ENCALHE

julho 10, 2009

Os reconhecimentos a FHC

EMIR SADER (*)
Que cada um expresse aqui o reconhecimento que FHC pede.
Felizmente para a oposição, FHC não se contém, não consegue recolher-se ao fim de carreira intelectual e política melancólicos que ele merece. E cada vez que fala, o apoio ao governo e a Lula aumentam.
Agora reaparece para reclamar que não se lhe dá os reconhecimentos que ele julga merecer. Carente de apoio popular, ele vai receber aqui os reconhecimentos que conquistou.
Em primeiro lugar, o reconhecimento das elites dominantes brasileiras por ter usado sua imagem para implementar o neoliberalismo no Brasil. Por ter afirmado que ia “virar a página do getulismo”. Por ter, do alto da sua suposta sapiência, dito a milhões de brasileiros que eles são “inimpregáveis”, que ele assim não governava para eles, que não tinham lugar no país que o tinha elegido e para quem ele governava.
O reconhecimento por ter dito que “A globalização é o novo Renascimento da humanidade”, embasbacado, deslumbrado com o neoliberalismo.
O reconhecimento por ter quebrado o país por três vezes, elevado a taxa de juros a 48%, assinado cartas de intenção com o FMI, que consolidaram a subordinação do Brasil ao capital financeiro internacional.
O reconhecimento dos EUA por ter feito o Brasil ser completado subordinado às políticas de Washington, por ter preparado o caminho para a Alca, para o grande Tratado de Livre Comércio, que queria reduzir o continente a um imenso shopping Center.
O reconhecimento a FHC por ter promovido a mais prolongada recessão que o Brasil enfrentou.
O reconhecimento a FHC por ter desmontado o Estado brasileiro, tanto quanto ele pôde. Privatizou tudo o que pôde. Entregou para os grandes capitais privados a Vale do Rio Doce e outros grandes patrimônios do povo brasileiro. Por isso ele é adorado pelas elites antinacionais, por isso montaram uma fundação para ele exercer seu narcisismo, nos jardins de São Paulo, chiquérrimo, com o dinheiro que puderam ganhar das negociatas propiciadas pelo governo FHC.
FHC será sempre reconhecido pelo povo brasileiro, que tem nele a melhor expressão do anti-Brasil, de tudo o que o povo detesta, ele serve para que se tome consciência clara do que o povo não quer, do que o Brasil não deve ser.
(*) Do Blog do Emir, na Carta Maior.
( Texto publicado em Hora do Povo )

abril 10, 2009

"Estado balofo-esquálido" brasileiro gasta em folha de pagamento a METADE DO TETO estabelecido na Lei de Responsabilidade Fiscal. E há quem ache muito

O PAPEL DO ESTADO
A ATUAÇÃO do Estado na geração de empregos, inclusive na esfera pública, é de fundamental importância para o enfrentamento de crises como a atual. Os governos precisam incentivar os investidores e, também, sempre que tiverem recursos para isso, promover suas próprias contrataçãoes, ainda mais se forem para substituir trabalhadores precarizados, como terceirizados, temporários e falsos cooperativados, que muitas vezes vão de encontro à lei.
O Governo Federal vem fazendo a sua parte, ainda timidamente, é verdade, reduzindo impostos nas áreas automobilística e de construção civil, e dispõe de folga para contratações, necessárias independente da crise. Como apurou o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas ( Ipea ), o Brasil fica atrás de países como Estados Unidos, Espanha, Alemanha, Áustria, Dinamarca, Finlândia e Suécia.
O Ipea defende que este é o momento para discutir o papel que pode assumir o emprego público na sociedade brasileira e destaca haver espaço para criação de ocupações emergenciais temporárias.
Pela análise da Controladoria Geral da União, existe mesmo essa folga, pois, apesar do propalado “inchaço”, a folha de pagamento do ano passado equivaleu a 21,87% da receita corrente líquida, quando a Lei de Responsabilidade Fiscal estabelece teto de 40,9% [ ver a notícia seguinte ].
É preciso combater a crise com investimentos, fazendo com que o Estado aumente sua presença e tenha, de fato, força. O Estado mínimo é presa fácil dos contratempos cotidianos.
Editorial, FOLHA DIRIGIDA
Edição 1199, 13 a 19.04.09
Vejam como os portais dão a informação de que a folha de pagamento do governo ainda está MUITO aquém daquilo que a Lei de Responsabilidade Fiscal permite. Saca só como a informação vem truncada, a começar do título sacana e mal intencionado:
Gasto com salário de servidores do governo federal sobe mais de 56% em quatro anos [ Socorrooo!! ]
UOL Notícias*
Em São Paulo
As despesas com folha de pagamento de servidores do Poder Executivo Federal aumentaram 56,6% entre 2004 e 2008. Segundo informações que integram a Prestação de Contas do Presidente da República, divulgada pela CGU (Controladoria-Geral da União), o valor gasto com pessoal era R$ 59,8 bilhões em 2004 e chegou a R$ 93,7 bilhões no ano passado. Entretanto, ainda de acordo com a CGU, o valor não ultrapassa o limite de 40,9% da Receita Líquida Corrente (RCL), número estabelecido pela legislação brasileira. Em 2008, o total gasto com servidores alcançou 21,87% da RCL, que foi de R$ 428,5 bilhões. Os gastos com saúde foram de R$ 48,7 bilhões – crescimento nominal de 9,9% em relação a 2007 (R$ 44,3 bilhões). No setor de educação, o percentual passou de 18,4%, em 2007, para 18,9% da arrecadação líquida com impostos. A Constituição determina valores mínimos de aplicação de recursos para as duas áreas. No caso da saúde, deve ser o valor do ano anterior somado à variação nominal do Produto Interno Bruto (PIB). Na educação, não pode ser menor do que 18% da receita com impostos. A prestação de contas reúne informações de diversos órgãos e entidades do Poder Executivo e são consolidadas pela CGU. Ela é dividida em duas partes: o Relatório da Atuação Governamental e o Balanço Geral da União. O primeiro traz, entre outras atuações do governo, os resultados alcançados com os programas de cunho social, as ações do PAC ( Programa de Aceleração do Crescimento ), além de ações classificadas como prioritárias na Lei de Diretrizes Orçamentárias e em cada órgão federal. O Balanço Geral da União, organizado pela Secretaria do Tesouro Nacional – vinculada ao Ministério da Fazenda – contempla a execução e a análise dos Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social. Estes dados são extraídos principalmente do Siafi (Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal).A prestação de contas foi enviada ontem à Casa Civil e deve ser encaminhada ao Congresso Nacional até o próximo dia 2, onde será analisada.
31.03.09
* Com informações da Agência Brasil
BÔNUS
A desconstrução de uma mentira
MAURÍCIO DIAS
Um estudo do Ipea divulgado há duas semanas – Emprego Público no Brasil: comparação internacional e evolução recente – é um trabalho fundamental para desconstruir a mentira de que o Estado brasileiro é inchado pelo número de servidores e grande demais para as necessidades do País. O levantamento do Ipea prova o contrário. A participação do emprego público é pequena. O porcentual de servidores em relação à população ocupada não chega a 11% e não alcança 6%, se for considerada a população total do País. Isso fica claro quando a comparação é feita com estruturas estatais de países mais ricos da Europa ou mesmo com os Estados Unidos, levando-se em conta a relação de servidores públicos com população ocupada. Dinamarca (39,3%) e Suécia (33%) encabeçam a lista. O porcentual elevado se explicaria pela existência da política de Bem-Estar Social que exige, para execução, mão de obra do setor público. Mas essa especificidade não se aplica a países “altamente privatistas”, como Estados Unidos (14,9%) e Canadá (19,9%), e a nações europeias como França (14,4%) e Espanha (15%), entre outros. Todos com porcentual maior do que os 11% do Brasil. O tamanho do Estado brasileiro, pelo mesmo parâmetro, comparado com os países da América Latina, também é modesto. Está bem abaixo de Panamá (17,8%), Uruguai (16,3%) e Argentina (16,2%), e um pouco acima do Chile (10,5%). Durante oito anos, o presidente Fernando Henrique Cardoso foi o arauto da luta contra o Estado brasileiro. Ao assumir o poder, anunciou o fim da Era Vargas. Não por acaso, Getúlio Vargas foi o governante que montou as bases do Estado moderno. Nada ocorria por acaso. Ao discurso antiestatal sucedeu o programa de privatização. Os dois governos de FHC deixaram marcas rastreadas pelo Ipea: “A mudança mais expressiva deu-se pela redução do peso de certas parcelas da administração indireta, como as companhias estatais (que incluem empresas públicas e também sociedades de economia mista), cujo peso caiu de quase 10% em 2002 para 8,4% em 2007, depois de ter sofrido quedas mais acentuadas ainda nos anos 1990, por causa das privatizações”.
Os beatos dessa procissão privatista entoavam a ladainha do inchaço do Estado brasileiro. Havia contrapontos, mas não eram considerados. É o caso do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, que, em 2006, quando os efeitos do discurso contra o Estado ainda eram predominantes, lançou o livro O Ex-Leviatã Brasileiro, desmascarando as “pistas falsas” do debate incentivado pelos tucanos e mesmo de alguns petistas conversos ao leilão do Estado brasileiro. A pergunta lançada por Wanderley Guilherme naquela ocasião e repetida agora não é dirigida ao tamanho das burocracias dos países ricos, mas porque a do Brasil é reduzida. Ele explica: “O Estado brasileiro foi constituído assim para atender uma sociedade oligárquica que, portanto, não estava a fim de Estado, exceto no que diz respeito ao comércio exterior”.
Segundo ele, só a partir de 1950 as contas públicas começaram a se tornar mais complexas e, ainda assim, “as iniciativas eram tomadas pontualmente, crescendo um pedaço aqui, ficando mirradas ali e, sem dúvida, mantendo sempre as características de distribuição de empregos inúteis: ascensoristas, motoristas e outros”. “Atualmente o Estado não está aparelhado para responder com velocidade e coerência às demandas de uma sociedade industrial urbana que fez, em larga medida, a reforma capitalista do campo”, adverte.
A crise financeira resgatou e fortaleceu o papel do Estado, uma obra iniciada por Getúlio Vargas, que, felizmente, resistiu parcialmente ao desmonte parcial efetuado pelos tucanos.
( CARTA CAPITAL, 09/04/2009 )
VOCÊ DEVE LER:
O BRASIL PRIVATIZADO – Aloysio Biondi
A ECONOMIA COMO ELA É – Paulo Nogueira Batista Jr.
SUA EXCELÊNCIA ROBERT RUBIN, PRESIDENTE DO BRASIL – Greg Palast
O CONSENSO DE WASHINGTON – Paulo Nogueira Batista – 1994

