ENCALHE

fevereiro 24, 2009

O que pensam os ex-exilados Serra e FHC sobre a "Ditabranda Vergonhosa" da Folha?

A simples menção da palavra me obriga a reconhecer, envergonhadamente, que sei muito pouco sobre o período militar brasileiro. Sinceramente não dei, a essa questão, a atenção e o estudo que ela merece. Essa negligência sobre o passado, porém, não me exime de ocupar-me com assuntos, digamos, correlatos, e atuais. Eu até poderia ser auto-indulgente com relação a essa negligência sobre o passado mas, sobre o tempo presente, não vejo como.
Não sei se você ouviu ou leu por aí, então resumirei: o jornal Folha de São Paulo, em editorial [ que eu não li ] acerca da vitória da “Emenda Chávez”, re-denominou a ditadura militar brasileira com um neologismo: “ditabranda”. O termo surge neste trecho:
“Mas, se as chamadas ‘ditabrandas’ – caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso.”
Sobre o neologismo, segue a observação de Luiz Antonio Magalhães, no blog Entrelinhas:
” ( … ) Para começo de conversa, causa espécie que o jornal escreva “as chamadas ‘ditabrandas’” quando não há notícia de que alguém tivesse, antes da Folha, a idéia de jerico de qualificar o regime militar de tal forma. Este observador fez uma busca no Google e constatou que a pesquisa retorna apenas as referências à polêmica iniciada pela Folha. Ninguém antes qualificou a ditadura brasileira de “ditabranda” ( … )”.
Luiz, no mesmo post, expõe o seguinte pensamento:
“( … ) é justo dizer, a direção da Folha e seus editorialistas têm todo o direito de achar que os militares pegaram leve. É uma questão de gosto e escolha, provavelmente o assinante do Estadão jamais leria tamanho despautério, ainda que o jornal se posicione de maneira muito mais conservadora do que a Folha em várias questões. A razão para isto é simples: O Estado de S. Paulo sofreu bem mais com a censura e sabe o quão duro foi o dito governo ( … )”.
Nesse ponto do raciocínio do jornalista, vem-me a memória uma das coisas que só tomei conhecimento a partir da leitura de “O Golpe de 64 em São João da Boa Vista”, de Jasson de Oliveira Andrade. Mas não preciso recorrer a um texto do livro. Há um artigo – dos vários que podemos encontrar ali – de Jasson, publicado no Portal Mogi-Guaçu, a respeito da relação conflituosa entre o Estadão e a ( ainda assim chamada ) Ditadura, do qual destaco o fragmento que segue, e que resume muito bem a questão:
” ( … ) O feitiço virou contra o feiticeiro. O exemplo deste ditado é o Estadão. Em 1964, além de liderar o golpe militar, o seu dono Júlio Mesquita Filho elaborou um Ato Institucional, instituindo penas rigorosas, piores ou pelo menos igual àquelas impostas por Getúlio Vargas no Estado Novo (1937-1945), que puniram o referido jornalista. O ato não foi adotado: era muito autoritário. Mais tarde, em 13 de dezembro de 1968, Costa e Silva editou o Ato-Institucional nº. 5. Era mais ameno do que aquele pedido pelo proprietário do Estadão, mas também autoritário. O ato puniu o jornal, censurando-o. Conto essa historia no artigo “A CENSURA DO ‘ESTADÃO”, que consta de meu livro GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA (página 269) ( … )”.
Até hoje o Estadão repousa sobre os louros de ter sido “censurado”. Vai ver, a linha-dura do governo militar ficou com medo do Júlio Mesquita Filho e resolveu reagir antes que o negócio ficasse realmente punk. Agora cientes destas informações, podemos até concluír que, para a Folha, a “Ditabranda” somente teria merecido o status de “Ditadura” se a cartilha de terror do Mesquita tivesse sido adotada pelo regime.
( Esqueçam o último parágrafo. Não é para ser levado a sério. )
A nova forma ( suave ) de tratar a ditadura militar brasileira or parte da Folha enfureceu um monte de gente, e as reclamações e protestos não tardaram a chegar ao jornal. Na seção de cartas dos leitores, foi publicado, em dias diferentes, o protesto de duas personalidades ( reprodução abaixo ) :
“Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de “ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar “importâncias” e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi “doce” se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala – que horror!”
MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES , professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP) , e:
“O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana.”
FÁBIO KONDER COMPARATO , professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP);
A estas cartas, foi a seguinte a resposta da Redação da Folha:
“Nota da Redação – A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua “indignação” é obviamente cínica e mentirosa.”
Parece que foi aí que alguns leitores, comentaristas e analistas perceberam que teria “baixado um Mesquita” na redação da Folha. “Cínicos e mentirosos”… Uma baixeza só. Sobre essa forma “baixa” ( que muitos de nós pensávamos, estar reservada pelo imprensalão exclusivamente ao Lula ), que a Folha usou contra os professores, Luiz ( que já trabalhou no jornal dos Frias ) observa o seguinte:
“O pior de tudo realmente não foi o editorial, bem lamentável, mas a Nota da Redação de 20/2. Pior, sim, porque todo foca que passou uma semana em qualquer redação do país sabe que uma nota dessas não é publicada sem a anuência da direção do jornal. Por mais que o editor do Painel do Leitor vista a camisa do jornal, ele não tem autonomia para chamar Fábio Konder Comparato de cínico e Maria Victoria Benevides de mentirosa. A nota veio de cima, o que só reforça a a ideia de que também o editorial foi cuidadosamente pensado para que o jornal emitisse o juízo de valor que tem, hoje, sobre a ditadura brasileira.
A infame resposta a Maria e Fábio Konder mereceu a seguinte mensagem, enviada por Eduardo Guimarães à seção de leitores do jornal, e publicada em seu blog Cidadania:
“Ao Painel do Leitor:
Interessante a “Nota da Redação” que esse jornal publicou sobre as críticas dos leitores que se revoltaram contra a qualificação que o editorial “Limites a Chávez” (17/02) deu à ditadura militar brasileira, ou seja, “ditabranda”. Ao chamar de “cínicos e mentirosos” os professores Maria Victória Benevides e Fábio Konder Comparato por suas críticas no Painel do Leitor, alegando que eles “até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como a de Cuba”, a Folha mostra que não considera o regime cubano uma “ditabranda”, ainda que não se tenha notícias de torturadores cubanos que tenham estuprado filhas na frente dos país ou praticado outras sevícias incontestavelmente praticadas pelos militares brasileiros nos anos de chumbo. Não há, em Cuba, um movimento de famílias em busca de entes queridos que “evaporaram” da face da Terra por ação do regime. Ainda assim, a “ditadura” cubana é acusada pelo jornal de ser mais dura do que a brasileira. Nada a estranhar, claro. Um jornal que emprestou seus caminhões para os militares assassinos transportarem cadáveres ou semicadáveres oriundos de seus “brandos” métodos de “investigação”, provou que seu conceito de brandura ou de dureza das ditaduras varia de acordo com a ideologia delas.
Eduardo Guimarães, São Paulo”
Não sei se o jornal publicou a missiva de Eduardo.
REBATISMO LITERÁRIO: “A DITABRANDA ENVERGONHADA”
“A Ditadura Envergonhada” (Companhia das Letras) é o primeiro volume da premiada e celebrada série de livros que o jornalista Elio Gaspari [ da Folha ] escreveu sobre a construção e o desmanche da ditadura [ OOPSS! ] brasileira. Com prosa jornalística que combina “leveza e graça sem a perda da densidade”, como definiu o escritor Zuenir Ventura, o livro oferece um minucioso relato do golpe de 1964 e de tudo que se seguiu a ele: as lutas pelo poder nos primeiros anos do governo militar, a criação do SNI, a elaboração dos atos institucionais, a edição do Ato Institucional no. 5 em dezembro de 68, e a realização da famosa aula de tortura [ OPSS! ] de outubro de 69, dada por um tenente na Vila Militar, no Rio de Janeiro– momento em que ficou claro que a ditadura [ OOOPS de novo!! ] deixava de envergonhar-se de si mesma. Os outros volumes são: “A Ditadura Escancarada” (segundo volume), “A Ditadura Derrotada” (terceiro volume) e “A Ditadura Encurralada” (quarto volume).
( DESCRIÇÃO CONFORME APARECE NO SITE PUBLIFOLHA, QUE COMERCIALIZA A OBRA. OS PARÊNTESES “ENGRAÇADOS” SÃO MEUS. )

