ENCALHE

junho 10, 2008

"GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA", de Jasson de Oliveira Andrade. A Guerra Fria sem CIA e KGB.

Mensagem enviada a mim, por Jasson:

“Humberto: Em anexo, envio-lhe a Moção de Aplausos, apresentada pelo deputado Simão Pedro (PT) na Assembléia Legislativa de São Paulo. Se achar conveniente colocá-la no seu próximo texto sobre o livro, como introdução. Fica aí a sugestão. JASSON”
Gostei da sugestão e acatarei-a.
Antes de mais nada, a constatação reconfortante: ainda não estou à altura da obra! Até porque eu sou uma negação – entre outras coisas – em História do Brasil.
Mas vamos lá:
- O Golpe de 64 no Brasil teria a mão da CIA ou do embaixador americano Lincoln Gordon;
- Os EUA estavam empenhados em garantir que não aparecessem mais “Cubas” em sua área de influência;
- Talvez, até antes mesmo do anti-comunismo alegado e a suposta proteção à democracia e à liberdade, o que realmente movia os Estados Unidos para que combatessem a possível infiltração do império euroasiático, a URSS, na América Latina era a Doutrina Monroe.
- Para combater o inimigo, usou-se de todas as armas à disposição, exceto o confronto direto: espionagem, tortura, mortes, chantagens, golpes de Estado, financiamentos de grupos “pró” ou “contra”, propaganda, contra-propaganda.
Legal. Parece filme do James Bond.