fevereiro 3, 2009

"O país segue nas mãos dos liberais", por Carlos Lessa

Filed under: Carlos Lessa, crise econômica mundial, Estado, neoliberalismo — Humberto @ 1:39 am
Carlos Lessa: o país segue nas mãos dos liberais
Para o economista e ex-presidente do BNDES, a crise nasceu da ilusão de que todos poderiam ficar ricos a partir da aplicação em papéis
Vivemos um momento curioso: até os neoliberais mais convictos mudam o discurso e passam a aceitar a intervenção do Estado, enquanto países tentam conter a falta de crédito e evitar o agravamento da queda no consumo e na produção. A crise mostrou a cara. Mas que crise é essa? Qual é sua genética, para onde nos leva? Nos EUA, o governo disponibiliza verdadeiras fortunas para que bancos e empresas contornem a crise, mas todo esse dinheiro ainda não é suficiente para resolver a crise atual. O que tornou esse dragão devorador de capitais tão grande?
A crise é conseqüência da valorização de ativos construída como castelo de cartas, com base na dívida primária dos Estados Unidos, a dívida das famílias americanas. Sobre ela foram adicionadas camadas em formas de fundos, derivativos etc. A cola era a venda da ilusão, pelos neoliberais, de que todos poderiam ficar ricos, a partir da aplicação em papéis. Pessoas comuns foram convencidas a se endividar, dando imóveis como hipoteca, e a aplicar em fundos. Há estimativas – embora ninguém tenha como afirmar, já que o limite para empilhar cartas é apenas a confiança – de que os derivativos, principalmente de bancos de investimentos dos EUA, chegaram a US$ 640 trilhões. A cifra assusta mais se comparada ao PIB mundial, na casa dos US$ 60 trilhões.
E quando o castelo começa a desmoronar? Quando bancos fazem empréstimos a credores pouco confiáveis ou pouco estáveis. Esses empréstimos sem lastro – subprimes – levaram ao endividamento acentuado das famílias, impactando a economia com atrasos de pagamentos, retração do consumo e, é claro, corroendo confiança. A base do castelo começa a queimar e as camadas superiores vão ruindo.
No arrastão, bancos e bolsas provocam uma corrida pela liquidez, levando à queda abrupta das ações, à valorização do dólar e ao sumiço do crédito. Sem crédito, não há financiamento da produção e do consumo, as vendas caem, as fábricas produzem menos e demitem. O efeito pode ser sentido em países importantes, além dos EUA: Alemanha, Itália e Espanha estão em recessão declarada. A China prevê crescer menos. Isso traz expectativa de queda nas trocas internacionais, nos preços dos produtos, principalmente os primários, redução das cotações de ações, menos produção e mais desemprego.
Mas a genealogia da crise abriga uma questão muito anterior ao endividamento das famílias. É conseqüência de um sistema, o da hegemonia norte-americana com o dólar como padrão mundial – e os americanos vão resistir à mudança do modelo, pois poderia comprometer sua hegemonia. E só haverá solução com a mudança desse padrão, independentemente de se falar em ação do Estado. A direita, que está por trás desse grande desastre neoliberal, controla as estruturas de poder e econômicas. Sabe usar e sempre usa o Estado. Usará novamente.
No Brasil, diaante dos juros altos, empresas foram buscar financiamento fora, e o crédito secou para elas também. Mas se há um lado positivo desta crise é que, ao contrário das anteriores, não será enfrentada via guerra mundial, e pode propiciar uma nova cobrança e novo tipo de colaboração entre os países. Abre-se espaço para que alguns países possam afirmar projetos nacionais. E o Brasil aparece como um dos mais habilitados a isso. O problema é que nossas elites econômicas e nosso governo, que controlam os aparelhos do Estado, não fazem nada para isso. O Estado segue nas mãos da direita e dos liberais.
A única saída reside numa decisão crucial do Estado brasileiro: defender suas reservas, de US$ 207 bilhões. Sem elas, o país quebra. Só não estou seguro de que o presidente do Banco Central esteja preparado ou mesmo interessado em defendê-las da fogueira internacional.
AMANHÃ, 02.02.09