O que pensam os ex-exilados Serra e FHC sobre a "Ditabranda Vergonhosa" da Folha?

A simples menção da palavra me obriga a reconhecer, envergonhadamente, que sei muito pouco sobre o período militar brasileiro. Sinceramente não dei, a essa questão, a atenção e o estudo que ela merece. Essa negligência sobre o passado, porém, não me exime de ocupar-me com assuntos, digamos, correlatos, e atuais. Eu até poderia ser auto-indulgente com relação a essa negligência sobre o passado mas, sobre o tempo presente, não vejo como.
Não sei se você ouviu ou leu por aí, então resumirei: o jornal Folha de São Paulo, em editorial [ que eu não li ] acerca da vitória da “Emenda Chávez”, re-denominou a ditadura militar brasileira com um neologismo: “ditabranda”. O termo surge neste trecho:
“Mas, se as chamadas ‘ditabrandas’ – caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso.”
Sobre o neologismo, segue a observação de Luiz Antonio Magalhães, no blog Entrelinhas:
” ( … ) Para começo de conversa, causa espécie que o jornal escreva “as chamadas ‘ditabrandas’” quando não há notícia de que alguém tivesse, antes da Folha, a idéia de jerico de qualificar o regime militar de tal forma. Este observador fez uma busca no Google e constatou que a pesquisa retorna apenas as referências à polêmica iniciada pela Folha. Ninguém antes qualificou a ditadura brasileira de “ditabranda” ( … )”.
Luiz, no mesmo post, expõe o seguinte pensamento:
“( … ) é justo dizer, a direção da Folha e seus editorialistas têm todo o direito de achar que os militares pegaram leve. É uma questão de gosto e escolha, provavelmente o assinante do Estadão jamais leria tamanho despautério, ainda que o jornal se posicione de maneira muito mais conservadora do que a Folha em várias questões. A razão para isto é simples: O Estado de S. Paulo sofreu bem mais com a censura e sabe o quão duro foi o dito governo ( … )”.
Nesse ponto do raciocínio do jornalista, vem-me a memória uma das coisas que só tomei conhecimento a partir da leitura de “O Golpe de 64 em São João da Boa Vista”, de Jasson de Oliveira Andrade. Mas não preciso recorrer a um texto do livro. Há um artigo – dos vários que podemos encontrar ali – de Jasson, publicado no Portal Mogi-Guaçu, a respeito da relação conflituosa entre o Estadão e a ( ainda assim chamada ) Ditadura, do qual destaco o fragmento que segue, e que resume muito bem a questão:
” ( … ) O feitiço virou contra o feiticeiro. O exemplo deste ditado é o Estadão. Em 1964, além de liderar o golpe militar, o seu dono Júlio Mesquita Filho elaborou um Ato Institucional, instituindo penas rigorosas, piores ou pelo menos igual àquelas impostas por Getúlio Vargas no Estado Novo (1937-1945), que puniram o referido jornalista. O ato não foi adotado: era muito autoritário. Mais tarde, em 13 de dezembro de 1968, Costa e Silva editou o Ato-Institucional nº. 5. Era mais ameno do que aquele pedido pelo proprietário do Estadão, mas também autoritário. O ato puniu o jornal, censurando-o. Conto essa historia no artigo “A CENSURA DO ‘ESTADÃO”, que consta de meu livro GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA (página 269) ( … )”.
Até hoje o Estadão repousa sobre os louros de ter sido “censurado”. Vai ver, a linha-dura do governo militar ficou com medo do Júlio Mesquita Filho e resolveu reagir antes que o negócio ficasse realmente punk. Agora cientes destas informações, podemos até concluír que, para a Folha, a “Ditabranda” somente teria merecido o status de “Ditadura” se a cartilha de terror do Mesquita tivesse sido adotada pelo regime.
( Esqueçam o último parágrafo. Não é para ser levado a sério. )
A nova forma ( suave ) de tratar a ditadura militar brasileira or parte da Folha enfureceu um monte de gente, e as reclamações e protestos não tardaram a chegar ao jornal. Na seção de cartas dos leitores, foi publicado, em dias diferentes, o protesto de duas personalidades ( reprodução abaixo ) :
“Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de “ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar “importâncias” e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi “doce” se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala – que horror!”
MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES , professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP) , e:
“O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana.”
FÁBIO KONDER COMPARATO , professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP);
A estas cartas, foi a seguinte a resposta da Redação da Folha:
“Nota da Redação – A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua “indignação” é obviamente cínica e mentirosa.”
Parece que foi aí que alguns leitores, comentaristas e analistas perceberam que teria “baixado um Mesquita” na redação da Folha. “Cínicos e mentirosos”… Uma baixeza só. Sobre essa forma “baixa” ( que muitos de nós pensávamos, estar reservada pelo imprensalão exclusivamente ao Lula ), que a Folha usou contra os professores, Luiz ( que já trabalhou no jornal dos Frias ) observa o seguinte:
“O pior de tudo realmente não foi o editorial, bem lamentável, mas a Nota da Redação de 20/2. Pior, sim, porque todo foca que passou uma semana em qualquer redação do país sabe que uma nota dessas não é publicada sem a anuência da direção do jornal. Por mais que o editor do Painel do Leitor vista a camisa do jornal, ele não tem autonomia para chamar Fábio Konder Comparato de cínico e Maria Victoria Benevides de mentirosa. A nota veio de cima, o que só reforça a a ideia de que também o editorial foi cuidadosamente pensado para que o jornal emitisse o juízo de valor que tem, hoje, sobre a ditadura brasileira.
A infame resposta a Maria e Fábio Konder mereceu a seguinte mensagem, enviada por Eduardo Guimarães à seção de leitores do jornal, e publicada em seu blog Cidadania:
“Ao Painel do Leitor:
Interessante a “Nota da Redação” que esse jornal publicou sobre as críticas dos leitores que se revoltaram contra a qualificação que o editorial “Limites a Chávez” (17/02) deu à ditadura militar brasileira, ou seja, “ditabranda”. Ao chamar de “cínicos e mentirosos” os professores Maria Victória Benevides e Fábio Konder Comparato por suas críticas no Painel do Leitor, alegando que eles “até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como a de Cuba”, a Folha mostra que não considera o regime cubano uma “ditabranda”, ainda que não se tenha notícias de torturadores cubanos que tenham estuprado filhas na frente dos país ou praticado outras sevícias incontestavelmente praticadas pelos militares brasileiros nos anos de chumbo. Não há, em Cuba, um movimento de famílias em busca de entes queridos que “evaporaram” da face da Terra por ação do regime. Ainda assim, a “ditadura” cubana é acusada pelo jornal de ser mais dura do que a brasileira. Nada a estranhar, claro. Um jornal que emprestou seus caminhões para os militares assassinos transportarem cadáveres ou semicadáveres oriundos de seus “brandos” métodos de “investigação”, provou que seu conceito de brandura ou de dureza das ditaduras varia de acordo com a ideologia delas.
Eduardo Guimarães, São Paulo”
Não sei se o jornal publicou a missiva de Eduardo.
REBATISMO LITERÁRIO: “A DITABRANDA ENVERGONHADA”
“A Ditadura Envergonhada” (Companhia das Letras) é o primeiro volume da premiada e celebrada série de livros que o jornalista Elio Gaspari [ da Folha ] escreveu sobre a construção e o desmanche da ditadura [ OOPSS! ] brasileira. Com prosa jornalística que combina “leveza e graça sem a perda da densidade”, como definiu o escritor Zuenir Ventura, o livro oferece um minucioso relato do golpe de 1964 e de tudo que se seguiu a ele: as lutas pelo poder nos primeiros anos do governo militar, a criação do SNI, a elaboração dos atos institucionais, a edição do Ato Institucional no. 5 em dezembro de 68, e a realização da famosa aula de tortura [ OPSS! ] de outubro de 69, dada por um tenente na Vila Militar, no Rio de Janeiro– momento em que ficou claro que a ditadura [ OOOPS de novo!! ] deixava de envergonhar-se de si mesma. Os outros volumes são: “A Ditadura Escancarada” (segundo volume), “A Ditadura Derrotada” (terceiro volume) e “A Ditadura Encurralada” (quarto volume).
( DESCRIÇÃO CONFORME APARECE NO SITE PUBLIFOLHA, QUE COMERCIALIZA A OBRA. OS PARÊNTESES “ENGRAÇADOS” SÃO MEUS. )

O que pensam os ex-exilados Serra e FHC sobre a "Ditabranda Vergonhosa" da Folha?

