Antes de tudo, convém informar, aos mais avoados, que a SPTrans [ que acolhe queixas e ( tá bom! ) elogios, além de sugestões sobre o serviço de ônibus na capital paulista ] não atende mais no 156. Se ligar para essa central, digitará as opções oferecidas e, depois, só depois, é que te dirão para contatar o 0800 da companhia. Você já estará desistindo, claro. Será intencional? A propósito: num daqueles milagres que só acontecem de dois em dois anos e, geralmente, em Setembro e Outubro, o 156 tá atendendo legal. Agora, nosso conto maldito do mês:
- SPTrans boa noite, em que posso ajudá-lo?
- É o seguinte: eu gostaria de fazer uma reclamação?
- Do que se trata?
- Bom, deixa eu ver se consigo explicar: na sexta-feira, eu aguardava o ônibus da linha 666P no Ipiranga, sentido Small River, lá pelas 13:50 ( mais ou menos ); o ônibus estava demorando muito; ele veio, a gente embarcou e a viagem começou. A certa altura do trajeto, eu meio que percebi que o veículo ia devagar, só que mais devagar que o recomendável. Parecia que o motorista estava muito tranquilo; alguns passageiros começaram a olhar toda hora no relógio, meio se impacientando. E a gente ia e não chegava.
- Sim…
- Aí, seguiamos pela avenida Ricardo Chafé e, quando estávamos nos aproximando de uma rua que dá acesso à avenida Bosque do Ataúde, um ônibus que faz a mesma linha emparelhou com o nosso…
- Sim…
- E aí a gente fica naquelas: o ônibus já tinha demorado pacas, e quando vem, o motorista guia parecendo que dirige um cágado. Aí não dava para saber direito se o ônibus que nos alcançou saiu logo depois que esse que nós pegamos, ou se nosso motorista enrolou tanto que esse outro carro conseguiu nos alcançar.
- E o senhor quer reclamar da demora, ou da velocidade, ou do quê?
- Calma. É que eu tô repassando o que ocorreu. Eu anotei os números dos dois veículos na memória, que eu não tinha caneta e papel; quando desembarquei e cheguei em meu destino, já anotei para não esquecer; só que eu não encontrava essa anotação, só fui achar hoje, dois dias depois.
- O que eu quero saber é se a empresa fica segurando o busão e depois libera dois em seqüência, ou o quê? E o motorista vinha muito devagar. Aí, quando entramos no Bosque do Ataúde, o outro ficou para trás. Uma mulher no ponto deu sinal para o nosso, e o motorista apontou para trás, com o polegar, tipo “vem um atrás…”; quando chegamos na Traça da Árvore, fomos ultrapassados,voltamos a ficar na frente, aí eu desci e não sei mais o que deu.
- Tá. O senhor tem cadastro na SPTrans?
- Sim, meu nome é Servílio Gentil Lavapés.
- Qual o telefone?
- Deixa eu ver… 63… ah não, mudou o prefixo: é 2345-0000.
- O endereço permanece Rua Doutor Sócrates…?
- … Isso, esse mesmo!
- Qual o prefixo do ônibus do qual deseja fazer a reclamação?
- São dois, né? O que estávamos e o que veio logo a seguir. Para referência…
- Pode falar…
- Então, foi mais ou menos às 13:50 de sexta-feira, no único ponto da rua Pavor, no Ipiranga. O ônibus em que eu estava era o 23225 e o de trás era o 23221.
- Sim, só um minuto, por favor ( … ) só um minuto, por favor ( … ) só mais um minuto, por favor…
- Tá, tudo bem.
- Senhor Servílio, há um problema: em nosso cadastro não consta o veículo de prefixo 23225…
- O quê?! Ixiii… então tenta o outro, o 23221.
- Só mais um minuto ( … ) Senhor Servílio, tem certeza? Com o número 23221 também não consta em nossos cadastros.
- Mas será!? ( olhando as anotações; olhando de novo; e de novo ) Mas tá aqui: 23225…23221… Olha, tenta 22235 e 22231!!
- Só mais um minuto, por favor… ( tempinho ) Sim, senhor, esses dois existem…
- Então eu devo ter me enganado. Acho que alterei as dezenas… Dá para fazer?
- Sinto muito, senhor Servílio, mas não podemos dar continuidade à sua reclamação. Vai constar que o cliente não tem certeza do número.
- Mas, viu, será possível que estes carros estejam circulando, sem registros e coisa e tal?
- Olha senhor, não dá, porque no sistema esse tipo de coisa não pode… as coisas não são assim.
- ( Se irritando ) É, só que diziam a mesma coisa daquela Viação Tiradentes ou sei-lá-qual, toda irregular. Os caras fecham a empresa, e depois abrem outra – os mesmos caras – e voltam a operar. Não é isso?
- Olhe, senhor Servílio, quanto a isso não dá para falar, mas é que é assim mesmo.
