Não li o teor da matéria, mas acho que é isso mesmo o que a Folha queria passar para a gente.
Mas, é tão simples assim? Vitória “moral“? Dum narcopresidente que comprou a reeleição? A Folha exagerou na tucanice ( como se sabe, se existe alguém ou “alguéns”, altamente capazes de esvaziar o significado de uma palavra ou expressão, são os tucanos. Pegue seus discursos, selecione algumas palavras, veja o significado destas num dicionário, e compare com a realidade que os tucanos tentariam retratar com o uso da palavra escolhida: geralmente é o oposto!! “De qualidade”, “competência”, “honestidade e transparência” ( Putzzz!! “Transparência”, quando dito por um peessedebista, significa, na realidade, “balde de piche” ).
Bom, voltando ao Uribe. Quer dizer, então, que agora o homem se redimiu? “Moral Uribe” ganhou carta-branca para tentar o terceiro e quarto mandatos, e o imprensalão assina embaixo…
Não precisa, e talvez nem se deva, simpatizar com as FARCs – pelo menos a última e atual encarnação – mas querer que, a partir daí, se passe uma borracha no passado e presente do presidente colombiano, é de lascar.
O resgate deu certo. Até demais.
John McCain, como revelou Eliane Cantanhede, da Folha, se encontrava na Colômbia:
Eliane Cantanhede – Nelson Mandela de saias
3/7/2008
Folha de S. Paulo
Coincidências existem? Nem sempre. Ou quase nunca. Ninguém nos EUA havia entendido muito bem a ida de John McCain para a Colômbia em plena campanha eleitoral americana. E agora ninguém no Brasil ( e provavelmente no resto do mundo ) entende por que ele estava no país justamente no dia em que Ingrid Betancourt foi libertada de um cativeiro de mais de seis anos, junto com três americanos do Departamento de Defesa.
Será mesmo pura coincidência?
McCain é republicano, como o presidente George W. Bush. O presidente da Colômbia, Alvaro Uribe, é o maior aliado, politico, econômico e sobretudo militar dos EUA em toda a América do Sul. E as operações de inteligência que libertaram os reféns foram, como de resto são todas as demais, combinadas entre Bogotá e Washington.
Como detalhe: McCain está atrás do democrata Barack Obama nas pesquisas da eleição norte-americana, precisa de “mágicas”. E muito mais do que mero detalhe: Uribe foi eleito quando Ingrid Betancourt era candidata e acabou seqüestrada pelas Farc, já foi reeleito e está todo alvoroçado para introduzir de fato o terceiro mandato consecutivo no continente.
Se a libertação de Clara Rojas e de Consuelo Gonzalez em janeiro foi uma super-vitória do venezuelano Hugo Chávez, a de Ingrid Betancourt fica na conta de Uribe, com um enorme saldo político e eleitoral num momento chave da Colômbia e dos EUA.Mas, de outro lado, Uribe passa a conviver com um belo e provocante fantasma contra o continuismo: a própria Ingrid, que surge do cativeiro como um Nelson Mandela de saias. Ela já deixou claro que quer ser candidata.
O resto da história ainda precisa ser muito bem contado, na base do quem, como, onde e, principalmente, por que. E, afinal, que raios McCain estava realmente fazendo na Colômbia?
Por sua vez, Uribe ganhou um cabo eleitoral de peso: a própria Ingrid: Betancourt vuelve a defender a Uribe y aboga por tercera reelección; Ingrid, se me permitem a possível heresia, estava muito bem tratada, muito melhor que aquela Ingrid que apareceu num vídeo, há uns meses, aparentando desnutrição e doença. Dizem que a televisão deixa as pessoas mais gordas, mas não era o caso. Bom, não quero parecer injusto: quando Saddam foi encontrado entocado num buraco, e apresentado ao mundo já como prisioneiro, sua aparência não era das melhores. Não havia nada ali que sugerisse que ele já estivesse em poder dos americanos, há muito. Acho eu.
