ENCALHE

maio 14, 2008

"Aquilo que o povo quer e a Justiça", por Carlos Brickmann

Filed under: Caso Isabella, crimes hediondos, imprensalão, Justiça, linchamento — Humberto @ 3:05 pm
CASO ISABELLA
Aquilo que o povo quer e a Justiça
Carlos Brickmann
Observatório da Imprensa
13/5/2008
Certa vez, quando era presidente da Câmara Federal, o deputado Ibsen Pinheiro (PMDB-RS) disse uma frase histórica: algo como “aquilo que o povo quer esta Casa acaba querendo”. Pouco depois, a opinião pública se voltava contra ele – injustamente, aliás. E, diante do clamor popular, expresso pela imprensa, Ibsen foi cassado.
Uma decisão judicial, agora, parafraseia a expressão de Ibsen: é preciso prender o casal acusado do assassínio da menina Isabella, entre outros motivos, por causa do clamor popular. Clamor esse que, sabemos, é muito influenciado pelos meios de comunicação e pela ânsia de autoridades que querem aparecer na TV.
Aceitemos, para argumentar, que o casal seja efetivamente culpado (e os indícios até agora conhecidos apontam mesmo para essa direção). Os advogados de defesa terão, no comportamento das autoridades e dos meios de comunicação, fortes aliados. Que isenção terá uma delegada que, ao deparar pela primeira vez com o casal, desatou a gritar “assassinos”? Alugar até banheiros químicos com dinheiro público para as pessoas que iriam à repartição de polícia exigir o linchamento do casal não indicará uma posição adotada, antes de qualquer investigação? E o sangue no carro, havia, não havia? Ou não se sabe – afinal, foram tantas entrevistas!
Como pôde alguém entrar com uma câmera numa área restrita, guardada pela polícia, para gravar o acusado no momento em que “tocava piano” (tomavam-lhe as impressões digitais) e passar a imagem para a imprensa? Quem providenciou um carro de polícia com vidros claros, para que os presos pudessem ser filmados e fotografados enquanto eram transportados para a cadeia? E, principalmente, por que devem os acusados ficar presos se assassinos confessos e condenados aguardam o julgamento dos recursos em liberdade?
Há jornalistas que consideram Gêngis Khan um esquerdista enrustido dizendo que é assim mesmo, que não há mal nenhum em expor acusados a multidões que proclamam seu desejo de linchá-los. Efetivamente, em casos como esse, em que não apenas uma menina foi morta, mas em que as suspeitas recaem em quem deveria protegê-la, o ritual da Justiça é irritante. Mas é essencial – e, embora os meios de comunicação tenham contribuído para o clima de linchamento, a maioria absoluta concorda com isso – para que possamos continuar vivendo em sociedade.
Oração
Quem for contra o direito de defesa deve rezar todos os dias para não precisar dele.

