“BARRIGA” DO ANO
Sobre as contradições do jornalismo
Venício A. de Lima
Venício A. de Lima
No final da tarde de terça-feira (20/5) fui surpreendido com telefonema de pessoa de minha família, em Minas Gerais, preocupada em saber se eu estaria viajando ou se estava em Brasília. Estava em Brasília, por quê?
“Acabamos de ouvir na rádio Itatiaia de Belo Horizonte que um avião de passageiros havia se chocado com um prédio nas proximidades do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, provocando grande incêndio. Como você sempre viaja, queríamos ter certeza de que não estaria entre as vítimas de mais esse acidente aéreo.”
Depois do telefonema, tomei conhecimento de que o canal GloboNews, da operadora de TV a cabo NET, havia interrompido a transmissão ao vivo de depoimentos na CPI dos cartões para “informar” que um avião da empresa Pantanal acabara de cair sobre um prédio na Zona Sul de São Paulo, próximo ao aeroporto de Congonhas. Durante mais de cinco minutos, a GloboNews mostrou imagens de fumaça sobre a cidade e do incêndio que teria sido provocado pelo choque de um avião com o prédio.
Numa inversão da lógica que tem presidido a análise do fluxo das notícias, quase simultaneamente a GloboNews pautou os principais sites online – UOL, Folha OnLine, Terra, iG, Estadão – que passaram a “informar”, em manchete, sobre a queda do avião e sobre o incêndio. A partir daí, a “informação” passou também a ser transmitida por emissoras de rádio em todo o país.
Aos poucos foram aparecendo os desmentidos: da Infraero, da Pantanal e da própria Central Globo de Comunicação que, em comunicado, informou:
“A respeito do incêndio ocorrido hoje à tarde em São Paulo, a GloboNews, como um canal de noticias 24 horas, pôs no ar imagens do fogo assim que as captou. Como é normal em canais de notícias, apurou as informações simultaneamente à transmissão das imagens. A primeira informação sobre a causa do incêndio recebida pela Globo News foi a de que um avião teria se chocado com um prédio na região do Campo Belo, Zona Sul de São Paulo. Naquele momento bombeiros e Infraero ainda não tinham informação sobre o ocorrido. As equipes da própria Globo News constataram que não havia ocorrido queda de avião e desde então esclareceu que se tratava de um incêndio em um prédio comercial. Poucos minutos depois o Corpo de Bombeiros confirmou tratar-se de um incêndio em uma loja de colchões.”
Não havia acidente. Nenhum avião havia se chocado com qualquer prédio. Na verdade, tratava-se de um incêndio em loja de colchões no bairro paulistano de Moema.
Há vinte meses
Foi impossível não lembrar de uma outra situação envolvendo o jornalismo das Organizações Globo. Esta última ocorrida em 29 de setembro de 2006, quando um jato Legacy derrubou o Boeing que fazia o vôo Gol 1907, de Manaus para Brasília, matando mais de 150 pessoas.
Naquela época, ao contrário de outras emissoras de TV e sites na internet, a TV Globo demorou a noticiar o acidente que ocorreu antes do Jornal Nacional. Como estávamos às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais de 2006, houve uma grande polêmica em torno do assunto. A Globo sempre alegou que não poderia ter dado a notícia sem primeiro checar os fatos. A emissora temia as eventuais repercussões que uma notícia dessas – não confirmada – poderia causar na vida de milhares de pessoas.
Agora a GloboNews deu a “informação” falsa sobre o “acidente”. Sites e emissoras de rádio reproduziram a “informação” e só depois se deram ao trabalho de checar para ver se era verdadeira. Não era.
Deixo a meu eventual leitor as devidas conclusões sobre a qualidade e a responsabilidade do jornalismo que continua a ser praticado no Brasil.
Depois do telefonema, tomei conhecimento de que o canal GloboNews, da operadora de TV a cabo NET, havia interrompido a transmissão ao vivo de depoimentos na CPI dos cartões para “informar” que um avião da empresa Pantanal acabara de cair sobre um prédio na Zona Sul de São Paulo, próximo ao aeroporto de Congonhas. Durante mais de cinco minutos, a GloboNews mostrou imagens de fumaça sobre a cidade e do incêndio que teria sido provocado pelo choque de um avião com o prédio.