A simples menção da palavra me obriga a reconhecer, envergonhadamente, que sei muito pouco sobre o período militar brasileiro. Sinceramente não dei, a essa questão, a atenção e o estudo que ela merece. Essa negligência sobre o passado, porém, não me exime de ocupar-me com assuntos, digamos, correlatos, e atuais. Eu até poderia ser auto-indulgente com relação a essa negligência sobre o passado mas, sobre o tempo presente, não vejo como.
Não sei se você ouviu ou leu por aí, então resumirei: o jornal Folha de São Paulo, em editorial [ que eu não li ] acerca da vitória da “Emenda Chávez”, re-denominou a ditadura militar brasileira com um neologismo: “ditabranda”. O termo surge neste trecho:
“Mas, se as chamadas ‘ditabrandas’ – caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso.”
Sobre o neologismo, segue a observação de Luiz Antonio Magalhães, no blog Entrelinhas:
” ( … ) Para começo de conversa, causa espécie que o jornal escreva “as chamadas ‘ditabrandas’” quando não há notícia de que alguém tivesse, antes da Folha, a idéia de jerico de qualificar o regime militar de tal forma. Este observador fez uma busca no Google e constatou que a pesquisa retorna apenas as referências à polêmica iniciada pela Folha. Ninguém antes qualificou a ditadura brasileira de “ditabranda” ( … )”.
Luiz, no mesmo post, expõe o seguinte pensamento:
“( … ) é justo dizer, a direção da Folha e seus editorialistas têm todo o direito de achar que os militares pegaram leve. É uma questão de gosto e escolha, provavelmente o assinante do Estadão jamais leria tamanho despautério, ainda que o jornal se posicione de maneira muito mais conservadora do que a Folha em várias questões. A razão para isto é simples: O Estado de S. Paulo sofreu bem mais com a censura e sabe o quão duro foi o dito governo ( … )”.
Nesse ponto do raciocínio do jornalista, vem-me a memória uma das coisas que só tomei conhecimento a partir da leitura de “O Golpe de 64 em São João da Boa Vista”, de Jasson de Oliveira Andrade. Mas não preciso recorrer a um texto do livro. Há um artigo – dos vários que podemos encontrar ali – de Jasson, publicado no Portal Mogi-Guaçu, a respeito da relação conflituosa entre o Estadão e a ( ainda assim chamada ) Ditadura, do qual destaco o fragmento que segue, e que resume muito bem a questão:
” ( … ) O feitiço virou contra o feiticeiro. O exemplo deste ditado é o Estadão. Em 1964, além de liderar o golpe militar, o seu dono Júlio Mesquita Filho elaborou um Ato Institucional, instituindo penas rigorosas, piores ou pelo menos igual àquelas impostas por Getúlio Vargas no Estado Novo (1937-1945), que puniram o referido jornalista. O ato não foi adotado: era muito autoritário. Mais tarde, em 13 de dezembro de 1968, Costa e Silva editou o Ato-Institucional nº. 5. Era mais ameno do que aquele pedido pelo proprietário do Estadão, mas também autoritário. O ato puniu o jornal, censurando-o. Conto essa historia no artigo “A CENSURA DO ‘ESTADÃO”, que consta de meu livro GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA (página 269) ( … )”.
Até hoje o Estadão repousa sobre os louros de ter sido “censurado”. Vai ver, a linha-dura do governo militar ficou com medo do Júlio Mesquita Filho e resolveu reagir antes que o negócio ficasse realmente punk. Agora cientes destas informações, podemos até concluír que, para a Folha, a “Ditabranda” somente teria merecido o status de “Ditadura” se a cartilha de terror do Mesquita tivesse sido adotada pelo regime.
( Esqueçam o último parágrafo. Não é para ser levado a sério. )
A nova forma ( suave ) de tratar a ditadura militar brasileira or parte da Folha enfureceu um monte de gente, e as reclamações e protestos não tardaram a chegar ao jornal. Na seção de cartas dos leitores, foi publicado, em dias diferentes, o protesto de duas personalidades ( reprodução abaixo ) :
“Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de “ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar “importâncias” e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi “doce” se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala – que horror!”
MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES , professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP) , e:
“O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana.”
FÁBIO KONDER COMPARATO , professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP);
A estas cartas, foi a seguinte a resposta da Redação da Folha:
“Nota da Redação – A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua “indignação” é obviamente cínica e mentirosa.”
Parece que foi aí que alguns leitores, comentaristas e analistas perceberam que teria “baixado um Mesquita” na redação da Folha. “Cínicos e mentirosos”… Uma baixeza só. Sobre essa forma “baixa” ( que muitos de nós pensávamos, estar reservada pelo imprensalão exclusivamente ao Lula ), que a Folha usou contra os professores, Luiz ( que já trabalhou no jornal dos Frias ) observa o seguinte:
“O pior de tudo realmente não foi o editorial, bem lamentável, mas a Nota da Redação de 20/2. Pior, sim, porque todo foca que passou uma semana em qualquer redação do país sabe que uma nota dessas não é publicada sem a anuência da direção do jornal. Por mais que o editor do Painel do Leitor vista a camisa do jornal, ele não tem autonomia para chamar Fábio Konder Comparato de cínico e Maria Victoria Benevides de mentirosa. A nota veio de cima, o que só reforça a a ideia de que também o editorial foi cuidadosamente pensado para que o jornal emitisse o juízo de valor que tem, hoje, sobre a ditadura brasileira.
A infame resposta a Maria e Fábio Konder mereceu a seguinte mensagem, enviada por Eduardo Guimarães à seção de leitores do jornal, e publicada em seu blog Cidadania:
“Ao Painel do Leitor:
Interessante a “Nota da Redação” que esse jornal publicou sobre as críticas dos leitores que se revoltaram contra a qualificação que o editorial “Limites a Chávez” (17/02) deu à ditadura militar brasileira, ou seja, “ditabranda”. Ao chamar de “cínicos e mentirosos” os professores Maria Victória Benevides e Fábio Konder Comparato por suas críticas no Painel do Leitor, alegando que eles “até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como a de Cuba”, a Folha mostra que não considera o regime cubano uma “ditabranda”, ainda que não se tenha notícias de torturadores cubanos que tenham estuprado filhas na frente dos país ou praticado outras sevícias incontestavelmente praticadas pelos militares brasileiros nos anos de chumbo. Não há, em Cuba, um movimento de famílias em busca de entes queridos que “evaporaram” da face da Terra por ação do regime. Ainda assim, a “ditadura” cubana é acusada pelo jornal de ser mais dura do que a brasileira. Nada a estranhar, claro. Um jornal que emprestou seus caminhões para os militares assassinos transportarem cadáveres ou semicadáveres oriundos de seus “brandos” métodos de “investigação”, provou que seu conceito de brandura ou de dureza das ditaduras varia de acordo com a ideologia delas.
Eduardo Guimarães, São Paulo”
Não sei se o jornal publicou a missiva de Eduardo.
REBATISMO LITERÁRIO: “A DITABRANDA ENVERGONHADA”
“A Ditadura Envergonhada” (Companhia das Letras) é o primeiro volume da premiada e celebrada série de livros que o jornalista Elio Gaspari [ da Folha ] escreveu sobre a construção e o desmanche da ditadura [ OOPSS! ] brasileira. Com prosa jornalística que combina “leveza e graça sem a perda da densidade”, como definiu o escritor Zuenir Ventura, o livro oferece um minucioso relato do golpe de 1964 e de tudo que se seguiu a ele: as lutas pelo poder nos primeiros anos do governo militar, a criação do SNI, a elaboração dos atos institucionais, a edição do Ato Institucional no. 5 em dezembro de 68, e a realização da famosa aula de tortura [ OPSS! ] de outubro de 69, dada por um tenente na Vila Militar, no Rio de Janeiro– momento em que ficou claro que a ditadura [ OOOPS de novo!! ] deixava de envergonhar-se de si mesma. Os outros volumes são: “A Ditadura Escancarada” (segundo volume), “A Ditadura Derrotada” (terceiro volume) e “A Ditadura Encurralada” (quarto volume).
( DESCRIÇÃO CONFORME APARECE NO SITE PUBLIFOLHA, QUE COMERCIALIZA A OBRA. OS PARÊNTESES “ENGRAÇADOS” SÃO MEUS. )