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MOÇÃO Nº , DE 2008
O Livro Golpe de 64 em São João da Boa Vista idealizado por Francisco de Assis Martins Bezerra- editor e por Jasson de Oliveira Andrade-autor relata momentos importantes da história política de São João da Boa Vista.
Embasado em pesquisas e fatos vivenciados, o autor Jasson de Oliveira Andrade, ex-preso político, relata os acontecimentos que precederam o Golpe militar de 1964 e os efeitos do mesmo sob o enfoque local, permitindo que a população de São João da Boa Vista conheça sua história e os principais protagonistas que refletiam as forças políticas da época e os interesses representados em seu município.
Esta brilhante e corajosa obra literária permite que conheçamos melhor a história deste importante município paulista, para que possamos entender a atualidade e assim, buscar maior desenvolvimento cultural, social e até mesmo econômico.
A ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE SÃO PAULO, aplaude os Senhores Jasson de Oliveira Andrade-autor e Francisco de Assis Martins Bezerra- editor pelo importante trabalho histórico-literário que resultou na publicação do livro Golpe de 64 em São João da Boa Vista que tornou acessível a todos, as circunstancias e fatos que envolveram este período sombrio da história de nosso país, sob um corajoso enfoque local que permite identificar as forças políticas e interesses da época, compará-los aos dias de hoje e estimular o surgimento de novas lideranças .
Por fim, requer sejam tomadas as providências necessárias para a expedição de ofício os Senhores Jasson de Oliveira Andrade e Francisco de Assis Martins Bezerra no endereço anexo, para dar ciência desta propositura
Sala das Sessões, em
Deputado Simão Pedro
SPL – Código de Originalidade: 802209 280508 1740
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Como falei anteriormente, o grande mérito e atrativo da obra do Jasson, é – basicamente – trazer para o leitor o ambiente político de uma cidade interiorana ( de São Paulo, especificamente ), nos idos da década de 60 ( mas não só ), quando eclodiu o Golpe.
Pois este período geralmente nos é apresentado em seu aspecto MACRO, com a briga de EUA e URSS pelo domínio político-ideológico mundial, com seus respectivos satélites, cada qual polo tentando manter suas posições e ganhar outras. De forma bem simples, foi isso mesmo.
E em São João da Boa Vista, qual o cenário? Havia espiões da KGB na cidade? Como a CIA os combateu?
De certa maneira, Jasson conseguiu um recorde: tratou da Revolução de 64 e um certo anticomunismo sem, contudo, mencionar Fidel Castro, Che Guevara, Lênin, Trotsky, Stalin, Roosevelt. Não há longas digressões teóricas e ideológicas ( as potências nem parecem tão influentes, já que são, também, pouco lembradas ).
Claro, apresenta uma certa simpatia pelo que convencionou-se chamar “esquerda”; mas a grande parte das pessoas aqui se mostra mais definível como “nacionalista”; apesar disso, foram cassadas, presas, perseguidas. Não há aqui, inclusive, relatos de torturas, ao contrário: nega-se ter passado por alguma. Menos mal. Mas, ainda assim, a ruína financeira de alguns lhes deve ter saído pior que pau-de-arara.
“Este livro não tem objetivo histórico”, diz Jasson, à página 10 da INTRODUÇÃO. Não sei porquê dizer isso. Há entrevistas e depoimentos, documentos, citações, reprodução de noticiários regionais, referências. Mas eu entendo o que você quer dizer.
É certo que não se perde naquele rigor e formalidade acadêmicos, cujo preço é a distância e a invisibilidade perante o público. A quem, por sinal, trabalhos desta natureza deveriam ser dedicados.
Mas transpira honestidade e leveza. E apresenta a visão de alguém que foi, ao mesmo tempo, observador e protagonista de eventos como aqueles que aconteceram aos milhares neste país, não apenas em cidades grandes de São Paulo e Guanabara. Eventos de interesse histórico que permanecem, de modo geral, esquecidos e/ ou ignorados pela maioria da população.
Não obstante tenham sido produzidas a respeito de alguns deles mini-séries de televisão, revistas com reportagens especiais e comemorativas, cadernos especiais de jornais de Domingo, filmes para cinema, sem esquecer, claro, de livros especializados, para consumo de minorias encasteladas e esclarecidas. Mas focavam o MACRO, o país, o geral ( sem demérito, claro ).
Pois quando se fala em Golpe de 64, geralmente lembramos de Lacerda, JK, Brizola, Jango, CIA, passeata por Deus e a Família ( sei lá se foi isso ), mas pouco sabemos sobre a discussão de lideranças políticas opostas e seus simpatizantes no armazém ou na farmácia situada no Largo da Matriz duma cidade interiorana qualquer. Em São João, a política e os destinos da cidade e do país eram discutidos no interior da farmácia Nossa Senhora Aparecida, de propriedade de Zé Lopes e Zé Traffani [este último, um ex-integralista foi depois acusado de comunismo e de ter causado incêndios criminosos ].
Pelo livro de Jasson, ficaremos sabendo de casos em que pessoas, mesmo não tendo quaisquer atividades políticas, acabaram sofrendo na carne os efeitos da paranóia anticomunista. Um exemplo: Orlando Maciel , o Escurinho, foi preso por engano, no lugar de seu irmão, Oswaldo, este filiado ao PTB e partidário do ex-prefeito Miguel Jorge Nicolau que, segundo consta, era amigo próximo de Jango. Também importante, é que Jasson nos conduz ( mesmo que passageiramente ) pela briga política regional anterior ao golpe ( “Antecedentes da ‘briga’ política em São João”, pág. 42 a 45 ), traçando uma linha que se origina no primeiro governo de Vargas, e desaguando no golpe propriamente dito.
Em São João da Boa Vista, o grupo considerado “esquerdista”, seria aquele vinculado ao PTB, partido de Getúlio Vargas e Jango.
O político petebista Miguel Jorge Nicolau recebe bastante destaque no livro ( talvez mais destaque do que qualquer outro ) e sua biografia é bem radiografada. Foi um dos principais alvos dos “revolucionários”. Em 1955 venceu a eleição municipal ( a primeira vencida por trabalhistas ali ), desligando-se posteriormente do cargo, para concorrer a deputado estadual ( foi eleito ). Reeleito em 1962, em 64 perdeu o mandato e os direitos políticos por 10 anos. Foi anistiado em 1979 ( sim, deu mais de 10 anos, já que o AI-5, de 1968 prolongou o Inverno! ), e lutou para tentar fazer ressurgir o PTB, junto a Ivete Vargas. Morreu em Maio de 1980.
