ENCALHE

fevereiro 2, 2008

A CRIMINALIDADE É INTRÍNSECA AO CAPITALISMO

Celso Lungaretti (*)

O problema da escalada da criminalidade no Brasil vai muito além da ótica simplista e repressiva da nossa mídia. Tem a ver com o estilhaçamento da família e da sociedade sob o capitalismo globalizado.

No chamado capitalismo industrial, ambas ainda se mantinham razoavelmente estruturadas, apesar de todos os defeitos que tão bem conhecemos: desigualdades econômicas e sociais, elitismo, autoritarismo, etc.
No final da década de 1960, entretanto, esse modelo chegou ao esgotamento. O próprio capitalismo demandava uma desestruturação da antiga sociedade, para erguer uma nova sobre seus escombros. Os jovens, entretanto, tentaram ir mais longe: em vez da substituição de uma forma de dominação por outra, sonharam com o fim de todas as dominações. Com o fracasso das tentativas revolucionárias do período, implantou-se, em meio à paz dos cemitérios, a sociedade de massas, em que tudo e todos devem estar permanentemente disponíveis para o consumo.
A comunicação de massas deixou de lado a missão de formar (expoentes da elite) para o exercício do pensamento crítico, restringindo-se a apenas informar fragmentariamente e a repisar os valores capitalistas.
O trabalho perdeu qualquer atrativo que ainda tivesse como concretização do potencial criativo do ser humano. Tornou-se uma corrida de ratos atrás do dinheiro, sem ética nem o mínimo respeito pelo interesse público.
O ingresso em massa da mulher no mercado de trabalho aviltou remunerações e colocou toda a família a serviço do sistema, transformando o lar em mero dormitório.
A família foi desvalorizada pela influência atordoante da comunicação de massas. Pais e mães cansados não conseguem competir em sapiência com a telinha que hipnotiza as crianças, impingindo os valores consumistas.
Então, nada existe de estranho no fato de que as pessoas sem aptidões para competir dentro do sistema busquem atalhos para conseguir aqueles bens dia e noite propagandeados como objetos de desejo. Perplexos, muitos cidadãos gostariam de ver aplicadas aqui as punições drásticas dos países muçulmanos: que se cortassem as mãos dos ladrões, o pênis dos estupradores e a vida dos assassinos. Olho por olho, dente por dente.
Outros pedem mais policiais nas ruas, de preferência atirando primeiro e perguntando depois… nos bairros pobres ou quando os suspeitos são negros, pardos ou malvestidos, é claro.
E há os que defendem a maioridade penal a partir dos 14 ou 16 anos, o que somente fará os bandidos diminuírem proporcionalmente a idade do recrutamento de seus serviçais, até que tenhamos crianças empunhando fuzis e metralhadoras. O velho chavão moralista mudará de “hoje mocinho, amanhã bandido” para “hoje bandido, amanhã defunto”.
No fundo, tudo isso são paliativos. Inexiste forma ideal de se lidar com aqueles que já se tornaram bestas-feras, nocivos para si próprios e para a sociedade. Pode-se, quanto muito, controlá-los – e a um custo dos mais elevados para um país de tantas e tão dramáticas carências.
Exterminá-los, jamais! Isso levaria a violência a patamares apocalípticos, pois os bandidos não teriam mais nada a perder. Nós, sim, perderíamos, ao abrirmos mão da civilização arduamente construída nos milênios que nos separam da horda primitiva, voltando à estaca zero.
O xis do problema, no entanto, nunca é discutido: o fato de que a criminalidade é intrínseca ao capitalismo e subsistirá enquanto não substituirmos o primado da ganância e da competição pelo da solidariedade e da cooperação.
Vivemos numa sociedade que desperdiça o potencial já existente para se proporcionar uma existência digna a cada habitante do planeta; que faz as pessoas trabalharem muito mais do que o suficiente para a produção do necessário e útil; que condena parcela substancial da população economicamente ativa ao desemprego, à informalidade e à mendicância; que estimula ao máximo a compulsão consumista sem dar à maioria a condição de adquirir seus objetos de desejo; que retirou do trabalho qualquer atrativo como realização individual, tornando-o apenas um meio para obtenção do vil metal (ou seja, uma nova forma de escravidão).
Então, os que ainda têm emprego e os empreendedores continuarão irrealizados, esforçando-se demais para nunca obterem as gratificações almejadas, pois a lógica do capitalismo é perpetuar a insatisfação e mitigá-la com o consumo (a cenoura colocada à frente do asno para que ele continue puxando a carroça). Um círculo vicioso perverso que faz a fortuna dos analistas, dos farsantes religiosos e dos picaretas da auto-ajuda.
Alguns excluídos continuarão vivendo das esmolas dos programas oficiais e vão ajudar a eleger aqueles a quem convém mantê-los em eterna dependência.Outros tentarão obter pela força aquilo que jamais alcançarão pela competência. E servirão de espantalho para intimidar as classes superiores, fazendo-as crer que uma sociedade policial seria a solução.
É paradoxal que, em nossa época, formidáveis avanços científicos e tecnológicos coexistam com uma regressão ao ambiente medieval, com os nobres entrincheirados em condomínios de alto padrão, circulando em veículos brindados e só podendo levar vida social em shopping centers, não ousando mais exporem-se fora de suas fortalezas. No exterior desses espaços fortificados e vigiados, os bárbaros estão sempre à espreita, prontos para desferir seus golpes.
Uma previsão terrível de Friedrich Engels, um dos pais do marxismo: quando uma sociedade consegue aniquilar as forças progressistas que poderiam levá-la a um estágio superior de civilização, acaba sendo destruída pela barbárie. O paralelo é com Roma, que venceu os gladiadores de Spartacus mas sucumbiu aos povos atrasados, condenando o mundo a séculos de trevas.
Resta saber se, no século 21, a ameaça maior à civilização se corporifica nos criminosos cada vez mais abusados e no surto de populismo autoritário no 3º mundo, nos fanáticos religiosos que derrubam torres gêmeas ou na fúria com que a natureza começa a reagir às agressões sofridas.