"O país segue nas mãos dos liberais", por Carlos Lessa

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Carlos Lessa: o país segue nas mãos dos liberais
Para o economista e ex-presidente do BNDES, a crise nasceu da ilusão de que todos poderiam ficar ricos a partir da aplicação em papéis
Vivemos um momento curioso: até os neoliberais mais convictos mudam o discurso e passam a aceitar a intervenção do Estado, enquanto países tentam conter a falta de crédito e evitar o agravamento da queda no consumo e na produção. A crise mostrou a cara. Mas que crise é essa? Qual é sua genética, para onde nos leva? Nos EUA, o governo disponibiliza verdadeiras fortunas para que bancos e empresas contornem a crise, mas todo esse dinheiro ainda não é suficiente para resolver a crise atual. O que tornou esse dragão devorador de capitais tão grande?
A crise é conseqüência da valorização de ativos construída como castelo de cartas, com base na dívida primária dos Estados Unidos, a dívida das famílias americanas. Sobre ela foram adicionadas camadas em formas de fundos, derivativos etc. A cola era a venda da ilusão, pelos neoliberais, de que todos poderiam ficar ricos, a partir da aplicação em papéis. Pessoas comuns foram convencidas a se endividar, dando imóveis como hipoteca, e a aplicar em fundos. Há estimativas – embora ninguém tenha como afirmar, já que o limite para empilhar cartas é apenas a confiança – de que os derivativos, principalmente de bancos de investimentos dos EUA, chegaram a US$ 640 trilhões. A cifra assusta mais se comparada ao PIB mundial, na casa dos US$ 60 trilhões.
E quando o castelo começa a desmoronar? Quando bancos fazem empréstimos a credores pouco confiáveis ou pouco estáveis. Esses empréstimos sem lastro – subprimes – levaram ao endividamento acentuado das famílias, impactando a economia com atrasos de pagamentos, retração do consumo e, é claro, corroendo confiança. A base do castelo começa a queimar e as camadas superiores vão ruindo.
No arrastão, bancos e bolsas provocam uma corrida pela liquidez, levando à queda abrupta das ações, à valorização do dólar e ao sumiço do crédito. Sem crédito, não há financiamento da produção e do consumo, as vendas caem, as fábricas produzem menos e demitem. O efeito pode ser sentido em países importantes, além dos EUA: Alemanha, Itália e Espanha estão em recessão declarada. A China prevê crescer menos. Isso traz expectativa de queda nas trocas internacionais, nos preços dos produtos, principalmente os primários, redução das cotações de ações, menos produção e mais desemprego.
Mas a genealogia da crise abriga uma questão muito anterior ao endividamento das famílias. É conseqüência de um sistema, o da hegemonia norte-americana com o dólar como padrão mundial – e os americanos vão resistir à mudança do modelo, pois poderia comprometer sua hegemonia. E só haverá solução com a mudança desse padrão, independentemente de se falar em ação do Estado. A direita, que está por trás desse grande desastre neoliberal, controla as estruturas de poder e econômicas. Sabe usar e sempre usa o Estado. Usará novamente.
No Brasil, diaante dos juros altos, empresas foram buscar financiamento fora, e o crédito secou para elas também. Mas se há um lado positivo desta crise é que, ao contrário das anteriores, não será enfrentada via guerra mundial, e pode propiciar uma nova cobrança e novo tipo de colaboração entre os países. Abre-se espaço para que alguns países possam afirmar projetos nacionais. E o Brasil aparece como um dos mais habilitados a isso. O problema é que nossas elites econômicas e nosso governo, que controlam os aparelhos do Estado, não fazem nada para isso. O Estado segue nas mãos da direita e dos liberais.
A única saída reside numa decisão crucial do Estado brasileiro: defender suas reservas, de US$ 207 bilhões. Sem elas, o país quebra. Só não estou seguro de que o presidente do Banco Central esteja preparado ou mesmo interessado em defendê-las da fogueira internacional.
AMANHÃ, 02.02.09

"O país segue nas mãos dos liberais", por Carlos Lessa

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Carlos Lessa: o país segue nas mãos dos liberais
Para o economista e ex-presidente do BNDES, a crise nasceu da ilusão de que todos poderiam ficar ricos a partir da aplicação em papéis
Vivemos um momento curioso: até os neoliberais mais convictos mudam o discurso e passam a aceitar a intervenção do Estado, enquanto países tentam conter a falta de crédito e evitar o agravamento da queda no consumo e na produção. A crise mostrou a cara. Mas que crise é essa? Qual é sua genética, para onde nos leva? Nos EUA, o governo disponibiliza verdadeiras fortunas para que bancos e empresas contornem a crise, mas todo esse dinheiro ainda não é suficiente para resolver a crise atual. O que tornou esse dragão devorador de capitais tão grande?
A crise é conseqüência da valorização de ativos construída como castelo de cartas, com base na dívida primária dos Estados Unidos, a dívida das famílias americanas. Sobre ela foram adicionadas camadas em formas de fundos, derivativos etc. A cola era a venda da ilusão, pelos neoliberais, de que todos poderiam ficar ricos, a partir da aplicação em papéis. Pessoas comuns foram convencidas a se endividar, dando imóveis como hipoteca, e a aplicar em fundos. Há estimativas – embora ninguém tenha como afirmar, já que o limite para empilhar cartas é apenas a confiança – de que os derivativos, principalmente de bancos de investimentos dos EUA, chegaram a US$ 640 trilhões. A cifra assusta mais se comparada ao PIB mundial, na casa dos US$ 60 trilhões.
E quando o castelo começa a desmoronar? Quando bancos fazem empréstimos a credores pouco confiáveis ou pouco estáveis. Esses empréstimos sem lastro – subprimes – levaram ao endividamento acentuado das famílias, impactando a economia com atrasos de pagamentos, retração do consumo e, é claro, corroendo confiança. A base do castelo começa a queimar e as camadas superiores vão ruindo.
No arrastão, bancos e bolsas provocam uma corrida pela liquidez, levando à queda abrupta das ações, à valorização do dólar e ao sumiço do crédito. Sem crédito, não há financiamento da produção e do consumo, as vendas caem, as fábricas produzem menos e demitem. O efeito pode ser sentido em países importantes, além dos EUA: Alemanha, Itália e Espanha estão em recessão declarada. A China prevê crescer menos. Isso traz expectativa de queda nas trocas internacionais, nos preços dos produtos, principalmente os primários, redução das cotações de ações, menos produção e mais desemprego.
Mas a genealogia da crise abriga uma questão muito anterior ao endividamento das famílias. É conseqüência de um sistema, o da hegemonia norte-americana com o dólar como padrão mundial – e os americanos vão resistir à mudança do modelo, pois poderia comprometer sua hegemonia. E só haverá solução com a mudança desse padrão, independentemente de se falar em ação do Estado. A direita, que está por trás desse grande desastre neoliberal, controla as estruturas de poder e econômicas. Sabe usar e sempre usa o Estado. Usará novamente.
No Brasil, diaante dos juros altos, empresas foram buscar financiamento fora, e o crédito secou para elas também. Mas se há um lado positivo desta crise é que, ao contrário das anteriores, não será enfrentada via guerra mundial, e pode propiciar uma nova cobrança e novo tipo de colaboração entre os países. Abre-se espaço para que alguns países possam afirmar projetos nacionais. E o Brasil aparece como um dos mais habilitados a isso. O problema é que nossas elites econômicas e nosso governo, que controlam os aparelhos do Estado, não fazem nada para isso. O Estado segue nas mãos da direita e dos liberais.
A única saída reside numa decisão crucial do Estado brasileiro: defender suas reservas, de US$ 207 bilhões. Sem elas, o país quebra. Só não estou seguro de que o presidente do Banco Central esteja preparado ou mesmo interessado em defendê-las da fogueira internacional.
AMANHÃ, 02.02.09

