança – as saving and loan associations – foi provocado pela equivocada retórica do livre-mercado”, ou como Head to Head, em que Lester Thurow, outro renomado economista do MIT, defende “uma vigorosa intervenção governamental para reestruturação da economia norte-americana”, ou ainda como Trade Conflict in High-Technology Industries, no qual Laura D’Andrea Tyson, referindo-se à década de 80, declara, sem meias palavras, que “o livre comércio não é necessária e automaticamente a melhor política”.
Tendência que já se reflete em documentos governamentais como o recente “Economic Report of the President”, produzido pelo Conselho de Assessores Econômicos, e, o que é ainda mais significativo, na elaboração do Plano de Saúde que o presidente Clinton submeteu ao Congresso.
Na realidade, a retomada de desenvolvimento num país das dimensões e da complexidade do Brasil – onde coexistem um país agrário, um país industrial e um país já bastante informatizado – é tarefa bem mais sofisticada do que sugere o simplismo da receita neoliberal, particularmente no quadro de profundas transformações tecnológicas e de rearranjo das relações internacionais de poder por que passa o mundo.
Uma política de desenvolvimento supõe a existência, senão explícita pelo menos implícita, de um projeto econômico nacional, por mais impreciso que sejam os seus contornos; e a capacidade de definir, minimamente, o que o país se considera apto a produzir a médio e a longo prazos, com capitais próprios ou estrangeiros, com tecnologia nacional ou importada.
Exigirá, portanto, apreciação das vantagens comparativas nacionais, tanto aquelas de caráter estático, como os recursos naturais, quanto, sobretudo, as de natureza dinâmica: o capital, a capacidade empresarial, a aptidão da força de trabalho e o nível tecnológico, entre outras. Demandará, igualmente, uma cuidadosa avaliação dos obstáculos e facilidades que poderemos encontrar nos mercados mundiais de bens, de capitais e de tecnologia. A identificação dos países com os quais seria viável estabelecer parcerias de mútua conveniência em todos os continentes, sem limitações regionais.
Por eficiente que seja uma empresa, sua capacidade de competição, no país como no exterior, dependerá, em última análise, do entorno nacional em que opera, da capacidade sistêmica de competição do país, em termos macroeconômicos, de política cambial, de infra-estrutura de comunicações, de transporte, de educação, de sistema financeiro, nível de qualificação da mão-de-obra. Não basta que a empresa seja competitiva: é preciso que o país também o seja.
É no contexto dessa nova postura que devemos considerar com muito cuidado a forma pela qual vamos incrementar o grau de nossa inserção no mundo, a relevância de esquemas de integração sub-regional ou regional na política brasileira de comércio exterior e o seu papel no projeto de desenvolvimento econômico do país. A conveniência de não nos submetermos a regimes tecnológicos restritivos sem, pelo menos, garantia de contrapartidas efetivas de cooperação.
A inserção na economia internacional é necessária. Para que se faça de maneira adequada a nossos interesses é indispensável, porém, que seja concebida e negociada por quem de fato os represente e com os mesmos se identifique. Não tem cabimento designar pessoas com base num alegado prestígio de que gozem no exterior junto à “comunidade internacional”, na medida que tal prestígio muitas vezes se correlaciona com uma visão insatisfatória do interesse nacional brasileiro. Ou seja, nossa autonomia já se deve manifestar na “escalação” do nosso “time”.
Essa inserção deve incluir capitais estrangeiros de risco sempre que venham criar empregos e tragam efetivamente tecnologia, que nos permita não só produzir para o mercado interno mas também para exportação. Mas também deve se fazer pelo apoio oficial à compra direta de tecnologia para o desenvolvimento da empresa nacional.
As graves condicionalidades, genéricas e específicas, que cercam o concessão de empréstimos pelas instituições multilaterais de crédito deveriam nos levar a considerar seriamente se o Brasil não deveria reduzir seu apelo a esse tipo de financiamentos. Se não devemos passar a praticar uma política fiscal equilibrada porém em nível suficiente alto – com aumento de impostos e/ou com melhoria da arrecadação – para restaurar a capacidade do Estado de contratar obras públicas com plena autonomia, sempre que possível mediante projetos tecnicamente avaliados pelo BNDES.
Como mínimo, dever-se-ia cogitar da centralização na União da contratação de operações externas pelos Estados e municípios, passando o governo federal a exercer a função de repassador desses recursos. Em resumo, deveríamos adotar cautelas para não permitir que a estrutura federativa do país seja usada para enfraquecer a coesão nacional ou, como já sugerem ousadamente alguns, para “desagregar o Estado”.
