ENCALHE

fevereiro 1, 2008

Jaz São Paulo: Escola de Vila Zelina é acusada de jogar livros clássicos no bueiro! Eu estudei nessa escola. Pensei que, quando saísse, ela melhoraria

Filed under: cidade de São Paulo, escola pública, Literatura, livros, Vila Zelina — Humberto @ 1:27 pm
Escola pública de SP joga obras literários no lixo
Moradores da região da Vila Prudente, na zona leste de São Paulo, encontraram anteontem cerca de 400 livros que foram descartados pela Escola Municipal Ruth Lopes Andrade. Eram obras literárias de Federico Garcia Lorca, Machado de Assis e Guimarães Rosa, amontoadas em sacos pretos de lixo jogados próximos a um bueiro.
Moradores do bairro tentaram entrar em contato com a escola ao ver os livros na rua, mas a unidade já estava fechada. “Alguns livros chegaram a molhar porque foram jogados perto de um bueiro, mas a maioria estava em bom estado”, disse o contador Manoel Rodrigues , de 59 anos, que pegou do lixo O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, entre outros clássicos. Um dos moradores do bairro ligou ontem para a escola e obteve a informação de que as obras foram descartadas por causa de cupim. “É duro você ensinar para os filhos o valor da leitura enquanto uma escola comete esse absurdo. Os livros estão em bom estado.”
Circe Bittencourt, coordenadora do Programa de Banco de Dados de Livros Escolares Brasileiros da USP, afirma que não há nada que justifique a atitude da escola. A Diretoria Regional de Educação Ipiranga informa que, considerando a gravidade da denúncia envolvendo a escola, determinou uma apuração para esclarecer o que ocorreu. Por meio de nota, a diretoria informou que só a partir daí será possível saber o que houve. A escola não se pronunciou. As informações são do Jornal da Tarde.
MSN Notícias
COMENTÁRIO: Ainda que estivessem corroídos por cupins, brocas ou até mofados, não é – tão óbvio, pô – em bueiros ou córregos que deveriam ter sido despejados. Dupla burrice. Bom, vamos esperar para saber mais e melhor. Não sejamos injustos.