maio 9, 2008

Revelação MUITO IMPORTANTE sobre o tal Nardoni…

Filed under: imprensalão, Izabella Nardoni, Justiça, linchamento — Humberto @ 1:46 pm
Maravilha!! Depois de um ligeiro abandono, eis que Vinícius volta com febre total!! E segue abordando o “caso” Izabella. Só prá não ter que falar sobre a vitória palestrina sobre o Tricolor…
VINÍCIUS DUARTE
Com Fel e Limão
08 Maio, 2008
O barato tá ficando louco!!! A imprensa que cobre o caso Isabella, agora que foi decretada a prisão preventiva do casal, perdeu totalmente os pruridos: “Enfim presos!”, manchetou na capa o “Diário de São Paulo”, numa página negra com a foto dos dois no camburão. Beleza, tudo resolvido… [ Humberto: "Ô, Vinícius... E a manchete do mesmo jornal, ontem? 'Povão lava a alma ( ... )' ! AAARGHH! " ]
Não está, e os envolvidos diretamente no caso (delegados e promotores), estão contando (e muito) com o tal “clamor popular” para sanar os problemas na investigação. E, para isso, concedem muitas entrevistas aos canais de TV, visando sedimentar na população o ódio aos acusados e garantir a condenação em júri popular. Faz parte do jogo, e nada há de ilegal nisso.
Agora, a nossa imprensa… Acabei de ligar a TV, num jornal da Record, e o apresentador, de posse de uma lista onde continha o nome de Alexandre Nardoni, apregoava: “Essa lista aqui vai ser uma grande surpresa… Daqui a pouco eu vou contar O QUE Alexandre Nardoni planejava fazer no dia 18 de maio!!!”. Para sustentar a audiência, repetia a cada 3 minutos, com o papel na mão, que iria revelar fatos estarrecedores sobre o pai de Isabella. O trouxa aqui ficou esperando…
Uns dez minutos depois, vem a “estarrecedora revelação”: Alexandre Nardoni estava INSCRITO EM UM CONCURSO PÚBLICO, para Delegado de Polícia!!!!! E daí???? Qual a importância dessa revelação para a elucidação do caso? Será que ele matou a filha por medo de não passar no concurso? Ou será que foi porque ficou madrugadas estudando e ficou estressado? Ah, pode ser que o Alexandre, burrinho que é, tivesse pensado: “vou me inscrever na puliça, aí posso matar minha filha e os meus camaradas da delegacia aliviarão minha barra!”.
Chega de Isabella, Nardoni, Jatobá. Chega! Vão lá pra Câmara dos Deputados ver o que o Maluf está aprontando, com seu projeto (aprovado na CCJ da Câmara!) visando intimidar o Ministério Público nas denúncias contra “OTORIDADES PÚBLICAS” como ele. Afinal, se tem um cara que não pode ver Promotor na frente, é ele. Ah, não, isso é muito chato… Legal é ver marca de sangue com luminol e lista de inscritos em concurso na TV.
A “CORDA”, BRASIL!!!

maio 8, 2008

Caso Isabella – O condenado passa a corda no pescoço do algoz

Eu consegui passar 99% de toda essa campanha linchatória, imune ao que se falava. Como assim? Excluíndo a inevitável e involuntária – não sou cego, afinal – passada d’olhos nas manchetes e capas, todas elas dizendo e desdizendo o que já havia sido negado, fotos e etc e tal, eu consegui praticamente ignorar tudo o que se passava e o que se falava.
Então, prefiro reproduzir abaixo a opinião de Vinícius Duarte – redigida há alguns dias – que, creio, deve ter mais condições de examinar o que vem sendo esta lavagem cerebral.
Além disso, nesse ínterim, o imprensalão descolou outro personagem a ser linchado: o Fenômeno, que teria feito uma fuzarca com três mulheres com algo mais. A vEJA saiu na frente, e lamentou, na capa, a “queda” do Ronaldo, que “preferiu” ser um Maradona, quando podia ter escolhido ser um Pelé. Não sei o que a revista quis dizer com isso, já que, até onde sei, o Maradona jamais teve amizades estranhas e negócios suspeitos com estas amizades estranhas, sempre envolvendo muito dinheiro. Como todos sabemos, até o Diabo em pessoa merece respeito da editora aBRIL, se tiver dinheiro e bons negócios.
Lembrando que, se fosse posta a questão de “paternidade”, penso que o Craque do Século não tenha sido bem, um exemplo. Enfim, já que não li a matéria da vEJA, estou boiando na comparação que fez entre os dois jogadores.
Poucos dias depois, tudo o que se disse a respeito do affair pode ser amontoado e jogado no lixo, já que as meninas admitiram que contaram uma história mentirosa para chantagear o jogador.
VINÍCIUS DUARTE
30 Abril, 2008
Com Fel e Limão
Mino Carta diz, com toda razão, que a imprensa brasileira é medieval. E, se quiserem ter certeza disso, basta acompanhar o comportamento dos produtores de notícia sobre o caso Isabella. No afã de condenar, pegar e “justiçar” o casal, estão na iminência de ter de noticiar a absolvição dos indiciados.
O deprimente espetáculo de montar guarda na casa dos pais dos acusados e na delegacia, sempre cercados de uma claque não menos deprimente, a necessidade insana de preencher horas e horas de boletins ao vivo, entrevistando qualquer um que passe na rua, advogados e promotores que não têm acesso aos autos dando palpites, peritos que não estão no caso emitindo “laudos”, e o pior de tudo, contaminando com seus holofotes a atuação do promotor ( que parece curtir a fama ) e policiais envolvidos no inquérito, divulgando versões e desmentidos diários: “tem vômito”, “não tem vômito”, “tem sangue”, “não tem sangue”, “tem fuga”, “não tem fuga”…
Enquanto isso, quietinha – afinal, ninguém quer ouvir o vilão, a não ser para que confesse -, a defesa do casal trabalha direitinho para desqualificar, em juízo ( é lá que a coisa se resolve! ), todos os laudos periciais e provas dos autos. A cena do crime foi alterada, por ineficiência da polícia, que não a preservou; as evidências foram coletadas de maneira atabalhoada; começaram a tratar o crime como acidente, tiraram o corpo do local e colocaram no Resgate; enfim, Didí Mocó conduziria melhor esse inquérito. Agora o delegado tenta consertar, faz “reconstituição” para a imprensa filmar, morrendo de medo do crime ficar impune. E a imprensa elogiando a polícia…
O pai do Alexandre é advogado tributarista, mas é macaco velho: bagunçou tudo e agora vai ser difícil colocar cada coisa no seu lugar e chegar aos culpados.
Parafraseando Mino ( novamente ), até o mundo mineral sabe quem são os culpados. Mas isso não interessa à Justiça, pois esta é movida pela CONVICÇÃO. E é isso que as pessoas não entendem, apesar de escreverem “JUSTIÇA” em suas ridículas camisetas com fotos da menina. É que, para que haja CONVICÇÃO da Justiça, as etapas desse convencimento devem ser TODAS cumpridas. E, ao que parece, algumas foram “esquecidas” pelos agentes públicos envolvidos no caso. E não será a valorosa imprensa que as restituirá.
Se William Bonner e Percival de Souza tiverem que anunciar a absolvição do casal Nardoni, que o façam com um pedido de desculpas anexo.