"O país segue nas mãos dos liberais", por Carlos Lessa

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Carlos Lessa: o país segue nas mãos dos liberais
Para o economista e ex-presidente do BNDES, a crise nasceu da ilusão de que todos poderiam ficar ricos a partir da aplicação em papéis
Vivemos um momento curioso: até os neoliberais mais convictos mudam o discurso e passam a aceitar a intervenção do Estado, enquanto países tentam conter a falta de crédito e evitar o agravamento da queda no consumo e na produção. A crise mostrou a cara. Mas que crise é essa? Qual é sua genética, para onde nos leva? Nos EUA, o governo disponibiliza verdadeiras fortunas para que bancos e empresas contornem a crise, mas todo esse dinheiro ainda não é suficiente para resolver a crise atual. O que tornou esse dragão devorador de capitais tão grande?
A crise é conseqüência da valorização de ativos construída como castelo de cartas, com base na dívida primária dos Estados Unidos, a dívida das famílias americanas. Sobre ela foram adicionadas camadas em formas de fundos, derivativos etc. A cola era a venda da ilusão, pelos neoliberais, de que todos poderiam ficar ricos, a partir da aplicação em papéis. Pessoas comuns foram convencidas a se endividar, dando imóveis como hipoteca, e a aplicar em fundos. Há estimativas – embora ninguém tenha como afirmar, já que o limite para empilhar cartas é apenas a confiança – de que os derivativos, principalmente de bancos de investimentos dos EUA, chegaram a US$ 640 trilhões. A cifra assusta mais se comparada ao PIB mundial, na casa dos US$ 60 trilhões.
E quando o castelo começa a desmoronar? Quando bancos fazem empréstimos a credores pouco confiáveis ou pouco estáveis. Esses empréstimos sem lastro – subprimes – levaram ao endividamento acentuado das famílias, impactando a economia com atrasos de pagamentos, retração do consumo e, é claro, corroendo confiança. A base do castelo começa a queimar e as camadas superiores vão ruindo.
No arrastão, bancos e bolsas provocam uma corrida pela liquidez, levando à queda abrupta das ações, à valorização do dólar e ao sumiço do crédito. Sem crédito, não há financiamento da produção e do consumo, as vendas caem, as fábricas produzem menos e demitem. O efeito pode ser sentido em países importantes, além dos EUA: Alemanha, Itália e Espanha estão em recessão declarada. A China prevê crescer menos. Isso traz expectativa de queda nas trocas internacionais, nos preços dos produtos, principalmente os primários, redução das cotações de ações, menos produção e mais desemprego.
Mas a genealogia da crise abriga uma questão muito anterior ao endividamento das famílias. É conseqüência de um sistema, o da hegemonia norte-americana com o dólar como padrão mundial – e os americanos vão resistir à mudança do modelo, pois poderia comprometer sua hegemonia. E só haverá solução com a mudança desse padrão, independentemente de se falar em ação do Estado. A direita, que está por trás desse grande desastre neoliberal, controla as estruturas de poder e econômicas. Sabe usar e sempre usa o Estado. Usará novamente.
No Brasil, diaante dos juros altos, empresas foram buscar financiamento fora, e o crédito secou para elas também. Mas se há um lado positivo desta crise é que, ao contrário das anteriores, não será enfrentada via guerra mundial, e pode propiciar uma nova cobrança e novo tipo de colaboração entre os países. Abre-se espaço para que alguns países possam afirmar projetos nacionais. E o Brasil aparece como um dos mais habilitados a isso. O problema é que nossas elites econômicas e nosso governo, que controlam os aparelhos do Estado, não fazem nada para isso. O Estado segue nas mãos da direita e dos liberais.
A única saída reside numa decisão crucial do Estado brasileiro: defender suas reservas, de US$ 207 bilhões. Sem elas, o país quebra. Só não estou seguro de que o presidente do Banco Central esteja preparado ou mesmo interessado em defendê-las da fogueira internacional.
AMANHÃ, 02.02.09

"O país segue nas mãos dos liberais", por Carlos Lessa

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Carlos Lessa: o país segue nas mãos dos liberais
Para o economista e ex-presidente do BNDES, a crise nasceu da ilusão de que todos poderiam ficar ricos a partir da aplicação em papéis
Vivemos um momento curioso: até os neoliberais mais convictos mudam o discurso e passam a aceitar a intervenção do Estado, enquanto países tentam conter a falta de crédito e evitar o agravamento da queda no consumo e na produção. A crise mostrou a cara. Mas que crise é essa? Qual é sua genética, para onde nos leva? Nos EUA, o governo disponibiliza verdadeiras fortunas para que bancos e empresas contornem a crise, mas todo esse dinheiro ainda não é suficiente para resolver a crise atual. O que tornou esse dragão devorador de capitais tão grande?
A crise é conseqüência da valorização de ativos construída como castelo de cartas, com base na dívida primária dos Estados Unidos, a dívida das famílias americanas. Sobre ela foram adicionadas camadas em formas de fundos, derivativos etc. A cola era a venda da ilusão, pelos neoliberais, de que todos poderiam ficar ricos, a partir da aplicação em papéis. Pessoas comuns foram convencidas a se endividar, dando imóveis como hipoteca, e a aplicar em fundos. Há estimativas – embora ninguém tenha como afirmar, já que o limite para empilhar cartas é apenas a confiança – de que os derivativos, principalmente de bancos de investimentos dos EUA, chegaram a US$ 640 trilhões. A cifra assusta mais se comparada ao PIB mundial, na casa dos US$ 60 trilhões.
E quando o castelo começa a desmoronar? Quando bancos fazem empréstimos a credores pouco confiáveis ou pouco estáveis. Esses empréstimos sem lastro – subprimes – levaram ao endividamento acentuado das famílias, impactando a economia com atrasos de pagamentos, retração do consumo e, é claro, corroendo confiança. A base do castelo começa a queimar e as camadas superiores vão ruindo.
No arrastão, bancos e bolsas provocam uma corrida pela liquidez, levando à queda abrupta das ações, à valorização do dólar e ao sumiço do crédito. Sem crédito, não há financiamento da produção e do consumo, as vendas caem, as fábricas produzem menos e demitem. O efeito pode ser sentido em países importantes, além dos EUA: Alemanha, Itália e Espanha estão em recessão declarada. A China prevê crescer menos. Isso traz expectativa de queda nas trocas internacionais, nos preços dos produtos, principalmente os primários, redução das cotações de ações, menos produção e mais desemprego.
Mas a genealogia da crise abriga uma questão muito anterior ao endividamento das famílias. É conseqüência de um sistema, o da hegemonia norte-americana com o dólar como padrão mundial – e os americanos vão resistir à mudança do modelo, pois poderia comprometer sua hegemonia. E só haverá solução com a mudança desse padrão, independentemente de se falar em ação do Estado. A direita, que está por trás desse grande desastre neoliberal, controla as estruturas de poder e econômicas. Sabe usar e sempre usa o Estado. Usará novamente.
No Brasil, diaante dos juros altos, empresas foram buscar financiamento fora, e o crédito secou para elas também. Mas se há um lado positivo desta crise é que, ao contrário das anteriores, não será enfrentada via guerra mundial, e pode propiciar uma nova cobrança e novo tipo de colaboração entre os países. Abre-se espaço para que alguns países possam afirmar projetos nacionais. E o Brasil aparece como um dos mais habilitados a isso. O problema é que nossas elites econômicas e nosso governo, que controlam os aparelhos do Estado, não fazem nada para isso. O Estado segue nas mãos da direita e dos liberais.
A única saída reside numa decisão crucial do Estado brasileiro: defender suas reservas, de US$ 207 bilhões. Sem elas, o país quebra. Só não estou seguro de que o presidente do Banco Central esteja preparado ou mesmo interessado em defendê-las da fogueira internacional.
AMANHÃ, 02.02.09