Numa inversão da lógica que tem presidido a análise do fluxo das notícias, quase simultaneamente a GloboNews pautou os principais sites online – UOL, Folha OnLine, Terra, iG, Estadão – que passaram a “informar”, em manchete, sobre a queda do avião e sobre o incêndio. A partir daí, a “informação” passou também a ser transmitida por emissoras de rádio em todo o país.
Aos poucos foram aparecendo os desmentidos: da Infraero, da Pantanal e da própria Central Globo de Comunicação que, em comunicado, informou:
“A respeito do incêndio ocorrido hoje à tarde em São Paulo, a GloboNews, como um canal de noticias 24 horas, pôs no ar imagens do fogo assim que as captou. Como é normal em canais de notícias, apurou as informações simultaneamente à transmissão das imagens. A primeira informação sobre a causa do incêndio recebida pela Globo News foi a de que um avião teria se chocado com um prédio na região do Campo Belo, Zona Sul de São Paulo. Naquele momento bombeiros e Infraero ainda não tinham informação sobre o ocorrido. As equipes da própria Globo News constataram que não havia ocorrido queda de avião e desde então esclareceu que se tratava de um incêndio em um prédio comercial. Poucos minutos depois o Corpo de Bombeiros confirmou tratar-se de um incêndio em uma loja de colchões.”
Não havia acidente. Nenhum avião havia se chocado com qualquer prédio. Na verdade, tratava-se de um incêndio em loja de colchões no bairro paulistano de Moema.
Há vinte meses
Foi impossível não lembrar de uma outra situação envolvendo o jornalismo das Organizações Globo. Esta última ocorrida em 29 de setembro de 2006, quando um jato Legacy derrubou o Boeing que fazia o vôo Gol 1907, de Manaus para Brasília, matando mais de 150 pessoas.
Naquela época, ao contrário de outras emissoras de TV e sites na internet, a TV Globo demorou a noticiar o acidente que ocorreu antes do Jornal Nacional. Como estávamos às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais de 2006, houve uma grande polêmica em torno do assunto. A Globo sempre alegou que não poderia ter dado a notícia sem primeiro checar os fatos. A emissora temia as eventuais repercussões que uma notícia dessas – não confirmada – poderia causar na vida de milhares de pessoas.
Agora a GloboNews deu a “informação” falsa sobre o “acidente”. Sites e emissoras de rádio reproduziram a “informação” e só depois se deram ao trabalho de checar para ver se era verdadeira. Não era.
Deixo a meu eventual leitor as devidas conclusões sobre a qualidade e a responsabilidade do jornalismo que continua a ser praticado no Brasil.
“Barriga, em jornalismo, quer dizer publicar um fato falso, mas sem intenção de enganar o leitor. Uma mancada, informação errada, uma autotraição. Geralmente, o erro cai no ridículo, fica circunscrito aos limites do vexame, mas há casos nos quais a barriga assume dimensões sérias” ( editorial da revista Caros Amigos, edição de novembro de 2004 ).
Vinte de maio de 2008. Esse dia, certamente, entrará para a história da imprensa nativa como a data em que a GloboNews produziu a mais “volumosa barriga” do jornalismo brasileiro. Uma barriga pedagógica, pois modelada por um “q” de qualidade desprovido de qualquer compromisso com a apuração do que é divulgado. Um relato de como se produz o que o telespectador “deve saber”. Um instantâneo de como a ética corporativa trabalha com o conceito de responsabilidade social.
Por volta de 17h, a emissora anunciava que “interrompemos a transmissão da CPI dos Cartões Corporativos para mostrarmos imagens ao vivo de São Paulo. Acaba de chegar a informação de que um avião da empresa aérea Pantanal caiu em cima de um prédio comercial na zona sul de São Paulo”. Ao apontar a Infraero como fonte, foi desmentida de imediato. É tênue a fronteira que separa o fascínio espetacular do lodaçal patético do testemunho desqualificado.