Perdemos, ao longo dos últimos anos, algumas batalhas importantes por termos aceito, sem maiores cuidados, uma excessiva dependência externa, através, por exemplo, do petróleo importado e de empréstimos externos a taxas flutuantes de juros. Estamos muito longe, porém, de haver perdido a guerra do pleno desenvolvimento. O fundamental é não aceitarmos passivamente a receita do pessimismo e da resignação com um status de pequeno país, verdadeiramente incompatível com a grandeza de nosso povo. Que recuperemos, em uma palavra, o sentimento da dignidade nacional.
A realização do nosso destino como nação não passa apenas pela estabilização monetária e muito menos por processo que aliene nossa soberania. Passa sim, indefectivelmente, pelo resgate da imensa dívida nacional de justiça social, a grande “arrumação de casa” de que precisamos em verdade para nos modernizar. Passa, portanto pela eliminação da pobreza e da miséria. Por empregos e salários condignos que façam de cada trabalhador brasileiro um sócio dessa grandeza nacional, como consumidor e cidadão. Pela criação de um forte mercado interno que será a verdadeira plataforma da nossa inserção internacional.
A competitividade que desejamos é aquela, autêntica, que deriva do progresso técnico e da capacitação de nossos trabalhadores e oportuna, pelo aumento da produtividade, sua melhor e mais justa remuneração. Uma competitividade que não se baseie em salários aviltados e condições de trabalho precárias. Pelo contrário, que se apoie em vantagens comparativas dinamicamente estabelecidas, incompatíveis, assim, por definição, com limitações ao desenvolvimento tecnológico do país em todas as áreas, particularmente nas de ponta.
Não se trata obviamente de voltar atrás no processo de liberalização de importações. Mas não podemos nem devemos mais retardar, três anos depois de iniciada a liberalização comercial, a introdução de um sistema de salvaguardas comerciais. É imperativo nos armarmos de mecanismos eficazes, do tipo que adotam os países desenvolvidos, para defender nosso parque industrial da concorrência desleal dos países desenvolvidos que enfrentam altas taxas de desemprego ou dos países em desenvolvimento que recorrem a práticas condenáveis de emprego.
Não há por que aprofundar e congelar a liberalização comercial pela via do Mercosul, através de uma tarifa externa comum capaz de comprometer a nossa capacidade de fazer política industrial e tecnológica, na medida em que reduzirá para 20% a alíquota alfandegária máxima a ser praticada no Brasil. Esse é um nível muito inferior aos tetos de 35% e de 55% que aceitamos consolidar no GATT, no contexto da Rodada Uruguai, para produtos industriais e agrícolas, respectivamente.
Além disso, a instituição de uma união aduaneira limitará naturalmente a nossa liberdade de ação diplomática para negociar diretamente com os demais países sul-americanos acordos preferenciais ou de livre comércio. Se aceitarmos negociar em bloco, na conformação 4+1, transformaremos a iniciativa brasileira da ALCSA – Área de Livre Comércio Sul-Americana num projeto do Mercosul, com a conseqüente perda de controle do Brasil sobre a sua implementação. Ou seja, apesar de ser o único do grupo com interesses comerciais concretos a defender no resto do continente sul-americano e representar 80% do PIB total do Mercosul, o Brasil terá, na referida hipótese, de se sujeitar a parceiros com compreensível pouco interesse em compartilhar com outros sul-americanos o enorme mercado brasileiro.
Não há tampouco motivo para não levar em conta na apreciação, ainda em curso no Congresso, da mensagem de Collor sobre patentes e marcas industriais, os resultados acordados recentemente na Rodada Uruguai, com participação dos próprios Estados Unidos. Ter presente, enfim, que os padrões multilaterais de proteção à propriedade intelectual – bem menos severos que reivindicações bilaterais norte-americanas – só serão exigíveis dos países em desenvolvimento num prazo de dez anos.
O desenvolvimento brasileiro só será de fato viável e merecedor do nome se for socialmente sustentável. Se for também ecologicamente sustentável pela eliminação da miséria que polui tanto quanto o equivocado desenvolvimento industrial ocorrido no Primeiro Mundo.
A implantação definitiva da democracia é essencial para que o país possa se inserir com segurança na economia mundial; para que possa, inclusive, cogitar de processos mais profundos de integração com países vizinhos. A soberania brasileira só poderá ser integralmente exercida em face de outras nações se tiver a legitimidade decorrente do pleno exercício pelo povo brasileiro do direito à autodeterminação.