dezembro 16, 2008

"Como enganar o leitor sem mentir" / "Ninguém mais leva grande imprensa a sério", do blog ENTRELINHAS

Os dois textos a seguir foram copiados ( na caradura, mesmo ) do blog Entrelinhas. Leiam, decorem, repassem, façam corrente, etc:
Como enganar o leitor sem mentir
16.12.08
A matéria abaixo, da Folha Online é um primor de manipulação jornalística. Não há uma única mentira na reportagem, mas ela simplesmente não mostra a realidade dos fatos. Primeiro, o título seco dá um número ( pessoas demitidas em novembro ) que não quer dizer coisa alguma. Afinal, 34 mil é muito ou muito pouco? Não há dado comparativo – quanto foi no mês passado? Todo mês há demissões nas empresas, o que interessa saber é o saldo (contratações menos demissões). Este dado não consta da reportagem.
Em seguida, o lide da matéria traz um outro número que economista nenhum utiliza, pois é um dado sem ajuste sazonal. Diz a Folha Online que o emprego em São Paulo na indústria caiu 1,46% em novembro, na comparação com outubro. Mentira? Não, verdade, mas é o dado sem ajuste sazonal. Só no terceiro parágrafo é que aparece o número que realmente importa, com ajuste sazonal: queda de 0,19% (ante queda de 0,14% em outubro). Ou seja, o ritmo do aumento de demissões ficou praticamente estável em novembro em relação a outubro. Isto no meio da maior crise da história do capitalismo, segundo a Folha…
A matéria também não dá muita bola para o dado do emprego acumulado no ano. Claro, não podia ser diferente, pois o número é bom para o governo (alta de 5,66%). Definitivamente, a Folha deveria mudar de slogan: ao invés do “De rabo preso com o leitor”, passaria a ser “O que é bom (para o Lula) a gente esconde, o que é ruim a gente dá na manchete”.
Indústria paulista demite 34 mil em novembro, diz Fiesp
O nível de emprego da indústria de transformação do Estado de São Paulo caiu 1,46% em novembro na comparação com o mês anterior, nos dados sem ajuste sazonal, segundo levantamento da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) divulgado nesta terça-feira.No mês passado, foram perdidos 34 mil postos de trabalho, segundo a entidade. Em outubro, a queda sobre setembro tinha sido de 0,14%. No acumulado do ano, o nível de emprego está 5,66% maior que no mesmo período do ano passado, com 123 mil novas vagas abertas.Considerando os dados com ajuste sazonal, que elimina características específicas de cada período, a baixa no emprego no mês passado foi de 0,19%.
Dos 21 setores que fazem parte da pesquisa, cinco tiveram desempenho positivo no mês passado, 14 setores mais demitiram do que contrataram e dois ficaram estáveis.
De acordo com o levantamento, novembro foi um mês mais favorável para o setor de máquinas, escritório e equipamentos de informática, que apresentou alta de 1,82%, seguido por produtos químicos, com expansão de 0,36%.
Na outra ponta, com as maiores quedas, estão couros e artigos de couro, artigos de viagem e calçados, com perda de 3,3%, e borracha e plástico, com recuo de 2,78%.
Por setores, no acumulado do ano, o que mais contratou foi o de máquinas, escritório e equipamentos de informática, com 58,08% de alta no nível de emprego, seguido por coque, refino de petróleo, combustíveis nucleares e álcool, com elevação de 29,27%.
Os que mais demitiram foram couro, artigos de viagem e calçados, com queda de 9,58%, e confecções e artigos de vestuário, com recuo de 2,22%.
Ninguém mais leva grande imprensa a sério
15.12.08
Duas novas pesquisas revelam que a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva superou 80%, batendo mais uma vez recordes históricos. Como a Folha Online deu a notícia? Assim: “Brasileiros estão mais preocupados com inflação e desemprego, revela pesquisa”. E o Globo Online, agiu de que maneira? Desta: “Brasileiro espera piora na inflação, no emprego e na renda no próximo ano”. E a manchete do Estadão.com.br sobre as pesquisas? Está na mão: “Cresce preocupação com desemprego e inflação”.
Sim, Lula bateu mais um recorde, os anteriores já eram seus nos levantamentos dos institutos Sensus e Datafolha. No Ibope, que tem a série histórica mais antiga, José Sarney era até ontem o presidente mais popular desde a redemocratização – no auge do Cruzado, seu governo tinha 72% de aprovação. Pois o governo Lula destronou o de Sarney ao chegar a 73% de avaliação positiva. O Ibope não pesquisava, naquela época, a aprovação pessoal do presidente, então não há como comparar os 84% obtidos por Lula com os 72% do governo Sarney, mas é bastante provável que a avaliação do atual presidente seja melhor do que a de José Sarney em 1987. Governo contra governo, o placar é favorável a Lula, que tem muito mais carisma do que o hoje senador peemedebista.
Tudo isto posto, a verdade é que os resultados mostram a falência completa da mídia impressa brasileira, toda ela francamente oposicionista ao governo do PT, na cotidiana tentativa de sabotar o trabalho do presidente. No futuro, historiadores vão se divertir lendo os jornalões e comparando as versões do papel com a realidade dos fatos.Não, o que sai nos jornais não são os fatos, mas uma ardilosa versão, sempre com objetivo, muitas vezes explícito, de detonar o presidente Lula. Ninguém aqui está dizendo que os jornais mentem, mas sim que procuram na realidade o que de pior houver contra o governo federal. Além das ridículas manchetes acima, “comemoradas” pela grande imprensa como “tábua de salvação” diante dos espetaculares números obtidos pelo presidente (no Nordeste a taxa de aprovação a Lula supera 90%, de acordo com o Ibope), muitas outras “jogadinhas” foram tentadas, todas sem sucesso.
Por exemplo, a tal “crise aérea”, que simplesmente não existiu, o “perigo de um novo apagão” (não, Lula não é FHC nem Dilma tem cara de Pedro Parente), a “fraqueza financeira” da Petrobrás e tantas outras manipulações têm sido tentadas, todas sem sucesso. A rigor, a cada duas ou três semanas a grande imprensa joga uma casca de banana. Mas Lula jamais escorrega e cai, para desespero dos jovens prepostos dos donos dos jornalões, encarregados de bolar as “jogadinhas” contra o presidente.
Aos olhos do povão, este é um bom governo e Lula, um ótimo presidente. Se ele pudesse ser candidato de novo, seria reeleito mais uma vez e com grande facilidade. A imprensa nacional deveria se preocupar não com a performance de Lula nas pesquisas, mas com a sua própria performance. A julgar pela diferença entre a avaliação popular e a da imprensa sobre o governo, a população simplesmente não dá mais bola para o que sai nas manchetes. Está se formando e informando de outra maneira e faz uma leitura crítica do que lê, ouve e assiste. É o Diogo Mainardi ou Reinaldo Azevedo criticando Lula? Então nem precisa ir até o fim da leitura… Míriam Leitão, Sardemberg, Dora Kramer? Esquece, é a turma do “lado de lá”. No fundo, o povão já aprendeu a fazer a pergunta mais básica de todas: a quem essa gente representa? Qual a motivação desse pessoal para escrever ou falar no rádio e na televisão? Não é muito difícil responder…No fundo, a grande imprensa precisa mesmo torcer, e muito, para a oposição levar em 2010, porque mais 8 anos tentando vender manipulação barata nas bancas é uma terefa inglória. O restinho de credibilidade pode acabar se esvaindo pelo ralo…