Incentivo à preguiça
Um incêndio em um depósito de colchões, em Campo Belo, bairro de classe média de São Paulo, foi apresentado, durante cinco minutos, como um desastre aéreo. Mostrando imagens de fumaça, a emissora informava que uma aeronave da empresa Pantanal havia caído próximo a Congonhas. Foi o suficiente para que dois portais (IG e Terra), além de emissoras de rádio, no curso do mimetismo midiático, reproduzissem, sem citar fontes, a falsa notícia.
A que atribuir tal açodamento? Ao processo taylorista instalado na dinâmica do campo jornalístico? É possível. Isso é compatível com o modus operandi de uma indústria que concebe a informação como bem simbólico mercantil.
Como checar as informações e publicá-las dentro de um padrão de bom senso e confiabilidade, quando o critério de eficiência é dado pela velocidade da divulgação? Quando o objetivo é furar o concorrente, dando a notícia em primeira mão, direto, ao vivo, instantaneamente? Continuar o bombardeio informativo, em tempo contínuo, dispensa até o profissional qualificado: basta uma testemunha que produza o “efeito do real”. Alguém que já não controle mais o produto final da produção simbólica, visto que dela participa como mero legitimador.
Como destaca Ignacio Ramonet, “o jornalista está literalmente asfixiado, ele desaba sob uma avalanche de dados, de relatórios, de dossiês – mais ou menos interessantes – que o mobilizam, o ocupam, saturam seu tempo e, tal como chamarizes, o distraem do essencial. Por cúmulo, isto incentiva ainda sua preguiça, pois não precisa mais buscar a informação. Ela chega por si mesma a ele.”
“Comunicação grave e triste”
Por certo, a barriga dos repórteres e editores da telinha deve também ser analisada nas próprias condições materiais de produção da informação em “tempo real”. Mas será que isso nos exime de examinar o caráter ideológico e político inerente à atividade jornalística? No caso brasileiro, não cabe falar em um script que está no substrato das coberturas?
Nossa grande imprensa pode ser considerada um serviço público que, de forma isenta, faz a mediação dos “fatos que falam por si”, cabendo ao público o livre discernimento? Ou prevalece a orientação editorial de que há que se preservar a estabilidade democrática salvo o surgimento de “fatos novos e comprometedores”?
Não estaria aí, na perfeita sintonia com o pensamento de quem os emprega, o descuido que levou uma aeronave a colidir com colchões? Interromper uma construção midiática que se mostra sem fôlego (“dossiê”) para reativar outra (“caos aéreo”) nada mais é que estabelecer a agenda que interdita o real debate político. Algo que cai do céu para uma oposição que vive seu vazio programático de forma melancólica.
Terá sido por acaso que, alertado por um assessor, o deputado Antônio Carlos Pannunzio (PSDB-SP) interrompeu a sessão da CPI dos Cartões para, como destaca José Dirceu em seu blog, fazer uma “comunicação bastante grave e muito triste” aos seus pares e lamentar o “caos no tráfego aéreo”? Ou será que o parlamentar tucano, em boa hora, alugou a barriga global?
Arranjos e negócios
Em comunicado sobre o episódio, a Central Globo de Comunicação afirmou que:
“A respeito do incêndio ocorrido hoje à tarde em São Paulo, a GloboNews, como um canal de noticias 24 horas, pôs no ar imagens do fogo assim que as captou. Como é normal em canais de notícias, apurou as informações simultaneamente à transmissão das imagens. A primeira informação sobre a causa do incêndio recebida pela GloboNews foi a de que um avião teria se chocado com um prédio na região do Campo Belo, Zona Sul de São Paulo.
Naquele momento, bombeiros e Infraero ainda não tinham informação sobre o ocorrido. As equipes da própria GloboNews constataram que não havia ocorrido queda de avião e desde então esclareceu que se tratava de um incêndio em um prédio comercial. Poucos minutos depois o Corpo de Bombeiros confirmou tratar-se de um incêndio em uma loja de colchões.”
O portal Imprensa registra que, mesmo após o alto comando das Organizações esclarecer que “embora a GloboNews tenha publicado esta primeira informação, a TV Globo não fez qualquer menção ao possível acidente aéreo”, o engano ainda permanecia em vídeo no site do canal por assinatura, ainda que a informação já estivesse desmentida. Minutos depois, ele foi retirado”.