maio 30, 2008

O TANGO da vEJA

Capa da vEJA, edição 380, umas duas semanas atrás. Imagem de Cristina Kirchner ( acima do logotipo da Editora aBRIL ), com os dizeres “A economia afunda ( sic ) e o governo não sabe sair da crise”. Como se percebe, a dor-de-cotovelo permeia os sentimentos do Klan Civita em relação ao país portenho. Afinal, há não muito, Nestor Kirchner botou os credores na fila ( como Serra, ao assumir a Prefeitura paulistana, fez com as pessoas e empresas que tinham valores a receber por serviços prestados ) e fez um leilão de papagaios. Para a vEJA, sucesso em gestão é com o Carlos Menem e o Fujimori. A “Economist” ( de março – vejam abaixo ) tinha sido um pouco menos dramática em sua análise da situação argentina, que não deve ter piorado muito nos – apenas – dois meses que separam as publicações. Pode-se até não achar que ( pelo texto abaixo ) a “Economist” tenha brilhado em sua análise pois, queira ou não, ela ainda segue o roteiro pró-investidores, e coisa e tal. Além disso, o texto é a leitura que o serviço da BBC fez da matéria da Economist. Então, podem estar faltando partes importantes, ou a leitura tenha sido feita e o entendimento tenha sido aquém do que foi proposto pela Economist, sei lá. Enfim.
‘Economist’ pergunta por que crescimento do Brasil fica atrás da Argentina
20/03, BBC Brasil
Com artigo intitulado A lebre e a tartaruga, a revista britânica The Economist, que chega às bancas na sexta-feira, compara o crescimento econômico do Brasil e da Argentina e tenta explicar por que os “vagarosos brasileiros estão alcançando a veloz economia argentina”.
“Pegue duas economias vizinhas, ambas extremamente dependentes de preços de commodities para obter bons resultados na balança comercial. Aplique a uma delas uma política monetária ortodoxa e veja ela acolher investidores estrangeiros e adotar o câmbio flutuante. Entregue o comando da outra a empreendores que recorreram à fixação de preços, proibição ou taxação de algumas de suas próprias exportações, e que mentem abertamente sobre a taxa de inflação. O resultado? O malandro – Argentina – continua a crescer a uma taxa de 9%, enquanto que, por contraste, o bem comportado Brasil segue vagaroso. É hora de reescrever os livros de economia? Os argentinos acham que sim. Mas há sinais de que o Brasil ainda pode chegar na frente.”
Segundo o artigo, o Brasil adota uma política econômica mais cautelosa, voltada, principalmente, para o combate à inflação e para evitar o risco de um grande déficit na conta corrente do país.
“Na Argentina, essa cautela é sinal de fraqueza. Os políticos do país parecem determinados a mostrar que tudo que a América Latina precisa para crescer tão rápido quanto a China é arrancar a camisa-de-força do ‘neoliberalismo’ e de seus principais patrocinadores – aqueles horrorosos detentores de títulos e o FMI.”
Previsões erradas
A Economist se refere à previsão errônea de vários economistas de que a Argentina iria enfrentar um desaquecimento econômico nos últimos cinco anos e afirma que, segundo uma fonte próxima à presidente Cristina Kirchner e ao seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, “esses economistas erraram diversas vezes. Talvez seja hora de acharmos novos economistas”.
Para a revista, para entender como dois líderes de esquerda vieram abraçar políticas tão diferentes, é preciso olhar como seus respectivos países responderam aos problemas econômicos de 2001-2002.
“A Argentina, depois de vários anos em crise, abandonou a taxa de câmbio fixa, desvalorizando o peso e dando um calote na dívida pública. O Brasil, que mantinha o câmbio flutuante desde 1999, respondeu à turbulência em seus mercados de câmbio e dívidas em 2002 apertando ainda mais suas políticas fiscal e monetária.”
Segundo a The Economist, a desvalorização do peso funcionou e em 2005 a maior parte da capacidade industrial do país estava de volta em ação, mas como os novos investimentos eram insuficientes para sustentar o rápido crescimento, o governo abriu os cofres, aumentando salários e aposentadorias.
A revista acrescenta que “o crescimento continuou, mas a inflação pulou para 20% ao ano. Ninguém sabe o número exato, já que o governo o maqueia.
“Baixo crescimento”
Em contraste, o Banco Central do Brasil persegue uma meta de inflação, e não da taxa de câmbio. O real valorizou com a alta recorde do preço das commodities, gerando reclamações dos empresários industriais. Mas o Banco Central manteve a taxa de juros em 11,25% desde setembro passado. E ainda assim, a demanda doméstica é forte. Neste ano, com a alta acentuada do volume de importações, o Brasil deve apresentar um pequeno déficit de conta corrente, pela primeira vez desde 2002.
“O crescimento argentino (de 8% no último trimestre de 2007) provavelmente se deve mais ao aumento do preço da soja no mercado internacional do que à política econômica do governo Kirchner, afirma Daniel Volberg, do banco de investimentos Morgan Stanley, entrevistado pela revista.
Segundo Volberg, se as previsões feitas em 2003 para o crescimento do PIB mundial e evolução dos preços de commodities estivessem corretas, a Argentina teria crescido apenas 3,7%. Em contraste, o Brasil teria perdido apenas 1,6 pontos percentuais de sua taxa de crescimento de 6,4% no mesmo período.
“Então, apesar de os dois países terem se beneficiado enormemente das condições externas favoráveis, o Brasil está melhor posicionado do que pode parecer. Por causa da baixa inflação, em termos reais o crescimento da renda brasileira começou a alcançar a dos argentinos. Mas o Brasil tem muito mais espaço de manobra se a situação piorar. A Argentina, em contraste, se colocou em uma posição delicada. Qualquer diminuição da receita gerada pelas exportações prejudicaria sua base de arrecadação fiscal, e o Banco Central argentino dificilmente poderia imprimir mais dinheiro do que o nível atual.”
A Economist conclui afirmando que o investimento direto estrangeiro cresceu 84% no Brasil, no ano passado, em comparação com um crescimento de apenas 12% na Argentina.
“Os brasileiros podem ser perdoados por acessos ocasionais de inveja em relação aos vizinhos, mas as coisas boas acontecem para quem sabe esperar.”

dezembro 14, 2007

Perigo! Perigo! Imprensalão golpista já começa a tentar "fritar" Paulo Nogueira Batista Jr. Leia aqui, em seu artigo semanal publicado na Folha!!