novembro 11, 2008

Folha de São Paulo, a serviço de Serra, abre baterias contra funcionalismo público.

Ruim para a Folha, bom para o Brasil?
Luiz Antonio Magalhães
Publicado no blog ENTRELINHAS
A manchete da Folha de S. Paulo de domingo (9/11) gritava, como se pode ver ao lado: “Funcionalismo custa mais que dívida”. So what?, diriam os americanos. Em português claro, e daí?
De fato, a manchete em si não quer dizer coisa alguma, pois os gastos do governo federal com o funcionalismo podem ter superado os com “dívida”, como diz a Folha, em função ou do aumento salarial concedido aos servidores ou então porque o governo renegociou o pagamento dos débitos. Nos dois casos, a notícia seria motivo de comemoração, mas nitidamente não é este o tom da “reportagem” da Folha.
No lead do texto, fica claro o tom condenatório do diário da Barão de Limeira: “Os gastos com o funcionalismo federal vão superar neste ano os encargos da dívida pública e se tornar a segunda maior despesa da União, só atrás dos benefícios da Previdência Social. Desde 2006, o Planalto aproveita os recordes na arrecadação tributária para dar aos servidores reajustes salariais muito superiores aos da iniciativa privada.”
A questão é bem simples e lembra muito o que a imprensa fez no começo do governo Collor, quando o presidente pedia apoio para a sua intenção de introduzir medidas liberais na economia e iniciar o processo de privatização que acabou sendo completado apenas sob Fernando Henrique. Naquela época, a mídia abraçou a pauta neoliberal de Fernando Collor de Mello e saiu fabricando “reportagens” para mostrar como era ruim, caro e ineficiente o serviço público. A mensagem que se passava era a de que em qualquer área, o setor privado funcionaria melhor. Bem, a atual crise financeira está servindo para desmontar este paradigma, mas voltemos à Folha de S. Paulo.
Agora, quase 20 anos depois de Collor, a Folha parece capitanear uma nova operação que visa fazer hegemônica algumas teses defendidas pelo candidato do jornal à presidência do Brasil, o governador tucano de São Paulo, José Serra. Sim, ele não é de falar muito sobre coisa alguma, mas nas recentes entrevistas que concedeu sobre a crise financeira, fez algumas ressalvas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e criticou especialmente os aumentos salariais concedidos e previstos ao funcionalismo público. Serra também não gosta da política de Lula de dar todo ano um reajuste real no salário mínimo. O governador de São Paulo prefere que o governo use esses recursos em obras de infra-estrutura, para agilizar o crescimento futuro do país. É uma tese respeitável – Lula preferiu aplicar o dinheiro na recuperação da renda dos trabalhadores com o intuito de dinamizar o mercado interno e gerar desenvolvimento “a partir de dentro”. Serra apostaria no crescimento “de fora”, a partir das receitas das exportações.
Bem, tudo isto posto, o que a Folha fez foi editorializar uma reportagem sem esclarecer o debate que está por trás da questão e tentando colocar os seus leitores – a maioria certamente trabalha no setor privado – contra o funcionalismo público. Pessoalmente, este blogueiro avalia que o governo Lula tem vários problemas, mas as melhores virtudes, ao longo desses dois mandatos, foram as políticas de recuperação do salário mínimo e dos proventos do funcionalismo público. Para quem não lembra, durante os 8 anos sob Fernando Henrique, os servidores comeram o pão que o diabo amassou. Várias categorias não tiveram nem sequer reajustes pela inflação. Quando Lula assumiu, começou a recuperar a auto estima e a renda dos servidores públicos.
No fundo, o que a imprensa gosta de chamar de “aparelhamento” na verdade é uma política voltada a trazer dignidade a quem trabalha no Estado. A mídia detesta a discussão, mas o fato é que se um país quer pensar grande, crescer de verdade, precisa de um corpo de burocratas qualificados e competentes e isto custa dinheiro. Por que um diretor de estatal deve ganhar menos do que um diretor de empresa privada? Ainda na opinião deste blog, deveria ganhar mais porque suas responsabilidades são maiores ao lidar com recursos públicos. Para a mídia, porém, servidor público é uma categoria nefasta, repleta de gente nomeada por parentes influentes, que trabalha pouco e ganha muito. Basta ver a sub-retranca “Lobby de servidores é forte no Congresso” que acompanha a matéria principal da Folha.
Seria, portanto, mais honesto o jornal paulista assumir que está a serviço de Serra ou apresentar o debate racionalmente, explicando aos leitores os argumentos de cada parte envolvida na questão e as implicações político-partidárias da questão. O que não dá para admitir é o uso de recursos emocionais para convencer os leitores de que o funcionalismo não presta ou que o governo Lula é perdulário. Não é disto que se trata.

