10/05/08
Afif se descuidou e disse que a corte real portuguesa deixou falta de vontade de trabalhar
O secretário do Trabalho do governo José Serra, Guilherme Afif Domingos, presenteou a população do ABCD, composta em boa parte por migrantes de vários pontos do País com uma declaração brilhante, caso não parecesse extremamente preconceituosa. Afif, ao inaugurar o Banco do Povo, em Mauá, nesta quinta-feira (08/05) se descuidou e disse que a corte real portuguesa ao chegar ao Brasil em 1808, nos locais por onde passou, “deixou impregnada, até hoje, a falta de vontade de trabalhar”. Pelo que dizem os livros de História, desde os bancos escolares, o príncipe-regente, que depois seria Dom João 6º, passou pela Bahia e pelo Rio de Janeiro.
Atenção porque o secretário de Serra não ficou satisfeito com essa escorregada e foi adiante. Disse que São Paulo só chegou aonde chegou por manter “essa distância da corte. Até hoje, onde ainda há tentáculos dessa cultura, existe essa falta de cultura do trabalho. Por isso há no Brasil essa situação em que alguns trabalham e pagam pelos benefícios dos que não trabalham”, declarou o secretário de Serra.
Quem Afif pretendeu atacar com esse tipo de declaração? Será que aos brasileiros que não são de São Paulo? Os preguiçosos seriam os baianos, os cariocas ou os nordestinos? Certamente o secretário de Serra dividiu a população brasileira em dois grupos: os vagabundos e os trabalhadores. Ele deu algumas dicas como a de que os que trabalham ficaram longe da corte portuguesa.
A noção de distância dos nobres lusitanos é clara para Afif: São Paulo ficou a salvo do contágio do banzo joanino, da preguiça contagiante dos fidalgos de além mar. Se teve outro Estado, ou província, livre da contaminação, o secretário não deixou claro. Mas para a sorte de quem vive nas terras de Piratininga, o caráter trabalhador por aqui ficou. Se foi para dizer essas coisas que Afif veio para o ABCD, ele perdeu a viagem. Na Região, tem gente de todos os lugares. E de todos os lugares vieram trabalhadores para construir as riquezas que nem sempre ficavam nas mãos de quem trabalhava.
Cabe fazer uma análise sobre tais declarações. O secretário de Serra parece apelar para pavores ancestrais e atávicos, como os que encaram qualquer estrangeiro como inimigo. Talvez tal sentimento tivesse algum sentido na época em que a espécie humana perambulasse pelas savanas em busca de alimento e encarasse tribos vizinhas como monstros a serem destruídos.
A falta de informação é o meio de cultura desse tipo de preconceito. Muita gente se vale da falta de informação de setores da população para alimentar tais sentimentos em troca de dividendos políticos. Era o que fazia Adolf Hitler ao escolher determinados grupos como demônios e culpados pela crise alemã nos anos 1930. Fossem ciganos, judeus, comunistas ou outros agrupamentos, tudo valia para que a política do Partido Nazista prosperasse. Afinal, o inimigo, o outro, era o culpado.
No Brasil, apesar das guerras do século 19, o ódio contra o estrangeiro nunca prosperou. Mas se procurou encontrar culpados para os problemas nacionais. Havia sim, um sentimento de superioridade por parte da elite branca, primeiro colonial, depois imperial e em seguida da República do fazendeiros, que destinava aos nativos, índios, negros e mesmo imigrantes, trabalhadores pobres, a condição de inferior, indolente, vagabundo, de limitado intelectualmente. Era mais uma ferramenta de dominação e de manutenção da ordem social da época. Mesmo em pleno século 20, quando um nordestino, operário e sem diploma, governa o Brasil, esse lixo cultural sobrevive e muitas vezes vem a público. São declarações como a do professor da UFBA (Universidade Federal da Bahia), que disse ser o baiano incapaz de tocar um instrumento com duas cordas ou mais, apenas um berimbau. O secretário de Serra não foge desse receituário. Talvez até mesmo atiçado pela declaração do professor da Bahia, Afif tenha sentido ter espaço para fazer esse tipo de declaração.
Talvez o erro do secretário tenha sido cometer o descuido verbal no ABCD. Nossa Região foi construída, assim como a própria Capital de São Paulo, graças ao suor do migrante, boa parte de nordestinos, mas também cariocas, paranaenses, mineiros, gaúchos, catarinenses, matogrossenses, sul-matogrossenses, enfim, muita gente boa do Brasil, que é um País e não vários feudos como pensa muitos equivocados.