Diante do naufrágio, a família Marinho fez o que achou mais acertado. Tirou o “q” de qualidade da barriga e seguiu solene para a próxima “exploração de hipótese”. É assim que o monopólio compreende a democracia. Como uma possibilidade de pequenos arranjos e grandes negócios.
***
P.S. – Não foi só um avião imaginário que a barriga da GloboNews derrubou. Cai por terra a tese defendida por jornalistas, em programa recente do Observatório na TV, de que, ao contrário da internet, o noticiário da grande imprensa tem maior confiabilidade por só publicar uma notícia após checar a informação. O “tempo real” já abrange todo o campo jornalístico.
Vinte de maio de 2008. Esse dia, certamente, entrará para a história da imprensa nativa como a data em que a GloboNews produziu a mais “volumosa barriga” do jornalismo brasileiro. Uma barriga pedagógica, pois modelada por um “q” de qualidade desprovido de qualquer compromisso com a apuração do que é divulgado. Um relato de como se produz o que o telespectador “deve saber”. Um instantâneo de como a ética corporativa trabalha com o conceito de responsabilidade social.
Por volta de 17h, a emissora anunciava que “interrompemos a transmissão da CPI dos Cartões Corporativos para mostrarmos imagens ao vivo de São Paulo. Acaba de chegar a informação de que um avião da empresa aérea Pantanal caiu em cima de um prédio comercial na zona sul de São Paulo”. Ao apontar a Infraero como fonte, foi desmentida de imediato. É tênue a fronteira que separa o fascínio espetacular do lodaçal patético do testemunho desqualificado.
Incentivo à preguiça
Um incêndio em um depósito de colchões, em Campo Belo, bairro de classe média de São Paulo, foi apresentado, durante cinco minutos, como um desastre aéreo. Mostrando imagens de fumaça, a emissora informava que uma aeronave da empresa Pantanal havia caído próximo a Congonhas. Foi o suficiente para que dois portais (IG e Terra), além de emissoras de rádio, no curso do mimetismo midiático, reproduzissem, sem citar fontes, a falsa notícia.
A que atribuir tal açodamento? Ao processo taylorista instalado na dinâmica do campo jornalístico? É possível. Isso é compatível com o modus operandi de uma indústria que concebe a informação como bem simbólico mercantil.
Como checar as informações e publicá-las dentro de um padrão de bom senso e confiabilidade, quando o critério de eficiência é dado pela velocidade da divulgação? Quando o objetivo é furar o concorrente, dando a notícia em primeira mão, direto, ao vivo, instantaneamente? Continuar o bombardeio informativo, em tempo contínuo, dispensa até o profissional qualificado: basta uma testemunha que produza o “efeito do real”. Alguém que já não controle mais o produto final da produção simbólica, visto que dela participa como mero legitimador.
Como destaca Ignacio Ramonet, “o jornalista está literalmente asfixiado, ele desaba sob uma avalanche de dados, de relatórios, de dossiês – mais ou menos interessantes – que o mobilizam, o ocupam, saturam seu tempo e, tal como chamarizes, o distraem do essencial. Por cúmulo, isto incentiva ainda sua preguiça, pois não precisa mais buscar a informação. Ela chega por si mesma a ele.”
“Comunicação grave e triste”
Por certo, a barriga dos repórteres e editores da telinha deve também ser analisada nas próprias condições materiais de produção da informação em “tempo real”. Mas será que isso nos exime de examinar o caráter ideológico e político inerente à atividade jornalística? No caso brasileiro, não cabe falar em um script que está no substrato das coberturas?
Nossa grande imprensa pode ser considerada um serviço público que, de forma isenta, faz a mediação dos “fatos que falam por si”, cabendo ao público o livre discernimento? Ou prevalece a orientação editorial de que há que se preservar a estabilidade democrática salvo o surgimento de “fatos novos e comprometedores”?
Não estaria aí, na perfeita sintonia com o pensamento de quem os emprega, o descuido que levou uma aeronave a colidir com colchões? Interromper uma construção midiática que se mostra sem fôlego (“dossiê”) para reativar outra (“caos aéreo”) nada mais é que estabelecer a agenda que interdita o real debate político. Algo que cai do céu para uma oposição que vive seu vazio programático de forma melancólica.