Folha de São Paulo, a serviço de Serra, abre baterias contra funcionalismo público.

Ruim para a Folha, bom para o Brasil?
Luiz Antonio Magalhães
Publicado no blog ENTRELINHAS
A manchete da Folha de S. Paulo de domingo (9/11) gritava, como se pode ver ao lado: “Funcionalismo custa mais que dívida”. So what?, diriam os americanos. Em português claro, e daí?
De fato, a manchete em si não quer dizer coisa alguma, pois os gastos do governo federal com o funcionalismo podem ter superado os com “dívida”, como diz a Folha, em função ou do aumento salarial concedido aos servidores ou então porque o governo renegociou o pagamento dos débitos. Nos dois casos, a notícia seria motivo de comemoração, mas nitidamente não é este o tom da “reportagem” da Folha.
No lead do texto, fica claro o tom condenatório do diário da Barão de Limeira: “Os gastos com o funcionalismo federal vão superar neste ano os encargos da dívida pública e se tornar a segunda maior despesa da União, só atrás dos benefícios da Previdência Social. Desde 2006, o Planalto aproveita os recordes na arrecadação tributária para dar aos servidores reajustes salariais muito superiores aos da iniciativa privada.”
A questão é bem simples e lembra muito o que a imprensa fez no começo do governo Collor, quando o presidente pedia apoio para a sua intenção de introduzir medidas liberais na economia e iniciar o processo de privatização que acabou sendo completado apenas sob Fernando Henrique. Naquela época, a mídia abraçou a pauta neoliberal de Fernando Collor de Mello e saiu fabricando “reportagens” para mostrar como era ruim, caro e ineficiente o serviço público. A mensagem que se passava era a de que em qualquer área, o setor privado funcionaria melhor. Bem, a atual crise financeira está servindo para desmontar este paradigma, mas voltemos à Folha de S. Paulo.
Agora, quase 20 anos depois de Collor, a Folha parece capitanear uma nova operação que visa fazer hegemônica algumas teses defendidas pelo candidato do jornal à presidência do Brasil, o governador tucano de São Paulo, José Serra. Sim, ele não é de falar muito sobre coisa alguma, mas nas recentes entrevistas que concedeu sobre a crise financeira, fez algumas ressalvas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e criticou especialmente os aumentos salariais concedidos e previstos ao funcionalismo público. Serra também não gosta da política de Lula de dar todo ano um reajuste real no salário mínimo. O governador de São Paulo prefere que o governo use esses recursos em obras de infra-estrutura, para agilizar o crescimento futuro do país. É uma tese respeitável – Lula preferiu aplicar o dinheiro na recuperação da renda dos trabalhadores com o intuito de dinamizar o mercado interno e gerar desenvolvimento “a partir de dentro”. Serra apostaria no crescimento “de fora”, a partir das receitas das exportações.
Bem, tudo isto posto, o que a Folha fez foi editorializar uma reportagem sem esclarecer o debate que está por trás da questão e tentando colocar os seus leitores – a maioria certamente trabalha no setor privado – contra o funcionalismo público. Pessoalmente, este blogueiro avalia que o governo Lula tem vários problemas, mas as melhores virtudes, ao longo desses dois mandatos, foram as políticas de recuperação do salário mínimo e dos proventos do funcionalismo público. Para quem não lembra, durante os 8 anos sob Fernando Henrique, os servidores comeram o pão que o diabo amassou. Várias categorias não tiveram nem sequer reajustes pela inflação. Quando Lula assumiu, começou a recuperar a auto estima e a renda dos servidores públicos.
No fundo, o que a imprensa gosta de chamar de “aparelhamento” na verdade é uma política voltada a trazer dignidade a quem trabalha no Estado. A mídia detesta a discussão, mas o fato é que se um país quer pensar grande, crescer de verdade, precisa de um corpo de burocratas qualificados e competentes e isto custa dinheiro. Por que um diretor de estatal deve ganhar menos do que um diretor de empresa privada? Ainda na opinião deste blog, deveria ganhar mais porque suas responsabilidades são maiores ao lidar com recursos públicos. Para a mídia, porém, servidor público é uma categoria nefasta, repleta de gente nomeada por parentes influentes, que trabalha pouco e ganha muito. Basta ver a sub-retranca “Lobby de servidores é forte no Congresso” que acompanha a matéria principal da Folha.
Seria, portanto, mais honesto o jornal paulista assumir que está a serviço de Serra ou apresentar o debate racionalmente, explicando aos leitores os argumentos de cada parte envolvida na questão e as implicações político-partidárias da questão. O que não dá para admitir é o uso de recursos emocionais para convencer os leitores de que o funcionalismo não presta ou que o governo Lula é perdulário. Não é disto que se trata.