Melindres no FMI?
PAULO NOGUEIRA BATISTA JR
O Brasil e outros países em desenvolvimento lutam há cerca de dez anos para mudar a distribuição de votos no FMI
ESTOU EM Washington, enfrentando o inverno inclemente, mas não posso me queixar – ainda não fui esquecido pela imprensa brasileira. Ontem e anteontem, dois dos nossos grandes jornais -”O Estado de S.Paulo” e o “Valor Econômico”- dedicaram considerável espaço para – não há outra palavra – desancar a minha atuação aqui no FMI.
Fiquei um pouco acabrunhado, claro. Baseando-se em fontes protegidas pelo anonimato, os jornalistas capricharam. A agressividade da minha atuação estaria supostamente “começando a incomodar”. O meu temperamento “abrasivo” e “impetuoso” teria criado mal-estar no FMI e desavenças com meus colegas de diretoria. Acusam-me até de “azedar” e de “atrapalhar o andamento de algumas reuniões”. Bem, essas reportagens me fizeram lembrar aquela tirada, que já citei nesta coluna uma vez: “People have been spreading the wildest lies about me, and the worst of it is that half of them are true!” (estão espalhando as mentiras mais loucas a meu respeito, e o pior é que a metade delas é verdadeira!). Ainda não consegui verificar se a tirada é de Winston Churchill ou de Oscar Wilde. O que há de verdadeiro nessas reportagens é que realmente ocorrem discussões bastante acirradas aqui no Fundo. Tenho tido diversos embates, especialmente com os diretores da Europa ocidental, que está super-representada na organização e reluta muito em ceder espaço aos países em desenvolvimento, como o Brasil. Às vezes, eles escutam o que não querem, mas o mesmo ocorre comigo e outros representantes de países em desenvolvimento. O nosso papel é esse mesmo: lutar pelos interesses dos nossos países, e não simplesmente fazer parte de um clube confortável aqui em Washington. Mas esses embates têm ocorrido de forma civilizada, sem levar a ruptura de relações pessoais. Tenho um diálogo constante e cordial com todos os demais 23 membros da diretoria, sem exceção. Em alguns casos, aliados estão se transformando em amigos. Uma das grandes questões em jogo é a redistribuição do poder de voto dentro do Fundo, extremamente concentrado nas mãos dos países desenvolvidos. O Brasil, em aliança com outros países em desenvolvimento, luta há cerca de dez anos para mudar esse quadro. A luta começou quando Murilo Portugal era diretor -executivo e continuou com Eduardo Loyo, meu antecessor imediato. Foi difícil colocar o tema na agenda do FMI, mas conseguimos finalmente. De uma maneira geral, os países desenvolvidos ainda tentam esvaziar a reforma. Um recurso que eles têm é alegar que a discussão está demorando demais e tentar arquivar a reforma. Esse caminho é politicamente inviável. Outra tentativa é fazer uma não-reforma, isto é, ajustes marginais nas cotas e nos votos que em nada alterariam a distribuição de poder. Nós, representantes dos países em desenvolvimento, estamos argumentando que mudanças marginais danificariam ainda mais a legitimidade da instituição. E estamos tendo algum sucesso. Certamente por coincidência, as reportagens nos jornais brasileiros aparecem num momento em que, pela primeira vez, há sinais de que uma mudança significativa na estrutura de votos começa a ser aceita. Para o Brasil e os demais países que represento, uma reforma aceitável seria aquela que resultasse em aumento apreciável da participação do Brasil, do nosso grupo de nove países e do conjunto dos países em desenvolvimento. Vamos continuar nessa luta.
PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. , 52, escreve às quintas-feiras nesta coluna. Diretor-executivo no FMI, representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago).
pnbjr@attglobal.net
Folha de São Paulo – 13/12/2007

outubro 27, 2007

QUEM NÃO QUER A CPMF

Paulo Henrique Amorim
Conversa Afiada
24/10/07
Máximas e Mínimas 704
. Quem não quer a CPMF já quis: os tucanos inventaram a CPMF.
. Quem não quer a CPMF são aqueles que querem fazer o “desmanche” do Estado (*) e de suas políticas sociais.
. Quem não quer a CPMF é quem não aceita que a saúde do brasileiro melhorou – por causa do dinheiro da CPMF.
. Quem não quer a CPMF não se conforma com a última Pesquisa de Amostra Domiciliar, PNAD, do IBGE, que mostrou que a renda da metade inferior da pirâmide de renda cresce mais que a metade superior.
. Quem não quer a CPMF é quem não se conforma com a idéia de que, segundo a PNAD, a desigualdade de renda – o índice de Gini – melhorou.
. Quem não quer a CPMF é quem acha que o mercado é mais eficiente para dar hospital e escola.
. Quem não quer a CPMF quer o “Caixa Dois”, porque a CPMF é o melhor imposto para “flagrar” o “Caixa Dois”.
. Quem não quer a CPMF quer matar o Governo Lula de fome e impedir que ele faça o sucessor.
. Quem não quer a CPMF não quer que o PAC vá para a frente, porque, para manter os investimentos sociais, sem a CPMF, será preciso cancelar obras do PAC.
. Quem não quer a CPMF quer “starve the beast” – “fazer a besta morrer de fome” (*2)–, o grito de guerra dos neoliberais: tirar recursos do Estado até ele morrer de inanição.
. Quem não quer a CPMF é o pessoal que quer ficar rico com “other people’s money” – o dinheiro dos outros –, a forma clássica de a elite branca (e separatista, no caso de São Paulo) brasileira “administrar” o Estado.
. Quem não quer a CPMF quer que as favelas do Rio desapareçam do mapa, jogadas no Rio da Guarda, e não aceitam que, sob inspiração de Leonel Brizola, as favelas se transformem em bairros – sem violência, sem tráfico, e com serviços sociais.
. Quem não quer a CPMF gostaria de nomear o Coronel Ustra diretor-geral da Polícia Federal, para só prender “preto, pobre e p…”
. Quem não quer a CPMF toma café da manhã na pracinha e lê a revista Veja, todo domingo.
(*) Sobre o “desmanche” do Estado, recomendo a leitura de “O Ex-Leviatã Brasileiro”, de Wanderley Guilherme dos Santos, Editora Civilização Brasileira, 2006: “Em nome de sua modernização e de melhor desempenho na economia globalizada, o poder executivo teve 30% de seus quadros eliminados em sete anos (de 1995 a 2002), talvez a maior leva de demissões da história da administração pública em nação sem passado socialista.”
(*2) Sobre a Teologia do Neoliberalismo, aqui imposta pelo Governo do Farol de Alexandria, à semelhança de Salinas no México; Fujimori no Peru; e Menem na Argentina, recomendo a leitura de “A Brief History of Neoliberalism”, de David Harvey, Oxford University Press, 2005. Harvey lembra que a Teologia do Neoliberalismo começou no Chile de Pinochet dos “Chicago Boys”, e depois se “globalizou” com a aliança Thatcher-Reagan. Harvey demonstra que a Teologia Neoliberal nasceu como resposta ao aumento da renda da metade inferior da pirâmide de renda, com as políticas sociais do Pós Guerra. Portanto, o santo padroeiro de quem não quer a CPMF é Augusto Pinochet.
MAIS SOBRE PINOCHET E A POLÍTICA TUCANA:
“Pinochet levou o Chile à falência e à depressão”
GREG PALAST *

