Eu não sei de onde alguns encontram tempo e paciência para ler os jornais diariamente. Eu não sou um deles. Ja fui um leitor mais freqüente. Hoje, por curiosidade masoquista fui dar uma filada nos jornais, dar uma bisoiada sobre as eleições. Mais precisamente, fui às seções de cartas dos leitores. Claro que eu já sabia o que me esperava: os fãs e eleitores do Boneco estão extasiados. Um desses leitores/ eleitores diz, esfuziante ( prestem atenção nisso ), que a derrota de Marta se deu porque ( com as minhas palavras, hein? ) “a classe média se decepcionou com o PT, que se dizia ético e coisa e tal”. Sim, a classe média paulistana que deu e dá sustento ao “Rouba mas faz” de Maluf e Pitta. Creio eu que Maluf só não levou dessa vez, devido a sua idade. Fosse Maluf mais novo, a classe-média “que se decepcionou com o PT” ( mas não com Collor, Jânio, Enéias, FHC, Pitta, etc ) votaria em peso no cara. Kassab foi para o PFL a convite de Bornhausen. Wadih Mutran foi para o PFL a convite de Kassab.Certo tá o Lula: hipocrisia.
Os habituès lá estavam, pangloriando-se, ops, vangloriando-se e celebrando o “bravo povo paulistano” que enxotou a Marta Suplicy e o PT ( “bravo povo paulistano”, percebe-se, excluídos os que votaram em Marta; Mas: quem faz questão de “ser paulistano”? ).
Os focos de resistência se encontram ainda nos extremos da periferia, mas estes não adquiriram, ainda, o direito de se considerarem paulistanos. Coisa de sangue, sabe?
Parece que, depois da eleição, vem a secessão. “Eu te amo, São Paulo”…
Eu ainda estou com uns números e gráficos, mas não dei aquela olhada detalhada, então não vou ainda duvidar de uma das informações, a de que o PT perdeu até em alguns de seus “domínios”, estabelecidos no “Cinturão da Miséria” ( Poverty Belt ) da cidade.
Também seria bom se eu tivesse aqui em mãos alguns dados de eleições anteriores, então vou ter de puxar pela memória.
Ouvi isso hoje, duma dona:
- Estranho, o povo tá quietinho hoje… Apesar de ter ganho o Kassab…
E continuou:
-…Se fosse a Marta, o povo ia tá fazendo festa.
Não entendi muito bem. O Kassab foi eleito, mas não é merecedor de uma festa? Vai entender.
Mas faz sentido, viu? Quando o Kassab assumiu ( o cargo ) e ainda patinava, nêgo dizia que tinha votado era no Serra. Curiosamente, tal eleitor ilustrado e versado nas Ciências Políticas e que deseja agora botar banca, não parecia ter se dado conta de que, quando se vota em alguém para um cargo no Executivo, esse alguém terá um vice, compondo a chapa.
Bom, é bem assim: quando o Collor deu naquilo que nós vimos, São Paulo tinha votado em peso nele, mas depois, não se achava um filho da mãe com peito e que dissesse ter votado no safado. Certo tá o Lula: hipocrisia.
No caso da Marta, meu palpite é que estamos diante de um flagrante caso de antipatia fabricada, da qual Marta dificilmente se desvencilhará. Ou alguém acha o Serra simpático? Só se for com uma estaca enfiada no coração.
Tem quem ache a Marta arrogante. E o FHC, não era? Além de vaidoso, extremamente vaidoso?