Folha de São Paulo, a serviço de Serra, abre baterias contra funcionalismo público.

Ruim para a Folha, bom para o Brasil?
Luiz Antonio Magalhães
Publicado no blog ENTRELINHAS
A manchete da Folha de S. Paulo de domingo (9/11) gritava, como se pode ver ao lado: “Funcionalismo custa mais que dívida”. So what?, diriam os americanos. Em português claro, e daí?
De fato, a manchete em si não quer dizer coisa alguma, pois os gastos do governo federal com o funcionalismo podem ter superado os com “dívida”, como diz a Folha, em função ou do aumento salarial concedido aos servidores ou então porque o governo renegociou o pagamento dos débitos. Nos dois casos, a notícia seria motivo de comemoração, mas nitidamente não é este o tom da “reportagem” da Folha.
No lead do texto, fica claro o tom condenatório do diário da Barão de Limeira: “Os gastos com o funcionalismo federal vão superar neste ano os encargos da dívida pública e se tornar a segunda maior despesa da União, só atrás dos benefícios da Previdência Social. Desde 2006, o Planalto aproveita os recordes na arrecadação tributária para dar aos servidores reajustes salariais muito superiores aos da iniciativa privada.”
A questão é bem simples e lembra muito o que a imprensa fez no começo do governo Collor, quando o presidente pedia apoio para a sua intenção de introduzir medidas liberais na economia e iniciar o processo de privatização que acabou sendo completado apenas sob Fernando Henrique. Naquela época, a mídia abraçou a pauta neoliberal de Fernando Collor de Mello e saiu fabricando “reportagens” para mostrar como era ruim, caro e ineficiente o serviço público. A mensagem que se passava era a de que em qualquer área, o setor privado funcionaria melhor. Bem, a atual crise financeira está servindo para desmontar este paradigma, mas voltemos à Folha de S. Paulo.
Agora, quase 20 anos depois de Collor, a Folha parece capitanear uma nova operação que visa fazer hegemônica algumas teses defendidas pelo candidato do jornal à presidência do Brasil, o governador tucano de São Paulo, José Serra. Sim, ele não é de falar muito sobre coisa alguma, mas nas recentes entrevistas que concedeu sobre a crise financeira, fez algumas ressalvas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e criticou especialmente os aumentos salariais concedidos e previstos ao funcionalismo público. Serra também não gosta da política de Lula de dar todo ano um reajuste real no salário mínimo. O governador de São Paulo prefere que o governo use esses recursos em obras de infra-estrutura, para agilizar o crescimento futuro do país. É uma tese respeitável – Lula preferiu aplicar o dinheiro na recuperação da renda dos trabalhadores com o intuito de dinamizar o mercado interno e gerar desenvolvimento “a partir de dentro”. Serra apostaria no crescimento “de fora”, a partir das receitas das exportações.
Bem, tudo isto posto, o que a Folha fez foi editorializar uma reportagem sem esclarecer o debate que está por trás da questão e tentando colocar os seus leitores – a maioria certamente trabalha no setor privado – contra o funcionalismo público. Pessoalmente, este blogueiro avalia que o governo Lula tem vários problemas, mas as melhores virtudes, ao longo desses dois mandatos, foram as políticas de recuperação do salário mínimo e dos proventos do funcionalismo público. Para quem não lembra, durante os 8 anos sob Fernando Henrique, os servidores comeram o pão que o diabo amassou. Várias categorias não tiveram nem sequer reajustes pela inflação. Quando Lula assumiu, começou a recuperar a auto estima e a renda dos servidores públicos.
No fundo, o que a imprensa gosta de chamar de “aparelhamento” na verdade é uma política voltada a trazer dignidade a quem trabalha no Estado. A mídia detesta a discussão, mas o fato é que se um país quer pensar grande, crescer de verdade, precisa de um corpo de burocratas qualificados e competentes e isto custa dinheiro. Por que um diretor de estatal deve ganhar menos do que um diretor de empresa privada? Ainda na opinião deste blog, deveria ganhar mais porque suas responsabilidades são maiores ao lidar com recursos públicos. Para a mídia, porém, servidor público é uma categoria nefasta, repleta de gente nomeada por parentes influentes, que trabalha pouco e ganha muito. Basta ver a sub-retranca “Lobby de servidores é forte no Congresso” que acompanha a matéria principal da Folha.
Seria, portanto, mais honesto o jornal paulista assumir que está a serviço de Serra ou apresentar o debate racionalmente, explicando aos leitores os argumentos de cada parte envolvida na questão e as implicações político-partidárias da questão. O que não dá para admitir é o uso de recursos emocionais para convencer os leitores de que o funcionalismo não presta ou que o governo Lula é perdulário. Não é disto que se trata.

Tema: Silver is the New Black. Blog no WordPress.com.

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