24/10/07
Máximas e Mínimas 704
. Quem não quer a CPMF já quis: os tucanos inventaram a CPMF.
. Quem não quer a CPMF são aqueles que querem fazer o “desmanche” do Estado (*) e de suas políticas sociais.
. Quem não quer a CPMF é quem não aceita que a saúde do brasileiro melhorou – por causa do dinheiro da CPMF.
. Quem não quer a CPMF não se conforma com a última Pesquisa de Amostra Domiciliar, PNAD, do IBGE, que mostrou que a renda da metade inferior da pirâmide de renda cresce mais que a metade superior.
. Quem não quer a CPMF é quem não se conforma com a idéia de que, segundo a PNAD, a desigualdade de renda – o índice de Gini – melhorou.
. Quem não quer a CPMF é quem acha que o mercado é mais eficiente para dar hospital e escola.
. Quem não quer a CPMF quer o “Caixa Dois”, porque a CPMF é o melhor imposto para “flagrar” o “Caixa Dois”.
. Quem não quer a CPMF quer matar o Governo Lula de fome e impedir que ele faça o sucessor.
. Quem não quer a CPMF não quer que o PAC vá para a frente, porque, para manter os investimentos sociais, sem a CPMF, será preciso cancelar obras do PAC.
. Quem não quer a CPMF quer “starve the beast” – “fazer a besta morrer de fome” (*2)–, o grito de guerra dos neoliberais: tirar recursos do Estado até ele morrer de inanição.
. Quem não quer a CPMF é o pessoal que quer ficar rico com “other people’s money” – o dinheiro dos outros –, a forma clássica de a elite branca (e separatista, no caso de São Paulo) brasileira “administrar” o Estado.
. Quem não quer a CPMF quer que as favelas do Rio desapareçam do mapa, jogadas no Rio da Guarda, e não aceitam que, sob inspiração de Leonel Brizola, as favelas se transformem em bairros – sem violência, sem tráfico, e com serviços sociais.
. Quem não quer a CPMF gostaria de nomear o Coronel Ustra diretor-geral da Polícia Federal, para só prender “preto, pobre e p…”
. Quem não quer a CPMF toma café da manhã na pracinha e lê a revista Veja, todo domingo.
(*) Sobre o “desmanche” do Estado, recomendo a leitura de “O Ex-Leviatã Brasileiro”, de Wanderley Guilherme dos Santos, Editora Civilização Brasileira, 2006: “Em nome de sua modernização e de melhor desempenho na economia globalizada, o poder executivo teve 30% de seus quadros eliminados em sete anos (de 1995 a 2002), talvez a maior leva de demissões da história da administração pública em nação sem passado socialista.”
(*2) Sobre a Teologia do Neoliberalismo, aqui imposta pelo Governo do Farol de Alexandria, à semelhança de Salinas no México; Fujimori no Peru; e Menem na Argentina, recomendo a leitura de “A Brief History of Neoliberalism”, de David Harvey, Oxford University Press, 2005. Harvey lembra que a Teologia do Neoliberalismo começou no Chile de Pinochet dos “Chicago Boys”, e depois se “globalizou” com a aliança Thatcher-Reagan. Harvey demonstra que a Teologia Neoliberal nasceu como resposta ao aumento da renda da metade inferior da pirâmide de renda, com as políticas sociais do Pós Guerra. Portanto, o santo padroeiro de quem não quer a CPMF é Augusto Pinochet.
MAIS SOBRE PINOCHET E A POLÍTICA TUCANA:
“Pinochet levou o Chile à falência e à depressão”
GREG PALAST *
A implantação do chamado ‘neoliberalismo’ no Chile aconteceu em meio à mais sanguinária das ditaduras que assolaram a América do Sul e só foi possível através dela e do morticínio que Pinochet perpretrou para suprimir todas as liberdades democráticas.