Má administradora? Depende o que, por exemplo, para os eleitores de Serra, Alckmin, FHC, Maluf e Kassab, seja um bom administrador. Esses eleitores, para eles, é só deixar que os jornais e revistas falem por eles. Esses eleitores – e, também, leitores – devem dominar o assunto “Finanças Públicas” tanto quanto eu sei sobre automóveis ( não sei e nunca quis saber dirigir ). Ora, se eu conseguisse, digamos, uns números, tabelas e outras informações que provassem que Marta pode ter gasto a maior grana durante seu mandato, mas que “quebrar” a cidade ela não quebrou, que importância isso teria tido, qual efeito? Vejam só que coisa perversa: é bem possível que a imagem de uma suposta “devastação econômica” causada pela ex-prefeita já tenha se cristalizado na cabeça do paulistano. E aí, meu, fica difícil. Imaginem a frustração ( pois seres humanos, uma vez ou outra, por mais fortes que sejam, são acometidos de sensações desesperadoras ), por exemplo, do mestre Aloysio Biondi, em sua coluna no Diário de São Paulo, explicando de uma forma tão leve e clara as falcatruas de FHC e Covas, que terminariam na contabilidade fraudulenta usada pelos tucanos para, depois, usar tais resultados como prova de que o Banespa estava quebrado e devia ser privatizado. Eu, um ignorante, lia Aloysio e entendia tudo. Pois ele fazia aquilo para gente como eu. O que não impediu a tucanalha de privadoar o Banespa para o Santander.
Agora, peguem ( imaginem ) os números da gestão Marta. Ela quebrou ou não a cidade? Nem nós que votamos nela, e nem os que votaram em Maluf-Serra-Pitta-Kassab sabemos bem ao certo, a ponto de convencer o lado oponente.
É aí que entra o imprensalão. Forjaram-se aqueles factóides. Filas. Três meses depois de assumir o cargo, Serra havia “salvado” o cofre da Prefeitura. Ele, Serra que, enquanto ministro, não conseguiu resolver o problema da dengue. E, como disse recentemente um deputado petista, mal consegue resolver o problema da Polícia Civil ( ops! Eu disse “problema”? Esqueci que o imprensalão blinda de tal forma o Conde Governador, que a população de zumbis – que reclama para burro da Segurança – não parece ter se dado conta ainda de que enfrentamos uma greve de policiais civis ) e quer palpitar sobre câmbio, juros.
E aí, eu pergunto aos eleitores destes tucanos do Demo: detalhem-me, com suas palavras, do alto de vosso conhecimento, o que Serra fez para “salvar” a cidade de São Paulo em tão pouco tempo? Venham, convençam-me.
Pegou um caixa falido, num país quebrado, e tocou adiante.
O ESTADO DAS COISAS:
Lembro-me que, em 2002, eu trabalhava na longínqua São Miguel Paulista ( antes disso trabalhara na região da Rebouças, olha a mudança de dimensões ). Marta chegou em 2001. Pois, havia um córrego ladeando uma favela, próximo a uma famosa fábrica, de cimento acho, muito antiga no bairro, só que não lembro o nome, que merda. ( Opa, lembrei!! É a Nitroquímica! )Parece que as coisas iam melhorando, só que a classe média e os jornais já criticando a Marta, “Belezura vai mal”, e blablabla. E o córrego começava a ser canalizado, pistas asfaltadas permitindo tráfego de pessoas, bicicletas e até carros. Também uma ponte, acho que cruzava o córrego. Entendem? Deve ter sido um dos primeiros lugares a serem atendidos, tão logo a grana passou a pingar. E o pessoal, que ia de porta em porta, nos comércios, oferecendo aquele microcrédito, acho que era o São Paulo Confia.
Eu via isso, aquele cuidado – ainda insuficiente, lógico -, um corrego que passou décadas ali, veio alguém que pegou, sim, um caixa quebrado, e tentou começar a melhorar, dando primazia àquele lugar.
Quebrado ou não, o Kinder Ovo pós-eleitoral já nos traz surpresas ( nem tanto ): Kassab “admite” ( ou já planejara? ) fazer cortes no Orçamento. Bem de acordo com a pauta serrista que tem corrido as páginas do imprensalão nos últimos dias: a “crise”, dizem os jornais, não permite que o governo do Estado melhore a proposta aos policiais civis.
Volto ao assunto.