janeiro 23, 2008

Diaféria, o cronista do nosso tempo, Por Roniwalter Jatobá

Observatório da Imprensa
22/1/2008
Apresentação de Mesmo a noite sem luar tem lua, de Lourenço Diaféria, 248 pp.,
Editora Boitempo, São Paulo, 2008; R$ 38; intertítulos da Redação do OI
A primeira vez que li um texto de Lourenço Diaféria foi no número 8 da revista literária paulistana Escrita, de maio de 1976, quando esta publicou os cinco autores premiados pelo então prestigiadíssimo Concurso Nacional de Contos do Paraná. Lembro que o conto tinha o estranho título de “Como se fosse um boi”, mas, embora nos remetesse ao mundo rural, trazia as perambulações de um anônimo marginal pelos labirintos da cidade de São Paulo. Fiquei fascinado com o estilo do autor, sutil observador das coisas miúdas e graúdas nos desvãos da metrópole. A partir daí, tornei-me leitor assíduo de suas crônicas no jornal Folha de S.Paulo.
Lourenço Diaféria nasceu no bairro paulistano do Brás em 28 de agosto de 1933. Filho de um italiano libertário, que, segundo ele, “nunca usou relógio de pulso e que só me bateu uma vez e depois chorou”, e de uma mãe portuguesa, mulher de fibra, que batia nele de tamanco, “mas que nunca esteve ausente quando eu precisei”, viveu sua infância frente a frente às paisagens dos subúrbios da Central do Brasil. Adolescente, o pai queria que fosse estudar Direito, mas ele sempre quis ser jornalista e cursou a Faculdade Cásper Líbero e a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo ( cursos que não chegou a acabar ) e teve os empregos de correspondente comercial e fiel de cartório antes de ingressar na Folha de S. Paulo como preparador de textos por meio de um concurso público.
O fato miúdo e um toque humorístico
A carreira de cronista no jornal, no entanto, só começou em 1964, quando a direção da redação gostou de suas divagações em torno de como festejar o São João dentro de um dos minúsculos apartamentos que infestavam a cidade. Do período, duas memoráveis lembranças. Uma boa: a gratidão ao jornalista Hélio Pompeu, secretário de redação na época, que o fez reescrever dez vezes uma matéria de dez linhas, quando entrou na Folha, como processo de aprendizagem. Outra ruim: em setembro de 1977, os militares não gostaram da crônica “Herói. Morto. Nós” ( publicada nesta coletânea ), sobre um sargento do Exército que havia pulado no fosso das ararinhas, no zoológico municipal, a fim de salvar um garoto de catorze anos das presas dos roedores; o menino é salvo, mas o sargento morre.
O texto era uma homenagem ao sargento, herói na batalha campal cotidiana, mas referia-se também à estátua do Duque de Caxias, no centro paulistano, em cujo pedestal se aninhavam garotos de rua. Eram os anos verde oliva de Ernesto Geisel ( 1974-1979 ), de mais um general-presidente no poder, e, por isso, Lourenço Diaféria foi preso pela Polícia Federal e enquadrado na Lei de Segurança Nacional. A história mostra que a direção do jornal não agiu de forma digna, mas o autor, felizmente, foi absolvido pelo Supremo. Mais tarde, Diaféria lembraria que o episódio foi um oceano que passou em sua vida. “Prejudicou-me em algumas coisas e ajudou-me em outras”, disse. “Eu me senti melhor porque a pior coisa de quem tem uma coluna de jornal é ter ímpetos e se auto-censurar.”
A crônica tem, no Brasil, uma tradição respeitável que vem do Portugal de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão e esplende entre nós com nomes como Machado de Assis, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, José Carlos Oliveira, Paulo Mendes Campos e, mais recentemente, Luís Fernando Veríssimo, para ficarmos apenas em alguns exemplos. Mas o que é a crônica?
“Até se poderia dizer que em vários aspectos é um gênero brasileiro, pela naturalidade com que se aclimatou aqui e pela originalidade com que aqui se desenvolveu”, ensina o crítico Antonio Candido em “A vida ao rés-do-chão”.
“Creio que a fórmula moderna, na qual entram um fato miúdo e um toque humorístico, com o seu quantum satis de poesia, representa o amadurecimento e o encontro mais puro da crônica consigo mesma.” E mais: “Em lugar de oferecer um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos candentes, pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas” [ Antonio Candido, "A vida ao rés-do-chão" em A. Candido et al., A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil (Campinas, Unicamp, 1992), p. 15 ].
Multiplicidade de olhares
Lourenço Diaféria, sem dúvida, é um bom exemplo desse jeito brasileiríssimo de fazer crônica. Segundo o próprio autor, a crônica revela ao distinto público que, atrás do botão eletrônico, existe um baixinho resfriado e de nariz pingando, que assoa e vocifera.
A crônica serve para mostrar o outro lado de tudo – dos palanques, das torres, de eclipses, das enchentes, dos barracos, do poder e da majestade. Ela não consta no periódico por condescendência. A crônica é a lágrima, o sorriso, o aceno, a emoção, o berro, que não tem estrutura para se infiltrar como notícia, reportagem, editorial, comentário ou anúncio publicitário no jornal. E, contudo, é um pouco de tudo isso [ Lourenço Diaféria, Depoimento – Escritor Brasileiro 1981 (São Paulo, Secretaria Municipal de Cultura, 1981) ].
Segundo Jorge de Sá, em A crônica, Lourenço Diaféria tem um olhar sempre otimista.
Consciente de que sua função é prestar atenção ao banal, ele vai costurando retalhos de informações até transformá-los em um relato verossímil, estruturado de acordo com as leis da coerência do texto, as peças ajustadas como num quebra-cabeça. Diaféria vai cumprindo o exercício da crônica como um testemunho do nosso tempo, contando as tragicomédias diárias, fazendo o leitor recuperar seu senso crítico enquanto se diverte, alcançando o que está além da banalidade [ Jorge de Sá, A crônica (São Paulo, Ática, 2002, coleção Princípios), p. 39 ].
Este livro traz uma seleção de crônicas que Lourenço Diaféria escreveu na Folha de S. Paulo, sobretudo no caderno “Ilustrada”, entre 1973 e 1977. Por elas passa o talentoso e múltiplo Diaféria, que um dia observa uma cobradora de ônibus ajudar uma mãe a trocar a roupa de seu bebê e, no outro, manda uma carta ao general de plantão avisando que algo cheira mal nos porões da ditadura militar. E, nessa multiplicidade de olhares, o autor torna-se, como diz Jorge de Sá, testemunho do nosso tempo e o leitor termina a leitura sentindo-se mais próximo do homem, dos outros homens, enriquecido em sua consciência e emoção.

agosto 29, 2007

Organização religiosa que desejava obter a Presidência do Brasil processa escritora!!!