Ao contrário do que seguem propalando – com a morte do ditador assassino – os arautos mais servis do receituário de entrega do patrimônio público a assaltantes dentro e fora do Chile, as medidas aplicadas por Pinochet sob a supervisão de Milton Friedman e seus Chicago Boys, levaram o país ao desastre econômico. É isto que comprova o articulista norte-americano, Greg Palast na matéria que segue, intitulada ‘Sininho, Pinochet e o conto de fadas do milagre do Chile’. N. B, Hora do Povo, 13/12/06.
O ex-ditador militar do Chile, general Augusto Pinochet morreu hoje com a idade de 91 anos.
A fada madrinha de Cinderela, Sininho e Augusto Pinochet tinham muito em comum.
Todos os três produziam boas ações mágicas. No caso de Pinochet, ele era universalmente creditado com o Milagre do Chile, o amplamente exitoso experimento de livre mercado, privatização, desregulamentação e expansão econômica livre dos sindicatos cujas sementes econômicas do ‘laissez-faire’ se espraiaram de Valparaiso até a Virgínia.
Mas a abóbora de Cinderela não se converteu realmente numa carruagem. O milagre do Chile, é também simplesmente outro conto de fadas. A afirmação de que o general Pinochet concebeu uma potência econômica, é uma dessas asser-tivas cuja verdade reside apenas em sua repetição.
O Chile pode se orgulhar de algum sucesso econômico. Mas foi o trabalho de Salvador Allende – que salvou sua nação milagrosamente uma década depois de sua morte.
Em 1973, no ano em que o general Pinochet tomou brutalmente o governo, a taxa de desemprego no Chile era de 4.3%. Em 1983, depois de dez anos de modernização do livre mercado, o desemprego atingiu os 22%. O salário real declinou em 40% sob o regime militar.
Em 1970, 20% da população do Chile vivia na pobreza. Durante os ano de 1990, ano que o ‘presidente’ Pinochet deixou o governo, o número de desempregados havia duplicado, chegando aos 40%. Realmente um milagre.
Pinochet não destruiu a economia do Chile sozinho. Foram precisos nove anos de trabalho duro das mentes mais brilhantes entre os acadêmicos do mundo, uma manada de gansos, estagiários de Milton Friedman, os Chicago Boys. Sob a influência de suas teorias o general aboliu o salário mínimo, colocou os sindicatos que defendiam os direitos trabalhistas na ilegalidade, privatizou o sistema previdenciário, aboliu todos os impostos sobre as riquezas e os lucros, cortou os empregos públicos, priva-tizou 212 indústrias e 66 bancos do Estado e executou um ajuste fiscal.
Livre da mão morta da burocracia, dos impostos e das regulamentações sindicais, o país deu um salto gigante para a frente… em direção à falência e à depressão. Depois de nove anos de economia no estilo de Chicago, a indústria do Chile naufragou e morreu. Em 1982 e 1983, o PIB caiu 19%. O experimento do livre mercado capotou e os tubos de ensaio se estilhaçaram. Sangue e vidro se espalharam pelo chão do laboratório. Ainda assim com notável descaso, os cientistas malucos de Chicago o declararam um sucesso. Nos Estados Unidos, o Departamento de Estado do presidente Ronald Reagan emitiu um informe concluindo: “o Chile é caso para estudo de uma boa consultoria sobre administração econômica”. Milton Friedman cunhou a expressão, “O Milagre do Chile”. O comparsa de Friedman, o economista Art Laffer, se jactava de que o Chile de Pinochet era “uma vitrine capaz de mostrar o que a economia é capaz de ministrar”.
E certamente era. O Chile era uma vitrine da desregulamentação frenética.
Os Chicago Boys persuadiram a junta de que, removendo as restrições aos bancos nacionais os liberaria para atrair capital estrangeiro para financiar a expansão industrial.
Pinochet vendeu os bancos estatais – com 40% de desconto do seu valor contábil – e eles rapidamente caíram nas mãos de dois impérios conglomerados controlados pelos especuladores, Javier Vial e Manuel Cruzat. Desde seus bancos cativos, Vial e Cruzat sifonaram dinheiro para comprar indústrias – depois alavancaram estes recursos com empréstimos tomados a investidores estrangeiros que queriam obter seu quinhão do que estava sendo entregue pelo Estado.