A implantação do chamado ‘neoliberalismo’ no Chile aconteceu em meio à mais sanguinária das ditaduras que assolaram a América do Sul e só foi possível através dela e do morticínio que Pinochet perpretrou para suprimir todas as liberdades democráticas.
Ao contrário do que seguem propalando – com a morte do ditador assassino – os arautos mais servis do receituário de entrega do patrimônio público a assaltantes dentro e fora do Chile, as medidas aplicadas por Pinochet sob a supervisão de Milton Friedman e seus Chicago Boys, levaram o país ao desastre econômico. É isto que comprova o articulista norte-americano, Greg Palast na matéria que segue, intitulada ‘Sininho, Pinochet e o conto de fadas do milagre do Chile’. N. B, Hora do Povo, 13/12/06.
O ex-ditador militar do Chile, general Augusto Pinochet morreu hoje com a idade de 91 anos.
A fada madrinha de Cinderela, Sininho e Augusto Pinochet tinham muito em comum.
Todos os três produziam boas ações mágicas. No caso de Pinochet, ele era universalmente creditado com o Milagre do Chile, o amplamente exitoso experimento de livre mercado, privatização, desregulamentação e expansão econômica livre dos sindicatos cujas sementes econômicas do ‘laissez-faire’ se espraiaram de Valparaiso até a Virgínia.
Mas a abóbora de Cinderela não se converteu realmente numa carruagem. O milagre do Chile, é também simplesmente outro conto de fadas. A afirmação de que o general Pinochet concebeu uma potência econômica, é uma dessas asser-tivas cuja verdade reside apenas em sua repetição.
O Chile pode se orgulhar de algum sucesso econômico. Mas foi o trabalho de Salvador Allende – que salvou sua nação milagrosamente uma década depois de sua morte.
Em 1973, no ano em que o general Pinochet tomou brutalmente o governo, a taxa de desemprego no Chile era de 4.3%. Em 1983, depois de dez anos de modernização do livre mercado, o desemprego atingiu os 22%. O salário real declinou em 40% sob o regime militar.
Em 1970, 20% da população do Chile vivia na pobreza. Durante os ano de 1990, ano que o ‘presidente’ Pinochet deixou o governo, o número de desempregados havia duplicado, chegando aos 40%. Realmente um milagre.
Pinochet não destruiu a economia do Chile sozinho. Foram precisos nove anos de trabalho duro das mentes mais brilhantes entre os acadêmicos do mundo, uma manada de gansos, estagiários de Milton Friedman, os Chicago Boys. Sob a influência de suas teorias o general aboliu o salário mínimo, colocou os sindicatos que defendiam os direitos trabalhistas na ilegalidade, privatizou o sistema previdenciário, aboliu todos os impostos sobre as riquezas e os lucros, cortou os empregos públicos, priva-tizou 212 indústrias e 66 bancos do Estado e executou um ajuste fiscal.
Livre da mão morta da burocracia, dos impostos e das regulamentações sindicais, o país deu um salto gigante para a frente… em direção à falência e à depressão. Depois de nove anos de economia no estilo de Chicago, a indústria do Chile naufragou e morreu. Em 1982 e 1983, o PIB caiu 19%. O experimento do livre mercado capotou e os tubos de ensaio se estilhaçaram. Sangue e vidro se espalharam pelo chão do laboratório. Ainda assim com notável descaso, os cientistas malucos de Chicago o declararam um sucesso. Nos Estados Unidos, o Departamento de Estado do presidente Ronald Reagan emitiu um informe concluindo: “o Chile é caso para estudo de uma boa consultoria sobre administração econômica”. Milton Friedman cunhou a expressão, “O Milagre do Chile”. O comparsa de Friedman, o economista Art Laffer, se jactava de que o Chile de Pinochet era “uma vitrine capaz de mostrar o que a economia é capaz de ministrar”.
E certamente era. O Chile era uma vitrine da desregulamentação frenética.
Os Chicago Boys persuadiram a junta de que, removendo as restrições aos bancos nacionais os liberaria para atrair capital estrangeiro para financiar a expansão industrial.
Pinochet vendeu os bancos estatais – com 40% de desconto do seu valor contábil – e eles rapidamente caíram nas mãos de dois impérios conglomerados controlados pelos especuladores, Javier Vial e Manuel Cruzat. Desde seus bancos cativos, Vial e Cruzat sifonaram dinheiro para comprar indústrias – depois alavancaram estes recursos com empréstimos tomados a investidores estrangeiros que queriam obter seu quinhão do que estava sendo entregue pelo Estado.
As reservas dos bancos, se encheram com títulos vazios de empresas coligadas. Pinochet permitiu que os bons tempos transcorressem em favor dos especuladores. Foi convencido de que os governos não devem se contrapor à lógica do mercado.
ALLENDE
Em 1982, o jogo da pirâmide financeira estava em alta. Os “grupos” Vial e Cruzat entraram em concordata. As indústrias fechavam, as empresas de previdência privada estavam totalmente desvalorizadas, o valor da moeda se desvanecia. Os distúrbios e as greves de uma população faminta e desesperada, não temiam balas de Pinochet, forçado a mudar o curso. Ele chutou seus amados experimen-talistas de Chicago. De forma relutante o general restaurou o salário mínimo e direitos à negociação coletiva dos sindicatos de trabalhadores. Pinochet, que havia dizimado anteriormente os quadros governamentais, autorizou um programa para criar 500,000 empregos. Em outras palavras, o Chile foi tirado da depressão pelos velhos e torpes remédios keynesianos, todos do tipo Franklin Roosevelt, nada de Reagan/Thatcher. Táticas do New Deal resgataram o Chile do pânico em 1983, mas a recuperação de longo prazo e o crescimento desde então é resultado de – tapem os ouvidos das crianças – uma grande dose de socialismo.
Para salvar o sistema nacional de aposentadorias, Pinochet nacionalizou bancos e indústrias em uma escala não imaginada pelo comunista Allende. O general expropriou à vontade, oferecendo pouca ou nenhuma compensação. Quando eventualmente a maioria destes negócios foi repriva-tizada o Estado reteve a propriedade de uma indústria: a do cobre.
Durante quase um século, o cobre significava Chile, e Chile, cobre. O especialista em metais da universidade de Montana o Dr. Janet Finn destaca: “É absurdo descrever uma nação como um milagre da livre empresa, quando o motor da economia permanece nas mãos do governo”. O cobre proporcionou de 30% a 70% dos ingressos em exportação do país. Esta é a moeda forte que construiu o Chile de hoje, os benefícios das minas confiscadas à Anaconda e Kenne-cott em 1973 – o presente póstumo de Salvador Allende a sua nação.
A agroindústria é a segunda locomotiva do crescimento econômico do Chile. Isto também é um legado de Allende. De acordo com o professor Arturo Vasquez da Universidade de Georgetown, Washington DC, a Reforma Agrária de Allende, a quebra dos latifúndios feudais (os quais Pinochet não pode reverter totalmente), criou um nova classe de lavradores produtivos, junto operadores cooperativados, que agora trazem um fluxo de ganhos de exportação que rivaliza com o cobre. “Para ter um milagre econômico”, afirma o Dr. Vasquez, “talvez seja necessário primeiramente um governo socialista que se comprometa com uma Reforma Agrária”.
Então eis o que temos. Um Chile salvo por Keynes e Marx, não por Friedman.
Mas o mito do Milagre do livre mercado persiste porque isto serve a uma finalidade quase religiosa. Dentro da fé dos Reaganautas e dos Thatcheristas, Chile proporciona a fábula da gênese necessária, o sucedâneo do Éden do qual o laissez-faire saltou bem sucedido e brilhante.
Em 1998, a gangue dos quatro das finanças internacionais – o Banco Mundial, o FMI, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco Internacional de Compensações – ofereceram US$ 41.5 milhões em crédito ao Brasil. Mas antes das agências darem a mão salvadora à nação que se afogava, exigiram do Brasil que se comprometesse a tragar o remédio econômico que quase matou o Chile. Vocês conhecem a lista: privatizações, flexibilização do mercado de trabalho (ou seja demolição dos sindicatos) e redução do déficit através de cortes selvagens nos serviços governamentais e na previdência.
Em São Paulo, a população foi assegurada de que estas medidas cruéis iriam, ao final, beneficiar ao brasileiro médio. Aquilo que era similar a um colonialismo financeiro, era vendido como a cura de tudo testada no Chile com resultados milagrosos.
*Articulista norte-americano