Quando prefeito, contemporâneo à campanha “O Petróleo é Nosso”, instalou na praça denominada Joaquim José, uma simbólica reprodução de uma torre de petróleo. Deixou o cargo, no meio do mandato, para candidatar-se a deputado estadual. Assumiu o vice e este, do mesmo partido, DERRUBOU a torre. Nicolau, de acordo com Jasson, graças à sua amizade com JK e Jango, conseguiu, como prefeito e deputado trazer serviços à cidade como o SAMDU, e construiu obras como a Rodoviária, a Escola de Comércio e o Prédio do Mercado Municipal ( pag. 17 ).
“Para a UDN, todos eram comunistas…”
Fausto Ratol
Trechos de depoimento de um dos acusados que respondeu a um Inquérito Policial Militar, o jornalista e radialista Ito Amorim, traz elementos de comicidade que comprovam a paranóia ( págs. 157-8 ) :
” ( … )
MAJOR – Você acha que o Brasil deve reatar relações comerciais com a União Soviética?
ITO – Acho que sim (… ) Os Estados Unidos compram nosso café por 4.000 cruzeiros a saca e vende para a Rússia por 15.000. Se eles não têm medo do comunismo e estão ganhando, porque nós não vendemos diretamente para os russos e ganhamos mais divisas para o nosso Brasil? (…)
MAJOR – Como jornalista, há muito tempo em São João, pode me precisar o número de comunistas na cidade?
ITO – Posso. Nenhum ( … ) Agora, o que existe aqui, é uma “fábrica de fazer comunista”.
MAJOR – Explique essa fábrica.
( … )”
Vou pular e deixar para o final, que é muito boa, dado o quadro.
Bom, eu devo estar esquecendo um monte de coisas. Então aí vai um “brainstorming”:
- as elites locais organizaram milícias armadas; civis, por várias vezes tomaram o lugar de autoridades militares, prendendo “comunistas”; estes civis tinham recebido armas de militares para usar em suas rondas e prisões; há o depoimento ( o único, por sinal ), de um fazendeiro, Aécio Amaral, dado ao jornal Gazeta de São João, em setembro de 81, e reproduzido no livro, que mostra isso. Disse que os fazendeiros “ouviam boatos”. Um deles, era sobre o “Grupo dos Onze”: os comunistas estariam organizados em grupos de onze pessoas, dispostas a, se o lado vermelho ganhasse a parada, acabar com os fazendeiros; cada grupo teria uma lista de fazendeiros a despachar. Isso teria levado os fazendeiros a reagir, e formar os grupos de “Vigilantes”. Compraram armas, inclusive, de um traficante de armas;
- mais humor involuntário: no mesmo depoimento do fazendeiro, o temor de que os subversivos envenenassem a caixa d’água municipal, mesmo com as próprias famílias dos subversivos tendo que consumir esta água…;
- o humor involuntário não pára: um dos presos, acusados de vermelhismo, tinha medo de que os comunistas vencessem. Ele era fazendeiro, chamado José Bitar, ou Zé Turco ( pág. 19 ): “Vejam minha situação: se os comunistas vencessem eu iria para o paredão porque sou fazendeiro; como venceram aqueles ligados aos fazendeiros, fui preso como comunista (…)”;
- as prisões e processos, além de demissões ( Jasson ficou preso por 36 dias e, posteriormente demitido do SAMDU ) levaram os acusados à ruína moral e financeira. Acabaram com famílias e relações sociais. Lendo sobre os casos, em que são dados nomes e rostos aos personagens, torna mais fácil compreender a questão das indenizações, em voga hoje em dia, para horror dos neoudenistas;
- a prisão era o porão de um velho prédio do ginásio na frente da estação rodoviária;
- os inquéritos ( IPMs ) concluiram pela absolvição ou inocência dos acusados.
Devo ter esquecido um monte, e deve estar bem confuso mas tá ficando longo e eu só consigo pensar em sugerir e insistir para que leiam o livro.
Mas agora vou retomar o causo que ficou em aberto: no depoimento acima, o entrevistado Amorim Ito fala que havia em São João uma “fábrica de fazer comunista”.
Como a História se repete, etc, a cidade se viu aterrorizada por misteriosos incêndios terroristas. A culpa recairia sobre, claro, os comunistas. Mas teriam os comunistas feito isso? Ito, explique essa fábrica:
“Pois não, Humberto.”
Brincadeira. Agora, sim.
” ( … )
ITO – Essa fábrica funcionava da seguinte maneira: há aqui o sr. L.B.A [ Nota do Blog: Eu já conto... ] agente da Cia. Paulista de Seguros, correspondente do jornal O Estado de São Paulo, amigo particular dos Mesquitas e do dep. Herbert Levy e inimigo de morte de Miguel Jorge Nicolau. Então, todos os incêndios daquela época, que eram muitos e quase todos segurados naquela companhia eram debitados aos que ele chamava de comunistas, mandando notícias para o jornal de tanto prestígio de São Paulo. Lembro-me de um fato que caracteriza bem o funcionamento dessa fábrica de comunistas. Passava eu por volta de 22:30hs (…) Estavam reunidos no interior da sede [ do Rosário ] homens que tratavam da formação de sindicatos. Ali apareceram pessoas estranhas e adversárias, querendo interromper a reunião, gerando um início de tumulto. Serenados os ânimos, fui para casa. Qual não foi minha surpresa quando, no outro dia, li no Estadão, em manchete de sete colunas: ‘Nova agitação dos vermelhos em São João da Boa Vista’. É uma fábrica de comunistas, ou não? (…)”.
Noutra parte do livro, mais informações:
” ( … ) Não satisfeito com as prisões, L.B.A., em carta ao militares, pediu um IPM, alegando que ‘os comunistas’ haviam incendiado prédios em São João. No decorrer do inquérito ( … ) ficou provado que nenhum dos acusados era responsável pelos incêndios. Se havia alguém interessado neles, seria ele, LUIZ BANHO DE ANDRADE, agente de seguros, o qual no final, foi indiciado ( … )”.
Luiz Banho de Andrade, udenista, agente de seguros, piromaníaco. Tio-avô do próprio autor do livro, Jasson de Oliveira Andrade. Incendiava prédios, fazia negócios e acusava os “comunistas” de tê-los os causado.
Quem quiser adquirir o livro, que custa apenas R$ 10,00, de acordo com o informado por Jasson, pode conseguir aqui:
PAPYRUS LIVRARIA
R. Getúlio Vargas, 307 – Centro
São João da Boa Vista – SP
CEP 13870-000
Fone/ Fax: ( 0xx19 ) 3623.4203
papyrus@livrariapapyrus.com.br
Enfim espero que este comentário sobre o livro de Jasson ( ouviu, Jasson? ) tenha ficado apresentável, apesar de saber que partes importantes devem ter ficado de fora. Mas, para conhecer mais, vocês terão que ler o livro.