Walter Venturini é jornalista e editor do ABCD Maior
O secretário do Trabalho do governo José Serra, Guilherme Afif Domingos, presenteou a população do ABCD, composta em boa parte por migrantes de vários pontos do País com uma declaração brilhante, caso não parecesse extremamente preconceituosa. Afif, ao inaugurar o Banco do Povo, em Mauá, nesta quinta-feira (08/05) se descuidou e disse que a corte real portuguesa ao chegar ao Brasil em 1808, nos locais por onde passou, “deixou impregnada, até hoje, a falta de vontade de trabalhar”. Pelo que dizem os livros de História, desde os bancos escolares, o príncipe-regente, que depois seria Dom João 6º, passou pela Bahia e pelo Rio de Janeiro.
Atenção porque o secretário de Serra não ficou satisfeito com essa escorregada e foi adiante. Disse que São Paulo só chegou aonde chegou por manter “essa distância da corte. Até hoje, onde ainda há tentáculos dessa cultura, existe essa falta de cultura do trabalho. Por isso há no Brasil essa situação em que alguns trabalham e pagam pelos benefícios dos que não trabalham”, declarou o secretário de Serra.
Quem Afif pretendeu atacar com esse tipo de declaração? Será que aos brasileiros que não são de São Paulo? Os preguiçosos seriam os baianos, os cariocas ou os nordestinos? Certamente o secretário de Serra dividiu a população brasileira em dois grupos: os vagabundos e os trabalhadores. Ele deu algumas dicas como a de que os que trabalham ficaram longe da corte portuguesa.
A noção de distância dos nobres lusitanos é clara para Afif: São Paulo ficou a salvo do contágio do banzo joanino, da preguiça contagiante dos fidalgos de além mar. Se teve outro Estado, ou província, livre da contaminação, o secretário não deixou claro. Mas para a sorte de quem vive nas terras de Piratininga, o caráter trabalhador por aqui ficou. Se foi para dizer essas coisas que Afif veio para o ABCD, ele perdeu a viagem. Na Região, tem gente de todos os lugares. E de todos os lugares vieram trabalhadores para construir as riquezas que nem sempre ficavam nas mãos de quem trabalhava.
Cabe fazer uma análise sobre tais declarações. O secretário de Serra parece apelar para pavores ancestrais e atávicos, como os que encaram qualquer estrangeiro como inimigo. Talvez tal sentimento tivesse algum sentido na época em que a espécie humana perambulasse pelas savanas em busca de alimento e encarasse tribos vizinhas como monstros a serem destruídos.
A falta de informação é o meio de cultura desse tipo de preconceito. Muita gente se vale da falta de informação de setores da população para alimentar tais sentimentos em troca de dividendos políticos. Era o que fazia Adolf Hitler ao escolher determinados grupos como demônios e culpados pela crise alemã nos anos 1930. Fossem ciganos, judeus, comunistas ou outros agrupamentos, tudo valia para que a política do Partido Nazista prosperasse. Afinal, o inimigo, o outro, era o culpado.
No Brasil, apesar das guerras do século 19, o ódio contra o estrangeiro nunca prosperou. Mas se procurou encontrar culpados para os problemas nacionais. Havia sim, um sentimento de superioridade por parte da elite branca, primeiro colonial, depois imperial e em seguida da República do fazendeiros, que destinava aos nativos, índios, negros e mesmo imigrantes, trabalhadores pobres, a condição de inferior, indolente, vagabundo, de limitado intelectualmente. Era mais uma ferramenta de dominação e de manutenção da ordem social da época. Mesmo em pleno século 20, quando um nordestino, operário e sem diploma, governa o Brasil, esse lixo cultural sobrevive e muitas vezes vem a público. São declarações como a do professor da UFBA (Universidade Federal da Bahia), que disse ser o baiano incapaz de tocar um instrumento com duas cordas ou mais, apenas um berimbau. O secretário de Serra não foge desse receituário. Talvez até mesmo atiçado pela declaração do professor da Bahia, Afif tenha sentido ter espaço para fazer esse tipo de declaração.
Talvez o erro do secretário tenha sido cometer o descuido verbal no ABCD. Nossa Região foi construída, assim como a própria Capital de São Paulo, graças ao suor do migrante, boa parte de nordestinos, mas também cariocas, paranaenses, mineiros, gaúchos, catarinenses, matogrossenses, sul-matogrossenses, enfim, muita gente boa do Brasil, que é um País e não vários feudos como pensa muitos equivocados.
Walter Venturini é jornalista e editor do ABCD Maior


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