Ela é uma graça. Uma legítima e irretocável imagem de uma “cidadã de bem” da classe-média paulistana. A garota-propaganda da causa.
Eu estava filando um jornalzinho numa banca, quando o dono, vendo que não tinha outra alternativa, pediu-me que tomasse conta para ele, pois estava apurado. Eu disse que sim. Na saída, ele disse que não era para eu ficar pegando chicletes. Pão-duro.
Mal havia postado, diante de meus olhos, a última edição da indispensável revista vEJA, eis que aparece D. Ingrid ( lembram dela? ), e começa a procurar umas palavras cruzadas.
Veio ao balcão com dois “COQUETEL ULTRA FACÍLIMO ( indicado para alunos da rede estadual de São Paulo, pois já vem preenchido ). E abre a latrina:
“Nossa, viu, todas as outras bancas já estão fechadas por aí. Aí eu disse para a minha mãe que eu ia vir aqui, pois sabia que vocês não fecham nunca. Estão sempre trabalhando.”
Eu respondi:
“É, né? Não critico os outros, porque sei que este ramo é muito sacrificado. Funciona quase todos os dias, é natural que alguns entreguem-se a uns dias de folga, num feriado desses.”
E ela:
“Ah, é. Viu, um bom ano, tudodibom…!…se esse governo deixar, né?”
E ela continuou, sem que eu tenha sinalizado positivemente à sua “crítica” a “esse governo”:
“Ai. Eu não sei que tanto que esse povo diz que tá tudo bem. Tá bom nada. Eles é que não sabem. Quando tem alguém que tenta ‘consertar’ [ imaginei que ela se referia ao Farol de Alexandria, o que veio se mostrar correto ] isso ( fala inaudível ) …! “
Tentei me desvencilhar do proselitismo igaro da bestona, mas estava em posição desfavorável: cliente sempre tem razão, e ele sempre recorre a esse axioma quando não tem razão nenhuma.
Ela continuou:
“Vê só isso tudo. Aquele ladrão analfabeto vive viajando por aí, tá lá em cima, faz o que quer, e ganhando o quanto quer ( sic! ) [ Parêntese: eu sempre desejei que o FHC ganhasse justamente aquilo que ele não queria, mas o Brasil carece de bons atiradores ] e nós aqui, pagando tudo!! E aquele negócio do Lulinha…”
Aí eu franzi a sombrancelha, tipo interrogação, fingindo não saber do que se tratava, para que a mulona me julgasse desinformado, e parasse com a tortura. E caí na besteira de perguntar:
“Que negócio?”
Ela, triunfante:
“Aquele, de jogos, sei lá. Da Telemar.”
Franzi a sombrancelha novamente, fingindo estar diante de uma nova descoberta da Física ( o que, dada a complexidade do assunto, me daria o direito de não saber nada a respeito ) e achando que, com isso, ela me deixaria em paz. Ela continuou:
“A Telemar. Sei lá. Do Maranhão, acho. Empresa pública que ‘dava’ dinheiro pro Lulinha. Nosso dinheiro.”
PERAÍ!!! Maranhão? Telemar? A Sede não é no Rio de Janeiro? Não tem como sócio o irmão do ex-governador tucano do Ceará Tasso Jereissati? Não é ( ou foi ) dirigida pelo fundo Opportunity do Daniel Dantas, fundo esse que também dirigiu a rival da própria Telemar, a Brasil Telecom, graças a uma complexa engenharia societária? E a propina do Ricardo Sérgio? Deus do Céu!! Essa Dona Ingrid é burra mesmo! E preconceituosa também:
“Também, né? Eu sou a favor de que as pessoas ganhem a partir do trabalho, mas essa gente aí, que vota no Lula, só quer saber de ganhar Bolsa Família, Bolsa sei-lá-o-quê…”
O bom e velho arsenal de lugares-comuns, temperado com alguns anos de leitura da revista vEJA. E eu lá, escutando tudo.
Mas aí, mudei de tática. Simpático, comecei a concordar, e completei o raciocínio de D. Ingrid sobre a composição do povo brasileiro:
“Pois é ( expressão que não quer dizer nada, como nos melhores manuais de ‘gestão’ ). E, pior, com esse monte de analfabeto, a tendência é piorar…
Eu estava conversando com uma professora num dia desses, e ela reclamou que ‘o governo’ ( entenda-se aí: “o estadual”, para não haver dúvidas ) fica dizendo que melhora as condições, os salários dos professores, mas a verdade é que ele apenas remaneja os ‘bônus’ salariais, que não entram na contagem das aposentadorias. E ‘o governo’ vem dizer que há ‘indústria das faltas’, mas acontece que os professores ‘tão’ tudo doentes, tudo enlouquecendo, onde já se viu? Vê aí o Hospital do Servidor Público, o cara chega e tá tudo caindo aos pedaços. E não ficam dando atestado médico do jeito que ‘tão’ dizendo. E os professores pagam à parte.”
D. Ingrid meio que concordou:
Errado. O IPESP é o fundo de previdência, que garfa 11% dos rendimentos dos servidores estaduais. O Hospital do Servidor Público Estadual é um desconto à parte ( 2% ). Para ser atendido no meio de escombros. Bom, não importa.
Continuei, mas tentando cortar logo aquela conversa cacete:
“E a senhora vê…com esse monte de analfabeto por aí, é ruim prá gente aqui [ na banca ].”
Aí, ELA franziu a sombrancelha, indagadora:
“HÃ?”
Eu respondi:
“É que se eles não sabem ler, a gente não vende jornal, revista [ deitei a mão na pilha de vEJA ] …”.
Ela riu, concordando. E emendou:
“É…com esse analfabeto aí no Governo…minha filha, eu falo prá ela que tem que estudar, mas ela ‘diz que o presidente não estudou’.”
Besteira, D. Ingrid. Se é que você tem filha, ela não falou nada disso. Você ouviu isso por aí, já que não teria dado tudo a ela, durante todo esse tempo, e exigido a contrapartida para que, depois de anos, sua filha tirasse da própria cabeça esta baboseira. A conversa de que estudantes não querem dar duro por causa do Lula é mais uma dessas coisas que se repetem, sem que se saiba a origem. Por quê, justamente, a filha de alguém que demonstra odiar o Lula, diria isso para a mãe? Só para que a mãe tivesse mais alguma coisa para botar na conta do Lula? D. Ingrid, chega de frases-feitas, preconceitos e lugares comuns.
Só que eu “concordei”:
“Fazer o quê, né? Tá na Constituição…”
D. Ingrid balançou a cabeça, em sinal de concordância, falou alguma coisa, sorriu, desejou-me Feliz Ano Novo, pegou o troco, agradeceu, falou alguma outra coisa, e foi embora, crente de que tinha conhecido um igual a ela.
Analfabeto, mesmo, não pode ser candidato. ISSO é o que está na Constituição, esperta D. Ingrid.
O Lula não é analfabeto. E ele se tornou presidente ANTES de José Serra, sua vaca.
Feliz Ano Novo o cara**lho!!