A simples menção da palavra me obriga a reconhecer, envergonhadamente, que sei muito pouco sobre o período militar brasileiro. Sinceramente não dei, a essa questão, a atenção e o estudo que ela merece. Essa negligência sobre o passado, porém, não me exime de ocupar-me com assuntos, digamos, correlatos, e atuais. Eu até poderia ser auto-indulgente com relação a essa negligência sobre o passado mas, sobre o tempo presente, não vejo como.
Não sei se você ouviu ou leu por aí, então resumirei: o jornal Folha de São Paulo, em editorial [ que eu não li ] acerca da vitória da “Emenda Chávez”, re-denominou a ditadura militar brasileira com um neologismo: “ditabranda”. O termo surge neste trecho:
“Mas, se as chamadas ‘ditabrandas’ – caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso.”
” ( … ) Para começo de conversa, causa espécie que o jornal escreva “as chamadas ‘ditabrandas’” quando não há notícia de que alguém tivesse, antes da Folha, a idéia de jerico de qualificar o regime militar de tal forma. Este observador fez uma busca no Google e constatou que a pesquisa retorna apenas as referências à polêmica iniciada pela Folha. Ninguém antes qualificou a ditadura brasileira de “ditabranda” ( … )”.
Luiz, no mesmo post, expõe o seguinte pensamento:
“( … ) é justo dizer, a direção da Folha e seus editorialistas têm todo o direito de achar que os militares pegaram leve. É uma questão de gosto e escolha, provavelmente o assinante do Estadão jamais leria tamanho despautério, ainda que o jornal se posicione de maneira muito mais conservadora do que a Folha em várias questões. A razão para isto é simples: O Estado de S. Paulo sofreu bem mais com a censura e sabe o quão duro foi o dito governo ( … )”.
Nesse ponto do raciocínio do jornalista, vem-me a memória uma das coisas que só tomei conhecimento a partir da leitura de “O Golpe de 64 em São João da Boa Vista”, de Jasson de Oliveira Andrade. Mas não preciso recorrer a um texto do livro. Há um artigo – dos vários que podemos encontrar ali – de Jasson, publicado no Portal Mogi-Guaçu, a respeito da relação conflituosa entre o Estadão e a ( ainda assim chamada ) Ditadura, do qual destaco o fragmento que segue, e que resume muito bem a questão:
” ( … ) O feitiço virou contra o feiticeiro. O exemplo deste ditado é o Estadão. Em 1964, além de liderar o golpe militar, o seu dono Júlio Mesquita Filho elaborou um Ato Institucional, instituindo penas rigorosas, piores ou pelo menos igual àquelas impostas por Getúlio Vargas no Estado Novo (1937-1945), que puniram o referido jornalista. O ato não foi adotado: era muito autoritário. Mais tarde, em 13 de dezembro de 1968, Costa e Silva editou o Ato-Institucional nº. 5. Era mais ameno do que aquele pedido pelo proprietário do Estadão, mas também autoritário. O ato puniu o jornal, censurando-o. Conto essa historia no artigo “A CENSURA DO ‘ESTADÃO”, que consta de meu livro GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA (página 269) ( … )”.
Até hoje o Estadão repousa sobre os louros de ter sido “censurado”. Vai ver, a linha-dura do governo militar ficou com medo do Júlio Mesquita Filho e resolveu reagir antes que o negócio ficasse realmente punk. Agora cientes destas informações, podemos até concluír que, para a Folha, a “Ditabranda” somente teria merecido o status de “Ditadura” se a cartilha de terror do Mesquita tivesse sido adotada pelo regime.
( Esqueçam o último parágrafo. Não é para ser levado a sério. )
A nova forma ( suave ) de tratar a ditadura militar brasileira or parte da Folha enfureceu um monte de gente, e as reclamações e protestos não tardaram a chegar ao jornal. Na seção de cartas dos leitores, foi publicado, em dias diferentes, o protesto de duas personalidades ( reprodução abaixo ) :
“Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de “ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar “importâncias” e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi “doce” se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala – que horror!”
MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES , professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP) , e:
“O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana.”
FÁBIO KONDER COMPARATO , professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP);
A estas cartas, foi a seguinte a resposta da Redação da Folha:
“Nota da Redação – A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua “indignação” é obviamente cínica e mentirosa.”