- ( Compreensivo ) É cê tem razão… Olha, viu, eu vou tentar me informar melhor e eu ainda volto a ligar, tá bom?
- Sim senhor. Mais alguma coisa?
- Não, obrigado. Por enquanto é só.
- A São Paulo Transportes agradece e tenha uma boa noite.
- Obrigado, igualmente.
Passam se algumas dezenas de minutos ( meia hora, mais ou menos ) , nosso amigo Servílio desencana e, de repente, um busão passa por seu campo de visão. Sim, é o que você imaginou: 23225!!! Rapidamente, o bom Servílio cata o telefone e liga novamente para a SPTrans:
- SPTrans, boa noite em que posso ajudá-lo?
- Olha, vai parecer meio estranho, mas eu liguei há cerca de meia hora praí, e ocorreu o seguinte… ( e conta toda a história, que vocês já sabem )… só que – incrível! – eu ACABEI de ver o carro!! Ele existe!! A moça disse que não, mas eu vi! Acabou de passar na minha frente!
- Senhor, eu não posso falar sobre o que a outra atendente disse, mas o senhor quer refazer a reclamação?
- Sim, OPA! Anota o número do ônibus: 23225!
- Um minuto, por favor…
- Tá.
- Senhor, o número é esse mesmo?
- É. Por quê?
- É que não consta mesmo em nosso cadastro…
- Quê?! Tenta o 23221.
- Mmm… Olha seu Servílio, só um minuto…
( “Mas eu não disse meu nome…!?”, pensa. )
- Olha senhor Servílio…
- Mas eu não disse meu nome!
- Olha, SENHOR, esse número também não existe.
- Mas eu falei para você, eu acabei de ver o busão!
- Sim. Mas o senhor tem a placa?
- Não, eu mal consegui anotar o prefixo. Eu não tinha nem papel, foi de memória. Não dá para achar pelo horário?
Ela solta uma longa explicação sobre a impossibilidade de localizar o veículo pelo roteiro, número da linha e horários. São dados imprecisos e insuficientes, sabe? Com essa capacidade sherlockiana de seguir pistas e informações, a pessoa que desenvolveu esse sistema pode trabalhar na vEJA, no jornalismo investigativo minucioso que, como sabemos, só a vEJA sabe fazer.
- Senhor Servílio, se o senhor tivesse o número da placa…
- Olha, eu não sabia que era necessário puxar isso também. Por quê não dizem: “Não anote o prefixo, que não serve de nada: vejam a placa” , que daí o peão já sabe como proceder?
- É que, com a placa…
- ( cortando ): Olha, eu nem imaginava que ia ter esses problemas, quanto mais andar poraí, com bloco de rascunho e caneta, só para ficar fiscalizando os ônibus. Não é meu papel. E nem ia dar conta, pra falar a verdade.
- Sim, mas é que… Sabe, é capaz dos veículos serem novos, e já liberados pelo Detran. Aí, nós teríamos a placa registrada. Só que a companhia pode ter demorado para mandar o cadastro com o prefixo. Então, nós só teríamos como localizar pela placa.
- Mas é disso que eu tou falando: eu não conheço o sistema de vocês. A empresa de ônibus recebe pelo prefixo cadastrado na SPTrans ou pelo registro no Detran? Porque, se for pela placa, para que, então dar-lhes prefixos que em nada servirão? Não é meio furado? E outra: jamais ouvi falar disso, que o cidadão lesado tem que ficar esperto e observar principalmente o plaqueamento dos ônibus que nos causam transtornos, já que os veículos podem ser novos ( não é muito comum, claro ) e podem não valem seus prefixos decorativos. Não acho que os passageiros saibam disso ( não que eles liguem, claro ). Bom, deixa para lá. Eu vou ficar de olho, pro caso de ver esses carros novamente, daí eu anoto as placas e volto a ligar ( Mentira: acabou desistindo ) , tá bom?
- Mais alguma coisa em que possa ajudá-lo?
- Não, não tem mais nada ( Mentira: ia reclamar também que, nesse mesmo dia, quando ia para seu destino, pegou o busão da linha irônicamente chamada “Paraíso”, o 666T, onde umas 5 pessoas no fundão ouviam música em alto volume, que dava para ouvir lá da frente e muito bem, além de cantarem junto e baterem palmas; Servílio ia argumentar com a atendente que, talvez, o motorista pudesse ter parado ao lado do posto policial que há no trajeto. Afinal, como se cria uma lei, mas não se diz a quem será dado o dever de fazer cumprí-la? Mas desistiu desta queixa, também ), obrigado.
- SPTrans agradece sua ligação, e tenha uma boa noite.
- Obrigado, igualmente.
Servílio olhou para suas anotações dobrou e guardou, que é para o caso de, um dia, se deparar novamente com os ônibus fantasmas que sua imaginação diz existirem. Será que são os consultores irmãos do Kassab aqueles que dão essas idéias para os formuladores do transporte público coletivo paulistano?