As reservas dos bancos, se encheram com títulos vazios de empresas coligadas. Pinochet permitiu que os bons tempos transcorressem em favor dos especuladores. Foi convencido de que os governos não devem se contrapor à lógica do mercado.
ALLENDE
Em 1982, o jogo da pirâmide financeira estava em alta. Os “grupos” Vial e Cruzat entraram em concordata. As indústrias fechavam, as empresas de previdência privada estavam totalmente desvalorizadas, o valor da moeda se desvanecia. Os distúrbios e as greves de uma população faminta e desesperada, não temiam balas de Pinochet, forçado a mudar o curso. Ele chutou seus amados experimen-talistas de Chicago. De forma relutante o general restaurou o salário mínimo e direitos à negociação coletiva dos sindicatos de trabalhadores. Pinochet, que havia dizimado anteriormente os quadros governamentais, autorizou um programa para criar 500,000 empregos. Em outras palavras, o Chile foi tirado da depressão pelos velhos e torpes remédios keynesianos, todos do tipo Franklin Roosevelt, nada de Reagan/Thatcher. Táticas do New Deal resgataram o Chile do pânico em 1983, mas a recuperação de longo prazo e o crescimento desde então é resultado de – tapem os ouvidos das crianças – uma grande dose de socialismo.
Para salvar o sistema nacional de aposentadorias, Pinochet nacionalizou bancos e indústrias em uma escala não imaginada pelo comunista Allende. O general expropriou à vontade, oferecendo pouca ou nenhuma compensação. Quando eventualmente a maioria destes negócios foi repriva-tizada o Estado reteve a propriedade de uma indústria: a do cobre.
Durante quase um século, o cobre significava Chile, e Chile, cobre. O especialista em metais da universidade de Montana o Dr. Janet Finn destaca: “É absurdo descrever uma nação como um milagre da livre empresa, quando o motor da economia permanece nas mãos do governo”. O cobre proporcionou de 30% a 70% dos ingressos em exportação do país. Esta é a moeda forte que construiu o Chile de hoje, os benefícios das minas confiscadas à Anaconda e Kenne-cott em 1973 – o presente póstumo de Salvador Allende a sua nação.
A agroindústria é a segunda locomotiva do crescimento econômico do Chile. Isto também é um legado de Allende. De acordo com o professor Arturo Vasquez da Universidade de Georgetown, Washington DC, a Reforma Agrária de Allende, a quebra dos latifúndios feudais (os quais Pinochet não pode reverter totalmente), criou um nova classe de lavradores produtivos, junto operadores cooperativados, que agora trazem um fluxo de ganhos de exportação que rivaliza com o cobre. “Para ter um milagre econômico”, afirma o Dr. Vasquez, “talvez seja necessário primeiramente um governo socialista que se comprometa com uma Reforma Agrária”.
Então eis o que temos. Um Chile salvo por Keynes e Marx, não por Friedman.
Mas o mito do Milagre do livre mercado persiste porque isto serve a uma finalidade quase religiosa. Dentro da fé dos Reaganautas e dos Thatcheristas, Chile proporciona a fábula da gênese necessária, o sucedâneo do Éden do qual o laissez-faire saltou bem sucedido e brilhante.
Em 1998, a gangue dos quatro das finanças internacionais – o Banco Mundial, o FMI, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco Internacional de Compensações – ofereceram US$ 41.5 milhões em crédito ao Brasil. Mas antes das agências darem a mão salvadora à nação que se afogava, exigiram do Brasil que se comprometesse a tragar o remédio econômico que quase matou o Chile. Vocês conhecem a lista: privatizações, flexibilização do mercado de trabalho (ou seja demolição dos sindicatos) e redução do déficit através de cortes selvagens nos serviços governamentais e na previdência.
Em São Paulo, a população foi assegurada de que estas medidas cruéis iriam, ao final, beneficiar ao brasileiro médio. Aquilo que era similar a um colonialismo financeiro, era vendido como a cura de tudo testada no Chile com resultados milagrosos.
*Articulista norte-americano