Se minha memória não anda falha, houve um presidente – mais que isso, um “queridinho” dos EUA, tal como FHC, Menem e Uribe – de país latinoamericano que também venceu uma “guerrilha terrorista” e, com isso, ganhou a figurinha premiada, que lhe deu imunidade para roubar eleições, promover massacres, traficar, “privatizar”. Ganhou em 90, 95 e em Abril de 2000, na roubalheira. Abandonou o cargo ( ou foi destituído, sei lá ), se evadiu para o Japão, onde conquistou sua dupla cidadania, o que lhe impede de ser extraditado para o Perú, onde deveria responder por seus atos.
Para ilustrar, mais ou menos, o que quero dizer, vejam isto:
Filha registra candidatura de Fujimori à presidência do Peru
Reuters, 06.01.06
O ex-presidente peruano Alberto Fujimori teve sua candidatura à presidência registrada nesta sexta-feira, horas depois de o Chile iniciar as investigações para sua extradição, a pedido do Peru, por acusações de corrupção e violação dos direitos humanos.
A filha de Fujimori, Keiko, vestindo a cor laranja que é a marca de seu pai, entregou os documentos ao Conselho Eleitoral do Peru. Fora do prédio, milhares de simpatizantes empunhavam bandeiras e cantavam: “Ninguém pode parar Fujimori”.
“Este é um dia feliz. Não aceitaremos mais perseguições a meu pai”, disse Keiko à multidão de cerca de 2.000 pessoas no centro de Lima.
Fujimori está detido em Santiago, onde chegou em novembro após um exílio voluntário. Ele mudou-se para o Japão depois de um escândalo de corrupção encerrar seu governo, que durou de 1990 a 2000.
Ele prometeu voltar à presidência do Peru apesar de ter sido proibido de ocupar cargos públicos até 2011. O ex-presidente acredita que o apoio popular vai pressionar os parlamentares a cancelar a restrição. Seus advogados também argumentam que ele seria imune a processos como presidente, se eleito.
O conselho eleitoral proíbe apenas criminosos condenados de se candidatarem à presidência. Mas muitos analistas políticos esperam que ele rejeite o registro de Fujimori. Um representante do órgão disse à Reuters que a decisão será tomada na próxima semana.
Em Santiago, um juiz chileno abriu as investigações do pedido de extradição feito pelo Peru e confirmou sua prisão, ocorrida dois meses atrás.
Orlando Alvarez, o juiz da Suprema Corte que cuida do caso, deve examinar 12 caixas de evidências contra o ex-presidente — entre elas alegações de que ele autorizou esquadrões da morte para combater a violência de rebeldes — antes de fazer uma recomendação sobre a extradição.
AINDA POPULAR
Fujimori, que oscilou entre um democrata liberal e um ditador depois que foi eleito pelo voto popular e dissolveu o Congresso em 1992, nega os crimes e diz que é vítima de perseguição política.
Muitos peruanos pobres o idealizam como um figura heróica que derrotou uma revolta sangrenta no início dos anos 1990, conteve a hiperinflação e construiu escolas e hospitais em áreas remotas negligenciadas por governos anteriores.
Fujimori tem de 15 a 20 por cento dos votos, segundo as últimas pesquisas. “Só por derrotar o terrorismo, Fujimori tem o direito de retornar à presidência”, disse Gabriela Sanchez, de 60 anos, uma das participantes do ato em Lima. [ obs: o vermelho é por conta do blog ]
Nas 12 caixas de evidências contra o ex-presidente fornecidas pelo governo peruano, há 10 casos de corrupção e duas das principais acusações que pesam contra ele sobre violação de direitos humanos.
O Peru enfatiza em seu pedido de extradição que a libertação do ex-presidente poria em risco o processo, pois ele poderia deixar o país.
Certo? Venceu o Sendero Luminoso e foi ao Panteão dos Cidadãos de Bem!
E acabo de ver que as famílias colombianas não autorizaram o resgate dos reféns pela via militar ( em espanhol ):
La operación militar que concluyó con la liberación de 15 retenidos de las FARC se realizó sin autorización de los familiares de los rehenes, que siempre se han opuesto al rescate por vía militar. El comandante del Ejército colombiano, general Mario Montoya, reconoció que ”fácilmente podríamos haber perdido doce vidas, un aparato (helicóptero) y hacer el ridículo” ( … ).
Olho aberto.