* resumo da exposição de Celso Lungaretti na mesa-redonda “Metamorfoses sócio-econômicas, segregação sócio-espacial e o fenômeno da violência na Grande Vitória”, durante o “II seminário Internacional de Desenvolvimento Local”, realizado no mês de dezembro de 2007 em Vitória, ES. Artigos e crônicas de Celso Lungaretti estão disponíveis em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

dezembro 24, 2007

Antes que eu me esqueça: Leia que bos**ta apareceu pichada num muro!

Cidadão de bem, provavelmente indignado, garatujou essa merda aqui. Dá uma olhada no naipe e me diga: esse cidadão quer decidir alguma coisa, mas tem capacidade prá isso?
“Se a autoridade não é capaz
Deixa que a gente faz
PENA DE MORTE JÁ! “
Sacaram? “Se a autoridade não é capaz…”
Mas, peralá. Mesmo que fosse implantada, a decisão caberia a uma autoridade. Além de capacidade, a autoridade tem, obrigatoriamente a PRERROGATIVA.
Talvez, então, o bostão tenha querido dizer “linchamento” ( ou seja, fez apologia a um crime; e, imagino, sob o novo código jurídico ao gosto do bostão, esse tipo de crime poderia muito bem ser punido com a morte que, obrigatoriamente, seria aplicada por uma autoridade… );
Mas, se o cara confunde “PENA DE MORTE” com “LINCHAMENTO”, de onde ele tirou a idéia de que tem capacidade para decidir qualquer coisa?
Mas temos aí um ótimo exemplo. Basta aplicá-lo nas mais diversas possibilidades. Por exemplo, um desses velhos mumificados cujo cérebro foi conservado em tonéis de Guerra Fria liquefeita, que lêem o Estadão, aposentado, e falando mal de grevistas. Considerando que o direito à aposentadoria da qual goza no presente não caiu do céu, ou pela bondade cristã do patrão, a contradição do panaca é clara. Mas ele é daqueles que falam grosso. Não importa o quê.

abril 24, 2007

SUPERINACREDITÁVEL!!! Revista da Editora Abril fala da pena de morte nos EUA, mas omite as 800 prisões e as milhares de mortes na ilha de Cuba!!!