Filed under: censura, jornalismo, Justiça, Literatura, Opus Dei — Humberto @ 6:53 pm
Opus Dei processa escritora
Por Gabriel Perissé
Observatório da Imprensa
28/8/2007
Um caso a ser estudado e acompanhado. O Opus Dei, na França, está processando a autora do livro Camino 999, Catherine Fradier, sob a alegação de que este romance agride a imagem e a reputação da prelazia.
O livro foi publicado em março de 2007 por uma pequena editora francesa, Après la Lune, fundada há pouco mais de um ano pelo escritor Jean-Jacques Reboux. Dois meses depois do lançamento, o Opus Dei abriu um processo por difamação contra o editor e a autora. A Obra exige indenização de 30 mil euros por danos morais e a ampla divulgação de que teria havido intenção de caluniá-la.
O Opus Dei afirma que o livro em questão mistura ficção e realidade, sem alertar o leitor para a distância existente entre uma e outra. Além de mostrar o Opus Dei como uma organização criminosa, e trazer à baila o caso Matesa (1969) – escândalo político-financeiro espanhol que até hoje está mal explicado e envolveu simpatizantes da Obra –, o próprio título do livro incomoda a instituição. Camino, com suas 999 máximas, é a publicação mais conhecida do fundador, S. Josemaría Escrivá.
O advogado escolhido pela Obra é o prestigioso Alexandre Varaut, que, como tudo indica, será contratado para abrir outros processos contra quem ousar “difamar” o Opus Dei. Está marcada para setembro de 2007 uma audiência preliminar entre os advogados das duas partes. Opus versus Camino. Golias versus Davi, segundo alguns jornalistas franceses.
Outros processos
O Opus Dei animou-se a abrir esse processo contra a autora e o editor de Camino 999 depois de ter conseguido, em dezembro de 2006, que a Justiça condenasse o jornal France Soir pela publicação, em 2005, de uma série de artigos sob o título “Revelações sobre as finanças do Opus Dei na França”.
Esta pequena vitória jurídica veio compensar a grande humilhação que a Obra sofrera em janeiro de 2005, ao perder uma ação na Justiça chilena contra a revista Opus Gay. A Obra exigia que a revista, editada pelo Movimento de Integração e de Libertação Homossexual do Chile, mudasse de nome, desfazendo o trocadilho.
A derrota no Chile explica, em parte, o modo como o Opus Dei se conduziu perante o filme O Código Da Vinci (2006). Adotou uma atitude de cautela. Nada de processar a poderosa Sony-Columbia. Com relação ao livro de Dan Brown (2003), a estratégia tinha sido diferente. A Obra aproveitou o best-seller para afirmar sua preocupação com a Igreja católica e as verdades cristãs, dizendo que o fato de o Opus Dei aparecer no romance como “vilão” era algo secundário…
Já no affaire Camino 999, a Obra decidiu partir para o ataque. Na
citação, o advogado opusdeico argumenta que houve um precedente importante em 2001, quando a Justiça francesa declarou difamante o romance Le Procès de Jean-Marie Le Pen (1998), do jornalista Mathieu Lindon, no qual Le Pen é apresentado como chefe de um bando de assassinos. Significativo argumento, em que o líder da extrema-direita francesa e a Obra surgem como vítimas da literatura.
Realidade ficcional ou ficção realista?
A estratégia do Opus Dei parece evidente. Trata-se de conquistar um tento judicial contra uma autora menos conhecida, de uma modesta casa editorial, num país que não seja os EUA. Vencer nestas circunstâncias é conseguir um novo ponto de apoio na jurisprudência e, então, enfrentar no futuro novos e mais fortes “inimigos” que ousem produzir romances, filmes, documentários ou reportagens desabonadores.
A Obra recrimina a autora por “confundir ficção e realidade”. Curiosamente, toda a literatura consiste nessa mistura. E os leitores, em tese, estão cientes de que se trata de uma mistura. Nunca vi nenhum leitor de Harry Potter viajando de vassoura por aí… E quando um romance policial envolve em sua trama CIA, Nasa, FBI, polícia de Nova York, exército norte-americano, ditaduras latino-americanas, sindicalistas inescrupulosos, máfia ou o próprio Vaticano, ninguém precisa avisar ao incauto leitor que se trata de realidade misturada com ficção.