Não será fácil, nos tempos que correm, realizar esse objetivo de crescer soberanamente. O mundo passa por notáveis transformações tecnológicas, de profundo impacto na organização não só política mas também econômica da sociedade, na própria relação entre povos e dentro da sociedade nacional. Há sinais evidentes de esgotamento do modelo de desenvolvimento adotado pelos países que lideram o mundo, açoitados pelo corrosão de valores morais, pela desagregação social e pela degradação material. Está em questão hoje o relacionamento fundamental do Homem com a Natureza, a capacidade de a humanidade continuara progredir economicamente sem dano irreparável à base física do nosso Planeta.
Como o grande presidente Lincoln, em sua primeira mensagem ao Congresso norte-americano, devemos ter presente que “situações novas exigem que pensemos e atuemos de forma também nova”.
Por um consenso nacional
Não há mais um modelo de desenvolvimento que se possa adotar como referência exclusiva, nem um único modelo de economia de mercado. Teremos que fazer um pouco de tudo; por exemplo, o que fizeram com tanto êxito a Alemanha e o Japão na reconstrução de suas economias nesta segunda metade do século. Ou seja, procurar dominar as novas tecnologias sem abrir mão de suas estruturas tradicionais de organização econômica, numa combinação eficaz de esforços entre governo, empresários e trabalhadores. Tudo isso levando muito em conta agora a nova problemática ambiental, tanto no que se refere à poluição que compromete a qualidade de vida quanto no que diz respeito ao uso mais racional de recursos naturais por definição limitados.
Muito poucos, dos cento e cinqüenta e muitos países que hoje integram as Nações Unidas, têm de fato a possibilidade de se desenvolver e sobretudo de fazê-lo com autonomia. São países sem expressão territorial, populacional ou econômica, ou sem coesão política, social, lingüística ou étnica que lhes permita afirmar-se como nações. Raros, portanto, são os que podem, como o Brasil, de fato alimentar a expectativa de uma inserção soberana no mundo.
Temos tudo para ser uma grande nação. Para tanto, precisamos de um projeto de desenvolvimento com justiça social, construído com participação de toda a sociedade, o que será viável se enraizarmos definitivamente a democracia em nosso país, mediante amplas reformas do sistema político, eleitoral e partidário, para tornar nossas instituições realmente representativas e reduzir, inclusive, oportunidades de corrupção.
Um projeto que não poderá deixar de incluir uma intensificação de nosso relacionamento com o mundo. Mas que terá de ser feito sobre a base da interdependência e não da dependência. Projeto de uma nação, que deseja cooperar com outras nações e delas receber cooperação, sempre porém em base de igualdade e do respeito mútuo, sem qualquer renúncia a sua integridade territorial nem a sua soberania. Projeto que passa por uma política externa soberana que não seja, como muitas vezes no passado, um pacto entre as lideranças internas e externas, à custa do interesse mais global do país.
Uma política externa, sem parti-pris, em que não cabe nem alinhamento automático com ninguém nem tampouco discordância por princípio de quem quer que seja. Em que, respeitando o direito dos demais a defender os próprios interesses, não abriremos mão da defesa dos nossos. Uma diplomacia serena e objetiva, sem preconceitos, que buscará sempre soluções cooperativas nas quais todos tenham a ganhar e nenhum a perder mas que, nas relações tanto com as pequenas quanto com as grandes nações, se empenhará por uma repartição eqüitativa dos benefícios, sem benevolências gratuitas no primeiro caso ou concessões desnecessárias no segundo. Como dizia com propriedade o General De Gaulle, em frase muito citada mas nem sempre levada em conta, “os países, a rigor, não têm amigos, têm interesses”. Só assim poderemos esperar que todos os brasileiros – não apenas alguns – sejam de fato favorecidos por uma maior inserção do país no mundo.
Nunca conseguiremos nos desenvolver em todos os sentidos, realizar plenamente as aspirações nacionais, se nos resignarmos a trabalhar sobre a base de “consensos” construídos de fora para dentro, que, por isso mesmo, não podem deixar de refletir mais os interesses externos do que os nossos.
Precisamos, enfim, de um consenso “made in Brazil” e, para produzi-lo, de uma grande aliança. Não apenas, como no passado, entre o governo e os empresários, e sim uma nova aliança – que também inclua partidos políticos, intelectuais, trabalhadores. Um entendimento capaz de permitir a emergência, no Brasil, senão de um projeto nacional com metas precisas em cada setor, pelo menos de um “consenso nacional” com uma visão comum e abrangente dos grandes problemas brasileiros, institucionais, econômicos e sociais.

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