Filed under: China, Cuba, Editora Abril, EUA, Fidel Castro, Pena de morte — Humberto @ 2:34 am
Esquisito!!!
Mas o céu vai cair mesmo, viu!!
As gárgulas sequiosas por sangue e vísceras sairão pelas fendas e frestas na crota terrestre e por-se-hão a caçar o cidadão de bem, até saciar sua sede sanguinolenta, quando então o Sol virará uma imensa esfera de gelo, e a obra do Senhor estará condenada de vez, encerrando-se por completo e, aí Deus se recolherá à prática de criar e cuidar de matilhas de Golden Retrieveres, Labradores e do Tibúrcio!!!
A SUPERINTERESSANTE, nesta edição que se encontra nas bancas, mostra os tipos de pena de morte aplicadas no mundo e por quais países.
Entram os EUA, com o fuzilamento ( o preferido de Fidel ) , a forca, a cadeira elétrica e a injeção letal; a aliada americana no Oriente Médio, Arábia Saudita, que se utiliza da decapitação – a mais indolor – e do apedrejamento; a China, que se vale do fuzilamento ( o preferido do Fidel, já disse? ) , da forca, da injeção letal e da decapitação para manter o país protegido contra o crime e a violência…
Mas…e Cuba?
Não é sequer mencionada. Até Guatemala, Nigéria, Somália e Taiwan são lembrados, mas a ilha de Fidel ficou de fora. Acho que é porque a aplicação deste tipo de pena representaria um rombo econômico na já conhecida economia falida do bastião comunista.
Ou o pessoal da Editora Abril e a redação da revista aproveitaram que o velho estava descansando no sarcófago ou no caixão e resolveram sacaneá-lo.

fevereiro 23, 2007

VOU FAZER COCÔ !!!

Filed under: cidadão de bem, Gloria Perez, João Hélio, mídia, Pena de morte — Humberto @ 1:44 pm

Com todo o respeito que merecem a família do garoto, morto acidentalmente – não, você não leu errado: pessoalmente eu acho que foi um misto de incompetência, azar e pânico que resultou na tragédia, e está aí essa “comoção” fabricada por caronistas sedentos por autopromoção e encrudescimento penal-repressivo ( para alguns, “repressivo” seria melhor: custa menos que os trâmites legais ) - , a própria vítima, e as pessoas sinceramente tocadas pelo ocorrido, essa campanha do “FAÇA ALGO” não significa absolutamente nada para mim.
A cada dia, o Vinícius localiza nos jornais relatos de tragédias igualmente comoventes, mas que não geram o mesmo clamor publicitário.
Relembro que, há alguns dias, eu comentei que a Folha publicou uma página dizendo que, nos EUA, vários estados estariam abandonando a prática da pena de morte, tradição religiosa-cultural ainda fielmente mantida pelo glorioso Texas. Onde, se bem me lembro, um retardado mental pegou cadeira elétrica.
Então é isso.
Não sei se já havia mencionado anteriormente a historinha a seguir, mas não me importo em repetí-la.
Trabalhava num lugar onde pessoas nefastas faziam, a todo o tempo, especular sobre o seu salário e tentar puxar seu tapete. Pois bem. Acreditando cegamente na raça humana e em sua redenção, ocorre que eu costumáva acompanhá-los no happy-hour. Tendo bebida, eu suportava até peessedebista.
Eis que, no calor da farra, aparece uma prancheta às nossas vistas, e uma dona pedindo para que contribuíssemos com a nossa assinatura. Explicou que se tratava de implantar a pena de morte. Isso foi pouco tempo depois da morte da filha da Glória Perez, comoção mediática nacional e subseqüente discussão como a que temos hoje.
Eu podia recusar gentilmente, e o faria, naturalmente.
Daí um bosta, motorista da diretoria, mas metido ao mesmo tempo a malandrão e paga-pau de polícia, ouviu a explanação da moça, pegou a lista e, tipo “Opa, é prá já”…
Sentido o fervor cívico se renovar em minha corrente sanguínea peguei, para surpresa dos comensais, o dossiê dizendo algo como “Depois passa para mim.”, cuidando para que eu fosse o último a rubricar. Tudo correu dessa forma e a moça foi embora, agradecida e feliz por ter conseguido mais apoio para sua campanha. Cidadãos de bem se entendem em suas demandas.
Dois minutos e, lá de fora, um berro, grito, ribombar, trovão:
- QUEM FOI QUE FEZ ISSO ???
E veio direto à nossa mesa. Quase todos olharam a prancheta ao mesmo tempo – alguns convivas, parece que já sabiam ou esperavam por isso – e, depois de perceberem o que houve, olharam ( todos, também ao mesmo tempo, clichê de novela pretensamente engraçada ) para mim, e passaram a berrar comigo ( todos, ao mesmo tempo, inclusive a dona da prancheta, a última gritando bem no meu ouvido ) . Alguns, em protesto, saíram da mesa e foram cachaçar em outro lugar. A cidadã preocupada com a segurança me perguntava, daquela forma retorica, o que eu acharia se fosse com minha irmã, essas coisas. Acabou que todos saíram da mesa, para ir ao banheiro, outros foram conferir se ninguém havia roubado seu carro, ou pedir mais um chopp e, os mais honestos, deixaram claro o porquê de me abandonarem. Terminei sozinho na mesa.
Claro que eu estava nervoso ( mais por ter tanta atenção dirigida a mim que por outro motivo ) mas tentava não demonstrar, e meu silêncio ( eu não respondi nada para ninguém; só depois da poeira ter baixado é que eu explique meus motivos e ponto de vista mas, ainda assim, para alguns mais próximos e menos histéricos ) apenas serviu para irritar ainda mais a dona e outros presentes na mesa. A dona – que, lembrando bem, até mostrou para os outros membros do comitê que estavam juntos colhendo assinaturas – foi embora, justificavelmente puta da vida.
Que choque ela deve ter tido quando, em meio aos nomes, leu o recado: “VÃO SE FODER, SEUS NAZISTAS !!!”