Ficção e realidade se confundem mesmo na Divina Comédia, em D. Quixote, n’Os Lusíadas… Dante, Cervantes e Camões jamais se preocupariam em acrescentar notas de rodapé para avisar aos leitores que faz parte da lógica literária criar mundos paralelos onde elementos reais e imaginação se casam harmonicamente.
O verdadeiro problema da auto-proclamada “Obra de Deus” é que, habituada com a idéia de um index de livros proibidos (que a instituição impõe aos seus membros, mesmo agora, 30 anos após a Igreja católica o ter abolido), vê-se como a detentora de todos os critérios de leitura e sofre terrivelmente quando alguém a critica. Decidiu por isso recorrer ao “braço secular” e impedir qualquer mácula em sua imagem, ainda que no contexto de uma construção ficcional. Ou terá a Obra receio de que a realidade ficcional acabe se mostrando uma ficção demasiadamente realista?
C’est quoi exactement, l’Opus Dei?
A pergunta é feita por Carla, protagonista de Camino 999, a outro personagem, Jacques, que responde:
“Para todos, a Obra de Deus… Para outros, uma Igreja dentro da Igreja, Santa Máfia… o braço armado do Vaticano… Uma organização patriarcal, de índole militar, elitista e autoritária. Cultiva o gosto pelo segredo e se considera destinada a salvar a Igreja católica. É a mais forte concentração de poder radical na Igreja. Trabalha na penumbra, interessando-se pelas classes mais ricas, pelos intelectuais… Exerce uma grande influência nas esferas políticas, econômicas e culturais. A Obra dispõe de um sólido capital financeiro para tocar suas atividades através de fundações disseminadas em todos os continentes…” (p. 258)
Até aqui, nada de novo que justificasse tamanho escarcéu. Por que processar uma escritora de romances policiais que simplesmente repete o que milhares de pessoas dizem e escrevem sobre o Opus Dei? E por que não processa então, para ficarmos apenas na França, um livro de 2005, L’Opus Dei: enquête sur une église au coeur de l´Eglise, de Bénédicte Des Mazery e Patrice Des Mazery, cujo texto da quarta capa denuncia a sede de poder da prelazia?
“Como jornalistas, queríamos descobrir a verdadeira face da Obra de Deus [...]. Embora os responsáveis pela Obra não nos tenham aberto as portas, fizemos investigações durante dois anos em Paris, Espanha e Inglaterra, recolhendo numerosos testemunhos de ex-membros. [...] Pudemos comprovar que sua influência sobre os seus membros é preocupante e que esta instituição busca efetivamente o poder, mantendo estreitas relações com entidades com poder decisório, como universidades e empresas. [...] O Opus Dei se organiza e progride como um movimento poderoso e secreto no coração da Igreja católica. Seu objetivo é claro: levar o ocidente cristão ao triunfo. Mas por todos os meios?”
Arnaud Gency, o porta-voz do Opus Dei na França, tem dito em entrevistas que esta ação judicial não pretende cercear a liberdade de expressão ou a criação literária. Sua única motivação é proteger a reputação de uma instituição. A Obra, segundo ele, não quer que o livro seja censurado, mas que as passagens claramente difamadoras sejam julgadas como tais pela autoridade competente:
“Os leitores de Catherine Fradier só ganharão com isso, pois, além de se beneficiarem com uma obra literária, terão acesso também a uma informação autêntica sancionada pela autoridade jurídica.”
O que Monsieur Arnaud diz nas entrelinhas é que a instituição deseja, com esses processos, desencorajar outros autores a explorarem, não só o que ele chama de “fantasma de um Opus Dei secreto e criminoso”, mas deixar a todos de sobreaviso de que falar mal da Obra significa correr alguns riscos.
Um Código Da Vinci, tudo bem. Outro (o filme), ça va… Mas um terceiro, aí já seria demais. A Obra não quer de novo tornar-se alvo fácil da mídia, como aconteceu ao longo dos últimos três anos, a menos que seja para receber aplausos e canonizações.

Tema: Silver is the New Black. Blog no WordPress.com.

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