Terá sido por acaso que, alertado por um assessor, o deputado Antônio Carlos Pannunzio (PSDB-SP) interrompeu a sessão da CPI dos Cartões para, como destaca José Dirceu em seu blog, fazer uma “comunicação bastante grave e muito triste” aos seus pares e lamentar o “caos no tráfego aéreo”? Ou será que o parlamentar tucano, em boa hora, alugou a barriga global?
Arranjos e negócios
Em comunicado sobre o episódio, a Central Globo de Comunicação afirmou que:
“A respeito do incêndio ocorrido hoje à tarde em São Paulo, a GloboNews, como um canal de noticias 24 horas, pôs no ar imagens do fogo assim que as captou. Como é normal em canais de notícias, apurou as informações simultaneamente à transmissão das imagens. A primeira informação sobre a causa do incêndio recebida pela GloboNews foi a de que um avião teria se chocado com um prédio na região do Campo Belo, Zona Sul de São Paulo.
Naquele momento, bombeiros e Infraero ainda não tinham informação sobre o ocorrido. As equipes da própria GloboNews constataram que não havia ocorrido queda de avião e desde então esclareceu que se tratava de um incêndio em um prédio comercial. Poucos minutos depois o Corpo de Bombeiros confirmou tratar-se de um incêndio em uma loja de colchões.”
O portal Imprensa registra que, mesmo após o alto comando das Organizações esclarecer que “embora a GloboNews tenha publicado esta primeira informação, a TV Globo não fez qualquer menção ao possível acidente aéreo”, o engano ainda permanecia em vídeo no site do canal por assinatura, ainda que a informação já estivesse desmentida. Minutos depois, ele foi retirado”.
Diante do naufrágio, a família Marinho fez o que achou mais acertado. Tirou o “q” de qualidade da barriga e seguiu solene para a próxima “exploração de hipótese”. É assim que o monopólio compreende a democracia. Como uma possibilidade de pequenos arranjos e grandes negócios.
***
P.S. – Não foi só um avião imaginário que a barriga da GloboNews derrubou. Cai por terra a tese defendida por jornalistas, em programa recente do Observatório na TV, de que, ao contrário da internet, o noticiário da grande imprensa tem maior confiabilidade por só publicar uma notícia após checar a informação. O “tempo real” já abrange todo o campo jornalístico.
A notícia instantânea, que desmancha sem bater
Carlos Brickmann
Na terça-feira (20/5), uma falsa notícia, divulgada por um importante canal de TV, mostrou como anda a imprensa no país: ninguém checou nada e todo mundo pôs no ar. A emissora de TV responsável pela barriga teve a cara-dura de afirmar que, enquanto divulgava as imagens de um incêndio, que teria sido causado pelo choque de um avião de passageiros com um prédio, ia checando a notícia.
Em resumo: divulgar antes, checar depois. E as concorrentes agiram ainda pior: copiaram primeiro, e algumas nem se deram ao trabalho de checar. Foram responsáveis não apenas pelos momentos de terror vividos pela família e pelos amigos dos passageiros daquela companhia, mas também por prejuízos reais à imagem da empresa aérea cujo nome foi citado. E foram responsáveis por atrasos e contratempos sem fim, já que a área mencionada como palco do choque do avião com o prédio é uma das mais movimentadas de São Paulo.
De onde surgiu a história? Ninguém sabe. O que ocorreu de fato foi um incêndio numa loja de móveis e colchões, com muita fumaça preta, muito susto e nenhuma vítima. Quem inventou que havia ali um avião de passageiros? Ninguém sabe, e a emissora que criou a barriga nada informou.
Carlos Brickmann
Na terça-feira (20/5), uma falsa notícia, divulgada por um importante canal de TV, mostrou como anda a imprensa no país: ninguém checou nada e todo mundo pôs no ar. A emissora de TV responsável pela barriga teve a cara-dura de afirmar que, enquanto divulgava as imagens de um incêndio, que teria sido causado pelo choque de um avião de passageiros com um prédio, ia checando a notícia.