novembro 9, 2007

Padre Júlio Lancellotti: o apedrejamento jornalístico

Gabriel Perissé
Correio da Cidadania
08-Nov-2007
Agora é tarde. As pedras já foram lançadas contra Júlio Lancellotti. Aqueles que por algum motivo discordam de sua maneira de ver e atuar estão secretamente felizes. Ou não tão secretamente. Aqueles que praticam o jornalismo do escancaramento, com ou sem evidências, já cumpriram sua missão.
Hermano Freitas, por exemplo, utilizando locuções verbais para exprimir fatos acontecidos, (ou não?), em época passada, escreveu: “ex-interno da Febem, Batista teria conhecido e iniciado um relacionamento amoroso com o padre na instituição, onde foi internado aos 16 anos por roubo” (Folha Online, 27/10/2007). A expressão “relacionamento amoroso” é o que interessa, sobretudo num momento em que casos registrados de pedofilia dentro da Igreja católica criaram e difundiram a sensação de que o mais provável é que se repitam sempre e em todo lugar.
O recurso das aspas funciona como pretexto para reproduzir a fala irresponsável de quem quer que seja sobre o que for. Na mesma
matéria de Hermano Freitas, lemos, com as aspas indicando (heróica objetividade…) as palavras de um outro: “‘Eles chegaram a ter relações sexuais dentro da igreja’, disse o advogado de Batista. [...] O advogado afirma que o valor dos bens recebidos por seu cliente foi de ‘quase 700 mil reais’ e que o relacionamento entre o padre e ex-detento acabou após Batista ter se casado, em outubro de 2006. Ainda de acordo com ele, o sacerdote mantinha relações sexuais com outros meninos”.
Diogo Mainardi, na Revista Veja (ed. 2031), adota outro expediente. O da pseudo-insinuação. Chamar o padre de “Michael Jackson da Mooca” é colocá-lo no banco dos réus por antecipação, e reduzir a figura do sacerdote à imagem de um astro pop tupiniquim.
Na Record, o programa “Fala que eu te escuto” emitiu seu veredicto. O problema de Júlio Lancellotti é o celibato. Se não houvesse celibato obrigatório para os padres, estes casos deixariam de existir. Não é bem uma pergunta, ou uma enquete… É condenação mesmo.
No dia 3 de novembro, divulgou-se na mídia o “desabafo público” de Pe. Lancellotti, depois das pedradas: “aquelas coisas todas, que foram ditas e colocadas nas manchetes dos jornais e dos noticiários, não aconteceram”.
A mídia não sente culpa. Ninguém admitirá que atirou a primeira, a segunda, todas as pedras. E sempre alimenta perversa esperança. De, antes do Natal, aplicar o golpe de misericórdia…

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor. Web Site: www.perisse.com.br

Tema: Silver is the New Black. Blog no WordPress.com.

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