abril 30, 2008

Juíz materializa aquilo que muita gente pensa: leitura de livros é castigo opressivo e infernal

Filed under: hackers e crackers, Justiça, leituras e livros, penas alternativas — Humberto @ 1:57 pm
Esse juiz merece um prêmio. “Obrigar” jovens – quer dizer, “jovens” é modo de falar – a ler. Imaginem só a dificuldade que terão, quando abrirem o livro e notarem que ali não existem termos como “BLZ” ou ” ;( “. Acho que, meio sem querer, o magistrado criou uma das mais perfeitas penas alternativas, e a ser implantada urgentemente.
Claro que, por exemplo, no Estado de São Paulo isso não funcionaria. Já que é fato notório que os nossos jovens – até os 30 anos – saem das escolas do PSDB sem dominar minimamente a leitura e compreensão. O que significa que tal medida seria inócua. Apesar disso, um pouco de jogo de cintura faria bem e o foco não se perderia: bastaria que algo parecido com a leitura fosse imposto aos autores de delitos leves que tenham as limitações provenientes da péssima educação tucana, mas que tenha o mesmo peso, em termos de sofrimento, dor, castigo, horror…
Quebrar pedras? Andar sobre os dois membros inferiores? Jogar xadrez? Ficar em silêncio sem proferir um chiado que seja? Deve ser igualmente extenuante, mas acho que a maioria preferirá um destes. Apenas uns 65% dos apenados preferirão a injeção ou a forca.
Juiz manda crackers lerem clássicos
Info Online
23 de abril de 2008
SÃO PAULO – Para libertar três crackers, juiz do Rio Grande do Norte exige a leitura de clássicos da literatura.
A Justiça Federal do Rio Grande do Norte (2ª vara) decidiu conceder liberdade provisória a três crackers presos no final de 2007 durante uma operação da Polícia Federal.
Os acusados, com idades de 22, 23 e 30 anos, foram presos em agosto de 2007, após a polícia denunciá-los como envolvidos em uma série de roubos de senhas e fraudes eletrônicas.
No dia 17 de abril, o juiz Mário de Azevedo Jambo decidiu acatar pedido de liberdade provisória para os jovens, sob o argumento da defesa de que possuem residência fixa e são acusados de crimes sem violência física.
Para libertá-los, no entanto, o juiz apresentou uma lista com 12 exigências, entre elas que os jovens voltem a estudar, não freqüentem LAN houses ou salas de bate-papo e voltem para casa sempre antes das 20 horas.
Entre as exigências do juiz está a determinação de que os jovens leiam clássicos da literatura brasileira e apresentem resumos, a cada dois meses, à Justiça.
Inicialmente, o juiz mandou os jovens lerem e resumirem as obras Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e Sagarana, de João Guimarães Rosa.
Para evitar que os jovens burlem a regra e apresentem cópias, terão que fazer os resumos de próprio punho.

Tema: Silver is the New Black. Blog no WordPress.com.

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