Em resumo: divulgar antes, checar depois. E as concorrentes agiram ainda pior: copiaram primeiro, e algumas nem se deram ao trabalho de checar. Foram responsáveis não apenas pelos momentos de terror vividos pela família e pelos amigos dos passageiros daquela companhia, mas também por prejuízos reais à imagem da empresa aérea cujo nome foi citado. E foram responsáveis por atrasos e contratempos sem fim, já que a área mencionada como palco do choque do avião com o prédio é uma das mais movimentadas de São Paulo.
De onde surgiu a história? Ninguém sabe. O que ocorreu de fato foi um incêndio numa loja de móveis e colchões, com muita fumaça preta, muito susto e nenhuma vítima. Quem inventou que havia ali um avião de passageiros? Ninguém sabe, e a emissora que criou a barriga nada informou.
Reproduzido do Direto da Redação, 22/5/2008
Para seguir a mais recente moda no jornalismo, a coluna de hoje será escrita com o revolucionário método do Ctrl + C e Ctrl + V, mais conhecido pelo nome de copia e cola. A começar já pelo título, aí em cima, da “notícia” de 20 de maio de 2008. Ao serviço.
A Globonews, canal pago de notícias da Globo, informou nesta terça-feira que um avião da companhia Pantanal caiu em um prédio comercial da zona sul de São Paulo. A emissora entrou ao vivo com imagens de um incêndio em São Paulo, informando que a causa era a queda de um avião.
“Interrompemos a transmissão”, entrou o locutor da Globo News. “Acaba de chegar a informação de que um avião da empresa aérea Pantanal caiu em cima de um prédio comercial.” A notícia repercutiu em todos os lugares, inclusive nas agências Reuters e France Presse, despachando para o mundo: “Segundo a rede local TV Globo, um avião se chocou com prédio.” Foi parar no britânico Sky News e na CNN, que cortou sua transmissão para o mundo com Breaking News sobre a queda do avião em São Paulo.
Loja de tapetes
Minutos após a notícia da Globonews, a Pantanal divulgou um comunicado negando o fato, que também foi desmentido pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) e pelo Corpo de Bombeiros.
O canal pago, após cerca de cinco minutos de transmissão ao vivo, passou a informar que o incêndio ocorrera em uma fábrica de colchões e que não havia vítimas. A emissora não informou a origem do erro, mas se justificou:
“A respeito do incêndio ocorrido hoje à tarde em São Paulo, a Globo News, como um canal de noticias 24 horas, pôs no ar imagens do fogo assim que as captou. Como é normal em canais de notícias, apurou as informações simultaneamente à transmissão das imagens. A primeira informação sobre a causa do incêndio recebida pela Globo News foi a de que um avião teria se chocado com um prédio na região do Campo Belo, Zona Sul de São Paulo. Naquele momento, bombeiros e Infraero ainda não tinham informação sobre o ocorrido. As equipes da própria Globo News constataram que não havia ocorrido queda de avião e desde então esclareceram que se tratava de um incêndio em um prédio comercial. Poucos minutos depois o Corpo de Bombeiros confirmou tratar-se de um incêndio em uma loja de colchões. Central Globo de Comunicação.”
Em seguida, a notícia sobre o local do incêndio foi mais uma vez reformulada, para a versão final de que se tratava, de fato, de uma loja de tapetes.
Fim do Ctrl + C e Ctrl + V
Suspendemos agora o Ctrl + C e Ctrl +V, para extrair dos fatos três coisas.
Coisa 1: observem a gradação de tamanho dos fenômenos. Primeiro, era um avião a se chocar com um edifício, um prédio – seria a nossa versão de um choque em torres gêmeas? Depois, não era bem um avião, era algo que deixou de existir. Depois, não era um prédio, era uma casa, uma loja de colchões. Depois, ao fim, continuava a ser uma loja (alguma dúvida?), mas de tapetes. Das mil e uma noites, talvez. Dos que voam.
Coisa 2: notem que a GloboNews apurou as informações simultaneamente à transmissão das imagens. Leram bem: apurou! E como havia bem apurado, o locutor, em seu padrão globo de qualidade, via e narrava um avião entre as chamas. Mas naquele momento, bombeiros e Infraero ainda não tinham informação sobre o ocorrido. Incompetentes, os bombeiros e Infraero. A GloboNews tinha. E furou, a realidade.