Parece que foi aí que alguns leitores, comentaristas e analistas perceberam que teria “baixado um Mesquita” na redação da Folha. “Cínicos e mentirosos”… Uma baixeza só. Sobre essa forma “baixa” ( que muitos de nós pensávamos, estar reservada pelo imprensalão exclusivamente ao Lula ), que a Folha usou contra os professores, Luiz ( que já trabalhou no jornal dos Frias ) observa o seguinte:
“O pior de tudo realmente não foi o editorial, bem lamentável, mas a Nota da Redação de 20/2. Pior, sim, porque todo foca que passou uma semana em qualquer redação do país sabe que uma nota dessas não é publicada sem a anuência da direção do jornal. Por mais que o editor do Painel do Leitor vista a camisa do jornal, ele não tem autonomia para chamar Fábio Konder Comparato de cínico e Maria Victoria Benevides de mentirosa. A nota veio de cima, o que só reforça a a ideia de que também o editorial foi cuidadosamente pensado para que o jornal emitisse o juízo de valor que tem, hoje, sobre a ditadura brasileira.“
A infame resposta a Maria e Fábio Konder mereceu a seguinte mensagem, enviada por Eduardo Guimarães à seção de leitores do jornal, e publicada em seu blog Cidadania:
“Ao Painel do Leitor:
Interessante a “Nota da Redação” que esse jornal publicou sobre as críticas dos leitores que se revoltaram contra a qualificação que o editorial “Limites a Chávez” (17/02) deu à ditadura militar brasileira, ou seja, “ditabranda”. Ao chamar de “cínicos e mentirosos” os professores Maria Victória Benevides e Fábio Konder Comparato por suas críticas no Painel do Leitor, alegando que eles “até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como a de Cuba”, a Folha mostra que não considera o regime cubano uma “ditabranda”, ainda que não se tenha notícias de torturadores cubanos que tenham estuprado filhas na frente dos país ou praticado outras sevícias incontestavelmente praticadas pelos militares brasileiros nos anos de chumbo. Não há, em Cuba, um movimento de famílias em busca de entes queridos que “evaporaram” da face da Terra por ação do regime. Ainda assim, a “ditadura” cubana é acusada pelo jornal de ser mais dura do que a brasileira. Nada a estranhar, claro. Um jornal que emprestou seus caminhões para os militares assassinos transportarem cadáveres ou semicadáveres oriundos de seus “brandos” métodos de “investigação”, provou que seu conceito de brandura ou de dureza das ditaduras varia de acordo com a ideologia delas.
Interessante a “Nota da Redação” que esse jornal publicou sobre as críticas dos leitores que se revoltaram contra a qualificação que o editorial “Limites a Chávez” (17/02) deu à ditadura militar brasileira, ou seja, “ditabranda”. Ao chamar de “cínicos e mentirosos” os professores Maria Victória Benevides e Fábio Konder Comparato por suas críticas no Painel do Leitor, alegando que eles “até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como a de Cuba”, a Folha mostra que não considera o regime cubano uma “ditabranda”, ainda que não se tenha notícias de torturadores cubanos que tenham estuprado filhas na frente dos país ou praticado outras sevícias incontestavelmente praticadas pelos militares brasileiros nos anos de chumbo. Não há, em Cuba, um movimento de famílias em busca de entes queridos que “evaporaram” da face da Terra por ação do regime. Ainda assim, a “ditadura” cubana é acusada pelo jornal de ser mais dura do que a brasileira. Nada a estranhar, claro. Um jornal que emprestou seus caminhões para os militares assassinos transportarem cadáveres ou semicadáveres oriundos de seus “brandos” métodos de “investigação”, provou que seu conceito de brandura ou de dureza das ditaduras varia de acordo com a ideologia delas.
Eduardo Guimarães, São Paulo”
Não sei se o jornal publicou a missiva de Eduardo.
REBATISMO LITERÁRIO: “A DITABRANDA ENVERGONHADA”
“A Ditadura Envergonhada” (Companhia das Letras) é o primeiro volume da premiada e celebrada série de livros que o jornalista Elio Gaspari [ da Folha ] escreveu sobre a construção e o desmanche da ditadura [ OOPSS! ] brasileira. Com prosa jornalística que combina “leveza e graça sem a perda da densidade”, como definiu o escritor Zuenir Ventura, o livro oferece um minucioso relato do golpe de 1964 e de tudo que se seguiu a ele: as lutas pelo poder nos primeiros anos do governo militar, a criação do SNI, a elaboração dos atos institucionais, a edição do Ato Institucional no. 5 em dezembro de 68, e a realização da famosa aula de tortura [ OPSS! ] de outubro de 69, dada por um tenente na Vila Militar, no Rio de Janeiro– momento em que ficou claro que a ditadura [ OOOPS de novo!! ] deixava de envergonhar-se de si mesma. Os outros volumes são: “A Ditadura Escancarada” (segundo volume), “A Ditadura Derrotada” (terceiro volume) e “A Ditadura Encurralada” (quarto volume).( DESCRIÇÃO CONFORME APARECE NO SITE PUBLIFOLHA, QUE COMERCIALIZA A OBRA. OS PARÊNTESES “ENGRAÇADOS” SÃO MEUS. )



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