fevereiro 17, 2007

Morte de criança não causa comoção

Isso aqui eu mandei como comentário do artigo “Culpados!” publicado no NovaE, artigo esse alvo de algumas críticas.

Saiu assim:

“Comoção fabricada: pauta-se a discussão a ser feita, e o rebanho segue o fluxo.Há poucos dias, saiu no jornal ( saiu, acreditem ) que uma indiazinha de dois anos morreu de desnutrição.Motivo: o governo estadual ( MT ou MS, não lembro ) cortou a distribuição de cestas básicas feitas a diversas tribos. Criança de 2 anos + fome + morte = Silêncio da classe média; Na Folha, num outro dia recente, saiu que está sendo abandonada a prática da pena de morte nos estados americanos, substituida por outras penas. Apenas o Texas segue mantendo a tradição. Repercussão da notícia? Zero. Há também alguns dias houve uma chacina – acho que em São Paulo – na qual morreram seis pessoas. Até onde acompanhei, nenhum deles com passagem pela polícia ( irônicamente, num box aparece destacada a fala da mãe de um deles: “(…) eram todos cidadãos de bem (…)”. Não, senhora: pelo silêncio que se seguiu, cidadão de bem tem que possuir trânsito na mídia e bens que façam justificar a atenção); O morticínio na rua Tabatingüera não causou essa campanha “Marcha do Cidadão de Bem pela Pena de Morte”, oportunisticamente como se vê agora.Eu não entendo nada desse Estatuto do Adolescente, mas, tendo sido assaltado no comércio em que trabalho por 5 ou 6 vezes, acho que posso opinar sobre segurança “pública”. Talvez as “premissas” da professora estejam equivocadas, como foi apontado aqui. Eu tenho uma “premissa” (é crença pessoal, mas eu divido): os motivos “sociais” alegados como causa para os crimes não servem como justificativa; eles servem, sim, como justificativa para o silêncio dos cidadãos de bem quando as vítimas de crimes hediondos vivem às voltas com os problemas sociais ( ficou meio enrolado, mas acho que dei conta do recado ) . “

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