Falsos mitos

Márcio Pochmann (*)
O BRASIL não está condenado à mediocridade, embora tenham sido dedicados esforços não desprezíveis nesse sentido.
Exemplo disso foi a vertente do pensamento liberal-conservador e suas ações concretas que contribuíram enormemente para apequenar o país. No auge das reformas liberalizantes da década de 1990, vários mitos foram construídos. Por si só, a realidade vem exercendo papel pedagógico dos mais importantes na desconstrução da maioria desses mitos.
Destacamos um conjunto de três relacionados à temática do trabalho. Primeiro, teve relevância na reorientação das políticas públicas dos anos 90 o falso mito da geração dos inempregáveis, tendo em vista a dicotomia entre a perspectiva do determinismo tecnológico na supressão dos postos de trabalho e o avanço na oferta de mão-de-obra. Por causa disso, pregava-se que o setor industrial não mais geraria emprego e o assalariamento estaria com os dias contados, restando, em contrapartida, o salve-se quem puder pelo auto-emprego (empreendedorismo) ou pelos cursos de qualificação profissional.
À medida que o Brasil vai se distanciando da visão neoliberal, o emprego assalariado volta a crescer, permitindo que o desemprego comece a diminuir. O país está longe do ideal, mas não há por que deixar de acreditar que o desemprego possa voltar às taxas inferiores a 3% da população economicamente ativa vigentes até a década de 1980, desde que nossa economia insista no ritmo de expansão acima dos 5% ao ano, acompanhado de um novo padrão de políticas públicas.
Em segundo lugar, deve-se destacar o falso mito de que o salário mínimo em alta implicaria elevação do desemprego (fechamento de empresas) e da informalidade das relações de trabalho (ocupações sem carteira assinada) ou queda do salário real (aumento da inflação).
Diferentemente disso, percebe-se nos dias de hoje que a marcha de contínua recuperação do valor real do salário mínimo nacional vem acompanhada da manutenção da estabilidade monetária, queda do desemprego e da informalidade. Constata-se também, ao contrário da cantilena neoliberal, o inegável papel do salário mínimo na contenção da desigualdade intersalarial no Brasil.
Conforme os dados da Pnad 2006 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE, o rendimento dos trabalhadores de salário de base (intervalo do segundo ao quinto decis da estrutura da distribuição da renda do trabalho) foi o que mais cresceu em 2006 -12,6%, contra 7,8% no rendimento do extrato superior.
Por fim, em terceiro lugar, ganhou dimensão o falso mito a respeito do anacronismo da legislação social e trabalhista no Brasil. Além de antiga, pois constituída na década de 1940, se apresentava como um verdadeiro entrave ao avanço das relações de trabalho, pois suprimiria empregos e fomentaria a informalidade. Em síntese, a CLT era apontada pelos neoliberais de plantão como portadora do desemprego ou da ocupação precária.
Acontece que a cegueira situacional em que se meteram os automatistas e exclusivistas das forças de mercado os impediu de constatar não só que as medidas regulatórias do trabalho no chamado mundo desenvolvido eram ainda mais antigas que as do Brasil mas também que as mudanças executadas mais recentemente haviam gerado a volta ao passado, com intensa precarização e desigualdade entre os trabalhadores, conforme atestam estudos internacionais produzidos pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) e pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico).
Como não poderia deixar de ser, as mais de duas dezenas de alterações introduzidas na CLT voltadas para a desregulação e a flexibilização do mercado de trabalho produziram o óbvio: perdas irreparáveis para a maioria daqueles que dependem do seu próprio trabalho para sobreviver.
Desde o afastamento do assédio liberal-conservador, que torna menos intensa a pressão pelo desmanche da legislação social e trabalhista, o mercado de trabalho reage menos desfavoravelmente aos trabalhadores. Não somente o emprego formal é o que mais cresce no país desde 2003 (4% em média ao ano) como também permitirá ultrapassar o estágio da estruturação do mercado de trabalho atingida na década de 1980, caso a economia continue a perseguir o ritmo de expansão acima dos 5% ao ano.
Assim como a quantidade do emprego depende da expansão da produção, com função determinante da política macroeconômica, a qualidade das ocupações está relacionada diretamente ao desafio da construção de um modelo econômico associado à nova regulação pública do trabalho.
________________________________________

(*) Márcio Pochmann, 45, economista, é presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp. Foi secretário do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da Prefeitura de São Paulo (gestão Marta Suplicy).

Folha de S. Paulo, 25 de outubro de 2007

outubro 6, 2007

Cuba: 55% dos jovens em universidades, diz pró-reitora da UFRJ

América Latina mantém antigas formas para enfrentar a pobreza
As propostas para enfrentamento da desigualdade social na América Latina estariam reproduzindo discursos hegemônicos de mais de uma década, conforme aponta a pró-reitora de extensão da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Laura Tavares Soares. Ela questiona a existência de um “novo consenso” que estaria se reproduzindo com nova vestimenta. Laura foi a palestrante, em Curitiba, durante o quinto encontro do Ciclo de Debates sobre Políticas Públicas para a América Latina, promovido pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), Sanepar e Universidade Federal do Paraná (UFPR), com o apoio da Caixa Econômica Federal, BRDE e Codesul.
Na visão da pró-reitora, os “novos consensos” repetem as antigas formas neoliberais na implementação de políticas públicas na área social, que são baseadas na redução ou no abandono da função do Estado. Tais projetos tendem a substituir o Estado pelo terceiro setor, focar ações nos mais pobres só por critérios de renda, colocam a preocupação com o bem-estar como responsabilidade das famílias e das comunidades, ou seja, que elas sejam auto-sustentáveis. “Continuam os discursos de que deve haver pequenos projetos de sustentação, focados em locais em que os mais pobres tenham que se manter sem o Estado. Quando os ricos prescindem do Estado criticam que este deve ser mais atuante, menos burocrático, mais eficaz e mais presente. Já quando os pobres é que precisam do Estado o fato é visto como paternalismo”, criticou Laura. A proposta de Laura é que se implante políticas públicas integrais em que o Estado assuma sua responsabilidade, sem ficar limitado em transferências de renda. Estas políticas devem levar em consideração a universalização territorial, mapeando espacialidades da pobreza e implantando nestes espaços políticas integradas de geração de emprego e renda, políticas para idosos, para crianças, educação, cultura e esporte, sem políticas isoladas.
Para Laura, o Paraná é um Estado muito mais forte nas políticas publicas por assumir junto às prefeituras que possuem poucos recursos responsabilidade no ensino, na saúde e no acesso a serviços básicos. Outra proposta debatida por Laura é a universalização do ensino superior. Ela comenta que já estudos na UFRJ para que o aluno de ensino médio tenha acesso às universidades públicas através de formas diferenciadas, sem o modelo tradicional de vestibular, com acompanhamento do estudante a capacitação dos professores. Ela cita que no Brasil há 12% dos jovens nas universidades, sendo 3% deles nas públicas. “Isto é um absurdo. O Equador possui 25% dos jovens nas universidades, Argentina 30% e Cuba 55%. Nós não somos mais pobres que eles. É preciso pensar um modelo de universidade diferente. Oferecer acesso ao ensino superior assim como ele tem acesso ao ensino médio”, conclui.
Arquivos anexados:
0510 laura.doc
AEN/ PR
05/10/07
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