Coisa 3: a lembrança de Mark Twain. Diante das manchetes que anunciavam o seu falecimento, ele convocou os repórteres e lhes disse. E faço pela última vez o Ctrl+ C e Ctrl + V.: “As suas notícias sobre a minha morte são manifestamente exageradas.”
Fim do Ctrl + C e Ctrl + V. Essa frase é minha.
Para seguir a mais recente moda no jornalismo, a coluna de hoje será escrita com o revolucionário método do Ctrl + C e Ctrl + V, mais conhecido pelo nome de copia e cola. A começar já pelo título, aí em cima, da “notícia” de 20 de maio de 2008. Ao serviço.
A Globonews, canal pago de notícias da Globo, informou nesta terça-feira que um avião da companhia Pantanal caiu em um prédio comercial da zona sul de São Paulo. A emissora entrou ao vivo com imagens de um incêndio em São Paulo, informando que a causa era a queda de um avião.
“Interrompemos a transmissão”, entrou o locutor da Globo News. “Acaba de chegar a informação de que um avião da empresa aérea Pantanal caiu em cima de um prédio comercial.” A notícia repercutiu em todos os lugares, inclusive nas agências Reuters e France Presse, despachando para o mundo: “Segundo a rede local TV Globo, um avião se chocou com prédio.” Foi parar no britânico Sky News e na CNN, que cortou sua transmissão para o mundo com Breaking News sobre a queda do avião em São Paulo.
Loja de tapetes
Minutos após a notícia da Globonews, a Pantanal divulgou um comunicado negando o fato, que também foi desmentido pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) e pelo Corpo de Bombeiros.
O canal pago, após cerca de cinco minutos de transmissão ao vivo, passou a informar que o incêndio ocorrera em uma fábrica de colchões e que não havia vítimas. A emissora não informou a origem do erro, mas se justificou:
“A respeito do incêndio ocorrido hoje à tarde em São Paulo, a Globo News, como um canal de noticias 24 horas, pôs no ar imagens do fogo assim que as captou. Como é normal em canais de notícias, apurou as informações simultaneamente à transmissão das imagens. A primeira informação sobre a causa do incêndio recebida pela Globo News foi a de que um avião teria se chocado com um prédio na região do Campo Belo, Zona Sul de São Paulo. Naquele momento, bombeiros e Infraero ainda não tinham informação sobre o ocorrido. As equipes da própria Globo News constataram que não havia ocorrido queda de avião e desde então esclareceram que se tratava de um incêndio em um prédio comercial. Poucos minutos depois o Corpo de Bombeiros confirmou tratar-se de um incêndio em uma loja de colchões. Central Globo de Comunicação.”
Em seguida, a notícia sobre o local do incêndio foi mais uma vez reformulada, para a versão final de que se tratava, de fato, de uma loja de tapetes.
Fim do Ctrl + C e Ctrl + V
Suspendemos agora o Ctrl + C e Ctrl +V, para extrair dos fatos três coisas.
Coisa 1: observem a gradação de tamanho dos fenômenos. Primeiro, era um avião a se chocar com um edifício, um prédio – seria a nossa versão de um choque em torres gêmeas? Depois, não era bem um avião, era algo que deixou de existir. Depois, não era um prédio, era uma casa, uma loja de colchões. Depois, ao fim, continuava a ser uma loja (alguma dúvida?), mas de tapetes. Das mil e uma noites, talvez. Dos que voam.
Coisa 2: notem que a GloboNews apurou as informações simultaneamente à transmissão das imagens. Leram bem: apurou! E como havia bem apurado, o locutor, em seu padrão globo de qualidade, via e narrava um avião entre as chamas. Mas naquele momento, bombeiros e Infraero ainda não tinham informação sobre o ocorrido. Incompetentes, os bombeiros e Infraero. A GloboNews tinha. E furou, a realidade.
Coisa 3: a lembrança de Mark Twain. Diante das manchetes que anunciavam o seu falecimento, ele convocou os repórteres e lhes disse. E faço pela última vez o Ctrl+ C e Ctrl + V.: “As suas notícias sobre a minha morte são manifestamente exageradas.”
Fim do Ctrl + C e Ctrl + V. Essa frase é minha.
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27.05.08

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