Obviamente, não consegui ignorar, tanto a morte da menina como o que se seguiu daí, que foi esta vergonhosa cobertura de um crime estúpido. Só que, vitoriosamente, não sucumbi à vontade alheia que nos obriga a “ter uma opinião”. De ao menos comentar com quem fosse. Perguntado, apenas respondia, educada e polidamente: “Não tô nem aí!!”
Serei didático, para mim mesmo: as pessoas que formariam a chamada “opinião pública”, seriam nada mais que nós mesmos, pessoas comuns, certo? Eu, você, ele, seu vizinho, confere? OK.
Nós – a “opinião pública”, não esqueçam – tentamos, no tempo livre em que não estamos matando o nosso leão diário, informarmo-nos sobre “o que está acontecendo”. Isso pode ser, desde a conversa com o vizinho para saber a quantas anda a obra do Metrô, ou a leitura do jornal do bairro para descobrir que a deputada eleita por outro município resolveu aportar em nosso pedaço para “liderar” uma reforma viária que visaria “melhorar” a circulação de automóveis. Confere? OK.
O Metrô, a reforma viária, o salário mínimo, o Apagão Educacional Continuado tucano, a perseguição serrista-jornalística aos professores paulistas, os juros do Henrique Silvério, OPS!, Meirelles, etc., são assuntos que, de uma forma ou de outra, deveriam conseguir a nossa atenção ( diária ou permanente, inclusive! ) pois estão, de uma forma ou de outra, mesmo que aparentemente distantes, ligados a nosso cotidiano, a nossa vida. Ou seja, mesmo que não percebamos, dizem respeito a nós. Confere? OK.
É muita coisa, né? Em conclusão: por mais que devamos conhecer as coisas, é impossível saber de tudo. Óbvio.
Com o restrito saber de que dispomos somos, então, chamados a decidir sobre as coisas da vida, desde as mais prosaicas, até outras mais complexas.
Das complexas, eu destaco o momento em que somos convocados a selecionar, dentre os milhões de perfis oferecidos, aqueles que irão administrar a nossa sociedade.
Para assumirem os cargos, os postulantes batalharão por nosso aval, chamado de “voto”. Diz-se que os eleitos nos representarão. A “opinião pública”, enfim.
Para que um sujeito assuma um posto, e faça com que a administração siga em frente, funcionando, mantendo a si, mantendo a nós e, por nós sendo mantida, ele tentará nos convencer da vantagem que teríamos – a “opinião pública” – se fosse, ele, um dos selecionados.
Os milhões que participam das disputas tentarão nos convencer. Sem entrar no mérito de que se esse seria, ou não, o melhor modo de se configurar um agregamento de seres humanos – uma sociedade – é assim que fazemos. Depositamos nossos votinhos preciosos, viramos as costas, e vamos pro bar. Deixemos o serviço sujo para quem conseguiu ser eleito.
Pois poucos de nós sabemos, de verdade, como funciona a administração da “coisa pública”. Sabemos que há um prefeito, um vereador, um deputado: “us pulíticus” ( não é latim, é o nosso jeito de falar ). E seguimos com a nossa vidinha.
Só que “us pulíticus” dão um jeito de nos encontrar na quebrada. Quando você fica mofando 50 minutos no ponto de ônibus, sem que ele apareça, isso é fruto de uma decisão sua e, ao mesmo tempo, alheia. Nós só percebemos que o tempo passou, e que ficamos 50 minutos mais velhos e cansados. Por que, às vezes, a partida é justamente de 50 em 50 minutos. Oficialmente. Goste você ou não, isso foi decidido, e você não foi escutado. E nem seria possível. Já que, se fosse consultado, você ia solicitar um ônibus só para você. Você e todos os que estão aí, nesse exato momento, junto a você, na fila. Sim, isso mesmo. A “opinião pública”. Cada um ia querer um ônibus para si. De improvável concretização, mas seria este o desejo da “opinião pública” naquele momento. Percebe? E nem considerei que o motorista e o cobrador também fazem parte da “opinião pública”. Assim como os donos das empresas de ônibus.
Já dá para ouvir a impaciência de vocês, na fila. Timidamente, começa o diz-que-diz. Cada um relatando uma agrura, repassando um boato, um “ouvi falar”. Dando uma informação que nem ao menos tem certeza comprovada de que seja aquilo mesmo. Outro tenta contar um caso que leu no jornal. Um outro afirma que leu a mesma matéria, e que é isso mesmo. E palpitam. E terminam por concluir, após essa demorada ( forçosamente ) confabulação de notáveis, que o ideal mesmo, para a sociedade – a “opinião pública” – se mover com mais rapidez, seria que cada cidadão com mais de 16 anos tivesse seu próprio carro. E concluem, nesse mesmo episódio, que um “pulíticu” bom mesmo é aquele que criará condições para que isso se concretize. A voz do povo é a voz de Deus.
Agora, o que influencia as decisões da “opinião pública”, isso é um mistério para mim. Eu jamais teria imaginado, nem mesmo remotamente, que uma claque ( espontânea? Mmm… ) se juntaria na frente de uma delegacia, ou de qualquer lugar que seja, exigindo punições – dolorosas, sádicas até – a pessoas que ainda sejam suspeitas por um crime cometido e ainda em fase de investigação, sem conclusões efetivas. E que, mesmo presas por este mesmo crime, ainda estejam exercendo seu direito à defesa, amparado pela Constituição, até o julgamento final e definitivo. Quando, aí sim, esgotadas todas as possibilidades de defesa, receberão a pena imposta pela Corte. A oficial.
Lendo, e assistindo a tudo isso ( o tempo todo, de forma massacrante é bom dizer ), a “opinião pública”, chocada, pensará que “algo precisa ser feito” ( sic ). Decisões deverão ser tomadas. Algumas destas decisões não são permitidas à “opinião pública” tomar. Isso é tarefa para outros.
Mas, enquanto isso, nada impede-a de seguir discutindo, se informando, adquirindo cabedal, influenciando o pensamento dos que lhe são próximos. Para que, no momento concedido a que se dê sua opinião ( que será acatada, oficializada e posta em prática ), exija o que for melhor para a sociedade. O que fará, com toda a certeza, sem chance de erro. Sem influências alienígenas ou manipulações ( de informações ou, puramente, das emoções ). O caminho correto a seguir.
A voz do povo é a voz de Deus.